Em Lucena, existia uma mansão. Um casarão de estrutura antiga e imponente, que se destacava pelo ar fantasmagórico. O enorme casarão sempre foi a casa de Juan e Cibele D’Ângelo. Apesar do clima lúgubre, os meninos da mansão eram crianças comuns, e, portanto, felizes.

O garotinho Juan amava brincar de se esconder com a irmã, e embora tivesse espaço de sobra nos jardins, a brincadeira era mais divertida entre as paredes do casarão Garcia. Sua irmã, Cibele, preferia brincar que era uma rainha, ou princesa; o casarão era o castelo, e o irmão era um dos seus serviçais.

Entre uma brincadeira e outra, os irmãos D’Ângelo ecoavam risadas no silêncio da casa. Porém, às vezes ouviam ruídos e tentavam disfarçar o susto. Entre os episódios de brincadeira, houve um dia em especial em que tudo ficou diferente.

No fato em questão, Juan tinha apenas dez anos, Cibele era apenas um ano mais nova, e os dois estavam aproveitando a dispersão da mãe para brincar de algo mais “divertido”.

Enquanto a irmã vigiava no corredor, Juan entrou no escritório, o local proibido.

— Olá?! — o menino falou na sala, imóvel. Obviamente sabia que não se encontrava ninguém no cômodo, mas os seres que procurava não eram deste mundo.

— Fantasmas não existem! — Cibele reapareceu na porta, meio medrosa.

O irmão gargalhou da menina que parecia estar quase chorando.

— Volte para o corredor! — O menino ria. Quando o garoto ficou sozinho no escritório, voltou a falar: — Senhor Fantasma, não tenho medo. Então, se puder aparecer para assustar minha irmãzinha...

— Ei! — a irmã falou do outro lado da porta.

Juan riu, depois fechou os olhos, e como se quisesse que o “ser” lesse seus pensamentos, começou a repetir várias vezes que precisava vê-lo para mostrar à irmã que ele existia. Falou também que já ouvira ruídos na mansão, e que só podia ser ele, já que não morava quase ninguém naquela casa. Por fim, Juan pediu que alguma coisa se mexesse para ele saber que não estava sozinho.

O garoto abriu os olhos. Esperou mais um pouco. A sala ficou tão calada que, quando pareceu ouvir um ruído, mal pôde acreditar.

— Vamos! — sussurrou com um sorrisinho.

Algo, ainda que baixo, havia ressoado.

Juan sentia-se corajoso, mas no momento em que algum objeto estalou na biblioteca, ele quase saltou para trás. Imediatamente teve vontade de correr para chamar a irmã, mas ouviu um estalo mais forte, engoliu seco e decidiu não se mexer.

— Oh, por favor! — insistiu o garoto, em uma espécie de chamado para o ser.

Mas nada mais se mexeu. Ele sorriu em agradecimento pelo pouco que tinha ouvido e saiu correndo para assustar a irmã.

— Corra, eu o vi! — Disparou pelo corredor, fingindo estar assustado.

A irmã correu em seguida, e Juan desacelerou para vê-la passar por ele apavorada. Riu da menina, sem que ela visse, e continuou a brincadeira.

Foi quando os dois corriam pelas escadarias que algo ruim de fato aconteceu.

A irmã gritou em seguida. Sem querer, Juan havia esbarrado em um dos tapetes, e para não cair, segurou-se em Cibele. Ajoelhando-se em um dos degraus, viu que ela não teve a mesma sorte. Cibele caiu e rolou escadaria abaixo, gritando. Juan ficou paralisado assistindo.

— Cibele...? — O menino foi em direção a ela. — Cibele! — sussurrou, assustado.

Quando o nariz de Cibele começou a sangrar, Juan chorou baixinho para que a mãe não descobrisse o que acabara de acontecer. Levantou a cabeça da menina e a colocou em seu colo. Estava de joelhos e segurando a nuca da irmã de forma apavorada.

— Acorde, ou vamos ficar muito encrencados! — falou para a irmã.

Ela não respondeu, e ele percebeu que suas lágrimas começavam a respigar sobre a irmã. Tirando a mão para limpar seu choro silencioso, sobressaltou-se ao ver mais sangue.

Havia sangue em sua mão. O líquido vinha da nuca da menina, mas poderia ser também do nariz.

— Mããããe!

Ainda com as mãos ensanguentadas, Juan soltou a menina. Perturbando-se com a situação, não deixava de se culpar. Uma voz em sua mente repetia inúmeras vezes que ele tinha matado a irmã.

Com isso, chorou ainda mais.

Olhava para o fluido vermelho em suas mãos. O garoto estava tão paralisado que mal percebeu quando a mãe se aproximou.

— O que aconteceu? — perguntou a mulher.

— E-eu... — gaguejou o menino. — M-matei... Matei a Cibele, mamãe!

— Não diga besteira, menino! — ralhou a mulher. — Sua irmã não morreu!

Ele, porém, não tinha tanta certeza, e não parava de alternar o olhar entre o sangue de Cibele e seus olhos fechados.

A mãe tomou a filha no colo e começou a subir as escadarias rapidamente.

— Chame o médico! — gritou ela, os olhos azuis pareciam desfocados, e de repente encarava Juan novamente. — Ande, menino, não está ouvindo?!

Juan encarou as mãos sujas e voltou-se para a mãe. Os olhos arregalados da mulher interromperam seus pensamentos assustados.

— Limpe as mãos antes! Vai logo, Juan!

Viu a mãe desparecer pelo corredor e limpou as mãos na roupa. Queria chorar ou fugir dali, mas nenhuma das opções deixaria sua irmã viva novamente. Pensar na possibilidade de nunca mais vê-la o fez lembrar-se da morte do pai, da qual nada sabia, pois a mãe não gostava “desses assuntos”.

Ele então disparou, precisava salvar sua irmã, precisava ser o homem que as duas não tinham para protegê-las. No entanto, na porta, havia um obstáculo.

O enorme senhor encarou o garoto com curiosidade. O Sr. Garcia era seu obstáculo, e antes de ele dizer alguma coisa, o garotinho já sabia que deveria contar tudo o que acontecia na casa para aquele homem, então se apressou em dizer, a voz embargada:

— Acho que matei a minha irmã, Sr. Garcia! Estou indo buscar o médico!

Sem dizer nada, o homem deixou o menino sair. Juan correu mais rápido do que em todas as suas brincadeiras com a irmã, pensando que, a partir daquele dia, se a irmã sobrevivesse, nunca mais a faria sentir medo.

Notas finais
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