Os espetáculos de uma vida nada normal
8 Como se sentir mal com apenas uma Lara
Ás 6 horas meu despertador tocou. Tomei uma ducha rápida e depois me arrumei. Fui até a padaria e comprei o croissant, esses dias eu havia me esquecido completamente dele. Eu acho que, de alguma maneira, eu estava mudando.
Ao chegar na escola, olhei o horario de aulas. De terça e quinta eu faço Jazz na escola enquanto Clara faz natação. Geralmente, ela sai 15 minutos mais tarde, então eu a espero sentada no corredor com paredes de vidro, assim, dá para ver quando estão treinando.
No intervalo, Leo e Clara foram até a mesa em que eu estava.
– Tem uma segunda na minha terça! — ela riu.
– Contando que sua segunda foi praticamente um domingo... — eu disse.
– Só porque eu estava me deliciando naquela cachoeira da chácara? Aposto que estão com inveja porque tiveram que voltar! — ela cruzou os braços sobre o peito.
Eu e Leo nos encaramos e começamos a gargalhar.
– O que foi?-perguntou Clara, espantada.
– Nada — respondemos, em coro.
– Que seja — ela balançou uma das mãos. — Hoje eu tenho natação, você vai me esperar?
– Óbvio, eu tenho Jazz — revirei os olhos.
Eu não gostava de fazer Jazz, só fazia para não deixar Clara sozinha.
– Como é esse Jazz? — intrometeu-se Leo.
– Dança em geral — respondi.
– Hum... Legal — ele não pareceu muito interessado.
O sinal tocou e voltamos para sala. Depois de mais três aulas finalmente era hora de irmos almoçar.
Ficamos por ali mesmo e compramos o almoço da cantina.
– Saudades tempero — resmungou, Clara.
– Toma o refrigerante que você nem percebe!
Nós duas rimos. Era legal passar o dia com Clara, ela me entendia como ninguém e eu a entendia também. Éramos assim desde que me entendo por gente.
Fomos para o vestiário e trocamos de roupa. Clara colocou o usual maiô preto e um shortinho de ginástica azul escuro. Eu coloquei um shortinho preto de lycra que ia até um pouco acima da metade das coxas e uma camiseta branca bem larga. Eu odeio essas roupas, minhas sardas ficam a mostra!
Ficamos conversando até as 14:20, quando deu a hora de ir para o Jazz.
Entrei na sala, que havia sido reformada e agora estava mais bonita. A sala reformada não foi minha surpresa, minha surpresa foi ver quem estava ali se aquecendo.
Leo estava fazendo polichinelo junto com alguns garotos, entre eles estava Lucas, aquele garoto um ano mais velho que havia me chamado para ir ao evento.
Entrei na sala, sorrateiramente, esperando que nenhum dos dois me notasse, mas Lucas notou. Lucas notou e ainda teve a ousadia de gritar:
– Cami!
Todos olharam para mim. Leo me olhou da cabeça aos pés duas vezes e ergueu uma sobrancelha. Eu não podia ler mentes mas tenho certeza de que ele pensou algo como "desde quando você usa esse tipo de roupa?" e "por que não usa mais vezes?".
– Pessoal, façam seus pares, a aula vai começar! — disse a professora.
Ela era uma mulher esbelta com cerca de 26 anos. Sempre estava com os cabelos castanhos presos em um coque e usava roupas bem justas.
– Por que temos que fazer duplas? Nunca fizemos isso antes! — reclamou uma garota do fundo.
– Porque esse ano alguns de vocês fazem 15 anos e não querem passar vergonha na valsa, querem?- ela com certeza não queria que respondessemos. — Agora, façam as duplas!
Lucas segurou minha mão.
– Quer dançar? — ele sorriu.
Eu olhei para Leo, que parecia se entender com uma outra garota, então assenti com a cabeça. Ele passou um dos braços por minha cintura e o outro segurou minha mão, assim como a professora instruiu.
Ficamos dançando a mesma coisa durante uma hora e meia. Quando a aula acabou, eu peguei minha mochila e saí correndo para a piscina da escola. Mas ao chegar lá eu tive uma surpresa: a aula já havia acabado.
Ao que parece, uma garota passou mal e saiu vomitando. Eu deixei a mochila no corredor e entrei correndo. Fui até o vestiário da piscina, mas tudo que encontrei lá foram algumas mochilas e... Lara.
– Olha que bonitinha com esse shortinho! — ela apertou as próprias bochechas.
Recuei alguns passos até sair do vestiário, mas ela foi até mim.
– Me deixa em paz — pedi.
Ela era bem mais alta que eu, pelo jeito, também era mais forte.
– Você é ridícula — ela me empurrou.
Eu acabei escorregando na beira da piscina e caindo dentro dela. Tudo que ouvi foi a risada de Lara e o som de seus passos ao se afastar. Com algum esforço, me ergui com os braços e me sentei na borda da piscina, enxarcada.
Eu fiquei mal com aquilo. Mal por Clara não ter me avisado, mal por ter ido até aquele vestiário e mal por que estava muito frio lá dentro. Eu me levantei. Já sabia do que precisava.
Ao sair da área da piscina vi minha mochila jogada no chão do jeito que eu havia deixado. De certo modo, isso me aliviou, eu soube que me livro estava lá. Não precisei andar muito para achar o que procurava.
Leo estava bem a minha frente me olhando com olhos curiosos e ao mesmo tempo piedosos. Eu corri até ele e o agarrei pela cintura. Ele hesitou um pouco antes de retribuir meu abraço.
Eu estava totalmente molhada e estava molhando-o também, mas ele não ligou para isso, apenas me abraçou e me permitiu chorar.
Fale com o autor