Os homens do futuro
11 Encontros além da vida
Notas iniciais
Fazia muitos anos que ele se fora, que morrera. Longos anos durante os quais Heloísa era como um barco sem porto, um rio sem rumo, um pássaro sem destino. Por mais que ela buscasse um novo caminho em sua vida, as lembranças impediam-na de ser feliz. A dor que ele deixou com a partida era tão forte, mas tão profunda que às vezes ela duvidava de ter um coração dentro do peito e sentia no lugar dele um grande vazio.
Para tentar se consolar, Heloísa tentava falar com seu amor através das almas desencarnadas. Frequentava sessões espíritas, terreiros de Umbanda, acendia vela, rezava para seus Santos e, às vezes, tinha um sucesso relativo. As médiuns diziam-na que ele estava em paz, muito bem, que não era para se preocupar.
Mas ela desejava, a cada dia, um contato mais íntimo, um encontro paranormal de verdade, frente a frente com seu amado. E finalmente, seu desejo cumpriu-se. Numa tarde tranquila, Heloísa deitou-se para uma sesta. Seus sentidos viajaram para o espaço, cruzaram para o universo escuro, e finalmente ela chegou num lugar muito lindo. Era na verdade como os campos da terra, de montanhas altas, com uma extensão verde, capim florido e colorido, com um rio azul cristalino e uma ponte para cruzá-lo. Ela nunca soube se essa ponte separava a vida da morte. Aliás, nem pensou no assunto sequer. Correu em cima das madeiras gastas desse velho pontilhão e viu seu homem parado, esperando-a com os braços prontos para o abraço. Ela se agarrou nele com o rosto enterrado no seu peito robusto, e começou a chorar desconsoladamente. Ele acariciou-a docemente, e falou-lhe:
— Eu estarei sempre aqui, esperando-a. Prometo.
Em seguida, ela começou a ser puxada para trás por alguém. Virou o rosto e viu uma amiga, explicando-lhe que o tempo havia terminado e deviam voltar. Mal conseguiu ver seu amado caminhando para longe daquele lugar, perdendo-se de sua vista. Como a ponte havia desaparecido misteriosamente, ela desceu para o rio, e cruzou pelas águas, ajudada por sua amiga que a guiava por onde deveria caminhar.
A segunda viagem para o lado da morte aconteceu depois de uma semana muito agitada. Heloísa foi numa Feira de Livros com uns amigos, conversou com muita gente e, a saudade chegou-lhe naturalmente. Seu amor adorava ler, gostava de falar-lhe poemas de amor no seu ouvido. E começou a pensar nele de dia e de noite. Para piorar, chegaram à depressão, à saudade e à terrível dor no peito. Caiu na cama chorando e depois sonhou profundamente: Viu a si mesma com gente estranha, no meio de uma cidade desconhecida, como num passeio de férias. Ela entrava no quarto de um hotel e deitava numa cama macia e gostosa. Depois sonhava. Engraçado, ela já estava sonhando, mas era como se ela sonhasse dentro do sonho. E nessa fantasia dentro do outro sonho, ela chegou pela segunda vez na ponte onde vira seu amado pela primeira vez. Feliz, cruzou correndo esse trajeto, mas só encontrou pessoas desconhecidas, que lhe disseram que ele não estava mais ali. Voltou pela ponte, e entrou em um caminho escuro. Depois de algum tempo envolvida no negrume, ela estava na frente de uma casa grande, bonita, num outro lugar, talvez numa Dimensão mais alta. Abriu a porta com facilidade e uma turma de cachorros anãos recebeu-a fazendo bagunça. Eram tão pequenos que ela tomou na mão três deles que escaparam para fora de casa. Pareciam ratinhos de tão pequeninos. Olhou-os com atenção, e se perguntou a si mesma se seriam produto de algum experimento em laboratórios de genética. Lembrou que ela estava sonhando. Melhor, viajando para o outro lado da vida em busca de seu amor. Entrou na casa, fechou a porta e ficou parada dentro de uma sala grande, muito alta, que só podia ser de outro mundo. As cortinas dessa casa eram feias, velhas. Na verdade, toda a casa era antiga, iluminada com luz natural do Sol que entrava por janelas tão altas quanto as paredes. E, no centro dessa sala, estava seu querido, em pé, ao lado de uma mulher doente, sentada, que ele examinava como médico.
Heloísa ficou petrificada. Ele era médico! Sempre o fora nas vidas anteriores! Mas, na última encarnação ele entrou na carreira de ator e viveu uma vida miserável que o levou à morte prematura. E agora, ele estava naquela Dimensão, trabalhando, recebendo doentes, sarando suas dores e, com certeza, dando conselhos de amigo para todas as almas que chegavam naquela casa. Uma fúria invadiu sua alma. Se ele tivesse sido médico em vida, teria sido rico, com uma saúde de ferro e estaria ainda vivendo deitado ao seu lado todas as noites, e ela não dormiria entre soluços. E avançou xingando-o grosso:
— Mas, por que é que você viveu como artista e me deixou morrendo de dor, seu maluco?
— Mas, seu eu tivesse sido médico, você nunca se apaixonaria por mim...
Heloísa começou a rir. Lógico! Ela era pintora hippie, e seus caminhos nunca teriam se cruzado, além do mais, ela detestava homem rico e arrogante. E correu ao seu encontro. Elevou os braços para abraçá-lo pelo pescoço, abriu a boca e recebeu seu beijo. Enquanto se beijavam, abraçados fortemente, formando mais uma vez um corpo só, duas mãos começaram a separá-los. Depois foi um vento súbito que fez Heloísa sair desse lugar. Em seguida, acordou naquele hotel, levantou-se da cama e saiu a passear. Percorreu a praia caminhando, observando o mar, feliz porque tinha encontrado mais uma vez seu amado. E ele estava mais lindo do que nunca, como ele fora, aos vinte anos, quando ambos se conheceram.
E acordou de vez. Dos dois sonhos entrelaçados. Despertou na sua cama velha, sem nenhuma mordomia. Nossa! Estava cheia de trabalho para fazer e atrasada, pois tinha dormido além do tempo. Vestiu-se as pressas e correu para seu novo emprego, um bico, algo que lhe dava o suficiente para sobreviver.
Numa outra ocasião, Heloísa viajou para o lado da morte enquanto dormia um sonho agitado. Ela estava numa casa diferente e seu amado no seu dormitório completamente nu, como fazendo pose para ela. E seu homem pediu para examiná-lo com atenção, pois essa era sua verdadeira imagem e teria que reconhecê-lo quando ela morresse. E viu um homem robusto e cheio de músculos, como um guerreiro nórdico tostado pelo sol, cabelos loiros, olhos verdes cristalinos. Era tão lindo que mais parecia um Deus saído de uma história de ficção. Aliás, Heloísa nunca conhecera em vida alguém tão perfeito como esse homem. Depois, ele desapareceu sorrindo, enquanto ela ficava petrificada com a miragem.
E Heloísa voltou a ser uma mulher feliz, porque reencontrar o amor além da vida virou rotina. Teve encontros íntimos, onde o contato era desta vez com beijos ardentes, e sexo. Nunca imaginara que iria tão longe com essas experiências. E certa vez ela sentiu uma boca beijando a sua durante o dia. Era uma boca de gelo, que queimava de tão fria. Era como se ele viesse da morte para a vida num passeio, uma visita, uma cita de amor.
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