Os fins justificam novos começos
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Boa leitura!
As últimas gotas de orvalho despencavam chorosamente das folhas, retirando-se de cena para que o sol tímido pudesse iluminar mais um dia com sabor de noite. Acabei de deixar o olho do furacão, ainda com vontade de ser tragada por algo que não fosse minha sede de autodestruição. As palavras piscam rápidas demais na minha cabeça. Tem um arco-íris radioativo preso no meu cérebro. Não quis parecer confusa, querido, mas para você sou uma galáxia de contradições. Não ria dos meus paradoxos forçados. Você é o maior deles. Embaralhador de caminhos, fique longe dos meus. Não quero ser o abismo te olhando de volta, apesar de que fui o motivo que te fez querer busca-lo.
Deixo a revolução na minha cama e carrego a guerra nos meus ombros. Você nunca se ofereceu para estender a bandeira branca. Gosto do seu nome do meio. Como era mesmo? Caos. Nunca te pedi para ser o questionamento que acende o pavio das minhas ideias. Fique em silêncio. Me contagie com sua inércia. Mas eu estou pedindo demais. Aliás, eu pedi demais. Pedi que não tentasse reviver o passado. Local escorregadio aquele, não? Especialmente o seu. A cola que endurece o passado é a mesma que emoldura o presente, e isso sua inconstância não pôde quebrar. Não vou mentir e dizer que sinto muito. Você não sentiu quando eu chorei. Meus ombros aguentaram compartilhar suas frustrações por tempo demais.
Meu relógio não tem ponteiros porque o tempo é uma prisão. Ele paira sobre mim, como se quisesse me limitar, parecido a um escritor que limita sua obra à um final. Ele tem meus dias friamente contados, eu sei. Ainda somos jovens, você dizia. Ainda sou jovem, ainda digo. Mas o que aconteceu com seus ouvidos, querido, que não ouviram meu pranto ao chegar da tempestade?
Uma voz me chama do outro lado da porta. Não quero falar com ninguém, então continuo vazando alma pelos dedos. Não posso parar, senão nunca termino. Posso perder o fio da inspiração e deixar o espírito morrer.
— Você está escrevendo sobre ele de novo? — pergunta minha mãe, entrando de surpresa no meu quarto. Quer dizer, ela bateu inúmeras vezes, mas para mim soou como uma invasão. — Isso tem que parar, Nora!
— Eu vou parar quando não tiver mais nada para desabafar — reclamo. Ela recolhe as roupas sujas no chão com aspereza.
— Aquele seu amigo está lá fora. O de dois metros de altura, cabelo espetadinho. Balon.
— Dallon! — corrijo-a.
— Que seja!
— De qualquer maneira, não quero falar com ninguém.
Ela sai respirando pesadamente. Os passos dela ecoam pelo quarto até se reduzirem a partículas da emissão original e desaparecem. O silêncio retorna e sussurra melodias distantes; audíveis; palpáveis; indolores. O fato de não as sentir não me serve de consolo. É melhor queimar do que anestesiar. Queimaduras deixam cicatrizes, lembranças de que o pior já passou. Minha pele é uniforme demais para sobreviver. Este é o problema.
Dallon me chama da rua. Ele diz que é véspera de Halloween e precisamos comprar nossas fantasias para assustar as pessoas. Digo que já estou assustando. Estou escrevendo para tentar assustar o que me assusta. Ele me xinga e me manda para uma casa estranha. Estou bem na minha, portanto o ignoro e ele parece desistir. Perco minutos refletindo sobre o Halloween e assustar pessoas. Uma fantasia pode te assustar por um tempo, mas um jogo de palavras pode quebrar seu orgulho. Diga-me, querido, eu quebrei seu orgulho quando te fiz ficar de joelhos sobre suas falhas? Seu silêncio não me bastou como resposta, então devo insistir. Eu quebrei seu orgulho?
Seria trágico se não fosse cômico a maneira como o jogo virava a cada turno. Nós costumávamos fazer essa manobra de esconder nossas verdadeiras faces um do outro. Qual máscara caiu primeiro? Aposto que não foi a minha. Minhas máscaras são moldadas por fatores que você não pode compreender. Quando uma cai, rapidamente outra se forma. Geralmente era assim, antes de tudo. Você se assustou com o que viu? Partiu tão cedo que me pergunto se não deixou alguma parte sua para trás, talvez algo que te faça ser lembrado. Deve ter deixado, caso contrário, eu não estaria aqui agora, violando seu nome. Ah, querido, com certeza você deixou algo em mim que não pode ser levado em nenhuma mala.
Este poderia muito bem ser o milésimo registro que faço sobre você. Sempre me parece como a primeira vez. Mas é a oitava. Ou terceira. A exatidão da matemática não pode ser aplicada a nós. Acidentalmente, nossas estrelas orbitaram o mesmo céu. Não creio que você volte, a não ser em meus sonhos, por isso estou escrevendo este registro. Eu escrevo para esquecer, não me lembro se cheguei a comentar isso. Você não foi o primeiro, nem será o último. A vida tem dessas coisas de te jogar no universo do outro, depois chacoalhar até sair faíscas. Um dia, nossa faísca se apagou. Não importa quem soprou primeiro, o fato é que aconteceu. Espero não te encontrar na rua e ter que reler este texto. As lembranças já serão suficientes. Rogo que meus olhos não sejam amaldiçoados pelo reconhecimento.
Meu celular vibra. Notificações de coisas que não estou realmente interessada me lembram que preciso interagir. Faz parte do jogo da sociedade. Um jogo de regras inflexíveis e que não perdoa seus erros. Outra vibração. Dallon enviou uma mensagem.
DallonNotBalon: Tate ou Robin depois do encontro com o Coringa?
DallonNotBalon enviou uma imagem.
Você: É Halloween ou Parada Gay? Cadê os negócios demoníacos, cara?!
DallonNotBalon: Ah, essa parte fica por sua conta.
Você enviou um emoji.
DallonNotBalon: Tava brincando. Ei, depois dos doces ou travessuras, que tal beber alguma coisa? A noite é uma criança cheia de caminhos.
Enviei outro emoji, desta vez uma carinha sorridente. De fato, a noite é uma criança cheia de caminhos. E meus pés estão sedentos por uma caminhada.
Notas finais
Como disse antes, caso se interessem, posso fazê-la uma fic. Só depende de vocês!
Beijinhos e ótimo final de semana!
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