Os erros de Rebeca Degustação
3 O tio fantasma (Parte II)
Notas iniciais
O sol ia embora, dando espaço para o cair da tarde. Henrique dirigiu seu conversível pelas ruas de pedra vagarosamente, como se estivesse apreciando Lucena. Rapidamente o céu nublado tomou conta, dando lugar às últimas sombras das casas de estilo Vitoriano. O tom cinza e o silêncio fantasmagórico faziam os dois se entreolharem, como se estivessem em um mundo diferente.
Rebeca observou a cidade com atenção. A praça com luminárias antigas e duas crianças brincando sem nenhuma supervisão de adulto. Aliás, não havia quase ninguém nas ruas de Lucena, e observado isso, uma mulher chamou as crianças pelos nomes, as duas voltaram para casa em seguida. As poucas pessoas na rua encaravam o carro, como se estivessem assustadas com os turistas.
— Que lugar esquisito! — Henrique exclamou depois de um tempo.
— Achei interessante — falou Rebeca. Observava um senhor com barba grisalha carregando uma mala com o escrito O VENDEDOR.
— Lucena me dá medo, isso sim! — Henrique chacoalhou o corpo como se estivesse se livrando de um calafrio. Ou afastando a morte, como diria a mãe de Rebeca. A simples lembrança da mãe naquele momento conseguiu alterar seu humor.
Rebeca encarou o namorado. Dirigindo, ele parecia tenso no banco. Henrique estava com medo.
— Parece que Lucena parou no tempo. — Ele deu uma risada nervosa, mas Rebeca não achou graça, virando-se para reparar nos detalhes da cidadezinha, quase que hipnotizada.
Henrique continuou dirigindo até o fim da única rua, que levou a um grande portão de grades enferrujadas em um desenho estilo gótico. Atrás dele, a casa era a maior de toda a cidade.
— Acho que encontramos a mansão de titio — debochou Rebeca, em estado de incredulidade e excitação.
Em seguida, Henrique observou o casarão e encenou um calafrio. Rebeca percebeu imediatamente a reação estranha do namorado e virou-se para ele de queixo erguido.
— Algum problema?
— Não — ele sussurrou dramaticamente. — Apenas um mau presságio.
— Deixe de ser medroso! — Ela sorriu, voltando a olhar o imenso casarão. — Não tem nada a temer!
Os dois deixaram o carro e abriram o portão sem esforço. Frente a eles, a casa era imponente; de fato, uma mansão. O telhado imitava torres de um castelo por seu desenho em cone, e intocáveis gárgulas decoravam o vasto jardim.
Rebeca ergueu o olhar. Havia ainda uma sacada, onde cortinas brancas esvoaçavam por causa do vento. Ela imaginou um homem observando toda a cidade naquela sacada, um senhor, na verdade, com semblante misterioso e um pouco infeliz com a solidão da casa. Seria esse o tio que esperava, um senhor avarento e egoísta em sua grandiosa mansão? Rebeca não saberia dizer, já que ele estava morto.
Ela caminhou na frente, e depois de alguns metros, estava na porta principal da casa grande. Henrique a seguia com hesitação.
Rebeca bateu a aldrava duas únicas vezes e não demorou para uma senhora abrir a porta.
— Entre. Você deve ser a senhorita Garcia.
Aparentando ter quarenta e poucos anos, o cabelo preto preso em um coque alto, a mulher encarou os dois por três segundos, fixando seu rosto oval em Rebeca.
— Sim, e a senhora é...? — perguntou Rebeca, reparando nos olhos vermelhos da mulher e na quantidade de linhas de expressão por todo o seu rosto. Observou o que a mulher vestia, um vestido preto comum e reto com um avental branco por cima, claramente uma empregada.
E se o tio Fortunato tivesse uma amante e a herança fosse toda dela? Até ontem, eu não tinha um tio, então como saber se ele deixou algo para outras pessoas?
— Apenas trabalho aqui, senhorita — respondeu a mulher, parecendo incomodada com os olhares de Rebeca. — Estou feliz em conhecer a sobrinha do nosso querido Fortunato.
Empregadas não falam o primeiro nome do patrão, pensou Rebeca, estreitando os olhos quase que sem perceber. A senhora a encarou de volta e limpou a linha abaixo dos olhos, como se esse fosse o problema da desconfiança da suposta sobrinha.
A pausa na conversa fez o silêncio se instalar entre o trio, e Rebeca e o namorado repararam na mansão de cima a baixo, como se estivessem deslumbrados demais para se lembrar de que a empregada ainda estava lá.
A enorme sala parecia ter sido decorada minuciosamente com tecidos em vermelho, incluindo o chão, que era de um vermelho vibrante. Os móveis entalhados em madeira antiga levaram os olhos de Rebeca a um piano mais à frente, com estátuas de animais e outras figuras ao lado. Uma dessas se destacava por dar a impressão de que estava em cima do piano, uma garça grande com as asas abertas. Tenebrosa.
E, enfim, havia uma escadaria luxuosa dando vista para um corredor longo, além de outros elementos que afirmavam que o velho Fortunato era rico.
— Se não se importarem, vou chamar os outros moradores da casa.
Rebeca, que não parou de observar a casa, apenas balançou a cabeça em afirmativa.
— Henrique... Acho que estou rica! — murmurou para o namorado. Mas antes que ele dissesse algo, os dois escutaram passos e mantiveram-se na defensiva.
— Não é preciso. Já estamos aqui — disse uma voz feminina. Rapidamente Rebeca se virou para ver a segunda senhora, ainda mais velha, encarando-a com olhos estreitos. Era uma mulher baixa e um pouco rechonchuda.
Em passos silenciosos, ela se aproximou, também com os cabelos presos em um coque de fios brancos. Andou em direção à Rebeca e estendeu a mão.
Rebeca ignorou e a velha voltou a mão para junto ao corpo. O olhar frio da senhora chamou sua atenção, era de um azul gélido que destacava as olheiras e rugas.
Não importava quem fosse, Rebeca decidiu não confiar naquela feição fechada.
— Sou a Sra. DÂngelo, a governanta — falou a mulher, com a voz muito arrogante para sua cara de anciã. — Caso estranhe nosso comportamento, somos quase parte da família, senhorita.
— Rebeca Garcia, a sobrinha — disse Rebeca, com um sorriso falso e ao mesmo tempo implicante.
Quando Rebeca semicerrou os olhos para a mulher, a Sra. DÂngelo desviou os olhos para Henrique.
— E o rapaz é...?
— Sou Henrique, o namorado.
A governanta nada disse, voltando-se para Rebeca novamente.
Outra pessoa surgiu na sala, uma jovem aparentando ter a mesma idade de Rebeca, porém, sem nenhum senso, usava uma camisola branca antiga em plena seis da tarde. Os cabelos de um castanho-claro estavam desgrenhados, mas os olhos eram azuis, como os da Sra. DÂngelo. Ela encarou Rebeca e sorriu.
— Cibele, senhorita. — Fez uma reverência para Rebeca, como se a própria fosse uma rainha.
— É um prazer — falou Rebeca, depois de rir escandalosamente. A governanta encarou Rebeca de cima a baixo. Seria o seu vestido justo demais?
Ela fez o mesmo, vendo a mulher usar o figurino preto de senhora e viúva.
Antes que alguém pensasse em dizer alguma coisa, algo peludo passou por entre as pernas de Rebeca, que instintivamente olhou para o chão, intrigada.
— Um gato — disse ela, com cara de nojo para o animal.
— Sim, essa é Ametista — disse Cibele.
— E tem um nome — falou Rebeca, fazendo careta.
— Parece ter gostado de você! — Cibele lhe deu um sorriso gentil.
— Oh, que ótimo! — ironizou Rebeca.
O bichano não parava de miar e se esfregar nas pernas de Rebeca, como se quisesse sua atenção, e ela então se ajoelhou para encarar o animal. A gata parou à sua frente, quase que olhando em seus olhos também. O pelo era preto e os olhos azuis tinham mais vida que os da Sra. DÂngelo.
— Que bichano HO-RRÍ... — Ela olhou para cima e viu o sorriso branco de um homem. — Lindo!
— É fêmea — falou o rapaz de cabelos pretos brilhosos, um sorriso sedutor desenhando sua face preocupada.
— É claro que é. — Rebeca deu de ombros, voltando a ficar de pé. — E o senhor é...?
O rapaz ficou em silêncio por alguns segundos, jogando os ombros largos para trás de forma confiante. Ele era alto e de postura rígida, que se desmanchava ao encarar o rosto sarcástico. Os olhos castanho-escuros pareciam agitados.
— Juan — disse ele, sorrindo ainda mais para Rebeca. — Juan DÂngelo.
— Rebeca Garcia — apresentou-se novamente, encarando o rapaz com contemplação e curiosidade.
— Vejo que conheceu minha mãe e minha irmã — ele falou com voz calma.
— Sim, a família DÂngelo... — Rebeca sorriu, fingindo cortesia.
— Que estranho, o Sr. Garcia dizia não ter contato com a família de sangue... -Juan disse o que todos pareciam estar se roendo para perguntar.
— E realmente não tinha — ela declarou com confiança, acreditando na própria mentira. — Uma vez minha mãe me falou sobre titio, mas quando ela desapareceu, fiquei sem família. Assim como tio Fortunato. E só agora o juiz me deu essa infeliz notícia.
— O Juiz Lorenzo? — perguntou a garota Cibele.
— Sim, o Juiz Lorenzo — repetiu Rebeca, e continuou: — Vou esperar por ele aqui em Lucena.
— Sua mãe desapareceu? — A Sra. DÂngelo falsamente ergueu as sobrancelhas.
— Sim. Mas não quero falar sobre isso, senhora...?
— DÂngelo — falou a mulher, parecendo irritada. — Enquanto espera pelo juiz, pode ficar aqui, se preferir.
É claro que ficarei aqui, é a casa do meu tio, e vocês são só empregados!, Rebeca queria dizer, mas ao invés disso, admitiu:
— Se não for incômodo... Quero dizer, vocês estavam aqui antes. Por que confiariam em uma jovem que apenas se diz ser uma sobrinha?
— Não confiamos em você! — A senhora DÂngelo sorriu com certa esperteza. O sorriso de Rebeca se desmanchou aos poucos.
— Mas você está em menor número — disse Juan, rindo. — A menos que o...
— Henrique — falou o namorado, que parecia estar invisível até então.
— A menos que ele fique e a proteja — completou Juan, achado a situação hilária.
Por que eu precisaria de proteção?, Rebeca parecia querer perguntar para o jovem DÂngelo, mas apenas sorriu.
— Não, ele não vai ficar — ponderou.
Ela mal conhecia Juan DÂngelo, mas uma voz interna dizia que ele estava flertando com ela. Ou querendo assustá-la.
— Sei me cuidar sozinha — falou ela, sorrindo para os membros da família DÂngelo. — Bem, já fizemos nossas apresentações e está tudo certo com a minha hospedagem. Agora, eu adoraria conhecer a casa.
Por uma fração de segundos, Rebeca viu Juan trocar olhares com a mãe.
— É claro — falou a governanta. — Vou chamar uma de nossas empregadas para lhe apresentar a casa.
— Enquanto isso, pegue minhas malas, Henrique — Rebeca ordenou. O namorado saiu.
Era um lugar desconhecido, rodeado de pessoas desconhecidas, mas nem por isso Rebeca teve medo de ser descoberta. Um misto de emoções passava por ela, mas não o medo. Pelo contrário, sentia-se revigorada e extremamente sortuda por estar ali.
Enquanto Henrique pegava as malas da namorada, Rebeca conheceu todos os cômodos, e em cada canto da mansão ficava mais deslumbrada. O casarão do tio fantasma era de fato um pouco assustador, no entanto, ao lado apenas da empregada que havia aberto a porta para ela, conheceu a suíte do tio Fortunato e sentiu seu coração palpitar em pensar que poderia ter aquele quarto.
Todos os cômodos pareciam ter sido decorados séculos antes. O escritório de Fortunato era na verdade uma enorme biblioteca com a foto do falecido: um senhor de cabelos brancos e barba. E então ela finalmente foi direcionada ao quarto de hóspedes da mansão. O quarto era maior do que o apartamento de Rebeca, e perfeitamente decorado também.
Vendo o dia ir embora, sozinha e em silêncio, tentou traçar um plano depois que Henrique foi embora. Mas quem ela estava querendo enganar? Rebeca não sabia fazer planos, sempre preferiu a emoção. E por essa razão resolveu conhecer a mansão sem ninguém por perto.
Após um banho relaxante no luxuoso banheiro, Rebeca escolheu um vestido mais leve, de tom branco perolado, o único do seu guarda-roupa, e caminhou para fora do quarto. Uma casa daquele tamanho devia ter algo mais.
Passeando pelo imenso corredor, devidamente decorado com mais animais petrificados e quadros emoldurados de pessoas, viu uma das portas meio abertas, com a luz acesa. O quarto da Sra. DÂngelo. E era a voz da senhora que vinha de lá...
— Sobrinha ou não, essa menina não pode ficar com o dinheiro!
Tentando não ser vista, Rebeca se aproximou e ouviu a voz da filha, Cibele.
— Que dinheiro, mamãe?
— Não é nada, querida, vá dormir — disse a Sra. DÂngelo.
— O Fortunato não tinha tanto dinheiro assim, mamãe. — A voz do homem surpreendeu Rebeca. Ela tentou espiar quem realmente estava no quarto.
Sentada na cama, a matriarca. Cibele estava deitada na outra cama de solteiro. Juan, na poltrona, mantinha a postura reta e o olhar misterioso para a mãe.
— Você que pensa! Ele sempre foi um avarento!
— O que é avarento? — perguntou Cibele, e um grande suspiro foi dado pela Sra. DÂngelo.
— E o que quer que eu faça? — Juan se virou para a mãe e, em tom sério, perguntou: — Mate a garota?
Rebeca percebeu que estava prendendo a respiração, mas se concentrou em ouvir a resposta.
— Ela parece ser bem esperta para outras alternativas. Sim, dar um fim nela colocaria a herança no nosso colo.
Rebeca ouviu passos dentro do quarto, talvez algum deles a tivesse visto espionar. Imediatamente e sem pensar em nada, ela correu para o seu quarto.
Desesperadamente bateu a porta atrás do corredor, encostando-se em uma das paredes para recuperar o fôlego. O coração estava acelerado, e as palavras ainda martelavam em sua cabeça: ...dar o fim nela colocaria a herança no nosso colo.
Com certeza eles perceberam sua presença!
Em seguida, ouviu ruídos do outro lado da porta. Fechou os olhos como se conseguisse imaginar Juan tentando a ouvir. Sua cabeça começou a latejar, as pernas ainda tremiam.
Entretanto, saber dos planos da família DÂngelo não surpreendeu Rebeca. Uma governanta que era tratada como se fosse da família era digna de desconfiança.
Em uma espécie de premonição, soube que correr depois de ficar à espreita para ouvir conversas alheias era a primeira coisa das muitas que teria que fazer para botar as mãos na herança.
Esperou mais um tempo. Nada. A casa ficou silenciosa novamente.
Pensar que seria fácil colocar as mãos na herança foi o segundo erro de Rebeca.
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