Os mortos-vivos
2 Capítulo 2 - Errantes
Com os olhos ardentes a luz do crepúsculo, minha cabeça doía com a queda. Não me lembrava muito do que aconteceu na última noite, eu teria desmaiado sobre o corpo de alguns mortos, que agora finalmente estão descansando, mas como teria sobrevivido a todas aquelas criaturas? Passou um ou dois minutos e cheguei a uma conclusão: O cheiro. Estar no meio deles deixou meu cheiro humano imperceptível.
Mas minha família teria me deixado sozinha? Se eu sobrevivi eu não deixaria de averiguar se mais alguém sobreviveu. De qualquer maneira, eu teria que sair rápido dali, os tiros de ontem atrairiam mais daquelas coisas.
Levantei-me, parecia que tudo a minha volta estava morto. Até que ouvi algo bem perto se movendo. Quando olhei era Luke vindo até mim. Quer dizer, o que um dia foi Luke. Seus olhos castanhos agora sem cor, sem brilho e sem vida, seu corpo trajado em vestes rasgadas e sujas e seu rosto ensanguentado caminhavam até mim. Admito que sua aparência não estava muito melhor que a minha, era quase o equivalente, eu estava toda ensanguentada, minha testa estava machucada pela provável queda que eu tive ao desmaiar, minhas roupas não estavam no melhor estado.
Luke era tão carinhoso e protetor. Por que teria que ir agora? Por que me deixou Luke? Eu estou sozinha agora, por que me deixou? Já não conseguia mais conter as lágrimas.
Luke, você não merecia isso. Esse fim. Obrigado por ter me protegido. Você era a melhor coisa desse mundo, agora você está bem. Não precisa passar fome, nem sofrer por perdas, está tudo bem, você está melhor agora, está descansando. Você não precisa mais passar por essas merdas que passamos todos os dias.
Seu corpo já estava quase chegando ao meu, seus braços podres se esticavam a minha procura, sua boca semi-aberta vinha ao meu encontro.
"Boa noite Luke, eu te amo."
O derradeiro tiro perfurou sua cabeça como um adeus. Era algo até engraçado, achei uma semelhança entre eu e os mortos. Ambos de nós poderíamos ser chamados de errantes agora.
Conferi a minha arma e aquela era a última bala. Tentei encontrar algo útil no meio dos mortos, não achei nada. Nada além de uma mulher, pálida, cabelos ruivos e um colar que reconheceria de longe. Luciana. Reparei que havia um tiro em sua cabeça, perfurando seu cérebro. Mas como? Se só eu sobrevivi, e ela havia se jogado para os errantes... Isso não importava agora. Tirei o colar de seu pescoço e coloquei-o.
"Adeus tia, eu te a..." Fui interrompida por outro barulho. Resolvi sair dali, já não era mais seguro. Simplesmente segurei minha faca e saí andando.
O que eu estava fazendo? Sozinha, com fome e dor, machucada, suja e um pouco tonta. Por que deveria continuar? QUAL É O SENTIDO DISSO TUDO? "Em frente" disse a mim mesma.
Depois de uma meia hora andando encontrei o que um dia foi um supermercado com uma placa na frente “Pegue o que precisar e que Deus te proteja.”. Bati nas janelas pra ver se havia algo dentro. Esperei um pouco e não ouvia nada, nada se mexia. Só havia o silêncio perturbador que antigamente não existia. Era sempre o barulho do trânsito, pessoas falando, cachorros ou crianças brincando. Agora era só... Vazio.
Entrei e fiquei atenta aos errantes. Peguei uma mochila grande. Coloquei o quanto de comida caberia. Peguei um machado, precisaria de mais proteção já que estaria vagando sozinha de agora em diante.
A semana foi ótima e calma, parece que a ideia do meu pai de ir de casa em casa não era tão ruim. Entrar na casa, se livrar dos mortos e checar a comida. As coisas estavam indo bem por enquanto. Passou-se mais ou menos uma semana e eu consegui me virar sozinha. Esse mundo não é muito diferente de quando as pessoas só morriam uma vez. Você só tem que se adapta o que não era difícil. O ser humano se adapta a tudo. Acostuma-se.
Depois de algumas semanas, quando amanheceu percebi que a comida havia acabado então resolvi ir um pouco mais longe. Tentar achar um lugar seguro pra ficar por um tempo. Dois errantes vinham atrás de mim, mas se eu andasse rápido eles não me alcançariam. Algumas ruas a frente me deparei com uma horda de errantes. Só tinha um machado para uns vinte errantes, talvez mais. Malditas criaturas vindo atrás de mim. Dessa vez eu não via saída. Findaria-se assim minha vida?
Fale com o autor