Os homens do futuro
7 Federação estudantil. Autobiografia.
Notas iniciais
A FEICH, “Federación de Estudiantes Industriales de Chile”, foi fundada lá pelos anos de 1958, mais ou menos, se a memória não me falha, por um grupo de estudantes chilenos das Escolas Industriais. O propósito era defender os interesses de todos os alunos desses educandários, a maioria filhos da classe mais pobre de meu país.
No princípio, eram poucas as escolas afiliadas. Mas, com o passar dos anos, foram aderindo as Escolas Técnicas Femininas, depois foi a Escola de Alfaiates, em seguida, chegaram os rapazes da Escola de Hoteleiros e, finalmente, os meninos da Escola de Música e Artes Plásticas. Eram outros tempos, é claro. Períodos históricos quando a educação chilena era de graça, voltada para o povo, com a intenção de dar uma profissão de técnico aos filhos da pobreza. Posteriormente, foi criada a “Universidade Técnica do Estado”, para que os alunos das Escolas Técnicas e das Escolas Industriais continuassem o estudo superior. Eram oferecidas as carreiras de Engenharia e de Pedagogia. Só pagava-se a matrícula. Os alunos “Nota 7” ganhavam bolsas de estudos, em dinheiro para pagar no passe de ônibus e com almoço.
Não posso deixar de contar que essa Universidade não existe mais. Ela foi bombardeada nos dias do “Golpe de Estado de 1973”, os professores foram presos, exilados, e depois foi ela convertida numa universidade particular. A atual Universidade Santiago.
Eu ingressei na Escola Técnica Feminina Nº2 quando eu tinha 12 anos de idade. Entrei para estudar “Desenho aplicado” no curso da professora Marina Cornejo. Aliás, uma mulher incrível, que me preparou tão bem para a vida, que muitos anos depois, com quase 30 anos nas fábricas brasileiras, coloquei em prática tudo o que ela me ensinou.
Aos 14 anos, eu já era líder estudantil. Fui eleita “Presidenta do Centro de Alunas” por votação unânime. Também, eu não parava de falar naquele tempo. Era crítica de tudo, principalmente da péssima educação. E, com 15 anos, eu aceitei um convite da FEICH, para assistir a uma reunião. E foi ali que eu fiquei estática. Nossa! Naquela reunião só havia homens lindos. Convertida em múmia, eu sentei-me num banco timidamente, e só falei quando o Víctor perguntou se havia alguém da minha escola. Abri a boca para disser que sim, e depois continuei escutando-os falar, impressionadíssima.
Ao contrário dos meus amigos de meu bairro, todos os gatos estavam de terno impecável, camisa engomada, gravata, e penteado caprichado. Para completar o quadro, falavam muito bem. O Jorge, cada vez que assumia o discurso ria com um sorriso desses de “propaganda de pasta dental”, mostrava os dentes alinhados, torcia a boca ligeiramente para a direita, e depois sua VOZ estremecia o ambiente. Era demais! Inteligentíssimo, fundador da Federação, rápido de raciocínio, estava ali o “homem dos meus sonhos”.
Mas, com passar do tempo, eu descobri que o Jorge não era o mais astuto de todos. Havia outro. O Rocha era quase um gênio, também fundador da Federação, mas possuía um pequeno defeito físico. Uma de suas pernas era mais curta, usava sapato ortopédico, e carregava um tremendo complexo. Mas ele se encantou comigo, e foi meu melhor amigo desde meus primeiros dias nessa Federação.
Um dia, eu fiz uma proposta numa reunião. Levantei a mão e falei com firmeza. Como Rocha aprovou tudo que falei, passei a ser considerada dali para frente uma líder importante. Depois, nunca mais parei de falar. Voltava tarde da noite para casa, acompanhada pelo Rocha, conversando com ele sobre Teologia, Filosofia, Sociologia, Política, Economia, pois o cara era uma enciclopédia ambulante. Ele me deixava na porta de casa, dava um beijo no rosto, um abraço, e cruzava Santiago em direção à casa dele.
Depois de um ano, eu estava envolvida em todos os problemas da Federação.
Os companheiros faziam denúncias graves, de professores que faltavam às aulas, de escolas com banheiros insalubres, colégios sem vidros nas janelas, cujas denuncias faziam agitar o ambiente. Formávamos então, uma “comissão representativa” e íamos falar com o Ministro de Educação exigir o fim das anormalidades.
Eu fui várias vezes uma integrante dessas comissões. Até fomos atendidos de verdade pelo próprio Ministro. Atacávamos valendo, entregávamos uma lista de exigências e dávamos um prazo para serem atendidas. Depois, ficávamos na espera que as promessas fossem cumpridas. Geralmente, porém, o pessoal do Ministério nos levava na conversa, esquecia-se de nós, e tudo ficava na mesma, sem nenhuma solução. Teimosos, formávamos outra comissão, entregávamos outra lista, e quando a paciência esgotava-se, entrávamos em GREVE.
Dona Hortência Pizarro era uma mulher alta, imponente, distinta, e a Diretora de minha escola. Todo mundo curvava-se na frente dela. A maioria com admiração. Era, na verdade, uma grande mulher. Inteligente, astuta, e mantinha nossa escola funcionando como um relógio. Jamais ninguém ousava chegar atrasado. Nossa escola era o lugar mais limpo de Santiago. Tínhamos um belo teatro, um lindo ginásio, o melhor material escolar, uma excelente merenda pela manhã e à tarde e, jamais ficávamos sem professor, pois assim que alguém faltava, chegava alguém para assumir o lugar. Na verdade não existia nenhum motivo para que uma rapariga como eu fizesse uma “greve”. Mas, lá no fundo, dona Hortência me admirava pela ousadia e liderança. Sempre terminávamos nos entendendo. Ela me dava um prazo, para voltar às aulas, e eu sempre cumpria o trato.
Nos dias de greve, eu me postava diante da porta, bem cedinho, fazia um discurso para as companheiras, explicava quais as soluções que a gente estava reivindicando, e depois pedia para voltar para casa em apoio aos companheiros. A maioria ia para casa, mas as mais valentes iam comigo para o “Parque Florestal”.
“La Juanita”, apelido que tinha o carro da polícia, aparecia logo ao redor das escolas em busca dos dirigentes que promoviam as greves. Eram tempos diferentes, logicamente. Quem ia preso ficava isolado, e nunca uma mulher foi estuprada por causa disso, jamais um companheiro foi torturado. Eles só ficavam detidos por 24 horas e depois eram soltos na rua.
Quem me ajudava a fugir da Juanita era o Corderito, nosso querido porteiro. Ele me avisava, eu me escondia atrás da porta semiaberta, ou num banheiro, e quando a rua ficava limpa, eu saía correndo para me juntar aos meus amigos. No Parque Florestal, eu encontrava o Rocha, o Víctor, o Jorge, a grande amiga Wilma Peñaloza, Presidenta da Escola Técnica Nº1, e o Chico Peña, que falavam para as massas como verdadeiros líderes da revolução estudantil. E esses discursos terminavam quando aparecia o “Guanaco”, o caminhão que lançava água sobre as turmas enfurecidas. Saíamos correndo pelas ruas de Santiago, molhados, pingando, nos escondendo nas galerias comerciais, e éramos famosos por causa disso. As fotos dos estudantes saíam nos jornais, era noticiado nas rádios, e assim conseguíamos muita coisa. O Ministério de Educação terminava atendendo aos nossos pedidos.
E foi assim, entre greve e greve, que eu fui crescendo dentro da Federação.
Um dia, o Rocha me convidou para uma reunião diferente. Disse-me que eu era uma dirigente nata, e que uma preparação política ia me fazer muito bem. Perguntei-lhe qual era a filosofia desse partido político, onde estava me levando, e ele me disse: — o livre pensamento! Como eu era anarquista desde sempre, graças à preparação de meu tio Luis Hernández, que me ensinou desde a infância “que todo homem é um REI”, achei que aquele lugar combinava comigo. E fui até lá para matar a curiosidade.
Nessa reunião estava todo o mundo. O Jorge apertava a mão de políticos importantes, Senadores, Deputados que o felicitavam pelo sucesso das greves. Também a Wilma estava lá, o Chico Peña, o Calducho, e mais ou menos uns 30 membros da FEICH. Era o Partido Radical do Chile. E eu entrei nele de vez.
Foi depois disso que aconteceu a “Primeira Convenção Nacional da FEICH”.
Todos os anos, a gente enviava convites para a convenção, para as escolas das províncias do Norte e do Sul, mas não vinha ninguém. Desta feita, porém, começaram a responder as cartas Centros de Alunos do país inteiro. Delegações que iam chegar a Santiago, e para as quais tivemos que procurar alojamento, alimentação e guias como cicerones. A Federação de Professores de Santiago nos autorizou a fazer a Convenção nas dependências deles, o Ministério de Educação também ajudou com algum dinheiro, e fizemos listas de gente para levar os companheiros para almoçar em casa. Foi um trabalho em tanto receber esse volume de gente.
Só que o que aconteceu durante esse encontro foi uma novidade, nunca antes vista. Das províncias do Sul chegou uma turma de comunistas ensandecidos, briguentos, que no lugar de agradecer nosso esforço como anfitriões, nos agrediram desde que chegaram. Eles alegavam que a Federação era uma serva do Partido Radical, que ela era usada para eleger políticos ladrões, e que a dinastia tinha que acabar. Inclusive, eles apresentaram candidatos a Presidente da FEICH, com lista de inscritos, nos desafiando nas eleições.
Mas, no último dia de briga, conseguimos vencer essa disputa. O Victor, o Chico Penha e eu fomos eleitos como os três mais importantes dirigentes a nível nacional. Eu era a representante de todas as Escolas Técnicas Femininas do país inteiro. Apenas eu tinha 16 anos.
E foi depois disso que nosso trabalho complicou de vez, pois tínhamos que ir ao Ministério de Educação brigar por escolas do Norte ou do Sul. E, logicamente, que fazia-se necessário viajar, atender aos pedidos, examinar os casos graves, e éramos todos paupérrimos, só contávamos com a ajuda dos cofres da FEICH, bem escassos, e algum dinheiro que o Partido Radical nos dava.
Foi por essa causa nobre, que eu me transformei em delinquente.
Um amigo trouxe um passe livre dos Ferrocarriles del Estado, da Estación Central de Santiago, e me perguntou se era capaz de fazer a assinatura do chefe.
Bem, na verdade, eu era a melhor falsificadora de minha escola. Cada vez que uma amiga faltava às aulas, ela escrevia a justificativa, e eu falsificava a assinatura do responsável. Aliás, deu muita mãe solteira com essa brincadeira. Eu examinei a assinatura desse chefe, ensaiei para aprovação geral, e rubriquei o primeiro passe livre, completamente frio.
O cúmulo foi que eu mesma tive que viajar para Chillán, uma província do Sul, com um passe desses. Por esses dias, havia uma briga entre o Centro de Alunas de uma Escola Técnica com a Diretora da escola. Elas estavam numa confusão feia, e eu tive que viajar para solucionar o problema. Minha mãe me autorizou a ir, pois eu ficaria na casa da Presidenta do Centro de Alunas. E subi nesse trem. Morrendo de medo. O inspetor examinou meu passe, e sorrindo me perguntou: — A senhorita não tem medo de viajar sozinha? Nossa! Nem percebeu que estava na frente de um falsário.
Naquela viagem, tudo foi lindo.
Meus companheiros de Chillán estavam na estação ferroviária me aguardando em comitiva. Abracei a todos, e me acompanharam para a Escola Técnica onde estavam me esperando as alunas e a Diretora. Eu falei com a Diretora em primeiro lugar, depois fiz reunião com as alunas e no fim de minha viagem, estava tudo resolvido. Maravilha. Sucesso absoluto.
Também eu aproveitei para examinar a Escola Industrial de Chillán, onde se faria a Segunda Convenção da FEICH. Meus amigos me mostraram o Ginásio onde seriam as assembleias gerais, as salas onde se discutiriam os trabalhos das comissões, os refeitórios, os dormitórios, e também fiquei encarregada de mandar fazer um símbolo para essa convenção. Eu desenhei um rascunho, para aprovação, com a figura de um homem e uma mulher de perfil, com uma engrenagem no fundo e uma tocha em chamas. Faria orçamento, mandaria imprimir e enviaria pelo correio.
E voltei para Santiago, com mais um passe frio. Sem medo desta vez.
E depois dessa viagem, outra agonia principiou. A pior de todas. Os comunistas de Santiago começaram a nos infernizar, preparando-se para nos tirar da diretoria na próxima eleição.
O pior de todos os vermelhos era o Pedro, Presidente da Escola Industrial de Quinta Normal, e meu vizinho, pois esse recinto ficava bem perto de minha Escola Técnica. E fora com ele que também formei um grupo de teatro. Nas reuniões, Pedro sentava ao lado do corredor, com uma perna para fora, olhava com cara de cínico, e cada vez que abria a boca era para ridicularizar-nos e deixar bem claro que todos os dirigentes eram um bando de palermas. Os vermelhos ao redor riam em coro, e tudo terminava em briga. O Jorge ficava furioso, eu, muito mais ainda. O Rocha era o mais calmo. Entrava nas brigas, nos defendia, argumentava, e sempre nos apoiava.
A pior façanha do Pedro foi apelidar o Rocha de “burlador de lajota”. Explicava que cada vez que o Rocha ia colocar o pé no chão, a lajota falava: — Ali vem ele!, e o pé ia para a lajota do lado. Para cúmulo da gozação, dizia aquilo o imitando.
Para garantir o sucesso na próxima escolha da diretoria, passamos a ter reuniões periódicas no Partido Radical. Para aumentar os votos, cada dirigente levaria um secretário particular. Eu falei que levaria a Dóris Angel, minha melhor amiga. Ela havia pertencido ao Partido Socialista, mas estava desligada, e jurou que votaria por nós. Como o Rocha aprovou, a Dóris pôde se inscrever.
Meu maior problema dessa viagem foi com a roupa. Em Chillán, fazia um frio de lascar, e eu não tinha nenhum casaco quente. Usava sempre o abrigo do uniforme. Desta vez, tive que recorrer a minhas irmãs que emprestaram de tudo um pouco. Entre isso, um casaco longo, horrível, velho, mas bem quentinho.
E a Convenção Nacional de Chillán aconteceu, mudando para sempre minha vida. Na verdade eu nunca a esqueci. Lembro-me dela até hoje, e me emociono com as lembranças. Eram outros tempos. Quando a juventude lutava pelas suas ideias.
A primeira coisa que fizemos, chegando a Chillán, foi nos reunir no Ginásio da Escola Industrial para verificar os alojamentos. A maioria das mulheres foi para um internato de uma Escola Técnica. Eu e a Dóris ficamos na casa de uma companheira, cuja família nos atendeu como rainhas.
E no meio de tudo, lá estava o Pedro, com um boné russo na cabeça, mas parecia o Gêngis-Khan, oferecendo cigarro cubano. Eu, estupidamente, acendi o cubano, e comecei a tossir, engasgada até a alma com o maldito cigarro. Ele riu sem pena alguma, explicando que esses cigarros só eram para machos. Ao lado do Pedro estava outra peste. Um socialista, ex-namorado da Dóris, que ficou ao lado dela que nem grude.
Na primeira reunião, a diretoria teve que narrar todo que foi realizado durante um ano. Como eu cuidava do dinheiro, fiz relatório das contas e pedi que alguém verificasse se estava tudo em ordem. E quem levantou a mão? O Pedro, logicamente. Ele foi comigo até o refeitório, pegou lápis e papel, fez cálculos rápidos, e me disse:
— Estão sobrando 20 pesos...
— Ótimo... Qual é o problema?
— Se está sobrando, ou se está faltando não interessa. As contas têm que fechar, e eu não vou assinar nem aprovar nada...
E lá fui eu, com a ajuda da Dóris, revistar tudo, sem entender o motivo desses 20 pesos. No desespero, fui falar com o Jorge, que estava recém-casado e acompanhado da esposa. Ele me escutou e falou:
— E qual é o problema se está sobrando dinheiro?
— Eu acho que nenhum, mas esse vermelho disse que não vai aprovar meu relatório...
— Manda-o “tomar.....” e não liga. Vou dizer umas boas para ele, e se é homem vai ter que se entender comigo...
Eu, assustada como nunca, esvaziei comprovantes sobre a cama, e com a Dóris revistamos papel por papel, até que achamos um recibo que estava sem registro, perdido entre minha bagunça. Antes da próxima assembleia geral eu mostrei para o Pedro, e ele assinou meu relatório financeiro rindo às gargalhadas.
E no fim desse dia infernal, chegou o relax! A festa das boas-vindas.
Eu e a Dóris passamos revista na roupa, com cuidado, trocando coisas, experimentando frente o espelho, e finalmente fizemos maquiagem caprichada. Como a Dóris estava a fim de reconquistar o seu amigo, apertou a cintura, que parecia ia se cortar em duas. Eu coloquei meu conjunto verde de duas peças, que marcavam meu corpo como luva. Soltei o cabelo, e lá fomos nós.
Naquele tempo, eu namorava o Jorge Parga, um amigo da Cristina Saavedra, uma de minhas amigas mais amadas. Ele era elegante, fino, educado, de família tradicional, que me escrevia cartas maravilhosas. Por esse motivo, eu nunca imaginei me interessar por um homem durante essa Convenção. Entrei nessa festa só para me divertir. Nossa! Nem parecia que havia ali dentro uma turma de revolucionários querendo mudar o mundo. Os homens estavam impecáveis, cabelo engomado, perfume, desodorante à vontade, e as mulheres todas com vestidos de festa, pareciam princesas de tão formosas.
Quando os organizadores pediram que as mulheres mais lindas subissem no cenário, para escolher a Rainha da convenção, meus amigos do Partido Radical me pegaram pela mão e arrastaram para o palco. Eu estava até com vergonha, pois meus sapatos eram bem velhinhos. Depois, meus amigos começaram vender votos para me escolher.
Quando escutei meu nome como a ganhadora, nem podia acreditar. Subi mais uma vez no palco, para receber uma coroa na cabeça, dançar, fazer discurso, e dar por iniciada a festa. Depois desci para beijar meus amigos, que me rodearam fazendo brincadeira.
E foi no meio dessa bagunça que alguém falou:
— Vamos dançar, minha rainha?
— Vamos...
Logicamente que era o Pedro. Ele me agarrou da cintura como quem disse: — Esta mulher é minha! e eu fiquei presa ao corpo dele, com rosto colado, mal podia respirar de tão apertado que ele me segurava. Depois, veio mais uma dança, e mais uma, e passei a noite nos braços dele, pois era um ótimo bailarino. Como a Dóris estava se beijando com o outro vermelho, no fim da festa os dois nos levaram para casa.
Nos dias seguintes, tudo era trabalho. Eu reunia as mulheres para fazer discurso, e com o Rocha contávamos os votos a favor de nós, todos os dias, nome a nome. Enfrentávamos os comunistas em brigas sem fim, pois se discutia de tudo. Nas comissões, se analisavam os programas de estudos, as porcentagens de repetentes, quantos alunos entravam na Universidade Técnica, qual era o futuro de emprego de todos nós e o resultado das políticas educacionais. Eram outros tempos. A juventude fazia seu futuro, lutava por ele, guerreava por ele. E brigávamos pela liderança.
No fim do dia, novamente chegava o relax! Desta vez, a festa era no ginásio, onde os companheiros de Chillán colocavam música e vendiam petiscos. Os mais endinheirados saíam a passear pela cidade. Os mais pobres ficávamos por ali mesmo, comendo pastel, bebendo cerveja e fumando como chaminés. Aliás, nessa época, pitava-se mesmo. Havia uma fumaça no ar o dia todo. E no meio da algazarra as paqueras começaram.
Os comunistas trouxeram também seus convidados. Sem direito a votos. Desde a cidade “Viña del Mar” abordou Allan Delon, o homem mais lindo de Chile, em todos os tempos. Ele derreteu o coração de 90% das mulheres da convenção, apenas com sua presença. O malandro parecia galo no meio de um galinheiro. Cheio de mulher em redor.
E enquanto o Delon atacava com o charme, os comunistas falavam ao redor sobre justiça social, fim da pobreza, papo furado para conquistar votos para o lado deles. E, para cúmulo, a Doris e eu éramos assediadas pelo Pedro e o namorado dela. Pareciam cães de guarda. Eles chegavam correndo, sentavam ao nosso lado, compravam pastel só para eles, pois ambos eram tão duros de grana quanto nós, contavam piadas, riam, eles eram uns amores de pessoas. Também dançávamos, fumávamos e ficávamos ali até o fim do dia. Depois, ambos nos acompanhavam para casa, e o Pedro até me emprestava seu boné russo, pois o frio era ferrenho.
E numa noite dessas, Pedro me deu um beijo no rosto. Eu o parei, falei firme que gostava dele só como amigo, e que não estava a fim de nada. Mas, ele parecia surdo. Depois me deu um beijo na boca e me fez um discurso. Disse que eu era a companheira ideal para ele, que me admirava muito e queria namorar seriamente comigo. E não adiantou falar que não. Ele simplesmente me agarrou no caminho para casa com firmeza, e eu não pude resistir mais. Ficamos namorando no meio do frio terrível, até altas horas. E sem saber como, eu me apaixonei, do dia para noite, por esse comunista briguento, pois no fim das contas, ambos pensávamos exatamente igual.
Avisei o Rocha de tudo, e falei que esse namoro não iria interferir em nada. Eu seria Radical até o fim de minha vida e que nunca permitiria que política e amor se misturassem.
Mas eu era um exemplo para as mulheres. Logicamente que esse namoro modificou muita coisa. No último dia dessa convenção, os comunistas ganharam arrasadoramente as eleições. Mario, amigo íntimo de Pedro, foi eleito Presidente da FEICH, e Pedro ficou como Secretário de Imprensa e Propaganda. Tivemos que entregar o mandato, os livros, e encerrar o último dia da convenção com tristeza. Os mais ressentidos eram os companheiros de Chillán, todos do Partido Radical, que trabalharam tanto e perderam.
Dali por diante, os vermelhos começaram a governar.
A coisa mais notável que o bloco comunista fez foi a greve de fome. O motivo da greve eu não me recordo. Além do que, eu já não era mais Presidenta do Centro de Alunas de minha escola. Meu lugar agora era da Célia, uma grande líder, que realizou a greve de fome na Escola Técnica. A única coisa que me lembro é que depois dos discursos no Parque Florestal, os machos foram se instalar nas portas do Ministério de Educação, e todos eles ficaram estendidos no chão, em greve de fome, durante o dia todo. Greve que acabou quando a Juanita apareceu, e os arrastou a todos da forma mais ridícula possível. Carregaram-nos pelas pernas e braços, e os empurraram para o camburão. No dia seguinte as fotos estavam em todos os jornais, superengraçadas.
O golpe, porém, que me desmontou interiormente, chegou meses depois, vindo do centro da juventude radical.
“O Partido Radical chileno nasceu no passado, como um partido de esquerda, para enfrentar o Partido Liberal e o Partido Conservador. E ele teve homens importantes, ilustres, que quando governaram deram importância máxima à educação. Mas, depois que Recabarrem surgiu no Norte do Chile com o Partido Comunista, o Partido Radical mudou para centro-esquerda. Mais de centro do que tudo. Finalmente, quando Salvador Allende uniu todos os partidos de esquerda, e formou a Unidade Popular, imediatamente mudaram para a direita, e se acoplaram ao Partido Liberal e Partido Conservador, unindo as forças”. Isso quer dizer que o livre pensamento deles significava, na verdade, que o Partido Radical jamais teve uma filosofia, nenhum sonho. Nada de nada, apenas e simplesmente, eram guiados pela ânsia do poder. E essa ânsia, levou-os a ocupar todos os cargos importantes dentro da Educação. Eles tomaram posse de Universidades, Associações de Professores, Ministérios e Federações Estudantis. E toda vez que esse Partido perdia um cargo, uma eleição, um lugar, por mínimo que fosse a importância, ele procurava por culpados. E esses culpados eram severamente punidos, castigados, que nem Máfia.
E foi assim que depois de perdermos a eleição da FEICH em Chillán, os dirigentes da juventude radical chegaram ao consenso unânime que a culpada era EU. EU?
Mas eu só dei beijinhos no Pedro. Mais nada! Mas numa reunião incrível, eles diziam que eu era uma Espiã ao serviço de Moscou. Uma Mata Hari. Uma traidora que tinha passado ao inimigo os segredos do partido. Como prova de minha traição, eles alegavam que eu tinha levado junto outra vermelha comigo, a Dóris, para me ajudar. E sem acreditar, eu enfrentei a Inquisição, liderada pelo Calducho, que usava palavras inflamadas. Eles me expulsaram do Partido como traidora por votação unânime. O Rocha e Jorge não apareceram para me defender.
Saí de lá me odiando até a última célula do meu corpo, e comecei a chorar já na rua, em completo desespero. Dois amigos correram atrás de mim. Acalmaram-me, consolaram, acompanharam até meu ônibus, mas foi inútil. Minha tristeza perdurou por logo tempo e minha decepção com a política ficou marcada para sempre. Eu aprendi com 17 anos de vida, numa época em que os jovens de hoje sequer saem da adolescência, como os homens burros e ignorantes chegam ao poder. Como? Usando líderes inteligentes, que lhes abrem o caminho. E quando esses líderes não lhes servem mais, eles os jogam para fora do grupo com a palavra traição! Sentia-me a própria Joanna Darc a caminho da fogueira.
E, pelo resto de minha vida, nunca mais eu consegui chorar como naquele dia. Sequer quando minha mãe morreu. Muito menos quando Pedro e eu brigamos, anos mais tarde, por outros motivos mais tristes. E tampouco chorei quando ele se foi para a República Democrática da Alemanha. Era como se enterrasse dentro de mim a chama do amor, pela segunda vez.
As lembranças de tudo isso ficaram comigo para sempre. Cada vez que vou para o Chile ver minha família, eu passo defronte a Escola Técnica Nº2 com emoção. As lembranças chovem sobre mim. Ela está lá, resistindo ao tempo. Pelo contrário, a Escola Industrial de Quinta Normal onde Pedro estudou, já não existe mais. Ela foi transferida, e o recinto demolido. Ficou dela somente a lembrança.
Onde será que aquele comunista briguento está hoje?
Bem, graças ao FACEBOOK, ele me contatou faz alguns anos. Somos amigos, e nos escrevemos sempre. Mora na Bélgica, está casado, tem filhinhos, netinhos, e ele continua um belo homem. Nunca perdeu a doçura, e é comunista ferrenho até hoje.
Fale com o autor