É preciso respirar o ar desprezível de Lucena. O cheiro deteriorado, Rebeca conheceu de perto. Uma cidadezinha onde a hospitalidade do povo diz muito sobre ela.

Atrás da mansão, a uma distância considerável da cidade, uma luz se destaca na iluminação lúgubre de Lucena. Rebeca, que não encontrou ninguém nas ruas naquela noite, a não ser corujas com seus imensos olhos inquisidores e um corvo crocitando, foi dominada por uma sensação sombria que percorreu todo o seu corpo em forma de arrepio. Afastou tal sensação e caminhou até o ponto de luz mais forte. Andou na penumbra até o destino, uma casa inclinada rodeada por sujeitos curiosos.

Melhor ainda, tinha sido atraída pelo cheiro do inimigo. Juan caminhava à sua frente. Ela estava à espreita.

Névoa rodeava a casa de janelas com vidros quebrados, mas a parte de cima era mal iluminada para se notar algo estranho. O portão era totalmente coberto, parecia controlar quem entrava. O que chamou sua atenção foi o fato de homens entrarem e saírem alegres.

Rebeca conseguiu até mesmo sorrir quando percebeu que aquilo se tratava de uma festa, ou o tipo de lugar masculino para beber e fazer apostas de jogo. A música alta era um jazz dançante... Porém, sem mulheres. Isso a incomodou de início, mas havia um motivo maior para ela entrar ali.

Conhecer o inimigo é importante para se ganhar uma guerra.

Sem que fosse vista, Rebeca observou Juan DÂngelo entrar no Clube. Logo após, aproximou-se do lugar. Porém, foi barrada por um homem alto de cabelos pretos amarrados para trás, o sorriso perigoso anunciou com voz grossa:

— Aqui não é lugar para você, garota!

— Ah, é? E por quê? — questionou Rebeca, sem medo algum.

O homem soltou uma risada e depois tossiu com bafo de álcool. Rebeca tentou se aproveitar para passar pela porta, mas o homem a puxou para fora segurando em seu braço, quase como se ela fosse de papel e não tivesse feito esforço nenhum.

— Estou sendo bonzinho em dizer que este não é um lugar para...

— Então seja mau e me deixe entrar! — Rebeca provocou, sorrindo com astúcia para o homem. — O que você quer? Dinheiro?

Ela tentou olhar para além do homem, o lugar parecia abafado, e de fato não conseguiu ver nenhuma mulher. Apenas homens bebendo e gritando uns com os outros.

— Vá embora! — gritou ele, fechando ainda mais o portão.

Rebeca sentiu o rosto queimar, prestes a respondê-lo à altura, mas uma voz chamou sua atenção.

— Espere, Gárgula! — alguém disse. Rebeca se virou para ver o rapaz, que continuou: — Ela está com a gente. — Do seu lado, mais dois rapazes. Os três olhavam Rebeca como se fossem um trio de lobos famintos. O que havia falado tinha um charme arrebatador, apesar de ainda parecer um menino para Rebeca. Seus olhos eram rápidos como os de um gato assustado, o castanho vibrante que combinava com o cabelo liso castanho-claro. Ele sorria para ela, e sua expressão era enfatizada pelas sobrancelhas grossas.

Gárgula abriu o portão e semicerrou os olhos para Rebeca, que continuou a encarar o garoto que dissera tamanha mentira. O rapaz mantinha o sorriso malandro, quase tão bonito quanto o de Juan. Os três garotos passaram pelo portão sem refazer o convite. Rebeca entrou em seguida, dando um sorriso implicante para Gárgula.

Quando finalmente estava dentro, procurou Juan com os olhos. O lugar abafado estava cheio de homens estranhos e com sorrisos perigosos para ela. Começou a andar, e quando o garoto que a ajudou a entrar passou na sua frente como um gato rápido, ela se esquivou.

— Aonde pensa que vai? — disse ele. — Você me deve uma, eu te ajudei a entrar.

— Legal da sua parte, mas estou procurando um amigo — respondeu ela, tentando desviar; agora dos três.

— Não antes de jogar uma partida de snooker. — Ele sorriu. — Sou John, e esses são meus amigos... Quem liga para seus nomes? — fez piada. Enquanto os amigos davam socos em seu ombro, Rebeca cruzou os braços, sem achar graça.

— Eu não ligo para o nome de vocês. E não vou jogar isso — disse ela.

— Olha só, John, ela está se fazendo de difícil... — disse o loiro que não parava de sorrir.

John se aproximou de Rebeca, que não se mexeu quando ele falou perto do seu rosto:

— Não é assim que se trata amigos que te ajudam. — Rapidamente, ele ficou sério e perguntou: — Qual é o seu nome?

— Rebeca — respondeu depois de alguns segundos, com os olhos estreitos.

— Então, Rebeca, você e eu vamos jogar snooker contra os palermas ali. E é melhor você ganhar, ou não vai sair daqui hoje! — falou John.

Rebeca deu de ombros e sorriu como se não tivesse a maior chance daquela situação.

Ela, John e os rapazes caminharam até a mesa de bilhar. Não deixou de reparar que chamava atenção por onde passava; não se incomodaria, se o lugar não fosse estranho e cheirasse a tabaco e álcool. Um dos garotos arrumou os tacos, enquanto John e o outro não paravam de encarar Rebeca.

— O que foi? — perguntou ela, meio arrogante. — Nunca viram uma mulher?

— Não aqui — respondeu o rapaz moreno de feição fechada.

— Ele está certo. — John passou por trás de Rebeca, segurando em sua cintura, o que Rebeca acreditou ser um flerte sem sucesso. Ela se esquivou. — Quem é você, Rebeca? Nunca a vi na cidade.

— Talvez esteja ocupado demais bebendo neste lugar! — disse ela, indiferente. — A propósito, que lugar é este?

— É o Clube — respondeu o rapaz que estava escolhendo os tacos. John encarou o amigo com deboche.

— Pare de tentar escolher o melhor taco! Você não vai ganhar, de qualquer forma — provocou John. Os três acharam graça.

Rebeca aproveitou para procurar Juan. E, por sorte, o encontrou a uma distância considerável, o suficiente para não ser vista. DÂngelo conversava com um cara forte que aparentava ter uns quarenta anos, os dois estavam sérios. O mais velho possuía cabelos brancos, porém tinha uma boa aparência.

— Quem está procurando? — John perguntou quando ela se voltou para a mesa.

— Ninguém.

— Parece que está, sim! — disse o rapaz de cara fechada.

— O que veio fazer aqui? — John quis saber, se escorando em um dos tacos do jogo. — Rebeca... — Ele parecia pensar. Fechou os olhos por um instante e voltou a abri-los rapidamente, como se soubesse exatamente de todos os segredos dela. Sorriu com esperteza. — Não me diga que é Rebeca Gar...

— Não é da conta de vocês! — Rebeca rebateu. — Mas já que faz tanta questão, sou Rebeca Garcia. — Ela sorriu. — A garota mais rica da cidade. — Arrependeu-se logo que fechou a boca.

— Eu não sabia que o velho tinha parente — John ponderou de forma sarcástica.

— Pois é, nem eu! — acrescentou Rebeca. Tomou um dos tacos das mãos dele, como se quisesse acabar com aquilo de uma vez.

Ela encarou as bolas do jogo e se voltou para John, que fez um sinal de que seria a primeira. É claro que Rebeca já conhecia aquele jogo, porém, por ser uma garota, em lugares como aquele, estaria ocupada com outros afazeres, como seduzir o homem que estivesse ganhando, portanto, jogar não seria fácil para ela.

Contudo, depois de analisar as bolas, confiante, ela se inclinou sobre a mesa. Segurou levemente o taco, e como uma boa jogada pedia cálculo, demorou mais um tempo. Escutou a voz de John, que gritou sobre a música alta:

— Rebeca... Garcia, jogue logo, querida! Sei que temos a noite toda, mas... — Ele não completou, pois ela lançou o taco, e no momento exato que acertou as bolas, um barulho maior caiu sobre eles. Instintivamente, Rebeca cobriu a cabeça, vendo os cacos sobre a mesa.

Era tiro.

O barulho silenciou o lugar. Por alguns segundos, Rebeca continuou inclinada sobre a mesa, mas quando olhou para cima, percebeu que a maioria das pessoas havia se jogado no chão, e aos poucos se levantavam. Ainda travada, ergueu a cabeça e encontrou Juan na sua frente, encarando-a com uma arma na mão, posicionando-a em sua direção.

Juan fez um sinal com a cabeça, indicando que ela fosse com ele. Um pouco tensa, Rebeca sorriu. Passando pelos homens de olhos arregalados, viu que Juan ainda mantinha a arma apontada para si, caminhando logo atrás dela.

Os dois saíram do clube. Passando por Gárgula, Rebeca não notou nenhuma reação em seu rosto quando viu Juan passar com a arma pela porta, como se estivesse a par das cenas que se seguiriam.

Já do lado de fora, Rebeca e Juan ficaram frente a frente. Ele parecia estar com as pupilas tremendo. Com o rosto tenso, abaixou a arma.

— Isso tudo só para me mandar embora? — Rebeca deu uma risada nervosa, tentando demonstrar confiança.

Sob a noite escura, ninguém saiu do clube. É muito estranho todos permanecerem no lugar depois de um tiro! Talvez ninguém queira testemunhar minha morte.

Mas Rebeca estava errada, o lugar não se parecia com os clubes que já tinha frequentado; pelo ritmo que seguia, era um pandemônio.

— Você me seguiu até aqui? — Juan perguntou guardando a arma. Rebeca tentou avaliar o gesto de alguém que teve a oportunidade de matá-la, mas não o fizera.

— Talvez. Por que eu confessaria? — disse ela, rindo.

— Sou eu que faço as perguntas, senhorita.

— Sr. DÂngelo, sua mãe sabe que frequenta esses lugares e distribui tiros sem que ninguém ache estranho? — Ela ergueu as sobrancelhas ironicamente. Cruzou os braços sobre o peito, não demonstrando nenhum medo, embora as pernas estivessem um pouco trêmulas.

— Você não deveria estar aqui — observou Juan.

— Mas estou, e o que vai fazer?

— Vem, vamos embora! — Ele a segurou pelo braço. Porém, ela ergueu as mãos, como se dissesse vou sozinha. Achava que não seria inteligente da sua parte descordar de alguém com posse de uma arma.

— E então, o que foi aquilo? — perguntou Rebeca, agoniada com a série de arrepios que tomou seu corpo enquanto caminhavam pelas ruas pouco iluminadas de Lucena.

— Não é da sua conta!

— Incomoda-se tanto com a minha presença? — arriscou ela, com o frio batendo no rosto.

Juan desacelerou o passo, menos impaciente. Os dois se encararam, e ele foi primeiro a rir, para sua surpresa.

— Você não sabe o quanto! — confessou ele, voltando a andar. E parecendo se arrepender de sua mudança repentina, esbravejou: — Chega de conversa! Não me faça lamentar por eu ter errado aquele tiro, senhorita! Se quer permanecer nesta cidade, é melhor que me escute: não volte àquele lugar! Não me siga e pare de perambular por aí sozinha, está me entendendo?

Rebeca assentiu, insatisfeita, não deixando de notar que as veias de seu pescoço ficavam cada vez mais altas quando ele falava e como ficava ainda mais bonito quando a encarava com seriedade.

— O que foi desta vez? — perguntou Juan.

— Ora, nada! — falou ela, soando áspera por estar pensando nele daquele jeito. Definitivamente, Lucena estava agitando suas condutas diante de um perigo.

Os dois aproximaram-se da mansão sem dizer mais uma palavra. Juan se despediu de Rebeca com uma leve inclinação de cabeça e caminhou em direção a uma casinha meio escondida no imenso jardim que não havia sido notada por ela.

— Aonde vai?

— Dormir, já está tarde. Bons pesadelos, senhorita Garcia! — brincou Juan, virando-se novamente.

— Por que não mora na mansão, como os outros? — questionou Rebeca. Sem nenhuma resposta, disse com deboche: — E por que não me matou hoje?

Juan sequer olhou para trás quando falou:

— Fica para outro dia.

De fato, Rebeca teve pesadelos naquela noite. E todas as outras noites que passou no casarão foram tenebrosas. Pesadelos onde se perdia na mansão. Ou que era desmascarada pelo próprio tio fantasma que reaparecia. Mas sempre acordava pela manhã com a certeza de que não desistiria da fortuna.

— Olá, senhorita! — assim que Rebeca saiu do quarto, uma das empregadas lhe cumprimentou. Ela a encarou e deu um sorriso de quem não estava a fim de responder. Saiu andando pelo corredor, mas a mulher acrescentou: — Ah, senhorita, tem visitas!

Notas finais
—_- Quem será que visitou Rebeca? Diz aí nos comentários... Agora vamos para a última parte da Amostra! ;-)