Notas iniciais
Oi! Se você chegou até aqui, que tal deixar seu cometário? Lembrando que a história é uma amostra.

O beijo foi feroz, porém sem nenhum sentimento. As bocas se encontraram de forma superficial, e apesar da velocidade da situação, tudo aconteceu quase que de maneira insignificante para um dos envolvidos.

Os dois estavam sentados no sofá verde-musgo, rodeados pelo silêncio no ambiente aconchegante do apartamento do rapaz. Ela se afastou do amante. Ele permaneceu a encará-la, o sorriso bobo de quem está em transe. Ele a amava. Isso estava claro.

Odiando constatar o fato, Rebeca se levantou rapidamente, para ficar longe dos braços dele.

— Às vezes me pergunto por que a senhorita é assim... — falou o rapaz. — Sempre se afasta de repente.

— E isso é ruim? — Rebeca tinha um sorriso mordaz, e na maioria das vezes conseguia fazer com que eles se apaixonassem por sua voz suave, quase que um sussurro de cobra.

— Não sei, senhorita. — O rapaz também sorriu, observando-a atentamente.

Não se enganava pelas feições angelicais. Rebeca tinha o rosto sereno, mas em seus olhos é que se escondiam sua verdadeira face, o castanho cor de mel: sagaz e indiferente ao que não lhe interessava.

O rapaz pareceu pensativo. Ela o encarou, confiante.

— Eu te amo — disse ele, arrebatado.

O rosto dela ficou sombrio.

— Cuidado com suas palavras, minha mãe costumava dizer que o que sai da boca nunca mais volta! — O tom irônico em sua voz não pareceu decepcionar o rapaz.

— Pois te amo mesmo assim! Mesmo que não se importe! — rebateu ele, levantando-se para ficar de frente para Rebeca.

Ela só não sente! Simplesmente não sente e não sabe como sentir.

— Até logo! — despediu-se Rebeca, caminhando para a porta.

Entretanto, o rapaz a puxou para dentro novamente e a beijou com mais emoção. Passeou seus lábios pelo pescoço de Rebeca, fazendo-a sentir arrepios por todo o corpo. Ela sorriu.

— Isso não foi nada bom! — Rebeca falsamente reprovava a atitude repentina dele de beijá-la daquele jeito, desprendendo-se dos seus braços grosseiramente.

Deixando o olhar triste do rapaz para trás, foi embora satisfeita. O prazer de ver aquele rosto bonito ficando triste por sua causa era gratificante.

O barulho dos sapatos de Rebeca ecoou pelo corredor do prédio. Ela caminhou confiante até o elevador, e quando a porta se abriu no estacionamento, examinou com cuidado o namorado Henrique, que estava à sua espera.

Henrique estava molhado dos pés à cabeça, provavelmente devido à chuva que Rebeca ouviu enquanto estava no apartamento do amante. Trair o namorado foi o primeiro erro de Rebeca. Mas, pelo sorriso que ele dera a ela, Henrique possivelmente não sabia de nada.

Enquanto Rebeca via os olhos dele piscando rapidamente atrás dos óculos, o namorado caminhou em sua direção, uma pasta preta do trabalho nas mãos. Ele retirou os óculos e, sem jeito, tentou limpar as lentes molhadas no terno encharcado.

— O que houve, Henrique? — perguntou ela, rindo.

— A previsão do tempo do Sr. Olivier parecia correta hoje de manhã — disse Henrique, como se estivesse lendo o que acabara de falar.

Rebeca fez uma careta.

— Não se pode confiar naquele velho. — E murmurou: — Três anos trabalhando na revista e nenhum aumento.

— Com certeza você merece mais, Beca.

— Não me chame de Beca!

— Tudo bem, meu amor.

— Nem de meu amor!

— Do que vou te chamar, então? — Henrique questionou com voz mansa, quase que com medo de que a pergunta soasse ridícula.

Rebeca ponderou. Os dois saíram andando entre os carros dos moradores do prédio. O lugar estava pouco iluminado e úmido, o cheiro era uma mistura do odor do mofo com outras coisas podres. Enquanto caminhavam, Rebeca desviava das poças de água, o salto tilintando.

— Se não sabe o que dizer, talvez seja melhor ficar calado.

Henrique não respondeu, nem mesmo se perguntou o que Rebeca fazia no prédio todas as terças e quintas. Tão ingênuo que por muito tempo chegou a provocar desconfiança em Rebeca. Porém, o que ela via atrás das lentes do rapaz era apenas um par de olhos castanhos sem graça. Henrique era certinho demais, isso incomodava Rebeca. O cabelo estava sempre devidamente arrumado, o aspecto molhado do gel disfarçava a cor clara dos fios. Do mesmo jeito que o Sr. Olivier fazia até pouco tempo atrás. Pensar na comparação do namorado com o seu patrão causava em Rebeca uma enorme repulsa.

A propósito, Henrique trabalhava como advogado do Sr. Olivier, e Rebeca escrevia para a Revista Olivier, e assim os dois se conheceram, entre máquinas, palavras e o ódio em comum pelo velho ignorante.

Ficava claro que na relação não havia amor em um dos lados. Mas Henrique era inteligente — apesar de Rebeca não admitir tal elogio -, e ela conseguia enxergar as vantagens de ter um namorado inteligente. Além do mais, Henrique poderia ser bem-sucedido, não fosse o seu azar excessivo.

Os dois se sentaram no carro, o Duesenberg conversível que Henrique ganhou do pai. E ele dirigiu até o pequeno apartamento da namorada em silêncio.

Há mais ou menos dois meses, Rebeca vinha sentindo que sua vida estava desmoronando. Ela costumava gastar com roupas caras, sapatos importados e bebidas da melhor qualidade. Porém, tinha consciência de que uma hora ou outra a merreca que ganhava trabalhando para o Sr. Olivier não cobriria mais suas despesas, e é claro que o patrão não aumentava o salário diante da crise de sua revista.

Chegando ao seu apartamento, um bilhete em sua porta dizia:

CARA SENHORITA GARCIA,

PAGUE O ALUGUEL EM TRÊS DIAS OU SUAS COISAS ESTARÃO NO CORREDOR PRINCIPAL NA SEGUNDA-FEIRA!

Rebeca puxou o papel e o amassou sem nem mesmo acabar de ler. Henrique encarou a namorada, que começava a ficar com o rosto vermelho de raiva, e ligando os fatos, propôs:

— Se você quiser, pode morar comigo.

Entrando no apartamento logo atrás dela, Henrique tropeçou em um dos sapatos de Rebeca, por pouco não levando uma queda.

Rebeca lançou um olhar matador na direção do namorado, que deu de ombros, amedrontado.

— Ou não...

— Com você? — ironizou ela. — Henrique, você está na mesma situação que eu! O Sr. Olivier também não te paga bem. E não preciso da sua ajuda! — completou, já com a cabeça latejando por não ter tanta certeza assim.

Pode ser apenas fome, pensou ela. Andou em direção à cozinha, o estômago roncando. Havia apenas algumas batatas e água. E quase que dizendo para si mesma, murmurou:

— Preciso comer, e depois achar uma solução.

— Se quiser, podemos ir àquele restaurante que você gosta — sugeriu Henrique. Ela fingiu não ouvir, parecendo ter outros planos. Então ele prosseguiu: — O Sr. Olivier está falido, os dias da revista estão contados. Por que não procura outro emprego?

Rebeca puxou o ar tentando não enfiar as batatas na boca do namorado para calá-lo.

— Ou venha morar comigo — Henrique insistiu.

— Eu prefiro morrer.

Ele ficou calado por alguns minutos.

— A revista está afundando. E você vai ser despejada.

— Estou acostumada com perdas. Vou dar o meu jeito! — Ela suspirou mais uma vez. Os dois se encararam na sala do apartamento, os poucos móveis de Rebeca denunciavam sua queda.

O barco estava afundando para a linda Rebeca Garcia, e o pior é que ela não tinha muitas opções. Avaliou a própria casa. Como não enxerguei a vida pobre que estou levando? Como pude deixar as coisas chegarem a esse ponto? Não tinha nem mesmo uma poltrona confortável, as paredes estavam cada vez mais rachadas, o lugar era horrível.

Rebeca fechou os olhos e por um instante pensou que iria chorar bem ali, na frente de Henrique. Se isso acontecesse, Henrique iria abraçá-la, e talvez fosse bom... Mas em seguida ela se lembrou de que não havia chorado quando o pai saiu para trabalhar e nunca mais voltou, ou no ano seguinte, quando a mãe decidiu fugir também.

— Sempre tem um jeito! — falou, voltando a acreditar que seria possível alguma... Não, não conseguia pensar em nada com a cabeça doendo daquela forma. -Preciso de uma oportunidade!

Henrique abriu a boca, prestes a dar mais um palpite para melhorar a crise em que Rebeca se encontrava, antes, porém, alguém bateu na porta. Ele caminhou para atender, e sem que Rebeca percebesse quem era, poucos segundos depois, Henrique voltou a encará-la, dizendo:

— Tem uma ligação para você lá embaixo. Disseram que é o Juiz Lorenzo.

Quem é Juiz Lorenzo? Nunca ouvi falar!

Minutos depois, ela segurou o telefone com curiosidade.

— Alô?

— Senhorita Garcia? — A voz do outro lado da linha era grave, e ao mesmo tempo despertou uma antipatia repentina em Rebeca.

— Sim.

— Tenho uma infeliz notícia — a voz masculina revelou, fazendo uma pausa, como se o que fosse dizer precisasse ser dito de forma cautelosa. Sem ouvir nenhuma reação de Rebeca, o homem anunciou: — Seu tio Fortunato faleceu.

Silêncio.

— Foi há dois dias. — Mais uma pausa. — Mas só consegui falar com a senhorita hoje, o corpo já foi até mesmo enterrado. — O homem ficou calado mais uma vez. — É a única parente viva que encontrei.

Tio? Que tio?, Rebeca desejou perguntar. Mas apenas continuou ouvindo a voz do homem. A conversa tomava um tom estranho. Ela não conhecia nenhum juiz. Muito menos um tio! No entanto, permaneceu na linha, segurando o telefone com força.

— Seu tio deixou o testamento com um amigo juiz. No caso, eu. Eu sou o Juiz Lorenzo. Dr. Lorenzo, se preferir...

Rebeca revirou os olhos para a risadinha sem graça do Doutor.

— Preciso saber se realmente falo com a senhorita Garcia, sobrinha de Fortunato Garcia — explicou a voz quando Rebeca permaneceu calada.

Ela precisava resolver aquela situação rapidamente, pois não havia nenhum tio. Poderia dizer ao Juiz Lorenzo que aquilo era um enorme engano, que tanto seu pai quanto sua mãe eram filhos únicos. Se bem que meus pais não estão aqui para confirmar. Porém, era um tio morto com um testamento de uma única parente. Escolher falar a verdade poderia deixá-la fora de encrencas. No entanto, e se o velho tivesse dinheiro?

— Sim, ela mesma — disse Rebeca, tentando parecer convincente. — Estou um pouco sem palavras pela perda de titio — mentiu ela.

Henrique, ao seu lado, arregalou os olhos.

— Imagino. Era um grande homem — falou o juiz, fazendo uma pausa, como se estivesse controlando a emoção. — Estarei em Lucena em dez dias para ler o testamento. Caso não saiba, Lucena é uma cidadezinha, fica a poucos quilômetros da Capital, senhorita...

— Sim, sim! Estarei lá! — Ela sorria, empolgada.

— Não é difícil encontrar a Mansão Garcia, todos conhecem o casarão naquela região. Avisarei à governanta para que receba a senhorita. É claro, se quiser estar presente na leitura do testamento, já que é a única parente viva.

Seu sorriso se alargou com a palavra mansão. Milagre ou sorte?

O juiz continuou a falar, mas Rebeca não conseguia ouvir mais nada, apenas pensava na mansão, e a sensação revigorante do que estava por vir a tomava. Que reviravolta!

— Até mais ver, senhorita!

Ao desligar o telefone, Henrique não respirava, esperando que Rebeca dissesse o que estava acontecendo. Mas ela parecia estar bem longe, devaneando, talvez planejando o que ia fazer com a herança.

— Rebeca?

— Algo estranho e bom está finalmente acontecendo — disse ela, com os olhos focados em um ponto fixo, sem piscar. — É a solução dos meus problemas, Henrique!

— O que aconteceu?

Rebeca ignorou a pergunta. Depois da ligação, até mesmo esqueceu a dor horrível que sentia na cabeça, sentindo apenas uma leve tontura e um estado prazeroso da possível vantagem.

Naquele mesmo dia, uma hora depois do telefonema, Henrique e Rebeca estavam a caminho de Lucena, enquanto ela explicava para o namorado o que nem ela havia entendido ao certo.

— Ainda não engoli essa história — falou ele, depois de ela relatar mais uma vez, já impaciente.

— Não tenho nada a perder — disse Rebeca. — Sem emprego e sem casa eu não chegaria tão longe. Foi você quem disse! — Ela sorriu ao tentar aborrecê-lo. Tinha a leve sensação de que sua intuição estava certa.

— Poderia morar...

— Olhe para frente, parece que estamos chegando! — Rebeca o interrompeu quando avistou a placa empoeirada da cidade: BEM-VINDO A LUCENA.

Notas finais
Bem-vindo, meu caro leitor! Você acaba de embarcar nesse mistério da cidade mais misteriosa que Rebeca já viu! Continue a jornada!