Os guardiões de Venk

1 O Dia que a "Floresta Azul" mudou o meu mundo


Notas iniciais
Quando eu e meu amigo Ryan saímos em busca de minha irmã Sophie, percebemos que algo estranho estava acontecendo na Floresta Azul, onde achávamos que ela estava. Me pergunto como ela está...

Não achei que chegaria a esse ponto. Minha irmãzinha sorria para mim ao mesmo tempo que chorava. Nunca tinha visto os seus olhos verdes tão claros como estavam naquele dia, ou noite. Sinceramente, eu não sabia mais. Algo quente escorria por minha mão, mas não pude olhar o que era, pois já estava em minha cama e gotas de suor corriam pela minha face e mãos.

Já estava começando a me acostumar com esses sonhos perturbadores. Várias vezes durante as semanas eu os tinha. Normalmente estou em algum lugar que não conheço, mas que tem algo único nele. Uma região coberta com uma "terra branca" que nunca antes vi. Ou então, semana passada, quando vi uma montanha que expelia uma fumaça espessa. Gostaria de entender melhor esses sonhos, mas sempre que estou prestes a descobrir mais sobre onde estou, acabo acordando em minha cama. Ou no chão, como aconteceu semana passada, quando sonhava que caia. Por que apenas esses tipos de sonho costumam se tornar realidade?

Mas algo estava diferente, eu não sabia o porquê de ter sido acordada. Mesmo quando tenho pesadelos, meu corpo faz o favor de me manter neles e não me acordar. Costumo ser acordada pela minha mãe ou pelo meu despertador, mas não havia sinal de nenhum dos dois.

Foi então que percebi o que tinha me acordado. Para falar a verdade, nunca tinha sido acordada assim antes. Alguém estava jogando pedras na janela do meu quarto. Estava pensando em abrir a janela e gritar umas poucas e boas para a pessoa que estava fazendo isso, mas meu pensamento havia se direcionado para algo ainda mais incomum.

A cama da minha irmã, Sophie, estava completamente fazia. Tirando pelos seus bichinhos de pelúcia que ela ama. O estranho de tudo isso, é que a Sophie costuma dormir por várias e várias horas. Eu não tinha olhado o relógio nem nada para confirmar, mas, pelo o que a cor do céu lá fora me dizia, ainda faltava no mínimo cinco horas para ela estar fora de sua cama. Deixei essa ideia de lado por um momento, pois o irritante som de pedras continuava contra a minha janela.

Com a postura meio inclinada, para que nenhuma pedra caísse em cima de mim, fui abrir a janela. Como sempre, minha sorte e o universo agiram. Acabei escorregando para trás quando uma pedra acertou com tudo a minha cabeça seguida de uma voz logo abaixo gritando:

–Foi mal!!

Reconheci aquela voz logo que a ouvi, era meu amigo Ryan. O que ele queria aquela hora da manhã? Devia ser tipo umas seis horas agora. Me levantei com a ajuda da borda de minha janela. Ainda com o rosto doendo e esfregando a parte atingida pela pedra, gritei para o meu agressor desta manhã:

–O que você quer Mestre do Cachecol?

Ah sim, eu chamo o Ryan de Mestre do Cachecol. É um apelido que dei para ele quando éramos menores, por conta de ele sempre usar um cachecol vermelho que seu pai havia lhe dado.

–A Sophie está ai?

–Para falar a verdade, não... — Por que ele perguntaria isso? E o pior, ele percebeu que ela havia sumido antes de mim?

–Bem que achei que fosse ela... — Comentou o Mestre do Cachecol quase que para si mesmo — Hoje, bem cedo, fui para "A Casa" quando a vi entrando na Floresta Azul. Achei meio estranho, já que ela costuma ir com a gente. E mesmo se ela vai, costuma ser apenas à tarde.

–Realmente... — respondi — Me dê um minuto, já vou descer.

–Traga a sua mala, vamos procurar por ela.

Fechei a janela e a cortina para me trocar. Olhei para o espelho e meus cabelos loiros estavam bagunçados como de costume. Bom, ao menos eu acho que são loiros. Já me disseram que era ruivo, loiro e até dourado escuro. Depois dessa confusão toda que fizeram com a cor do meu cabelo, decidi simplesmente rotulá-lo de loiro.

Coloquei a franja para o lado e dei "uma geral" nele (não tinha muito o que fazer de qualquer forma). "Já é um caso perdido" pensei rindo comigo mesma. Decidi usar minha camiseta polo azul. Era minha peça de roupa favorita. Ela tinha a bandeira de nossa ilha, Feny, em seu lado esquerdo superior (uma floresta junto de uma cadeia de montanhas atrás. Uma bela bandeira, para uma bela ilha).

Mesmo sendo bem cedo e o clima estar mais frio, decidi colocar um shorts. Tinha a impressão de que mais tarde iria ficar bem quente. Saí do meu quarto e desci as escadas. Ao que tudo indicava, meus pais ainda estavam dormindo. Parece que havia acertado quanto à hora. Caramba, aquela menina realmente deve ter se esforçado para sair da cama.

Deixei um bilhete para meus pais caso acordassem antes de eu ter voltado. Os avisei para que não se preocupassem, pois não deveria demorar muito para voltar. Peguei minha mala, que sempre deixo perto da porta de casa para quando vou para a Floresta Azul, e saí.

Ryan, o Mestre do Cachecol, estava me esperando do lado de fora, também com sua mala nas costas. Tínhamos a mesma idade, 12 anos, mas ele parecia ser mais velho do que eu.

–Bom dia Katy — Cumprimentou-me com um sorriso tolo no rosto.

–Não sei se receber uma pedrada no rosto pode ser considerado um bom começo de dia, mas bom dia Ryan. — Respondi, também sorrindo. Mas, desta vez, o Mestre do Cachecol não retribui o sorriso. Ele agora estava com uma cara séria no lugar.

–Acho melhor nos apressarmos, hoje a floresta está estranha — Ele já estava me puxava pela mão.

–Estranha? Estranha como? — perguntei.

–Não sei como te explicar, mas é melhor corrermos. — Foi o que fizemos

Enquanto corríamos, vimos figuras familiares reunidas. Reconheci logo que Danillo Gante estava entre eles, provavelmente contando mais uma de suas piadas. Minha irmã, Sophie, o achava muito engraçado, mas, entre nós, não acho que ele fizesse piadas melhores que a do pavê. Caso você não saiba que piada é essa, eu vou te poupar da tristeza de ouvi-la.

Danilo Gante é um homem gordo e está lá pela casa dos trinta anos. Acho que sua aparência e risadas altas e grossas o ajudavam para fazer as piadas mais engraçadas. Percebi ao longe que ele havia terminado de fazer mais uma de suas piadas. Bom, ao menos devia ter feito isso, pois todos em volta dele riram. Porém tinha algo de errado, todos estavam meio... tensos. Era como se ele estivesse tentando aliviar a tensão de algum assunto com suas piadas, mas não parecia estar dando muito certo.

O mais estranho, era a presença de Ven, o contador de histórias, naquele grupo de pessoas. Era extremamente incomum vê-lo cercado de pessoas. Decidi, por fim, não ficar mais tentando entender aquela situação e continuei a correr. Afinal, eu não tinha muita opção, já que o Ryan ainda estava segurando a minha mão para me fazer correr mais rápido.

Estávamos próximos da muralha que separava a cidade da floresta, mas não tínhamos permissão para entrar na Floresta Azul. Nós teríamos que ir para uma parte da muralha que nos permitisse passar. Não, nem meus pais, nem os pais do Ryan, sabiam que nós íamos para a Floresta Azul. Nós sempre falávamos que estávamos em algum outro lugar, e eles não se preocupavam. Afinal, por que se preocupariam? Após tudo o que nossa ilha já passou, percebemos que temos que tomar conta um dos outros para continuarmos vivos. Isso faz a criminalidade de nossa ilha ser zero porcento.

Quanto à muralha, ela separa Feny ao meio e pega metade das partes laterais também, para envolver toda a floresta. Entretanto, a parte de trás da floresta não tem muralha, pois, a 1 quilômetro, aproximadamente, havia... vamos dizer que uma espécie de cachoeira. Um lugar onde o mar acaba, e tem uma imensa queda logo a baixo. Pense em um desfiladeiro de água. Todos falavam que aquele era o fim do mundo, onde o ele acabava. Ven, porém, nos contou em suas histórias que havia terras mágicas após aquele lugar. Ao menos era o que falavam as lendas. O problema é que, ninguém sabe se esse fim do mundo realmente existe. Ninguém que eu conheça em algum momento já viu essa imensa queda d'água, pois as muralhas existem a mais de 150 anos.

Então, supostamente, não tinha como entrar na floresta. A não ser que você fosse autorizado ou quisesse se arriscar a nadar toda a muralha e chegar ao fim da floresta. A questão é, eu e o Ryan gostávamos muito de brincar por toda a cidade quando éramos crianças. Um dia ocorreu de acharmos uma casa abandonada com um quintal gigantesco atrás. Era todo coberto de folhagens a sua volta, por isso, a não ser que alguém estivesse dentro da propriedade, não poderia ver o que acontecia dentro.

Nós brincamos muito lá, sempre fazendo bobagens, e costumávamos levar minha irmã para brincar com a gente. O interessante de tudo isso, é que aquele quintal terminava na muralha. Como se ele continuasse após ela, mas, para montarem a muralha, tiveram que passar por cima do quintal.

E, um dia, quando tínhamos por volta dos nossos 8 anos e Sophie 6, nós conseguimos quebrar a muralha. Na verdade, o Mestre do Cachecol conseguiu. Ele tinha ganhado um conjunto de química de seu pai e enquanto estávamos testando ele no quintal da casa, "Bum!". Aquela parte da muralha fez "bum" junto com a poção que o Ryan estava preparando. Agora, como a gente não se machucou, eu também gostaria de saber, porque até hoje não entendi como aquilo foi possível.

Viramos a esquina e entramos na casa abandonada. Quando chegamos no quintal, a única coisa que consegui pensar foi "Não devia ter falado naquele bilhete para meus pais que estaria de volta em breve".

Como sempre, a Floresta Azul estava, obviamente, azul. Com suas folhas brilhantes emitindo uma luz azul neon pelas suas laterais e cipós, que mais pareciam lasers que se enroscavam nas árvores, do que qualquer outra coisa.

Mas havia algo diferente, o brilho azul que a floresta irradiava estava melancólico. Por aquela fissura de luz que saia do buraco feito na muralha, podia ver que algo estava muito errado, como se a floresta estivesse gritando silenciosamente por socorro. Eu nunca senti tanto medo em toda a minha vida.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.