Os dias da Ira
6 Distância
Notas iniciais
Montes Urais (Miass)
(rumo a) Base de Abzu
Novembro 2012
Desde o dia em que enterrara um corpo numa vala aberta por si, num desprezo total, Sasha ficara conhecido entre os escravos como o menino de gelo. Pela frieza silente das atitudes, pelos olhos congelados, num conter de emoções que apagava, dispersas no vazio que se parecia o seu ser.
Enquanto Sasha se perdia na imensidão das planícies dos Montes Urais, afastando-se irremediavelmente das fronteiras do seu antigo ser, algo em si morria na vala que abrira para aquele homem. Entre o topo e o fundo da cova, apenas os limites ténues de uma alma de criança o poderiam prender. Mas soltou-se. Agora apenas a fúria incontrolável de vencer, a sede insaciável de brotar mais forte, mais inabalável e de existir. Apenas ser. Forte e inimitável. Deixar de ser Sasha, para existir, Chanceler.
O Guarda olhou impressionado o menino que acabara de enterrar a morte num buraco cavado pelas suas próprias mãos.
Sasha mantinha-se imperturbável e tranquilo, dirigindo-se de novo à beira rio, enquanto todos lhe abriam passagem. O seu corpo pequeno atravessou os grandes físicos adultos estupefactos e sentou-se na margem do rio, limpando a terra das mãos, retirando restos de ervas e de sujidade enterrados nas unhas com uma minúcia que espantava.
Olhava apenas a água gélida e transparente com que se limpava, abrindo pequenos carreiros com o dedo e fazendo desenhos imperceptíveis deformados no líquido informe.
Deixou-se estar sentado na margem enquanto o tempo se abatia no céu acima, dando sinais de tempestade. A água caía, primeiro com pequenas gotas leves que lhe lavavam o rosto, depois com a força livre que se abatia pesada e em gravidade sobre o monte.
Os homens precipitavam-se para uma pequena barraca de recolha de objectos pastorícios, deixando entrar primeiro os que se encontravam mais debilitados. Um deles aproximou-se de Sasha, que permanecia sentado na margem, vendo o rio agitar-se.
— Anda para dentro, daqui a pouco o rio começa a galgar as margens. – Falou-lhe paternal, poisando-lhe a mão coberta de água no ombro encharcado do menino.
Sasha permanecia em silêncio, o pequeno corpo franzino imóvel, recusando levantar-se.
O homem olhou para os outros, encolhendo os ombros, rendido à incapacidade de lidar com aquela criança. Retirou suavemente a mão do menino, sentindo por ele uma leve tristeza, como se antevisse naquela “cria” uma alma a lutar, não para viver, mas para ser. Algo, alguém, alguma coisa que ainda não percebia.
Dirigiu-se à cabana, pequena demais para tantos escravos, aninhando-se à entrada, olhando à distância para Sasha, que não saía do lugar que escolhera à beira rio.
O céu pintou-se de negro e as nuvens carregadas sobrepunham-se agitadas. Sasha sentia o vento uivar, assobiando-lhe na pele, a cortá-la, adormecendo-a. As horas passavam ligeiras e a água começou a atingir as margens, furiosa e veloz.
Olhou para as escarpas que se erguiam elevadas, e vislumbrou uma pequena gruta onde se abrigavam os guardas.
A água subia-lhe gélida até aos joelhos já arroxeados. Levantou-se obstinado e dirigiu-se a uns pequenos degraus desenhados pela erosão nas rochas.
Subiu com cuidado os degraus de pedra escorregadios, molhados e cobertos de musgo. Eram pequenos demais para o seu pé, colocando-se de lado, escalando o íngreme penhasco. Já no último degrau, ouviu as gargalhadas alarves dos guardas, que contavam piadas. O menino manteve-se encostado às rochas, vendo em baixo o declive onde o verde se abatia contra a pedra. A pequena cabana de palha antevia-se minúscula do cimo do monte. Nada daquilo importava. Os escravos eram desinteressantes. Sasha desviou o olhar, levantou um pouco o corpinho baixo erguendo a cabeça, para conseguir ver melhor o abrigo dos guardas.
Um deles, com o emblema de Capitão, estava no exterior, a vigiar a pequena palhoça, sozinha na orla. Vislumbrou uma cabeça loira palha, empinada na rocha e dirigiu-se ao menino.
— O que é que estás aqui a fazer? – Segredou-lhe, mais par o afugentar, do que em pergunta.
O menino olhou inflexível para ele, subindo cauteloso o último degrau que lhe restava. Estava agora frente a frente com o Capitão da Guarda, sorrindo-lhe, triunfante. Na gruta o crepitar do fogo aceso no chão, chamava-o acolhedor.
Os quatro guardas que se encontravam no interior olharam admirados para o menino.
— Ora, ora, se não é o nosso pequeno herói, que nos poupou de abrir uma cova. – Proferiam trocistas.
— Fizeste-te homem, cria. Um pirralho minorca como este a abrir uma cova! – Dizia um, a gargalhar, orgulhoso da sua piada.
Poisou o braço no ombro do outro guarda que se encontrava ao seu lado e dobrava-se de riso. Sasha olhava-o comprimindo os lábios, os olhos cerrados semelhantes a duas linhas, fumegantes de raiva.
— Para a cabana! Acabou a brincadeira! – Gritou-lhe o Capitão de olhar ameaçador, cerrando os punhos. – Sua cria desnaturada, voltas comigo para baixo! – Gritou a Sasha, puxando-o pela camisola, arrastando-o consigo.
Desceram os degraus dois a dois, numa velocidade furiosa. Sasha ia empurrado pelo Guarda que lhe bradava, estremecendo os pequenos tímpanos da criança.
— Ninguém ousa dirigir-se a nós, seu petulante. És criança demais e já demasiado arrogante para te redimires. Não sei o que me deu na cabeça para te aceitar como escravo! – O homem gritava-lhe tão perto dele que Sasha semicerrava os olhos, desviando-se. A chuva caía-lhe compacta no corpo já gelado.
Ao descer o último degrau, atirou-o para o chão. Sasha caiu para a frente, amortecendo o impacto, levando as mãos ao solo.
O escravo que se tinha dirigido a ele, voltava a aproximar-se, estendendo-lhe a mão, que o menino recusou, levantando-se sozinho.
O homem falou, devagar, ao pequeno.
— Estás bem? – Perguntou-lhe, poisando-lhe a mão na cabeça. – Chamo-me Daniel...Bruun. – Falou-lhe, sereno.
Sasha baixou os olhos para o verde. A chuva parecia não abrandar.
— Pensava que nós não tinhamos nome… – respondeu-lhe desafiador.
— Eu tenho. – Disse-lhe simplesmente Daniel, levando-o até ao casinhoto de palha onde os outros escravos olhavam os minúsculos pontos dos dois que se desenhavam na clareira.
— Tenta não te meteres em confusões. E vai para dentro para te secares.
O menino virou-lhe costas sem lhe responder. Seguiu pelo verde e dirigiu-se à palhota, onde os outros homens o aguardavam entre sussurros e murmúrios. A cabana abarrotava de escravos que se encolhiam, encostados uns aos outros e de pé, para terem um espaço fechado onde estar. Dos minúsculos buracos do telhado de colmo, gotejava a água que batia de encontro a terra enlameada numa melodia enervante.
— Este miúdo é de gelo… – Diziam os homens enquanto o menino abria caminho até ao fundo, até encontrar um canto exíguo onde o seu pequeno corpo coubesse, para se sentar. Sasha ouvia as vozes baixas e evitava os olhares oblíquos que lhe lançavam. Recolheu-se, deitando a cabeça nos joelhos. Um escravo de dentes apodrecidos, e o cabelo cheio de falhas de desnutrição, aproximou-se dele, tomando-o rispidamente pelo braço.
— Ele era um de nós…como és capaz de estar assim tão calmo? Não tens coração? – Gritava-lhe, de forma bruta.
Sasha não respondia, fixando o olhar no rio cada vez mais longe da margem.
— Tu és um monstro! – Continuava o homem, largando o braço magro do menino, agitando a sua mão calejada e forte, numa cólera mal contida. Vendo a inacção do miúdo, virou-lhe costas, a abanar a cabeça, enquanto todos os outros olhavam a criança com um olhar estranho.
A noite caía certeira no céu cinzento. Sasha poisou uma vez mais a cabeça loira no colo e fechou os olhos, indiferentes àquele lugar cheio de homens sedentos de vingança.
O jovem homem com quem falara no início da tarde voltou a dirigir-se a ele, percorrendo o caminho até ao menino enquanto todos os escravos se afastavam. Sasha sentiu-o aproximar-se e respirou fundo, desejoso de um pouco de descanso. O outro escravo baixou-se, falando com ele, em tom tolerante.
— Olha miúdo, eu não sei porque razão uma criança quer ir para a Base, mas o que tu fizeste foi desumano. Até para nós, que somos adultos. Tu precisas de alguém que cuide de ti, não que acabe contigo. Deixa-me tomar conta de ti, miúdo.
Sasha levantou a cabeça bem alto para o homem, mostrando que não tinha qualquer medo ou anseio. Nunca ninguém tinha sido brando para ele. Nunca tinha sentido qualquer tipo de afecto. A não ser, brevemente, pela sempre “sua” Valentina. A mente fechava-se em dúvida. O que lhe quereriam?
Levantou-se de rompante do chão de terra da cabana e fixou os olhos sem expressão no homem, que recuou, arrepiado.
— Eu sou um homem! Não sou mais um miúdo. Posso muito bem cuidar de mim. Cuidei a vida toda de mim, agora também posso continuar sozinho. – Disse, retirando a camisola verde escura já rasgada e gasta do corpo, que estendeu no chão, deitando-se esgotado por cima. Adormeceu, mesmo com as conversas indignadas, imune aos burburinhos.
Daniel dirigiu-se à entrada da cabana e sentou-se, evitando o cheiro a suor do interior. Olhou para dentro, o pequeno abrigo estava cheio de pessoas, que se revezavam em pé para se sentarem. Tudo era preferível a estarem no exterior, onde a noite trouxera temperaturas negativas.
Sasha dormia, placidamente, no fundo da palhoça. Era um ser estranho. Pensava o homem. Nem adulto, nem criança, nem humano. Devia ser triste a sua história, como seriam todas aquelas de pessoas que se perdem nas margens do seu ser.
Olhou para cima, onde os guardas ainda se encontravam abrigados, no calor do fogo que cintilava distante.
— Que raio de guardas são estes. Nem uma tempestade conseguem enfrentar. – Confidenciou baixinho para si, sorrindo em ironia, de olhos assentes na terra daquele solo. Adormeceu também no exterior, cansado de vigiar o rio que crescia, abundante.
Acordou horas depois, com as vozes inquietas dos escravos que corriam. A cabana estava alagada, invadida pela água que não cessava de jorrar. Os restantes escravos saiam delirantes para o exterior, onde os guardas tentavam, inutilmente, reuni-los na clareira.
A água saía da cabana arrastando a terra com uma robustez destruidora, arrancando as pequenas vigas de madeira. A entrada da cabana caiu, num estrondo e o homem correu na direcção do grupo. Aproximou-se deles e contou os outros escravos um a um. Olhava para o grupo e embrenhou-se mais no seu interior.
— Onde está o miúdo? – Perguntava aflito, percorrendo com os olhos os vultos à espera de resposta.
E como se a mente se antecipasse, correu para a cabana, onde Sasha chamava, em gritinhos já fracos, a implorar ajuda.
Procurava arrancar os pedaços de madeira caídos na entrada da cabana, tentando alcançar o menino. Falava com ele, tentando acalma-lo, enquanto o menino gritava, fechado e com a água a subir-lhe pelo corpo, quase sem respirar.
— Tem calma, Sasha. É o Daniel. Eu vou tirar-te daí. Não grites, tenta acalmar-te para não ficares sem ar.
Sasha agitava-se no interior, enquanto a água o afligia, a gelar-lhe todo o corpo.
O homem puxava com toda a sua força as traves de madeira, atirando-as para longe. Os Guardas olhavam-no, estupefactos com o esforço que fazia para salvar um outro escravo.
Daniel escavava com as suas mãos na terra enlameada e escura, para encontrar forma de retirar o menino. Sasha calara-se. As lágrimas caíram do rosto do homem, cada vez mais inquieto. Eu não vou perder uma criança, não vou.
Quando finalmente tinha cavado um buraco suficientemente largo para entrar, passou o corpo pela fossa apertada e vislumbrou na escuridão o braço pequeno da criança estendido, duro e gelado, de coloração arroxeada. Puxou o corpo diminuto e magro, sem esforço. Sasha não dava sinais de vida. Caminhou com o pequeno suspenso nos braços até à clareira, onde os escravos o olhavam admiravelmente, como a um Deus, e os Guardas fitavam em desprezo, aquele ente fraco.
Deitou o pequeno no chão e massajava-lhe o peito, tentando desesperadamente reanima-lo. O menino não se mexia. As lágrimas continuavam a escorrer sem vergonha do rosto do homem, que olhava indignado para outros escravos.
— Somos todos adultos e capazes, e ninguém se mexeu para o ajudar! E ainda lhe apontam o dedo? Afinal, onde está o monstro? Em vocês? Ou será neste pobre menino estendido frio no chão? – Gritava, evidentemente descontrolado.
Os colegas fitavam-no, surpresos, baixavam os olhos, obviamente afectados pelas palavras. Um dos Guardas dirigiu-se ao menino.
— É apenas mais um,. – Disse, friamente.
Daniel retribui-lhe o olhar seco.
— Não se podem dar ao luxo de perder escravos, estão contados, como sabem... – Falou-lhe, retomando o tom calmo que o caracterizava.
Dirigiu-se ao menino, despindo o seu casaco, com que o cobriu. Ordenando aos restantes escravos que se organizassem e seguissem caminho para a gruta, onde a água não os atingiria, até a tempestade passar.
O corpo de Sasha ficava para trás, no breu da noite, enquanto todos se afastavam.
Daniel deixou-se ficar para trás, percorrendo pesaroso e sem vontade a clareira, enquanto via o grupo de escravos subir as escarpas.
Uma voz débil e trémula, desvendou-se, indefinida, misturada com a ululação do vento.
— Daniel…não…me…deixes…aqui…– Pedia ainda muito fraco o pequeno Sasha.
Correu para ele, já de sorriso nos lábios, pegando nele ao colo. Estava muito frio e tremia, ainda fragilizado e aflito.
Ao sentir-se seguro no colo forte, Sasha sorriu-lhe também, timidamente, antes de desmaiar de fraqueza.
A chuva inundava-lhe o corpo nu e correu com ele para a gruta, os escravos apinhavam-se nas encostas do monte, agora a salvo da água, procurando descansar, debaixo de uma ou outra pedra que os conseguisse abrigar.
Entrou com Sasha para a gruta, deixando os guardas ainda mais atónitos. Poisou o corpo do pequeno num alto de pedra, perto do fogo que estalava, revolto no chão. Sasha levantou o braço, solicitando a sua presença perto de si. Ele dirigiu-se de olhar grave ao menino, que lhe sorria, trémulo.
— Tu salvaste-me…nunca ninguém me salvou… – Conseguiu ainda falar.
Aos olhos de Daniel voltou a despontar uma lágrima que secou com os dedos. Olhou o pequeno e foi como se um sopro lhe atingisse o espírito. Ele tinha vida e alma, e um coração que lhe batia no peito.
Deu-lhe devagar um pouco de infusão quente a beber. O menino engolia a custo e a tragos pequenos o conteúdo. Mas já não se debatia. Daniel sentou-se junto dele e deitou-lhe a cabeça no colo. Sasha virou os olhos para cima, fitando o rosto do seu salvador.
— Que idade tens, pequenote? – Perguntou-lhe, brandamente, para não o intimidar.
— Dez! – Respondeu orgulhoso o pequeno, sorrindo receosamente.
— Sinto muito, mesmo…Sasha. – Continuou, baixando o tom para proferir o nome do menino, brando e terno.
— Escolheste ser escravo…Não sei porque o fizeste, quando todos os outros adultos fogem desse destino. Mas prometo-te eu que, sempre que puder, estou aqui para te proteger.
— Eu não vou ser escravo para sempre. Prometo-te! – Contava-lhe, numa inocência infantil o menino, entusiasmado.
O homem olhou-o, siderado com a ingenuidade da criança, baixando de novo os olhos para ele.
Sasha sorriu-lhe e, desta vez, não procurou fuga nem objecção, falando-lhe respeitosamente.
— Eu sei que não vou ser escravo muito tempo, porque o meu destino é ser Chanceler… – Sasha baixou os olhos para as paredes da gruta, poisando-os numa pequena abertura com vista para o exterior, continuando a conversa pausadamente, como se tivesse acabado de dizer algo muito importante.
Daniel abriu a boca, agora verdadeiramente admirado, vendo que realmente aquela história ultrapassava uma simples imaginação infantil.
— Como tens tu tanta certeza disso, miúdo? Quem te disse? – Perguntava-lhe, verdadeiramente interessado.
— …eu vi, ela disse-me. A Valentyna…em casa em não podia falar da Valentyna…mas aqui eu vou falar dela porque não tenho medo de nada do que me possam fazer…
Olhou para o menino e calou a pergunta que lhe urgia na mente. Não lhe perguntou o porquê do menino tratar pelo nome uma Observadora do importante Congresso, nem a razão do seu apreço por aquele mundo que todos desprezavam. Apenas sentiu que aquela criança, apesar de todo o frio que emanava dos olhos, congelando-lhe a alma, afastava-se das suas fronteiras a alta velocidade, distanciando-se mesmo de si e de todos os outros.
Cuidou do menino durante os longos dias de tempestade. Todas as noites Sasha lhe contava uma história da sua vida em Vyborg, e todas as madrugadas, quando o menino ainda se perdia num adormecer inocente, deixava cair algumas lágrimas de saudade, para não gelar o coração. Só o deixou sozinho quando ele se encontrava totalmente recuperado.
— Os teus dias de boa vida acabaram, cria. – Falou-lhe do exterior um dos Guardas, quando o sol começou a despontar descolorido no céu.
— Não posso ficar convosco? – Perguntou, a susto e em inocência, o pequeno, procurando no grupo de escravos o seu protector, sem encontra-lo.
— Tu és um escravo, pequeno. Não podes andar connosco. – Respondeu-lhe, indulgente.
Sasha acenou dignamente e saiu da gruta em silêncio, sorvendo o frio que ainda se fazia sentir no dia mal iluminado pelo sol fraco. Desceu os pequenos degraus dirigindo-se aos outros escravos, olhando de relance os destroços da pequena cabana de palha, que se estendiam desbotados pela orla. Os olhos do pequeno passaram desinteressados pelos cadáveres que os outros escravos amontoavam, em pilha.
Juntou-se ao grupo que se preparava para seguir viagem para a Base, respirou fundo, inspirando calmamente o rumo do seu futuro: Abzu, o seu trono.
****
O menino percorria a estrada com a mesma força dos Guardas, que os seguiam nos seus jipes esverdeados, encaminhando-os para a Base. Conduzia o seu corpo magro como se voasse, numa ligeireza cansada, mas ávida de tempo, desejosa de aportar.
O clima fazia-se sentir menos ameno, gelando-lhes os membros, tornando-se difícil caminhar. Era assim o clima da Rússia, um Inverno rigoroso que se abatia acentuado, durante longos meses gélidos cobrindo rio e mar, e um Verão compassivo, em que por um escasso período de tempo, a terra se iluminava de sol quente, clareando as estepes de cereais e girassois.
Chegaram perto de uma tabuleta de metal rectangular da qual Sasha se aproximou para ler, juntando sílaba a sílaba, o nome grande demais para o menino pronunciar:
— Yekaterinburg, proferiu, feliz. Estavam cada vez mais perto da Base.
Era uma cidadezinha cinzenta situada no lado oriental dos Montes Urais, de ruas redondas e estreitas. Com as avenidas divididas por árvores altas e esguias. Três eléctricos amarelos estavam parados na linha, quedos no tempo, os cabos enferrujados cobertos de um limo verde e espesso que se abatia até à carris. O pequeno olhava uma catedral distante de cúpulas douradas matizadas de encontro o céu, debilmente iluminado.
Os Guardas estacionaram os jipes numa ruazinha apertada e saíram dos carros, andando com dificuldade sobre a relva que crescera, atingindo o cinzento do passeio, e lhes coçava os joelhos. Aglomeraram os escravos num canto fresco, debaixo das colunas de um edifício do séc. XIX, de aspecto colossal, que se erguia grandioso nas suas paredes brancas. Dirigiram-se ao interior da construção, vazia e degradada e retiraram uns cartões de um pendente no pescoço que passaram por umas máquinas ovais, pequenas e pretas. A máquina apitou e acendeu um visor, que emanava uma pálida luz lilás, que mostrou uns números. Os Guardas sorriram, contentes.
— Já ultrapassámos o limite de km por viagem. Vêm substituir-nos não demora muito.
Esperaram até que um novo grupo de Guardas chegou, fazendo o mesmo procedimento dos outros, validando o cartão, passando o código pela ranhura da máquina. Como as viagens eram longas, sempre que mudavam de cidade, ou atingiam o limite de quilómetros, os Guardas mudavam o turno para evitar o cansaço e prevenir as fugas dos escravos.
Sasha procurava com os olhos Daniel, mas nem sinais do seu protector. Há 3 meses, quando se despedira dele, dissera-lhe que o protegeria, mas desde que abandonara Miass que não tinha informações dele. Em todas as cidades que percorria Sasha procurava-o, sem sucesso. Enervou-se com a sua própria inocência, fustigando-se interiormente, ainda incrédulo com a sua própria ingenuidade. Se nunca tinha sido objecto de afecto, porque seria agora querido por alguém?
O menino olhava para os prédios altos que se apinhavam numa amálgama de cores e o coração batia-lhe cada vez mais pesado. Num ímpeto, dirigiu-se aos Guardas e ergueu bem alto a cabeça, tentando mostrar-se alto e forte perante aqueles homens de físico desenvolvido e poderoso.
— Onde está o Daniel? – Perguntou, sem sinal de medo.
Os Guardas entreolharam-se e riram com a pergunta disparatada do menino. Um deles, de cabelo preto e espesso e braços colossais e musculados, olhou o menino, arranjando o bigode farfalhudo.
— O que é que tu disseste, cria? Quem te deu ordem para te dirigires a um Guarda?
Sasha não respondeu e viu os outros escravos que o olhavam, tentando demove-lo de meter-se em sarilhos. Um dos Guardas aproximou-se dele, oferecendo-lhe um sorriso oblíquo e fechado, num esgar de contentamento.
— Para começar, está-me a enervar ver uma cria aqui enfiada no meio destes adultos, sem poder fazer o que eles fazem. Odeio inúteis. – baixou-se olhando para Sasha, altivo, continuando a humilha-lo.
— Depois, já devias saber que nós não temos nome! – Gritou-lhe, puxando-o para si, afastando-o do resto do grupo de escravos.
— Estão a olhar bem para ele? Aqui está um bom exemplo de como os homens são aquilo que fazem. E vocês são escravos! São insignificantes…um nada, secundários…
O Guarda cuspiu para o chão e largou Sasha, que resistiu friamente aos insultos daquele Capitão, permanecendo ao seu lado.
— Ainda não me disseram onde está o Daniel… – Insistia o menino.
O Guarda agarrou violentamente o braço de Sasha, contorcendo-o até ao limiar da dor.
— Esse cão está morto. E foi bem merecido. Andava a ajudar escumalha como vocês…
O Guarda ria-se do menino, torcendo-lhe mais o braço, fazendo-o vergar-se aos seus pés. Via-lhe a cabeça amarela, com o cabelo que lhe ornava a testa de onde pingavam finas gotas de suor. Expiava-lhe a boca de lábios finos que se aferrolhavam de dor. Mas Sasha não chorava nem gemia. Ao contrário, fincou-lhe os olhos azuis acinzentados, que o tomaram, convictos.
— …não faz mal, no final do dia de hoje tu também vais estar!
O homem largou-o, afectado e trémulo, dirigindo-se aos seus colegas que o olhavam sem articular palavra.
O dia corria depressa e dirigiram-se aos jipes, enquanto os escravos seguiam ao lado, percorrendo as ruas da cidade à beira rio. A água livre, batia em ondas calmas e ritmadas no cimento, numa cadência embaladora. Sasha sentia a alma acalentada e pareceu serenar. A imagem de Daniel com os seus cabelos castanhos-claros e de olhos bondosos, não lhe saía da cabeça. Sentia-lhe a falta, tal como sentia a falta de Valentina e até do velho Orloff. Todas as pessoas de quem gostava teimavam em desaparecer. Fugiam-lhe do curso sem saber como nem porquê. Escapavam-lhe, simplesmente. Era sozinho, estava e seria sempre sozinho. Aquela jornada de meses rumo a Abzu seria a aventura mais completa, com a companhia mais plena que alguma vez viria a ter. E enquanto para os outros aquela viagem era um final de viver, para Sasha, a distância de Vyborg parecia-lhe o paraíso.
Sasha olhava as diversas pedras da calçada e repetia o nome das formas. O tempo passava sem se aperceber da caminhada.
Um rosto familiar aproximou-se do menino e falou-lhe, amigável.
— Estás a ver aquela catedral ali? Foi ali que mataram um czar e toda a sua família… – Dizia, visivelmente consternado.
Sasha não evitou um ligeiro esgar de alivio e aproximou-se do corpo jovem do outro, que o seguia.
— Daniel! — Falou, visivelmente feliz. — Onde estiveste? — Perguntou, franzindo o sobrolho, em consternação.
O jovem homem olhou-o, enternecido. — Longe, meu pequenote, bem longe daqui...
Sasha era orgulhoso demais para o questionar. Não queria mostrar que aquela estranha frase o tinha crivado de dúvidas que, possivelmente, se abateriam nele, inócuas, estéreis, por isso, resolveu continuar o assunto do seu célebre protector:
— Eu também sei de uma história dessas, foi o que fizeram com a família dela, da Valentyna. Uma Observadora do Congresso. – Retorquiu Sasha, na sua vozinha infantil.
— Tu és esquisito miúdo. Pareces gostar disto, eu cá morro de medo daquilo.
Sasha olhou-o, encolhendo os ombros, visivelmente sem paciência.
— Eu cá não tenho medo... – Respondeu-lhe, secamente.
— Estás a ver o que eles fazem? Isto está deserto. – Falava-lhe Daniel, certificando-se de que nenhum Guarda percebia que estavam a dialogar.
— Mas isto não fica assim. Nós somos muitos e podemos vencer. – Proferiu, mostrando-lhe uma navalha pequena escondida na bota velha. Sasha olhou-o horrorizado, mas não proferiu palavra.
— Vários têm disto. Não vamos chegar àquela Base, garanto-te! Só estamos à espera que chegue a altura certa.
A tarde caía serena de encontro o rio. Os Guardas saíram dos jipes e mandaram os escravos recolherem-se nas ruínas de um prédio abandonado, de onde ainda se vislumbravam umas tonalidades de castanho e branco.
Sasha afastou-se em silêncio do homem, deitando-se num degrau do que devia ter sido uma escadaria. Não adormeceu, a imagem de Elias morto, sem nunca mais poder voltar, a imagem da navalha do jovem, agitavam-no. Olhava todas as sombras, tentando antever o que já pressentira nas suas visões. Os Guardas caminhavam de um lado para o outro na entrada do prédio e o menino chegou-se para o canto do degrau, encostando-se à parede. Julho trouxera um calor tão intenso que Sasha respirava a custo naquele ar carregado.
Olhava para Daniel, que analisava atento os passos dos Guardas, à espera de um erro. Os escravos entreolhavam-se num código conspirado.
Dois dos Guardas saíram enquanto o Capitão procurou um local desviado dos escravos para descansar.
Daniel olhou para os outros escravos dando o sinal. Levantaram-se de rompante, de navalhas em punho, e dirigiram-se ao Guarda que os fitou, aflito.
— O que é isto? – Inquiriu, estupefacto, o Capitão.
— É apenas um presente. – Respondeu o jovem homem que voou para trás do Guarda, cortando-lhe a pele fina e macia do pescoço, que cedeu abrindo-se em duas. A cabeça do Capitão caiu, de boca ainda aberta, para a frente e o corpo estirou-se no chão, tingindo o pavimento branco de um vermelho arroxeado.
Sasha encolheu-se mais na escada, fechando os olhos. “ O que eu vejo acontece! O que eu sei é real…”
O gelo adensou-se-lhe no peito, afastando-o definitivamente dos seus contornos de criança. Algo endurecia a armadura do menino de gelo. Cada vez mais distante estava Sasha, o rapazinho de Vyborg.
Manteve-se encostado no seu degrau, a salvo da confusão que se gerara na entrada. Os escravos apinhavam-se na frente do Capitão, enquanto a pulseira deste apitava no pulso colado à sua face ensanguentada.
Um dos homens saiu do grupo amontoado sobre o corpo morto no chão e trancou a porta da entrada, enquanto os guardas gritavam, histéricos, do lado de fora.
— Vocês vão pagar pelo que fizeram… – permaneciam encostados às grades da porta de vidro, vociferando, furiosos.
Lá dentro, o coração de Sasha batia de repulsa, com os seus olhos azuis arregalados fixos no corpo, engolindo todo o sangue que escorria da sua carótida para o chão. merecias morrer, quem mata merece morrer
Ninguém se lembrava do menino naqueles momentos em que apenas um corpo, os guardas e uma fuga suja de sangue pareciam importar.
Os guardas quebravam do exterior todos os vidros que ainda restavam do edifício, mas as grades impediam-nos de entrar.
Balançavam-se encolerizados, roçando os pés no chão, contendo a raiva surda que os tomara.
— Como é possível? Como é que escaparam ao nosso controlo? Isto é um perigo…eles são muitos…ninguém contava com isto! – Proferia um guarda, aterrado.
— É fácil. Se eles não saem a bem, certifiquemo-nos que saem a mal, ou então que este lugar foi o último onde entraram… – O homem dirigiu-se ao jipe, voltando com um cantil de plástico com que regou o interior. De sorriso entre os dentes, retirou o isqueiro do bolso abrindo a patilha, atirando-o para dentro.
O cheiro da gasolina espalhou-se rapidamente pela divisão e o fogo ateava-se naquele rio de combustível. As chamas alaranjadas lambiam o chão frio e cresciam, viçosas numa pujança inigualável. Levantavam-se velozes consumindo a sua rota e tudo ao redor. Subiam, trepavam, abatendo todos os contornos com o mesmo fervor com que o gelo de Sasha as reflectia, dentro de si.
— E agora? Estão a gostar deste jogo do “queima ele”? Ou ainda não querem sair? – Ironizava o guarda, enquanto as labaredas bafejavam todo o prédio, tomando-o como seu numa conquista silenciosa com sabor a morte.
O calor tornava-se insuportável e os escravos precipitavam-se para as grades, colocando desesperadamente as cabeças de fora, sorvendo todo o ar que conseguissem respirar.
Sasha tossia, no interior, pequeno demais para trepar às janelas ou passar pela multidão que se apinhava, tentando apanhar ar.
O menino levantou-se do degrau onde se tinha resguardado tentando atingir a porta para sair. O fumo era tão negro e denso que não conseguia ver o exterior nem a rota a seguir. Os corpos dos outros escravos apinhados perto das janelas da entrada não facilitavam a fuga.
Viam o fogo tomar conta de todo o prédio, apoderar-se dos andares superiores, colorindo o tom desbotado da velha fachada de um vermelho vivo e fatal.
A morte era irrevogável. E Sasha não queria morrer. O fumo entrava-lhe nos pulmões, obstruindo-lhe os brônquios, espessava-se húmido no seu peito, tornando quase impossível respirar. A visão acinzentava-se e os olhos pesavam-lhe, pulando-lhe nas órbitas. Percorria de olhos semicerrados o caminho até à porta, tapando a boca com a sua mão pequena, enquanto a outra tacteava pela parede, em busca de escapar. O corrimão de madeira escura e maciça que ladeava as escadas, acabara de cair atrás de si, partindo-se em vários pedaços que se estilhaçaram pelo chão num estouro dissipado pelos gritos dos escravos.
O pó levantava-se mais do chão, cobrindo-os com um ar cinzento e rarefeito que se entranhava na pele e os fazia lacrimejar.
Sasha parou, levando as mãos ao peito que lhe doía de tanto tossir. Dobrou-se com o fumo que inalava e caiu de joelhos no chão, fraco e a ofegar, de respiração hesitante. Gritava fracamente, implorando ajuda. Mas ninguém o ouvia. Os escravos aflitos demais, sorvendo o fogo fruto da sua própria rebelião, os guardas, ocupados demais com o seu riso construído na superioridade do controlo.
O menino sentia o cheiro da carne carbonizada e agoniava-se. Sasha avistou o corpo do Capitão caído, perto da secretária de metal, com a cadeira de cabedal preto e velho, junto à cabeça. A pulseira deixara de apitar, agora berravam umas vozes que o chamavam a todo o custo.
Parou por uns segundos tentando inteirar-se do que se passava no exterior. Os risos dos guardas tinham cessado e o menino não conseguia ver o que estariam a fazer. O silêncio instalara-se no interior onde apenas o crepitar das chamas se deixava perceber. Os corpos tombavam inanimados no chão enquanto o ar se enchia de uma coloração escura e carregada.
Sasha empinou-se num dos corpos caídos junto da janela, respirando grandes tragos de ar, de olhos fechados. Sorvia o ar, sentindo-o a percorre-lo, clareando-lhe a garganta, atenuando o peso nos pulmões. Quando abriu os olhos, já mais restabelecido, conseguiu vislumbrar os guardas, sentados de costas para o prédio tomado pelas chamas. Teve a visão nítida da morte do Pai, caído no escritório, seis anos antes. Via-lhe o fato escuro com as insígnias do Exército e o sua barba clara e espessa de encontro o solo de madeira. E ouviu os gritos de Valentina, debruçada sobre o corpo de Leo Dornov. Eu não sou um Dornov, eu não vou morrer aqui
Daniel levantou-se do chão com uma força imperativa e encaminhou-se decidido para a porta, clareando a voz, falando tão alto quanto a sua garganta enfumarada conseguia atingir.
— Nós não vamos morrer aqui! Somos muitos, mais do que eles! Vamos sair e, se for preciso, vamos lutar. – Falava num gesticular penetrante e estridente, ainda de navalha ensanguentada na mão.
Os outros escravos olhavam-no enfeitiçados, de olhar perdido no dele, seguindo as ideias megalómanas de um jovem em devaneio. Sasha não o escutava, os sentidos perdidos no fumo que aumentava ligeiro, os olhos ainda no exterior onde os guardas discutiam como os soltar.
Daniel olhava para todos, incrivelmente calmo, alheio ao cenário dantesco em que se tinha tornado aquele prédio em ruínas, coberto de chamas. Explicava com um detalhe minucioso e preciso, todos os pormenores da próxima acção.
— Vamos abrir esta porta, os mais fortes seguem comigo na dianteira, os outros correm para as traseiras do edifício, evitando as chamas, abriguem-se lá, enquanto nós tratamos deles! O dia de hoje vai ser para relembrar. Hoje, vamos recuperar a nossa liberdade e o nosso sentido de seres humanos livres e válidos!
Exortava os ânimos, mobilizando as suas tropas com uma energia acérrima, nascida do fundo da sua raiva visceral. Os outros homens olhavam aquele jovem de compleição forte e correcta e aceitavam tacitamente o que lhes ordenava, sem duvidar.
Daniel abriu a porta de rompante, sentindo um frio percorrer-lhe todo o corpo, subir-lhe pelas costas e parar, cravado no coração. Engoliu em seco e precipitou-se para o exterior, onde os guardas os olhavam, atónitos. Os escravos mais fortes corriam, formando quatro fileiras de homens. Três encaminharam-se a voar para os guardas, enquanto a última permaneceu como barreira nas ruínas da entrada que ardiam, para deixar os mais fracos sair. Um dos escravos que permanecia no interior olhou Sasha, que retirara os olhos do exterior, ainda encavalitado na janela, e dirigiu-se a ele, puxando-o pela camisola verde e suja.
— Tu! Vens comigo. – Disse-lhe, pegando no corpo leve do menino com um braço. Sasha esbracejava, Contorcia-se tentando a todo o custo libertar-se daquele homem que o levava para o exterior.
— Larga-me seu cavalão, eu não quero fugir, eu quero ser Chanceler…eu não vou fugir. – Estrebuchava, enquanto o escravo seguia o seu caminho, indiferente aos comentários do pequeno.
O homem, alto e magro, passou pela fileira que se mantinha em defesa na entrada, dirigindo-se às traseiras do edifício. Sasha olhou de relance Daniel, que de dirigiu a um dos Guardas de navalha em punho, degolando-o rápida e friamente, tal como tinha feito com o Capitão. O menino deixou de gritar, a alma prendera-se naquele rapaz que se debatia estoicamente pela liberdade. Sem indecisões, sem interrogações, jogando-se com uma força anímica incondicional. O escravo encaminhou-se para as traseiras do edifício, onde outros já se abrigavam, enquanto atrás deles as ruínas do prédio tombavam em estrondos pungentes. Poisou o menino que o olhou, enfurecido, sem falar. Sasha aninhou-se num canto, obstinado e caprichoso. Pouco depois, Daniel regressava coberto de sangue, juntamente com outros escravos.
— Vamos regressar à frente e enterrar dignamente os nossos companheiros de jornada. – Proferiu, mais em comunicado do que imperativo, virando costas e voltando para trás.
Os que sobreviveram ao incêndio e estavam em condições de caminhar seguiram-no, mudos e de cabeça baixa. Daniel dirigiu-se a um dos jipes dos guardas e retirou da mala ampla três pás. Estendeu duas a uns companheiros que estavam ao seu lado e, de braço apoiado na pá, olhava ao redor à procura de um local onde abrir uma vala.
Dirigiu-se até uma árvore frondosa, que se erguia com os seus longos ramos bem abertos de um verde vistoso, e enterrou com toda a força, que lhe brotava da alma em dor, a pá na terra quente. O solo rompeu-se numa fenda, seco e duro, e os outros seguiram-no, cavando num ritmo sincopado. Escavaram durante horas, até que diante deles se abria um buraco tão profundo quanto o que se lhes dilatara no peito, cunhando-lhes a alma em nódoa.
Sasha olhava, sentado numa pedra, os homens que arrastavam os corpos queimados até à vala comum. A vala que abrira meses antes em Miass emergira-lhe turbulenta, em lembrança. O barulho dos corpos que caiam uns em cima dos outros, num estampido seco, a um ritmo lânguido e tenebroso, o corpo débil e magro que chutou de uma só vez para a cova, o seu rosto amarelado de olhos vítreos, tudo o mordia num remorso colossal. O rosto do Pai, mais uma vez estampado naquele chão de alcatifa rósea, os gritos, Valentina…
Sasha correu para trás de uma árvore e vomitou das entranhas uma aguadilha transparente e espumosa. O corpo expelia em espasmos todo o horror que a náusea agora não lhe permitia dominar.
Quando o último corpo caiu na vala, Daniel encheu a cova de terra, que caía pesada nos corpos negros e irreconhecíveis. Alisou-a, de modo a não deixar ficar nenhum sinal. Depois, com a raiva que se enfurecia no peito, retirou a navalha do bolso e cravou-a, num golpe rude e seco, na árvore. Ia-lhe perfurando o tronco denso e, sentindo-lhe os nós que estilhaçava em agonia até que dele começou a escorrer uma seiva que vertia às golfadas, derramando-se pela superfície rugosa da árvore. Daniel gravou bem fundo na árvore uma cruz, que se cobriu lentamente de uma tonalidade esbranquiçada e leitosa. Depois, em cabeça baixa, afastaram-se respeitosamente num sofrimento silencioso, passando pelos corpos dos Guardas, que ignoraram num manifesto de revolta que já não se pode reprimir.
— Deixem-nos apodrecer, que os vermes calem esses corpos, anulados para sempre.
Sasha seguia inquieto todos os movimentos do jovem com os olhos insaciáveis, sedentos de conforto, à procura de alento. Muitos anos depois, seria a memória deste dia escrita em Sasha que o guiaria, por outras razões, mas com esta mesma força reproduzida de Daniel, a uma vitória indubitável como Chanceler
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