Os erros de Rebeca Degustação

7 Jogando com o inimigo (Parte II)


Notas iniciais
Último parte da degustação, obrigada por ter chegado aqui... Te vejo na Amazon, ok?

— Visitas? Quem é? — Ela melhorou o humor, ainda assim, achando estranho.

— Três rapazes. Disseram que são seus amigos.

— É claro que são — afirmou Rebeca, antes de encarar os garotos da noite anterior.

John sorriu assim que a notou descendo as escadarias com um vestido preto de corte simples. No entanto, usava luvas e outros adereços mais sofisticados, como o colar de pérolas que ganhara de Henrique e um chapéu inclinado de tela. Na boca, o batom vermelho destacava seus lábios. O cabelo havia sido preso, deixando alguns fios pendendo sobre o rosto.

O rapaz loiro de sorriso imbecil parecia mais sério hoje. O outro mexia no piano, tocando erroneamente enquanto Rebeca descia.

— Largue isso, seu idiota! — ela falou para o brutamonte que mexia no piano. Por alguns segundos, se sentiu dona da mansão, e, é claro, gostou da sensação. Afastou os devaneios e perguntou ao grupo: — O que estão fazendo aqui?

— Visitando dois amigos. A senhorita e o Sr. DÂngelo — respondeu o rapaz loiro, dando de ombros.

— Não sabíamos que era próxima de Juan — disse John, se sentando no sofá. Indiferente, Rebeca sentou-se ao seu lado, enquanto os outros dois pareciam nunca ter visto uma casa tão grande.

— Sou só sobrinha do Sr. Garcia, não sou amiga de Juan — respondeu rudemente Rebeca.

— É uma pena... — disse Juan, surgindo no batente da porta de entrada. E depois de chamar atenção de todos, entrou, satisfeito. — Pois eu te considero muito!

— Deu para notar ontem à noite — observou John. — Isso é jeito de se tratar uma dama? — John estendeu a mão para Rebeca, que a negou. Do outro lado da sala, os dois amigos ecoaram uma risada pela situação.

— A Rebeca não é uma... — começou Juan.

— Não sou uma dama? — Ela ergueu a sobrancelha, interrompendo. — Talvez esteja certo. Não gosto de ser tratada de modo diferente por ser mulher.

— É o que tento explicar para o Gárgula. — John tinha uma voz suave que soava de maneira cínica, assim como olhos dissimulados na presença dos dois. — Excluir a presença de mulheres no Clube é um grande erro.

— Se vieram aqui esperando algo da senhorita Garcia, acreditem, ela é bem esperta com imbecis como vocês — disse Juan, de braços cruzados.

— Obrigada pelo elogio, DÂngelo, mas dispenso — falou Rebeca, sem demonstrar surpresa pelo tratamento inesperado.

— Eu esperava mais consideração, senhorita. — John fingiu estar magoado. — Ajudei que a senhorita encontrasse o que estava procurando.

— No fim das contas, foi uma tragédia. — Rebeca olhou fixamente para Juan.

— Eu não estava mirando na senhorita — ele respondeu categoricamente.

Todos ficaram em silêncio, que logo foi quebrado por uma risada alta de John.

— Que tal uma partida de baralho? — sugeriu, tirando as cartas do bolso.

— Nem pensar! Caia fora daqui, John! — Juan disse, nervoso.

Nervoso demais, pensou Rebeca. Incomodado demais à menção do jogo.

Juan, com olhos atentos, encarou Rebeca e se voltou para John:

— Não estou interessado no seu joguinho ridículo!

— Pois agora eu estou! — decidiu Rebeca. John sorriu satisfeito. — O que foi, pequeno DÂngelo, está com medo de perder para mim?

Juan a encarou, sem reação.

— Esse jogo não tem ganhador. — Sorriu sem humor.

— Isso é verdade — disse um dos amigos de John.

— Você vai gostar, senhorita Garcia — prometeu John, então levantou-se e caminhou até o piano. Todos os outros o seguiram.

Rebeca viu John espalhar as cartas em um arco. Todas idênticas, a cor prata iluminando um grande S desenhado.

— E então, Juan? — perguntou John.

— Primeiro as damas — ele respondeu ironicamente, olhando para Rebeca de forma sombria.

— O que tenho que fazer?

— Tire uma carta. E vire. Depois deverá responder o que o jogo pede — explicou John, entretido.

Rebeca obedeceu, pegando a primeira carta da ponta. Virou e viu um leão desenhado. Um leão dourado que parecia ter sido caprichosamente pintado, com a boca enorme aberta e a juba tomando conta do resto do desenho.

— Em cada carta há um animal que representa um segredo — disse Juan, com ares de quem já jogara o jogo.

— O que quer dizer o Leão? — Rebeca perguntou com interesse.

— Um felino corajoso — John começou. — De fato, este jogo não mente. És uma dama de muita coragem! Já matou alguém, senhorita?

— Sem mentiras — zombou Juan, claramente interessado.

— Que jogo idiota! — Rebeca cuspiu as palavras, rindo.

Mas os garotos a encaravam com seriedade, todos ali pareciam levar a pergunta a sério.

— Sabe o que é mais engraçado no jogo? — John falou retoricamente, após ela ter ficado calada. — O jogo não mente... Caso nunca tenha matado alguém... Um dia isso vai acontecer.

Rebeca soltou uma gargalhada, mas os rapazes ainda esperavam pela resposta. Ela se voltou para Juan, que desviou o olhar imediatamente.

Que tipo de resposta eles estão esperando?, pensou.

Olhou para John em seguida, que não tirava o sorrisinho zombeteiro do rosto. Que jogo era aquele, afinal? Ela ficou tensa por um instante.

— Não sou uma assassina! — disse com convicção. Sentindo o ar da incerteza sobre sua coragem, falou: — Pegue uma carta, Juan!

Ele olhou fixamente para Rebeca. Seus olhos escondiam muitos segredos, e aquele baralho era perfeito para a ocasião. Virou uma carta, uma cobra. Uma cobra verde mostrando a enorme boca com presas venenosas.

— O que significa? — ansiosa, Rebeca perguntou.

— Estrangulamento ou veneno, como mata suas presas? — John riu olhando para Juan, que imediatamente ficou branco como papel.

Rebeca esperou pela resposta, e por algum motivo ela não gostou da sensação estranha que invadiu sua mente. Incomodada, começou a mexer as mãos. Lembrou-se então do barulho do tiro da noite anterior, a situação voltando à tona de repente, de forma real, deixando-a receosa.

— Odeio este jogo! — depois de um tempo, Juan respondeu. Cerrando os dentes, vociferou: — Caiam fora daqui!

— Responda, DÂngelo — Rebeca incentivou falsamente, com um sorriso mordaz.

— O que aconteceu com o meu amigo que gostava deste jogo? — provocou John.

— Parece incomodado. — Rebeca afastou um arrepio, fazendo graça com o garoto que conhecera na noite passada.

O rosto de Juan parecia cada vez mais pálido, ele estreitou os olhos e disse:

— Não preciso provar nada para um jogo idiota. Também não sou assassino, senhorita Garcia!

— Tem certeza? — perguntaram Rebeca e John em uníssono.

— Por que não pega uma, John? — ofereceu Juan. Rebeca encarou o rapaz, dando-se conta de que não sabia nada sobre ele.

— O baralho é meu! Eu dito as regras!

— Mas a casa é minha! — Rebeca e Juan falaram ao mesmo tempo. Os dois se viraram um para o outro.

Tio Fortunato se revirou no túmulo.

— Sendo assim... — John riu. Juntou as cartas e as colocou no bolso. Fez um sinal para os amigos e os três caminharam até a porta. Antes, porém, ele olhou para os donos da mansão. — Até mais ver, senhores!

Pensativa, Rebeca não respondeu, e então eles foram embora. Sem saber como explicar, ela suspirou, invadida por uma sensação de paz. Quando a porta se fechou, Juan olhou para ela.

— É preciso dizer que nenhum deles é confiável?

— E isso te inclui? — Rebeca disse cinicamente, um pouco aliviada por ter se livrado do trio. Mas sem esquecer as imagens e perguntas do baralho.

— É claro que sim! — Juan deu de ombros.

Sentindo a adrenalina pulsar nas veias, ela disse:

— O perigo sempre me atraiu.

Juan riu, com seu sorriso incrivelmente perigoso e lindo. Antes que ele respondesse, a senhora DÂngelo surgiu entre eles.

— Cibele piorou! — falou a governanta, com os olhos raivosos para Rebeca, que fingiu não ligar. — Ainda está chorando a morte da gata.

— Talvez devêssemos chamar o médico — disse Juan, com um ar preocupado de irmão.

Rapidamente, Juan subiu as escadarias atrás da mãe, indo ver a irmã. Rebeca ficou sozinha com seus pensamentos.

Há algo muito errado com a garota Cibele...

Ela seguiu os dois e, sem entrar no quarto, viu a DÂngelo mais nova delirando de febre. Ao seu lado, Juan conversava com a mãe aos cochichos. Depois de receber mais um olhar pesaroso da Sra. DÂngelo, ela decidiu deixar a família em paz, caminhando até o escritório de Fortunato.

O cômodo era espaçoso, e ela deu uma boa olhada no lugar antes de ir à procura de mais tesouros. As prateleiras estavam devidamente organizadas, como se os livros fossem uma pintura na parede. Um quadro apresentava um homem maduro, com feições fechadas, de sobrancelhas quase unidas de tão sério. A barba estava comprida e tinha alguns fios brancos, o que indicava que a pintura devia ser recente. Ele estava sentado na poltrona do próprio escritório, pois ela reconheceu a cor da mesma, que, a propósito, estava ao seu lado. Havia ainda uma escrivaninha com alguns livros em cima.

Rebeca encarou a poltrona, tendo a visão do senhor do quadro sentado bem ali enquanto lia um livro grosso de mistério. A Sra. DÂngelo bateria na porta dizendo que o jantar seria servido, mas ele ficaria incomodado por estar sendo interrompido na melhor parte do livro. Mesmo assim, Fortunato iria agradecer e desceria logo em seguida, quando o mocinho da história encontrasse o verdadeiro assassino... Ela balançou a cabeça, sentindo medo dos próprios pensamentos.

Um barulho.

Rebeca virou-se, assustada. Era apenas um livro que se desvencilhara da estante. Ela caminhou até o livro grosso de capa vermelha e retornou o mesmo para a estante. Não antes de folhear as páginas amareladas. E para sua sorte, encontrar algo interessante.

A figura quadrada que encontrou no meio do livro era na verdade um retrato. Ela reparou na feição jovem de Fortunato Garcia, depois olhou para a jovem mulher que estava ao seu lado. O cabelo longo e negro, o rosto angelical que conhecia bem; ela teve certeza: era sua mãe.

Rebeca ficou em choque por alguns instantes, mas, enfim, não pôde mais duvidar. Era sua mãe, abraçada ao tio Fortunato. Ela riu ao pensar que sim, havia a possiblidade de ser mesmo sobrinha do rico Fortunato.

Caminhou até o quarto da Sra. DÂngelo e, com felicidade, disse aos moradores da casa:

— Olhem a foto que encontrei no escritório de titio.

A Sra. DÂngelo largou a mão da filha doente e arregalou os olhos velhos perante a fotografia. Ninguém disse nada, o que só aumentou sua felicidade.

Rebeca saiu do quarto com apenas um pensamento: o tio não se incomodaria se ela se mudasse para a suíte da mansão. Não que o quarto de hóspedes fosse ruim, mas a cama era um pouco dura. Ora, quem ela estava querendo enganar? Era a herdeira daquilo tudo, e agora preferia ficar no melhor quarto.

O quinto erro de Rebeca foi não esperar que ser a sobrinha legítima de Tio Fantasma trouxesse suas consequências.

Notas finais
E aí? Gostou? Então recomenda, favorita, deixa sua opinião e o mais importante: Corre pra Amazon para ler o resto, são 13 capítulos ao todo, e tenho certeza que o FINAL é surpreendente! Obrigada! Até a próximaaaa.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!