Os olhos da Alma e os Cachos da Noite
1 Capitulo Único
Seu rosto era ao mesmo tempo feroz e delicado. Seus cachos selvagens pareciam guardar segredos antigos, como serpentes cochichando histórias que ninguém mais ousava ouvir. Havia em seu olhar — que eu nunca vi, mas sentia — vestígios de um passado difícil.
As pessoas ao seu redor ficavam paralisadas — literalmente, às vezes. Mas ela não dava importância. Parecia até gostar daquela atenção disfarçada de orgulho. Teimosa, indiferente ao mundo, quase ninguém conseguia se aproximar dela. Eu fui um dos poucos. Um dos sortudos.
Talvez o modo como a percebo tenha sido o que a fez confiar em mim. Talvez o fato de eu não enxergar seus olhos tenha sido o verdadeiro gesto de carinho involuntário.
À medida que nos aproximávamos, ela se mostrava mais humana do que qualquer um que já conheci. Tinha medo — não de mim, mas do que poderia acontecer comigo. Eu não via suas expressões, mas sentia o tremor em sua voz, o cuidado em cada toque, como se seus gestos precisassem conter algo letal.
Com o tempo, ela foi se abrindo. Seus conflitos internos a corroíam como veneno em silêncio. E embora eu não enxergasse as marcas, ela me descrevia com precisão onde doía. Dizia que era em lugares onde a luz nunca chega — mesmo com os olhos abertos.
Às vezes, me perguntava como era possível alguém amar aquilo que os outros temem. Mas para mim, ela nunca foi um monstro. Talvez tenha sido por isso que ela me escolheu — eu não tinha olhos para temê-la.
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