Os homens do futuro
3 História americana
Notas iniciais
Há muitos e muitos séculos, num lugar da América Central, vivia um povo temeroso da fúria avassaladora de um vulcão que explodia de tempos em tempos. E para solicitar clemência à natureza, eles haviam instaurado um estranho ritual: cada vez que acontecia uma desgraça natural, eram selecionadas várias crianças, de preferência garotinhos, para lançá-los nas entranhas do vulcão para pedir aos "Espíritos vermelhos" que protegessem a tribo. Dependendo do tamanho da calamidade, era selecionado o número de sacrificados.
Iraci, uma linda adolescente que brilhava no apogeu de seu encanto, estava entrando na adolescência quando foi levada pela primeira vez por seus pais para assistir à bárbara cerimônia. Seus três irmãos menores foram escolhidos como oferenda pela grande feiticeira e Iraci, extremamente emocionada, não conseguia soltar o caçula Aniel de seus braços. Sua mãe então se viu forçada a puxá-lo à força para entregá-lo aos soldados. Depois, abraçadas, foram caminhando atrás das crianças, até chegar ao topo da montanha.
Assim que a tribo reuniu-se ao redor da boca do vulcão, a feiticeira rezou e cantou várias orações, levantando os braços para o céu. Em seguida, fez um sinal místico, e imediatamente os soldados empurraram 20 meninos no meio da lava, cuja morte instantânea calcinou seus corpos no fervor vermelho, que pululava como numa grande panela.
Iraci parou de chorar. Transformou-se imediatamente num "robô", pois mal conseguia respirar, seu peito apertado doía, com todo seu sistema nervoso convulsionado e revoltado. Como sua mãe desceu desmaiada nos braços de seu pai, Iraci ficou sentada, petrificada, sozinha, tentando voltar ao normal. Seu amigo de infância Morlõ, adolescente que já estava acostumado a ver sacrifícios humanos, sentou-se ao seu lado, acariciou-lhe seus cabelos além da cintura, beijou-a no pescoço, e esperou com paciência que ela reagisse e desabafasse novamente. E, mais uma vez ela berrou como uma loba.
Quando os olhos de Iraci secaram de tanto chorar, Morlõ tomou-a pela mão, fê-la descer a montanha, e no final do caminho perderam-se na mata fechada, bem longe da tribo, cujos homens sofriam em silêncio a tragédia vivida. Parecia que todos estavam mudos e envergonhados, e ninguém comentava nada do acontecido.
Deitados embaixo de um frondoso jacarandá, Morlõ beijou-a na boca docemente. Em seguida, estendeu-se junto com ela na grama macia, e acariciou-a sem pressa. Deixou que a paixão mostrasse o caminho das formas de amar, e num momento de supremo ardor perderam a virgindade sem dor, grudados como um corpo só. Sem parar com a sequência de carícias e beijos, sorrindo um frente ao outro, dormiram abraçados como dois anjos embaixo de um céu claro e brilhante.
Depois daquele dia, nunca mais se separaram.
Naquele mesmo lugar, longe do povo, Morlõ cavoucou um sulco ao redor dessa árvore grossa. Depois encheu esse sulco com pedras, e em seguida levantou uma parede firme de pedra sobre pedra, grudando tudo com argila mole. Para cobrir a construção amarrou paus firmes entre o tronco dessa árvore central e as paredes. O trançado desse telhado ficara como um guarda-chuva gigante. Selecionou folhas de palmeira, amarrou-as uma a uma com firmeza, enquanto Iraci socava o chão dentro de casa até deixá-lo sólido. Deixaram um buraco por onde entrasse a luz e ventilasse o lar. Como a entrada seria através do telhado, Morlõ fez uma escada de pedra para entrar.
Nos dias seguintes, Iraci colocou dentro de sua casa uma colcha, tecida por ela mesma, e peles macias curtidas pelo Sol. Morlõ pendurou em outro canto sua lança, para abater porcos selvagens, seu arco e flecha para matar pássaros na floresta, seu cocar e uma manta de urtiga feita pela sua mãe. Fora desse ninho minúsculo, Iraci distribuiu as panelas de barro, também modeladas à mão. Sobre um fogão de lenha, feito de pedras, ela fez a sopa, como aprendera com sua mãe.
E a vida em comum se iniciou.
Durante a noite, Iraci estendia-se sobre a colcha com seus longos cabelos ao redor, ressaltando-lhe a beleza exuberante. Imediatamente Morlõ se deitava ao seu lado sorrindo. Depois, entrelaçavam seus corpos, e ficavam grudados até o raiar do Sol, quando o canto dos passarinhos na janela os acordava, e faziam amor novamente, nessa cama quente e gostosa.
Ao meio dia, pulavam fora do ninho para fazer a comida. Iraci moía o milho e fazia uma massa que cozia entre brasas quentes. Também fervia sopa com batatas, ou, assava peixe fresco. Morlõ por sua vez tirava leite de uma paca, pegava frutos da selva e abatia bichos que atravessavam seu caminho. Cortava o animal em três partes, dando uma para sua mãe e outra para sua sogra. A parte deles, ele mesmo cozinhava por cima de pedras candentes.
Enquanto comiam, sentados um na frente do outro, sobre uma alfombra de taquara, intercambiavam beijos, risadas, sem parar de se tocar, felizes por serem um do outro “para sempre”.
Olhando para as estrelas no firmamento, numa noite muito estrelada, Morlõ começou a divagar sobre os mistérios do Universo. Um dia, desenhou no chão um circulo e colocou várias pedras sobre ele. Depois, plantou uma estaca no meio e ficou a observar como a sombra desse tronco tocava nas pedras, em tempos regulares. Com o passar dos dias aperfeiçoou sua descoberta, e finalmente esculpiu um círculo de pedra, com a ajuda de sua mulher.
O trabalho de ambos chamou a atenção dos índios velhos, que os visitavam, perguntando o significado de tudo aquilo. Morlõ então começou a lhes explicar o segredo do tempo. Assinalava quando o Sol começava a iluminar a terra, e quando se escondia atrás dos montes. E todo esse tempo, ele dividiu-o em partes iguais.
Enquanto Morlõ mostrava o funcionamento desse relógio primitivo aos índios curiosos, Iraci entrou na casa da feiticeira, para pedir que ensinasse sua magia para cuidar dos corpos doentes. E Meiring, que era uma mulher muito cansada e velha, passou-lhe tudo o que ela sabia sobre o poder das “forças ocultas”. Ela aprendeu com Meiring a colocar compressas de lama para puxar o calor das febres, fazer infusões de ervas para gripes e, principalmente, a chamar os espíritos que a socorressem para tirar um moribundo das garras da morte. Mas Iraci começou também a fazer suas próprias pesquisas. Morlõ a ajudou a recolher folhas e raízes no meio do mato, para preparar infusões mais sofisticadas, e a acompanhou na aplicação de remédios nos índios doentes da tribo. E foi assim que o casal começou a ficar famoso.
Curandeiros de outras tribos começaram a aparecer periodicamente para aprender os segredos da nova feiticeira, e Iraci passou a ser respeitada pela sua sabedoria e seus poderes sobrenaturais.
Quando a feiticeira Meiring morreu, Iraci tinha 25 anos e foi escolhida por todos os homens velhos da tribo como sua sucessora. Trocaram suas roupas numa cerimônia solene e sobre sua cabeça lhe foi colocada um grande cocar de penas, cujo símbolo a identificavam como a mãe espiritual de todos os membros da tribo. Seu corpo voluptuoso mostrava seios generosos, quadris largos, cintura mínima, e um cabelo além das nádegas que ressaltavam sua beleza. Ela era, afinal, uma fiel representante da tribo. A melhor.
Morlõ, entre os homens do povo, também passou a ser reverenciado por sua aguda inteligência. Era um guerreiro invencível, hábil caçador e havia ensinado muita coisa aos homens. Além de dividir o dia em horas regulares, separou o ano em meses, semanas e dias. Descobriu que a Terra girava ao redor dela mesma, e que era por esse motivo que acontecia o dia e a noite. Também ensinou aos homens que a Lua era uma massa de terra pequena, que girava ao redor da Terra, e que refletia a luz do Sol. Ele dizia que todas as estrelas eram bolas de fogo iguais ao Sol, mas que se encontravam muito longe, por isso pareciam tão pequeninas. Ensinou que o Sol tinha a função de iluminar a Terra com seu calor. A única coisa que Morlõ nunca conseguiu foi fazer com que os índios acreditassem que os sacrifícios humanos eram totalmente desnecessários. O ritual era periódico, como sempre fora, desde os tempos mais antigos. Mas no dia que Morlõ viu sua mulher vestida de feiticeira, encheu seu peito de orgulho e felicidade. A barbárie finalmente ia terminar.
Em meio dessa noite, Morlõ começou a planejar como seriam os novos rituais. Prometeu protegê-la quando o cacique Raoni lhe ordenasse uma carnificina. Mas disse com palavras firmes que deveria se negar a realizar os sacrifícios. Iraci temia que o chefe a matasse pela rebeldia, e perguntou-lhe se não se importaria em ficar viúvo. Teria que casar com outra mulher. E Morlõ lhe disse:
— Tola! Eu nunca olhei para outra mulher... Só olho para você...
— E eu também... Eu nem sei como é que são os outros homens... Quando vamos ter um filho?
— Nunca! Eu me esterilizei com 10 anos... Vai ser lua-de-mel até a morte... Se Deus quiser...
— Deus?
— Isso!... Vamos falar para eles que não há “deuses vermelhos” sedentos de sangue, mas que há um Deus que é puro amor e bondade. O que acha?
— Acho até que esse Deus existe de verdade...
Com o passar dos dias, Morlõ e Iraci viajaram para outras tribos da América Central em conclaves secretos de bruxaria e curandeirismo. Iraci aprendeu a chamar as almas desencarnadas para realizar um ritual com as mulheres que incorporavam os espíritos.
Essas sessões espíritas ficaram tão famosas que todos os adolescentes passaram a se inscrever para participar nos rituais de sexo e magia.
Iraci escrevia seus nomes sobre um couro, preparava o lugar do ritual em meio da mata, longe dos olhares da tribo, acendia um fogo para muitas horas, e vestia as índias velhas como verdadeiras rainhas. No meio da noite, fazia-se uma roda, com todas elas tomadas pelas mãos, e chamavam-se às almas que estavam interessadas em participar dos rituais. Imediatamente, as mulheres eram possuídas por uma febre estranha, que as sacudia por inteiro, mexendo o corpo com movimentos sensuais. E aconteciam as danças e entoavam-se os cantos. Os homens escolhiam suas preferidas e as levavam fora do círculo para deitar sobre folhagens macias.
A festa terminava somente quando os espíritos abandonavam os humanos e as velhas desmaiavam de cansaço. Iraci então enviava os homens de volta para a tribo e reunia as mulheres fazendo-as beber uma infusão especial que lhes devolvia a energia. Depois as levava para uma cachoeira onde tomavam banho, comiam frutas e carne abundante, e assim terminavam de se recuperar.
O " Vale da magia" , cujos rituais aconteciam em noite de Lua cheia e em noite de Lua nova, formou-se uma corrente tão poderosa que nenhuma desgraça natural aconteceu nessa tribo por longos anos. Durante muito tempo não foi necessário fazer sacrifícios humanos. Infelizmente, porém, uma pequena enxurrada derrubou várias plantas de mandioca e um dia Iraci foi chamada pelo cacique Raoni, que lhe ordenou um holocausto para acalmar a fúria dos espíritos. Pedia uma criança sacrificada, para cada uma das plantas arrancadas pelas águas.
Iraci inclinou-se, falou que obedecer era sua obrigação, mas desta vez ia subir a montanha sozinha, para falar com os espíritos pessoalmente e lhes oferecer um acordo diferente. Saiu então, caminhando com a cabeça erguida, enquanto sua capa se arrastava no chão e suas penas balançavam em cima de sua cabeça.
Quando Raoni estava a ponto de ordenar a seus guerreiros que a prendessem para torturá-la, sentiu uma dor tão forte sob o peito, que caiu de joelhos quase sem poder respirar. Parecia que os poderes dessa feiticeira escapavam de seu controle. Que ia fazer com ela?
Mas o pavor do cacique estava apenas começando.
Quando Iraci voltou da montanha, reuniu o povo e lhes fez um discurso. Disse que o "Grande Espírito", que vivia além do fogo do vulcão, no meio das chamas eternas do Sol, havia-se comunicado com ela, para proibi-la de continuar matando crianças dentro do vulcão. Disse que aquele espírito era tão poderoso que governava sozinho o Sol, a Lua, a Terra e todas as estrelas do universo. Também ele era dono do vento, dos rios, das montanhas e dos homens. Se a tribo aceitasse a proteção daquele Grande Espírito, todos os guerreiros da tribo seriam amparados por ele, e os faria invencíveis em todas as batalhas, e todos os povos os admirariam pela sua magnificência e sua coragem. A aldeia tornar-se-ia um dia tão grandiosa pela sua sabedoria, que ficaria imortal através de todos os tempos e pela eternidade.
Quando terminou seu discurso, pediu que o “Conselho de Anciãos” tomasse uma decisão, ou aceitavam a proteção do “Espírito do amor”, ou continuavam sendo protegidos pelos “Espíritos Vermelhos”, que exigiam morte e faziam o povo sofrer. Também comunicou que se tribo escolhesse aos Espíritos Vermelhos, ela e Morlõ se lançariam dentro do vulcão, pedindo a “KAUM” vingança.
Aceitar o Grande Espírito, ou " KAUM ", demorou 7 dias de discussão.
Entre os homens sábios da tribo, Morlõ foi duro nas palavras, e os ameaçou dizendo que castigos terríveis se abateriam sobre eles, se continuassem com a febre de matar os filhos. Insistia em dizer que Kaum era o “Espírito do Amor”, das coisas boas, que cada vez que olhava para a Terra e via um povo realizando sacrifícios humanos ficava tão triste que suas lágrimas corriam como cachoeiras pelas montanhas.
E foi assim que o temor a Kaum foi mais forte que o medo aos “Espíritos Vermelhos”. Kaum ergueu-se na tribo como um Deus poderoso, rei do Universo, senhor do dia e da noite, e dono absoluto da vida de todos os homens.
De alguma maneira, foi com o amparo de Kaum, com a chefia de Raoni e com a sabedoria de Morlõ e Iraci, que a tribo se fez poderosa.
O machismo dos homens desapareceu, pois todas as mulheres começaram a serem consideradas inteligentes. Os filhos passaram a ser mais amados, e o conhecimento ficou ao alcance de todo o povo, sem distinção de idade a sexo. Os homens com o passar do tempo construíram palácios para Raoni, pirâmides para rezar a Kaum, mercados para o comércio e a troca de objetos. A tribo pouco a pouco se transformou num império majestoso, faustoso e rico.
Todas as mulheres se arrumavam com capricho e brilhavam em seus peitos jóias de extraordinário valor. Adornavam o cabelo com flores ou penas, perfumavam o corpo e faziam questão de ostentar seus encantos. Os homens, por sua vez, também se transformaram. Enfeitavam seu peito nu com pedras preciosas, tão lindas como as que ornavam as mulheres. Seguravam os cabelos com um cinto, e alguns soldados usavam um cocar de penas, conforme o posto que ocupassem. Na família, adotaram a monogamia definitivamente, e com o tempo, os jovens passaram a morar com uma só mulher, e lhes eram fiéis até a morte.
O único ritual primitivo que perdurou, foi o que acontecia em noite de Lua cheia, e em noite de Lua nova, quando Iraci chamava os espíritos que queriam fazer sexo. Morlõ explicava que a alegria não fazia dano a um ser humano e que Kaum, por ser o “Deus do Amor”, concordava com o velho ritual do amor.
Infelizmente, o esplendor material da tribo e sua eterna felicidade chamou a atenção de todos os povos que habitavam a América, tanto no continente quanto nas ilhas. A lenda das riquezas e das mulheres lindas despertou a ambição de muitas tribos, e pouco a pouco foram cobiçados por povos do Sul, do Norte, do Leste e do Oeste.
No dia em que o cacique Raoni reuniu o “Conselho de Anciãos” para contar-lhes que muitas tribos estavam a caminho do Império, para invadi-lo e arrasá-lo, pediu aos guerreiros mais fortes que se organizassem e defendessem a cidade. Mas, todos eles se negaram a cometer aquela barbaridade, alegando que “Kaum” ia castigá-los por matar. Morlõ, incrédulo ao que estava escutando, rebateu com firmeza, dizendo que defender o povo não era crime, era apenas justiça, um costume bem diferente daquele de lançar crianças indefesas dentro de um vulcão. Também lhes disse que Kaum os protegeria nos combates, dando-lhes a vitória final.
A discussão sobre o que era certo ou errado demorou muito tempo. Raoni e Morlõ acabaram convencendo o povo a organizar a defesa do Império, e as mulheres seguiram Iraci com obediência. Fizeram covas no meio da mata para esconder os filhos e ajudaram os homens no transporte de armas, suprimento, e ficaram responsáveis pelos feridos em combate. Todo o povo se preparou para receber os invasores de forma inteligente.
E um dia, a guerra aconteceu. Durante 20 dias, eles lutaram bravamente contra os índios que chegaram a rodeá-los como bandos de formigas, tamanha era a quantidade de guerreiros pintados que os assediaram, gritando como demônios desmandados pela Terra. Raoni morreu bravamente. Iraci com sua medicina e toda sua magia não consegui mantê-lo vivo. Ele apagou-se como uma chama, nos seus braços, sorrindo para ela e olhando-a como se olham as estrelas no firmamento.
No meio dos combates, Morlõ cortou a cabeça de duzentos inimigos, sempre atacando com a espada e gritando com seus homens para que não perdessem a coragem nem a bravura. Finalmente, viu os invasores partirem de regresso, convencidos que derrubar aquele império era impossível. Cansado, ferido, extenuado, Morlõ desmaiou no chão. Enquanto isso, no meio da tribo, os sobreviventes no lugar de festejarem felizes a sobrevivência, examinaram a cidade com curiosidade. Todas as arapucas armadas por Raoni mostravam cadáveres mutilados por bambus afiados. Outros estavam pendurados no ar dentro de gaiolas infestadas de cobras peçonhentas, e havia aqueles sem cabeças, ou com uma flecha atravessada no meio do peito.
Na cidade, tudo era destruição e morte. Os mortos eram tantos que dava arrepio e vontade de vomitar. Sem dúvida aquele era o lugar mais bárbaro do planeta. Povo pior e assassino como eles não podia existir em lugar nenhum. Por certo, Kaum ia castigá-los severamente pelo sangue derramado com tanta crueldade.
Sem falar nada, como autômatos, alguns homens começaram a caminhar em direção da montanha a pedir perdão a Kaum. Envergonhados, com a cabeça baixa, subiram a ladeira em busca do suicídio que lhes daria a paz que suas almas procuravam. Uniram-se ao séquito as mulheres e adolescentes, até formarem um grande bloco que caminhava à procura da “morte”.
Finalmente, era todo o povo, em massa, que se punha a andar.
Quando Iraci percebeu o que estava para acontecer, correu a dar socos em Morlõ para tirá-lo do desmaio, sem sucesso algum. Sozinha, no meio do desespero, correu para se colocar na frente do povo e deter a marcha. Gritava para que os homens não cometessem um desatino daqueles, pois graças à proteção de Kaum tinham vencido o inimigo. Gritava-lhes que eram os melhores guerreiros da terra e Kaum não estava brabo com eles.
Infelizmente, porém, desta vez, ninguém a escutava. Nem as mulheres acreditavam nela. Nem os jovens, nem as velhas, ninguém. Todos estavam mudos com o olhar perdido no ar. Iraci tentou tirar dos braços de algumas índias os bebês de colo, gritando histérica, mas tudo foi inútil. As mulheres a afastaram, e assim que chegaram à beira da cratera, lançaram-se nas lavas do vulcão atrás de seus homens. Uma a uma, até não sobrar ninguém.
Quando Morlõ conseguiu chegar ao cimo da montanha, cheio de feridas e sangrando, encontrou sua mulher berrando como um animal. Ela gritava, arranhava o rosto, puxava os cabelos, completamente fora de si. Ele precisou dar-lhe uns cinco tapas no rosto para detê-la de sua histeria. Depois, abraçou-a e chorou junto com ela por longo tempo. Os dois haviam fracassado da forma mais terrível e cruel, e, tentando consolar-se, repetiam entre soluços: — “A culpa é toda minha!”.
Desceram a montanha ao entardecer.
A natureza estava mais linda do que nunca, com cores esplendorosas mostrando uma beleza fascinante. Uma parte da floresta estava queimada e a metade da cidade destruída, mas o céu estava mais lindo do que nunca.
De repente, um garotinho de 4 anos foi ao encontro de ambos, sorrindo com cara de anjinho. Depois, foram duas irmãzinhas, de mãos dadas, morrendo de medo e à procura de colo. Logo, aparecem turmas de guris gritando sons indígenas de guerra nos lugares mais incríveis. Até recém-casados, com mulheres grávidas, saíram ao seu encontro e, algumas meninas com recém-nascidos no colo chorando de fome.
Antes que Iraci começasse a chorar novamente, Morlõ beijou-a docemente. Depois de vê-la sorrir, começou a abraçar todos seus filhos adotivos, um a um, até não sobrar ninguém sem seu beijo, sem seu abraço. Viu, com os olhos banhados pela emoção, que estava rodeado de muitas crianças. Meninos inteligentes que tinham acreditado nele e sua mulher. Depois, organizou-os em fila e caminharam para o “Vale da magia” para dormir e comer, longe do horror da cidade destruída.
Durante longos anos, Morlõ rumou para o Sul bordejando o mar, subindo e descendo montanhas, bem longe de todas as tribos bárbaras da América Central, procurando com calma um lugar para erguer seu Império.
Na frente da caravana, caminhava ele sua mulher Iraci, rodeados dos jovens mais fortes, que os ajudavam como bravos guerreiros. Atrás deles, marchavam as carroças puxadas por animais fortes, carregando as mulheres com os recém-nascidos e as crianças pequenas que não podiam caminhar. Depois, vinha o rebanho de cabritos, lhamas, carneiros e pacas que lhes davam o leite, o couro e a carne. Logo em seguida, as sementes de linhagem e de linho para tecer os tecidos, juntos com mudas de milho, mandioca e de muitas árvores frutíferas.
Por último, fechando a caravana, uma carreta puxada por oito bois trazia uma lente que fora desprendida do observatório lunar, e uma pedra com o calendário, gravado por Iraci e Morlõ, nos tempos da juventude.
Em que lugar eles assentaram? Possivelmente na beira das águas do Lago Titicaca...
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