Os descendentes e o segredo
33 Got a secret, can you keep it?
Notas iniciais
Got a secret, can you keep it? Tenho um segredo, você pode guardá-lo?
Swear this one you'll save Jure que esse você vai guardar
Better lock it in your pocket Melhor trancá-lo em seu bolso,
taking this one to the grave levando-o para a sepultura
If I show you, Se eu lhe mostrar,
then I know you won't tell what I said então eu sei que você não vai contar o que eu disse
'Cause two can keep a secret Porque duas pessoas podem guardar um segredo
if one of them is dead se uma delas estiver morta
(Secret- The Pierce)
P.O.V. Cecília Mason
Tão logo o dia raiou, nós aparatamos. Enquanto tio Luke levou a filha caçula para o local seguro que minha mãe indicou, tia Beatrice nos levou para um local, dizendo que saberíamos onde ir dali e sumiu para se juntar aos demais.
Caminhamos um pouco até o ambiente se tornar reconhecível, eu podia perguntar porque Godric's Hollow, mas sabia onde ir, tia Beatrice estava certa. Eram muitas mudanças em pouco tempo, o nosso maior segredo e aquele em que todos se dedicavam a guardar já tinha sido contado, mamãe incentivou a contar, a diretora McGonagall passou a mensagem e eu suspeitava de uma terceira parte nessa história.
Já conhecíamos o percurso até a casa dos Potters, a última vez, o senhor Potter comentou que papai disse que iríamos, provavelmente os dois se conheceram em uma das vezes que o ex-sonserino prestou serviços ao Ministério, local, até onde eu sabia, de trabalho do dono de nosso destino. A casa se aproximava e eu ficava desconfortável. A única pessoa sem ser da família que cuidou de nós na casa foi Marlene Jackson, melhor amiga de mamãe; isso ocorreu quando ainda éramos pequenos e precisávamos de um lugar seguro. Mas estávamos mais velhos agora e podíamos nos cuidar sem ajuda de ninguém.
Dylan bateu na porta da casa, Lily Potter a abriu, sorrindo e liberando a passagem para entrarmos. Lá dentro, tudo estava muito igual, a diferença foi, talvez, o fato de todos estarem na sala, incluindo Hermione Weasley, seu marido, Ron, e o filho do casal. Sem sinal da mais velha e filho também mais velho dos Potters.
— Masons. – O homem de cabelos negros nos cumprimentou, quando nos viu. – Sentem -se. Podem deixar as mochilas no chão. – Ele se levantou em uma tentativa de nos ajudar.
— Está tudo bem, senhor Potter. Não precisa se levantar. Estamos bem. – Ele concordou com o comentário de meu irmão.
Eu estava frustrada, entendia o lado de minha mãe, mas era difícil ficar longe da ação. O paradoxo de treinadora e mãe complicava as coisas, tinha que nos treinar, ao mesmo tempo, que queria nos proteger. Treinar. Acho que sei como posso ajudar.
—Senhor Potter, será que poderíamos usar seu quintal para treinarmos? — O garoto ao meu lado olhou-me cúmplice.
—Podem. — Ele concordou.
—O que está acontecendo? — Uma voz irritada veio da escada.
James Sirius Potter descia os degraus vestindo uma camiseta azul de manga curta e uma bermuda preta. Logo atrás, Rose Weasley o seguia, o vestido vermelho que usava balançava conforme o movimento. Quando nos viu a garota parou, observando-me.
—Estávamos entediados e resolvemos fazer uma visita. O que acha, Potter? — Ele engoliu em seco, perceptivelmente tentando controlar a raiva que surgiu em seus olhos.
Cruzei os braços, encarando-o. A camiseta rosa bebê de cetim de alcinha que eu usei, o decote era em v e ficava por dentro da calça branca, já devidamente lavada, estava levemente gelada ao toque; uma rasteirinha da mesma cor da camiseta completava o look. A roupa podia não ser a ideal para a situação, mas foi a mais rápida que achei.
—O que houve, Weasley? — Perguntei, pois ela ainda me olhava.
—Nada, só tenho a impressão que já te vi em outro lugar que não fosse Hogwarts ou aqui em casa, enfim, nada pessoalmente.
—Ceci, vamos deixar o treino para amanhã. — Dylan comentou.
—Juntem-se a nós, então. — Meu irmão me fez caminhar até a sala, porém sentou-se um pouco mais afastado de todos. Percebi o movimento de suas mãos e, em poucos minutos, um grande livro surgiu.
—Vamos aproveitar e procurar algo. — Ele estava desconfortável, eu podia perceber. Era menos do que eu, claro, mas ainda assim ele sentia isso.
Acabamos nos desligando do mundo ao redor, não sei exatamente o tempo em que ficamos ali, mas a senhora Weasley veio falar para tomarmos banho antes da janta, os quartos seriam os mesmos de antes. Com um suspiro, Dylan reduziu o livro, colocando-o no bolso da calça antes de caminhar para onde nossas mochilas haviam ficado. Ele já estava subindo, quando eu me levantei para seguir seus passos. Eu havia segurado a alça do objeto, pronta para jogá-lo por sobre meus ombros, no momento em que uma mão segurou meu pulso.
—Mason. Não sei exatamente o motivo pelo qual vocês têm vindo para cá, mas não vão matar minha família. Eu não vou deixar. — Puxei meu braço com força, eu não me intimidei com sua fala.
—Acredite, se eu tivesse outro lugar para ir ou, no mínimo, uma escolha, eu não estaria aqui. — Ignorando a presença dele e sua tentativa de falar, eu saí daquele local, rumo ao quarto da caçula Potter. Tudo estava exatamente igual da última, coloquei a bolsa apoiada na cama, tirando de lá um pijama, mas, mesmo calor, acabou sendo um conjunto de calça e camiseta regata, ambos lilases.
Assim que estava pronta, abri a porta e vi Lily com a mão levantada, preparada para bater na porta. A ruiva ficou sem graça e baixou a mão, colocando-a atrás do corpo.
— Mamãe perguntou se você estava acabando, parece que a janta já está ficando pronta.
—Eu estou. — Observei a garota, ela usava um pijama com uma calça rosa forte e uma camiseta de alcinha branca com contorno da mesma cor da parte de baixo, uma gatinha com um laço pink próximo da orelha à minha direita.
Descemos calmamente para a cozinha e foi estranho, mesmo os Whites sendo bem comunicativos, o barulho do cômodo dessa casa estava bem alto, mais do que da última vez. Todos conversavam animadamente na cozinha, enquanto comiam. Caminhei calmamente para o local vago ao lado de Dylan e de frente para a pequena ruiva, aproveitando o momento em que a fila para pegar comida estava livre, então coloquei um pouco de arroz, molho, batatas temperadas e pedaços de carne frita.
Eu me sentia um pouco deslocada ali. Nos Whites, eu ficava meio deslocada daquele sentimento família, mas, ali, eu realmente não tinha nada em comum. E pensar que, ao invés de sentada na mesa dos Potters, eu poderia estar lutando tornava tudo incrivelmente incômodo.
Quando percebi, a refeição tinha acabado e todos estavam livres, então Dylan me chamou para continuarmos com a leitura do livro, ficamos ali na sala mesmo, ignorando a presença de todos e focando apenas nas palavras em latim dali. Aos poucos, todos foram se deitar, exceto nós dois, ficamos por um longo tempo ainda perdidos nas páginas.
Decidindo ir apenas quando o relógio indicava 3 da manhã. Por isso, guardamos o objeto e caminhamos com o mínimo de barulho para os respectivos quartos em que dormíamos. A Potter estava completamente adormecida, no momento em que eu entrei, a cama de baixo já pronta para dormir.
O dia seguinte começou cedo. O senhor Potter saiu de manhã para ir trabalhar, enquanto a esposa faria o mesmo de casa. Depois de tomar café e com uma roupa para treinamento, Dylan e eu caminhamos para os fundos da construção, ele usando uma calça jeans e camiseta azul escura, enquanto eu estava com uma calça preta e uma regata branca; ambos com tênis.
Observando bem o local, não teríamos espaço nem condições, visto nosso combinado de não afetar a paisagem, de realizar o mesmo treinamento de casa, mas tentaríamos aproveitar ao máximo o que tínhamos. Sendo assim, nos posicionamos um de frente para o outro, as varinhas em mãos. “Não se preocupe com os barulhos, não precisa verificar se estamos vivos”, foi a nossa fala ao informar o início disso para a dona da casa.
Dylan, usando a velocidade característica dele, começou atacando e eu corri até uma das árvores dali. Aproveitando o fato de estar escondida, eu lancei uma magia para me tornar invisível, saindo do esconderijo, quando meu irmão se aproximava e fiz um feitiço cujo o objetivo seria prendê-lo, mas ele se desviou no último segundo.
Eu sabia que tinha que usar bem o momento, então comecei a me movimentar rapidamente, lançando magias de vários lugares, algumas acertaram ele, porém ao revidar, eu fui acertada, perdendo a invisibilidade e o equilíbrio. Ainda deitada, eu rodei de forma a ficar com a barriga para cima, levantando-me bem a tempo de me proteger do próximo feitiço.
Foi ali que demos uma pausa nos grandes movimentos e, cada um com o seu respectivo jeito de luta, iniciamos uma batalha sem fuga, sem esconderijo, apenas com o jeito tradicional. Tanto eu quanto o meu adversário recebíamos feitiços e consequentes cortes pelo corpo. Ficamos ali, girando um em torno do outro por um bom tempo.
Uma explosão controlada feita pelo garoto deu fim a esse estilo ao nos lançar para trás. Ainda bem que não era a nossa casa, pois isso faria com que batêssemos em árvores, mas a quantidade reduzida dali nos permitiu cair na grama. Levantando-me rapidamente, comecei uma sequência de feitiços para cima dele, enquanto eu me aproximava, mas, com uma velocidade incrível, ele se desviou, erguendo-se e só deu tempo de ver a cor verde saindo de sua varinha antes de abaixar com o “Protego” por garantia. Graças a Rowena pedimos para que ninguém saísse da casa e Gina Potter tinha deixado bem claro que todos deveriam obedecer.
Se Dylan queria usar as maldições imperdoáveis, então tudo bem. Ainda abaixada, lancei o “Crucio” em sua direção. Assim que o destino foi atingido, vi as mãos do meu irmão se fecharem e o maxilar travar para não gritar, eu não usava a força total desse feitiço, mas isso não queria dizer que não ia doer. Eu esperei o garoto cair e parei. Lançando um estupore. Eu realmente não esperava ser lançada para trás, antes dele apagar, se a magia tivesse acertado ele. Realmente, nós aprendemos a continuar lutando mesmo com dor, mas crucio tinha um efeito muito mais em Dylan Mason do que em mim.
Assim que bati contra a parede da casa, cai. Eu só não desmaiei, pois não bati a cabeça na construção, mas minhas costas doíam e minha respiração foi complicada por um tempo. Apoiando-me com a mão direita, olhei aonde o menino estava e ele não se mexia, provavelmente, o feitiço deu certo. Lutando contra os cortes, dores e a dificuldade de respiração, eu me ergui indo até o local onde Dylan estava desacordado. Eu não conseguiria erguê-lo do modo como eu me encontrava, então comecei a me curar, ao menos, os cortes se fecharam.
Com um suspiro, lancei a magia que o permitiria acordar e foi bom ver seus olhos tremerem até se abrirem. Com um sorriso de dor, ele começou a se esforçar para levantar. Dylan parou meio sentado e deu para ouvir seu suspiro pesado antes que seus olhos se fechassem novamente, eu sabia que ele tentava ver o quão ferida eu estava, então não foi surpresa ao perceber o movimento de sua varinha instantes antes de eu conseguir respirar normalmente.
Mas meu irmão se encontrava fraco, devido, principalmente, ao Cruciattus; eu sabia o preço que seria ele me curar. Então não hesitei em curar o máximo que eu conseguia no quintal, nem em apoiá-lo no percurso até a casa. Ainda tínhamos um pouquinho de sangue pelos cortes, agora, fechados.
Logo que entramos, Dylan lançou accio e minha mochila veio voando. Como meu irmão não quis se sentar, eu o deixei próximo ao sofá para poder se apoiar, enquanto eu me agachei, procurando a poção para dor. Mesmo com a magia para expandir, eu a localizei rápido, tão logo a peguei, eu entreguei o frasco para o garoto ao meu lado que bebeu um gole antes de me entregar. Ficamos em silêncio por um tempo, aguardando a poção fazer efeito.
—Vou tomar um banho para limpar esse sangue. — Ele disse após se recuperar. Ele esperou que eu concordasse, antes de seguir seu caminho.
Eu ainda fiquei um tempo na sala, guardando a poção na mochila de forma segura para, assim, poder seguir o mesmo caminho do garoto.
—Isso é sangue? — A mais nova Potter perguntou.
Ela descia as escadas, segurando a mão do irmão mais velho. Ambos ficaram me olhando, mas, enquanto o menino era com uma raiva muito mais leve do que provavelmente esperava demonstrar e um outro sentimento que não pude identificar, a menina era com curiosidade e muito pouco medo.
—Sim.
—O que aconteceu? Você se machucou. — Eu fiz uma careta pela curiosidade dela.
—Estava treinando.
—Treinando? — Pude perceber a surpresa na voz do grifinório. Eu o olhei como se fosse óbvio. — Quer dizer, você ia treinar com Dylan... Foi seu irmão que fez isso? — Peguei a mochila.
—Foi. — Disse simplesmente ao me dirigir para os dois. — Eu e ele, resultado dividido por nós. — Completei ao lado deles e continuei o caminho para o quarto.
Depois de banho tomado e o almoço comido, eu estava no quarto lilás com Dylan, continuávamos com a leitura do livro, mas, dessa vez, tínhamos um pedaço de pergaminho ao lado para anotar informações importantes.
A cada página lida, uma nova parte escrita era adicionada à superfície. Fatos e informações que poderiam, de fato, conter alguma importância para nós. Passamos muito tempo assim, juntos naquele cômodo, passando as folhas do grande livro e adicionando tinta à pena para escrever.
Os dias se passaram e, neles, descobrimos que uma festa estava sendo planejada para o filho do meio, Alvo Severo Potter. Aparentemente, o aniversário seria dentro de alguns dias e toda a família queria comemorar seus 14 anos. Por esse motivo, os preparativos começaram o quanto antes, afinal, para colocar todos os Weasleys na casa Potter, precisariam arrumar bastante espaço.
Nesses dias, a casa foi arrumada para acomodar a todos, então os quartos ganharam novas camas, ou seja, colchões. Outro cômodo que ganhou isso foi a sala. Algumas decorações começaram a ser preparadas também, desde o cardápio das comidas para a compra dos ingredientes até algumas decorações básicas. Eu podia dizer que planejamento desse tipo poderia até ser White, se isso não estivesse um pouco desorganizado; só não estava tudo perdido, pois Hermione Weasley auxiliava nisso.
Mesmo com o fato de Dylan e eu termos coisas mais importantes, como, com a decisão de fazer uma pausa naquele livro, decidimos analisar passos recentes dos comensais e seu novo líder, tentávamos rastrear os passos de todos inimigos, com possíveis planos deles e alguns rascunhos de estratégias; acabávamos ajudando um pouquinho no que dava, no geral, nossa parte envolvia espalhar colchões.
Não podíamos sair, ao menos, isso devia ser evitado, então sair para fazer compras não estava na lista de tarefas para nós e a decoração não era exatamente grande, então isso não necessitava de nossa ajuda. Digamos que os Potters fizeram um favor, dois, na verdade, e, mesmo sem vontade, participaríamos da comemoração, então optamos por ajudar em alguma coisinha.
Logo, chegou o grande dia, ou melhor, a véspera dele. Como o aniversário seria no Domingo, a comemoração foi marcada para ter início na noite de Sábado, com o parabéns após a meia-noite e fim no Domingo.
Aquela manhã estava completamente agitada. Os membros daquela casa, caminhavam de um lado para o outro, tentando ajudar. A senhora Potter, a mãe dela e a única garota do antigo trio de ouro tentavam fazer as comidas para todos; mesmo com a cozinha grande, parecia que não ia caber tudo. Eu ainda lembrava que elas basicamente expulsaram os últimos à mesa durante o café-da-manhã.
—Espero que elas deem conta de tudo. — Eu me virei na direção da voz, o aniversariante estava apoiado contra o batente oposto ao que eu me encontrava.
Aquela correria me fez lembrar dos bailes dos Masons. Eu preferia estar lá ao local em que me encontrava agora. Os Masons eram minha família, ao menos.
—Eu não me preocuparia com isso. — Ia saindo, quando ele me segurou.
—Escuta, deu para perceber que vocês não estão completamente à vontade, você principalmente. Eu não sei o que está acontecendo, não peço para me contar, mas... seus pais querem proteger vocês e é bom ver que, mesmo com esse sentimento, vocês estão aqui. — Eu tentei entender o motivo por detrás dessa fala, já ia me afastar, quando ele continuou. — James está mais preocupado com o sobrenome do que com a pessoa e Lily está realmente feliz por ter sua salvadora aqui, então não esquenta com eles.
—Eu não estou. — Saí.
Havia parabenizado o garoto mais cedo de forma adiantada, um simples “Parabéns!” e mais nada, sem abraços ou falas maiores com todos os desejos, mas pareceu ser o bastante.
Com o passar das horas, tudo foi sendo arrumado e finalizado. A noite foi caindo e, logo, foi chegando a hora de irmos nos arrumar. Os irmãos Potters foram os primeiros a se arrumar. Nesse momento, as duas mulheres que estavam ajudando já haviam voltado para as respectivas casas para se arrumarem, enquanto a senhora Potter também fez o mesmo.
Assim que a matriarca retornou com um vestido vermelho longo, ela disse para irmos nos arrumar, bem como o marido. Eu subi rapidamente, tinha uma ideia da roupa e isso facilitaria muito.
Lily Potter estava terminando de prender seu liso cabelo ruivo em um rabo de cavalo com uma fita rosa, ela também usava um vestido, mas esse era rosa rendado de alça, ele ia até o meio de suas coxas. A sapatilha era bege completava o visual dela.
Entrei direto no banheiro, pronta para tomar um banho morno relaxante. E assim eu o fiz, a água em contato com a minha pele teve um efeito bem calmante como de costume. Fiquei ali um tempo, simplesmente aproveitando a sensação, mas o fato de não estar em casa me fez sair mais cedo. Eu me enrolei na toalha e fui para o quarto, arrumando-me.
O vestido que eu escolhi não era comprido como os dos bailes, mas tinha sua beleza. Ele tinha as alças largas, elas desciam de forma justa até a minha cintura, onde uma faixa da largura de, aproximadamente, quatro dedos estava, fazendo a divisão entre a parte de cima e a de baixo. Logo após, a roupa ganhava um pouco de volume, indo até o meio da minha coxa. Sua cor era azul escuro, a cor que mais destacava meus olhos.
Com meus cabelos cacheados, eu os prendi de forma simples, eu me lembrei do meu último penteado na mansão Mason. Tentei replicar um pouco o penteado de lá, pegando meu longo cabelo, eu fiz um coque, deixando apenas uma mecha de cada lado, enfeitando meu rosto. Para a maquiagem, eu passei uma sombra da cor do meu vestido na parte externa e uma sombra mais clara na parte interna, coloquei uns brilhos prateados por cima das duas cores; além do rímel e lápis, finalizei com um batom vermelho.
Eu retornei para o quarto e me sentei na beirada da cama para colocar a sandália prata que eu tinha. Ela tinha mais ou menos 7 centímetros de salto, ela tinha duas tiras que acabavam enfeitando e destacando ainda mais a cor. Com um suspiro, eu me coloquei de pé, pronta para encarar a festa que ocorria lá embaixo, mas um barulho leve na janela me fez olhar, uma coruja há muito conhecida pedia passagem, um embrulho tinha acabado de ser entregue.
Como o esperado, a casa estava completamente lotada, tinha cabelos ruivos por vários cantos, mesclados com alguns loiros e outros escuros. Do topo da escada, eu podia localizar os gêmeos Scamanders, os Longbottons e Scorpius Malfoy, o último abraçado com Rose Weasley, considerando o fato de não ver o pai da garota ali, significava que a felicidade não tinha tomado conta dele e, provavelmente, a esposa teria muito trabalho.
Eu desci as escadas, os saltos faziam barulho ao tocar no chão. Todos acabaram olhando para cima e eu os observei à procura de Dylan. Muitos desviaram os olhares logo ao perceber quem era, exceto meu irmão e... Potter?! Ele realmente esperou até eu encontrar Dylan para desviar o olhar. Tentando evitar uma resposta rude, eu caminhei para o outro deslocado dali.
— Se arrumou bem. — Por um instante, eu queria estar no baile, todos observando, música tocando, nós dançando.
Passamos um tempo ali, conversando ou apenas observando as pessoas. A festa ocorria naturalmente, mas, em algum momento, caminhamos para o quintal, eu olhei para o céu, pensando nos meus pais voando, imaginando onde poderiam estar; eu ainda estava frustrada de ter sido afastada de tudo. “Planos precisam ser traçados, vocês protegidos.”, a voz de mamãe surgiu na minha cabeça. Mesmo assim, tudo isso de que somos valiosos demais me irritava, ao menos, se isso significava ficar escondido; eu não tenho medo do que enfrentaria, então por qual razão evitar? “Precisamos ficar vivos para a guerra", eu me lembrei e soltei a respiração de forma irritada. Senti minhas mãos se fechando em punho.
— Ceci. Vamos resolver. Não vai demorar muito. — Eu percebi a certeza na voz de Dylan. Ele tinha razão, era questão de tempo até a guerra chegar e, dela, não iríamos ficar escondidos.
Isso não me tornou calma, mas a tensão diminuiu um pouco. De qualquer forma, um bom treinamento com o garoto que estava ali ajudaria muito. Fizemos isso com uma certa frequência, a qual provavelmente permaneceria até voltarmos para casa.
Um pouco depois, o Potter pediu para nós voltarmos, afinal o bolo seria cortado em poucos minutos e ele veio pedir para comparecermos com um olhar desconfiado. Com um suspiro, nós entramos. Todos estavam reunidos, prontos para cantar a famosa música, mas eu fiquei no canto, não ia participar. É verdade que Alvo é muito mais simpático do que o irmão mais velho e mais sério do que a caçula; porém isso não era o suficiente. A música era entoada e acompanhei sem pronunciar uma única palavra sequer. Assim que acabou, eu peguei um pequeno pedaço e comi antes de subir, vou colocar uma roupa prática e treinar sozinha no quintal, não precisava do meu irmão; o objetivo era só testar mira e velocidade, ajudava muito a melhorar nos treinamentos se não tivesse ninguém por perto.
— Mason. – Assim que pisei no quarto degrau, uma voz me chamou, fazendo-me virar. — Não sei o que você está combinando com seu irmão, mas eu não vou deixar acontecer. – James Sirius Potter me encarava. Qual é o problema desse garoto? Eu desci, aproximando-me dele até igualar nossas alturas. Eu o olhei levemente incrédula. – E eu vou conseguir, não me importo se vocês lutam bem, não irão vencer. – Qual é essa paranóia? Ele não quer perder a família? Tudo bem, se nós fôssemos matá-los, não precisaríamos de tanto trabalho nem de tanta paciência.
— Você não me conhece. – Se ele planejava impedir uma guerra, tudo bem, estávamos estudando há um tempo razoável e não achamos. As pessoas começaram a olhar, percebi o olhar apreensivo de Dylan.
— Não? Você é metida, ama estar no centro de tudo, tem aproximadamente 15 anos, pelo ano em que está em Hogwarts, é manipuladora, gosta de dar medo, é fria e, principalmente, Mason, protetora do priminho idiota. – Assim como seus primos te protegem, comentei mentalmente.
— Parabéns, você é muito observador. – Minha voz saiu completamente irônica. – Mas tem um problema. – Eu me aproximei ainda mais, pude ver que ele vacilou um pouco e a tensão de Dylan aumentou pelo que indicava seu maxilar travado e a postura. – Você não sabe nada de mim. – Com um foco em nada, eu virei de costas para continuar meu caminho. Ele acertou, eu realmente gostava de sentir poder.
P.O.V. James Sirius Potter
Uma garota estava parada me esperando, ela se apoiava nos braços cruzados sobre o apoio que seguia para a escada, seus cabelos escuros caiam sobre as costas, dando–lhes uma aparência leve. Seu vestido azul se destacava contra a pele e a faixa apertava sua cintura de uma forma que a marcava muito. Ela estava linda. Assim que eu me aproximei, meu coração começou a acelerar; ela se virou como se tivesse ouvindo e eu pude ver quem era. Cecília Mason.
Eu acordei suando. Ainda bem que foi um sonho. Mas por que eu sonhei com aquela garota? E... Eu achei mesmo ela linda? Devia ser efeito de toda correria e do cansaço do aniversário do meu irmão. A festa. Por mais que quisesse não ter percebido, não podia negar, o vestido do sonho foi o mesmo de ontem. Passei minhas mãos suadas pelos meus cabelos para tentar me acalmar. Eu não podia ter achado ela bonita ontem, podia? É claro que não. Foi efeito do sonho.
“Então por qual razão seu coração continua acelerado?”, meu cérebro insistiu em perguntar. Adrenalina. Essa era a resposta. Tentei acalmar minha respiração ainda deitado. A cena ainda não saia da minha cabeça, foi tão curta, mas, assim que fechei meus olhos, eu pude vê-la novamente de forma tão clara como se estivesse ocorrendo nesse momento.
Eu me sentei na cama, preparando-me para ir para o banheiro, mas parei, eu podia me lembrar da palavras do meu primo no começo do ano letivo: “James, ela pode ter aquele sobrenome, mas ela é bonita". Que raiva. Eu mexi com meus braços rápido e um objeto caiu no chão, eu me abaixei para pegar e vi o livro que Rose tinha pedido para eu ler. Rose, ela estava namorando e eu me lembro da felicidade dela e da bronca do tio Rony.
— James. Você está bem? – A voz do Fred veio da minha direita.
— Estou.
— Tem certeza? Você está pálido.
— Foi só um pesadelo. — Pesadelo. Só isso. Não preciso me preocupar.
— Tudo bem... – Ele não parecia confiante, mas decidiu ignorar. Coloquei o livro na mesa de cabeceira.
“ – Scorp não me diz nada sobre eles, James. — Rose caminhava de um lado para o outro.
— Algo que me incomoda é o início dos ataques.
— Eu sei, mas você podia descobrir mais coisas.
— Eu descobri os sobrenomes, Rose.
— Tem algo estranho aí. – Ela folheava as páginas de um dos vários livros que tinha por perto. — Além de que ela não me é estranha.
— Como assim? – Eu a olhei confuso.
— Tenho a impressão de que já a vi em algum lugar, mas não consigo descobrir onde.”
Essa foi a primeira vez que Rose comentou sobre isso e eu sabia o quanto esse pensamento ocupava de sua mente, era o tanto quanto a minha preocupação com Lily, Alvo e meus pais ocupavam da minha; queria toda minha família bem, meus tios e tias, meus primos, primas... Algo dentro de mim se retorceu como uma pequena angústia, só não sabia a origem.
Fechei meus olhos uma última vez, respirando fundo para levantar. Decidi tomar um banho frio para me ajudar a esquecer de todos os problemas. Assim que a água tocou minha pele, eu comecei a relaxar, sentindo que tudo tinha sumido, deixei minha mente vagar.
Fred e Dominique tinha chegado alguns dias antes do restante da família e conseguimos desenvolver vários planos, eu até me lembrava das caras engraçadas que ela fazia, quando o amigo contava algumas de suas ideias. Recordei-me dele tentando cozinhar, Domi tinha realmente levado um susto ao ouvir um barulho parecido com explosão no mesmo momento em que Fred colocou o ovo na frigideira, mas era só os Masons “treinando".
Masons. Por que me lembrar disso? Eu não podia apagar a existência deles de minha mente? Eu sabia que não, encontrá-los todos os dias, incluindo ao acordar. Seria pedir muito para os pais levarem eles? Afinal, por que eles estão aqui? Desde quando papai tem amizades com Masons? A raiva ia me dominando e eu já começava a sentir alguns efeitos. Deixei a água escorrer pelo meu rosto e novas lembranças voltaram para minha mente.
“ Em meio ao desespero de quase perder Lily, apenas um parte do meu cérebro registrou o que acontecia a nossa volta e a pouca distância de nós que a salvadora dela estava. Pedi para Alvo ficar com Lily um minuto e então fui na direção dos dois recém-chegados.
A garota era um pouco mais baixa do que eu, ela batia no meu queixo e não devia ter uma idade muito diferente também. Seus cabelos escuros eram muito bonitos, mesmo escondidos sobre a capa. Quem sabe a desconhecida não podia ter uma chance com James Sirius? Ao agradecê-la, não pude deixar de notar a cor dos seus olhos, eu nunca tinha conhecido alguém com essa cor.
Tudo estava indo incrivelmente bem até o Mason aparecer, ele realmente parecia conhecê-la, seriam namorados? Meu estômago se revirou com o fato de eu ter cogitado algo com essa garota. Piorado com a descoberta de ela ser uma Mason. Não sei o que seria pior. Nenhuma pessoa que gostasse daquele sonserino teria chance comigo, poderia ser apenas um surto pelo qual passava, mas eu o detestava de uma maneira tão forte que acho que tentar trazer uma ex dele para a sanidade estava riscado definitivamente da lista de coisas para se fazer.
E ter qualquer relacionamento com alguém que compartilhasse do sangue daquela cobra era tão asqueroso quanto o animal. Se eram parentes é porque são iguais ou, ao menos, compartilham de mesmos ideais. A remota ideia de sequer um dia ter cogitado uma chance que daria me fazia ter ânsias.”
“Se você ainda passa mal por imaginar essa situação, então por qual razão presta tanto a atenção em Cecília Mason?” Eu realmente queria cancelar conversas com a minha consciência. Eu não podia negar que ela tinha a tendência de me irritar mais fácil do que o normal e sempre que eu a via tinha vontade de deixá-la irritada, pelo menos, até ver o olhar mortal e irritado em seus olhos. Atribuía isso ao seu sobrenome afinal o primo tinha uma tendência muito próxima.
“Mas você se sentiu hipnotizado ao observá-la lendo na Sala Comunal naquele dia, né?” Eu queria gritar para eu calar a boca, mas parecia simplesmente impossível. Eu senti meu estômago reagindo, mas, para minha decepção, parecia mais um frio na barriga do que enjoo. Queria me bater por ter reagido daquela forma ao vê-la, mas era uma caça ao tesouro, sendo esse inexistente. “Será mesmo?” Por Merlin, eu teria paz nos meus pensamentos em algum momento?
Flashes do baile em Hogwarts surgiram, o vestido vermelho de uma grifinória enquanto dançava com o par sonserino, quem escolhera a cor tivera um humor bem irônico, eu queria ter visto a reação de Nathan Mason ao descobrir sobre o traje da companheira. Algo na dança, no jeito em que ela se movia captou minha completa atenção e, depois, ainda saiu com o primo para passear, voltando muito depois, descontei toda essa minha frustração na minha parceira, não acho que ela tenha reclamado dos beijos de qualquer forma.
Mas algo dentro de mim já tinha começado a mudar, eu não pegava mais todas as garotas de Hogwarts e me pareceu errado usar a minha companhia no baile para superar frustrações. Lembro-me de Rose criticando isso, falando que eu nunca ia namorar desse jeito, mesmo eu podendo escolher qualquer garota, na época, para isso. Será que, finalmente, James Sirius Potter está amadurecendo?
Para completar minha total desistência de esquecer a irritante grifinória Mason, eu me lembrei de ontem e de como eu gravei os detalhes dela descendo as escadas, mesmo tendo a certeza de não ter ficado tanto tempo a observando. “Se realmente não ficou, como pôde saber de todos os passos?”. O que precisaria fazer para ter paz dentro da minha própria cabeça? Sentia como se tivesse lutando contra eu mesmo e isso era cansativo.
Mesmo assim, a raiva me dominou ao ouvir a conversa dos irmãos, eu não sabia o motivo, mas algo me incomodou e não pude deixar de mencionar para a Mason, eu posso me recordar de cada detalhe de sua reação, seu olhar endurecendo, ao mesmo tempo em que brilhava como se me desafiasse, mostrando coragem e exigindo respeito.
Minha mãe brigou comigo depois da Mason sumir de nossas vistas, ela disse que não era para eu ter começado a discussão, ainda mais no aniversário do meu irmão, enquanto ele tinha um olhar impaciente, o mesmo que assumia quando eu falava dos Masons. Todos da minha família pareciam ser contra eu, até mesmo tio Rony, meu fiel aliado nessa luta, parecia ter amenizado as críticas de um tempo para cá, enquanto Teddy disse tentar entender um pouco o lado da garota antes de julgar.
Eu não me importava se tia Mione tinha obtido sucesso ao controlar o marido ou se meu amigo tinha ouvido mais seu lado lufano do que o lado Lupin, nem mesmo Remo Lupin em seu quadro parecia criticar a atitude de todos, ele parecia muito compreensivo e até levemente aliviado, para dizer o mínimo. Nada parecia fazer mais sentido nem mesmo esse meu banho.
Depois de não conseguir dormir durante um bom tempo na noite passada, eu desci para beber água e vi luzes vindo do quintal, tinha pego minha varinha pronto para lutar contra quem fosse. Caminhei por pouco tempo até reconhecer a silhueta da pessoa lá fora, era Cecília Mason e lançava feitiços contra algo invisível na escuridão da noite, mas, como o objeto parecia não revida e, dificilmente, alguém imitaria o jeito de luta daquela garota, eu decidi ignorar. Minha casa também estava revestida com poderosas magias de proteção, nenhum comensal conseguiria ultrapassar as barreiras, nem se quisesse.
Sendo assim, ignorei o que acontecia lá fora, terminei de beber o copo de água deixado na pia e voltei para o quarto só para ter o motivo de todos meus problemas de hoje. Eu balancei a cabeça, desligando o chuveiro. Isso não tinha funcionado conforme o esperado, então não adiantava gastar água para nada.
Enquanto eu me trocava, deixei um leve riso escapar ao me lembrar de quando Nicolas Zabine a convidou para o baile, eu não sabia o motivo de ter dado risada na época, parecia um momento tão leve, se comparado com o fato dela ter aceitado o convite do primo em pleno Salão ou de quando ela desmaiou, depois da última vez em que nos protegeu, por mais que eu negasse, me senti levemente agoniado ao vê-la se debatendo de dor no chão, provavelmente por termos menos uma barreira.
Saindo do banheiro vestindo uma roupa qualquer, eu voltei para o quarto com Fred encarando cada passo dado, aquilo começava a me incomodar e não podia dizer que vivia meu dia mais tranquilo. Ainda era bem cedo, então todos dormiam, exceto nós dois. Eu sabia que não conseguiria voltar para a paz do meu travesseiro, mas o ruivo podia e tentava tranquilizá-lo, quando alguém acordou.
Olhando por cima do ombro, vi Dylan Mason se levantando. Ótimo, era tudo o que precisava, o irmão dos meus pesadelos completamente desperto caminhando pelo meu quarto. Ao menos, meus amigos estavam aqui. A divisão foi: meninas no quarto de Lily; Fred, Teddy, Dylan, Frank e eu no meu quarto; Alvo, Hugo, Louis, Scorpius e os gêmeos Scamander no quarto de meu irmão; enquanto meus tios e tias estavam espalhados pela casa.
Com um cumprimento, o recém-acordado passou por nós e seguiu para o banheiro, após pegar algumas roupas. Maravilha, hoje seria um longo dia e eu não estava nada preparado para enfrentar o que quer que me esperasse. A possibilidade de tudo piorar era existente, mas torcia para ser baixa. De qualquer forma, eu não descobriria até ela chegar.
Fred ainda tentava me convencer a contar o sonho para ele, mas como iria dizer que eu sonhei com a Mason usando a roupa do dia anterior e tinha achado ela linda? Ao pensar nisso, eu percebi que realmente parecia um completo idiota por fazer toda reflexão com algo desse tipo, mas alguma coisa no jeito dela durante os poucos momentos em que sua imagem ocupou meu inconsciente me incomodou, tudo parecia tão natural, a proximidade, o elogio, parecia até íntimo e, mesmo completamente surreal, me fez sentir como se fosse real e isso me assustou.
P.O.V. Cecília Mason
Depois do treino, consegui treinar o bastante para aliviar a raiva e frustração, já era bem tarde, quando voltei para a cama, após um banho rápido. Eu tomei o máximo de cuidado para não acordar ninguém nesse caminho.
Quando eu acordei, o Sol já tinha nascido, mas não fazia muito tempo, provavelmente, eram 6 da manhã. Eu me levantei, arrumando a cama e separando uma roupa para vestir após o banho. Ela era simples, uma calça escura e uma camiseta branca rendada de ombro a ombro. No pé, uma sapatilha escura.
Já arrumada, eu resolvi descer, queria aproveitar o dia para tentar aperfeiçoar algumas táticas e, quem sabe, poções. Para isso, eu decidir comer algo o mais cedo possível. Conforme desci as escadas, sons de vozes tornavam-se mais altos e, já no fim, Dylan apareceu, me viu e se virou para a cozinha.
—Ela já acordou. — Sem entender nada, eu vi a professora McGonagall saindo do cômodo.
—Bom dia, senhorita Mason. — Eu a cumprimentei com um aceno.
—Nós confirmamos, é ela mesma. — O senhor Potter comentou ao aparecer. — Seu irmão ajudou, inclusive.
—O que faz aqui, diretora? — Eu a olhei de forma intensa.
—Não estou aqui como diretora, Cecília. Vim como amiga, preciso conversar com você e seu irmão. É importante. — Sua voz não dava espaço para argumentação. — Vamos passear.
Apesar de não esperar por um convite assim, eu entrei na cozinha sem dizer nada, peguei uma maçã e voltei para perto de onde estavam. O tom da severa mulher parecia como se ela nos chamasse para caminhar para dar a notícia de que algo tinha acontecido com meus pais, apesar de normal, completamente irônico. Tentando ignorar a sensação de alerta que surgia, eu segui os dois para fora da casa.
—Vejo que estão bem protegidos. — Ela começou, o fato dela não dizer logo o que queria me deixava ainda mais desconfiada do conteúdo dessa conversa. — Isso é bom.
Eu esperei por um tempo, comendo a maçã em minha mão, mas, aparentemente, tudo estava em uma caminhada estranha. Sem notícias, sem novidades. Percebi que Dylan não se encontrava de modo muito diferente.
—Diretora, o que está acontecendo? — Ela parou por um tempo, mesmo sendo um dia bem quente, a rua estava vazia.
—Abbaffiato. Eu estive em uma reunião com seus pais e mais um convidado. — Não foi preciso especificar o nome dele para sabermos quem é. — A cada dia, a guerra se aproxima e aliados são mais importantes.
“Aliados”. Essa palavra estava muito comum nos últimos tempo e, geralmente, era usada para se referir a segredos. Considerando todo o histórico, eu já conhecia o pedido antes mesmo de ser feito. E Dylan também. Não. Definitivamente não. Era o segredo mais bem guardado de todos, ao menos, até ano passado, era. Eu não podia sair simplesmente anunciado para as pessoas, ele trazia responsabilidade, era manchado por sangue, pois a consequência seria a morte. Ele trouxe a guerra, ele provocou várias perdas.
Podia não simpatizar com os Weasleys, mas algo assim era muito. Os pais já sabiam, mesmo com grande relutância da minha parte, por qual razão teríamos que contar para o restante? O resultado seria pior. Eles não poderiam se defender adequadamente e isso resultaria ainda mais responsabilidade para minha família. Eu sabia que meus pensamentos estampavam minha face.
—Não foi ideia minha, o convidado quem falou. Sua mãe teve uma reação muito parecida com a sua Cecília, mas ele conseguiu convencê-la. Todos nós fomos. — Esse era um dom dele, dado o conhecimento extremamente completo, ele garantia que quase todas suas ideias fossem feitas, não por manipulação, mas por serem racionais e eficazes.
—Diretora, a senhora sabe o que está nos pedindo, né? — Ela pressionou os lábios com força, fazendo-os formar uma fina linha.
—Sim. Eu sei. Peço para contarem o seu segredo. Contarem para quem ainda não o conhece. É uma grande coisa, eu sei que aqueles garotos conseguem, a família já passou por muita coisa e eles são reflexo disso. — A guerra contra Voldemort, isso era a “muita coisa” a qual a mulher se referia.
—Não. Eu me recuso. — Fui firme. Eu não deixaria que uma repetição acontecesse. Nós já trazíamos a morte. Nosso segredo revelado? Caos e destruição. Isso foi algo com o qual aprendemos a lidar desde pequenos, passamos por torturas, quase morremos muitas vezes, nossos pais nos salvaram, mas, uma hora, eles não iam conseguir mais. Se eu queria não tê-lo? Não, ele me torna forte e quem eu sou; porém uma coisa era ser só entre nós, Dylan e eu aguentando, outra era jogar pessoas em fogueiras desconhecidas, deixando-as queimarem sem saber que seriam consequências de algo “inofensivo”.
—Senhorita. — A diretora me chamou.
—Não. Eu respeito a senhora, mas não vou fazer isso.
—Temia que isso acontecesse. Jade também. — Ela me olhou, tentando amenizar a expressão severa que dominava seu rosto. — Devo lembrá-la de um detalhe: eles estão em risco já, não só por acomodarem vocês; não seria melhor, então, deixá-los saber do desafio que enfrentarão do que, possivelmente, enfrentar uma morte cega? Eles podem escolher como agir.
—Não. — Minhas mãos se fechavam. Cenas do passado não paravam de voltar.
—Ceci... — Dylan começou, mas eu o cortei.
—Tem certeza mesmo? Ela é Minerva McGonagall? — Eu disse com raiva, não interessada na resposta, virando-me para voltar.
—Tenho. — Preparada para sair dali, uma mão tocou meu ombro. — Ao menos, me espera. Melhor não dar motivos para uma briga por sair sozinha. Deixa-me garantir que você chegará bem. — Eu soltei o ar completamente irritada, esses pedidos eram quase uma manipulação de Dylan.
Mesmo assim, eu me virei, esperando impacientemente, enquanto os dois conversavam. Podia ouvir tudo de onde estava, sentia que a intenção era me convencer, sem minha presença na conversa. Um longo tempo se passou, minha maçã já tinha acabado.
Isso foi esperado, não? Se os mais velhos soubessem, os jovens também deveriam, certo? Provavelmente, mas a sombra do passado me impedia disso. Adultos podiam se proteger, mas adolescentes...? Eles já tinham se defendido antes, porém seria diferente.
Muito tempo depois, Dylan parou na minha frente. Aparentemente, a conversa tinha chegado a um fim.
—Eu vou. — Comentou simplesmente, seu olhar era tão decidido quanto o de mamãe ao colocar algo na cabeça. — Independente do seu apoio. — Eu percebia meu olhar duro. — Vou dar uma chance daquelas pessoas lutarem, conhecerem o motivo disso e a opção da escolha. Lá, eles não tiveram e não adiantou. — Lá. Dylan sabia minhas razões, entendia as dele também, mesmo não concordando.
Flashes voltaram. Conhecendo, eles se salvariam? Não. Se eles eram diferentes? Sim. Isso mudaria? Era um jogo de sorte. Dei um suspiro derrotado, daria apoio a Dylan.
—Tudo bem. Você venceu. — Seguimos a ex-professora para a residência Potter em silêncio.
Logo que chegou, ela se despediu e nós entramos. Surpreendentemente, toda a família estava na sala, aparentemente, os amigos tinham ido embora. Os Weasleys se encontravam completamente espalhados, alguns, sentados no sofá como o Potter mais velho e Rose; outros sentados nos braços do móvel, igual Teddy Lupin; mais alguns apoiados, assim como Victorie no namorado e o restante se encontravam de pé mesmo.
Dylan seguiu para se posicionar de frente a todos. Eu o segui. Talvez, devesse mesmo confiar mais neles, eles não tomariam decisões ruim, né? Por que minha mente e minhas emoções conflitavam?
—O que vão fazer? — Uma voz irritada disse e eu nem precisei pensar para saber quem se pronunciou.
—Precisamos contar algo. — Meu irmão foi direto.
—Não quero saber. — O Potter fez como se fosse levantar, mas a prima o segurou.
—Cecília tinha razão, vocês não nos conhecem, não sabem nada sobre nós. Mas nos pediram para contar algo muito importante. Um segredo.
—“Segredo” não é exatamente a palavra. — Eu sussurrei, decidida a ouvir o lado racional e manter a confiança nas pessoas em que eu achava que mereciam.
—Quem pensa que Hogwarts foi atacada por nossa causa, em parte, acertou. — Eu olhei para Dylan tentando entender.
—Eu sabia. Engaram a todos, mas eu não.
—Cala a boca, Potter. — Eu disse alto e ele resmungou um pouco, porém não continuou com a fala. Percebi uns olhares surpresos na sua direção. — Como meu irmão estava dizendo, antes de interromperem, é que os comensais procuravam por nós.
—Por que? — O sotaque francês na voz, indicou quem perguntava.
Eu olhei meu irmão e ele fez sinal para que eu falasse. Eu suspirei irritada.
—Alguém conhece a lenda de “Os descendentes”? — Perguntei meio com os dentes cerrados. Ninguém ficou surpreso ao ver a mão de Rose Weasley levantada.
—Weasley. — O mais interessado de contar a indicou. Ela começou a contar.
—A lenda é bem antiga e considerada completamente impossível de ser real. — Eu dei um sorriso bem leve, assim como a lenda das relíquias da morte era irreal. Tomando fôlego, a ruiva permaneceu falando, dessa vez citando perfeitamente as palavras pedidas.
”Há muitos séculos, depois da construção de Hogwarts, porém antes de Salazar deixar tudo, inclusive o basilisco, os fundadores viviam bem, morando juntos. Rowena e Godric namoravam por um tempo e desse relacionamento nasceu uma menina tão linda e inteligente quanto a mãe e tão corajosa quanto o pai, ela encantava quem a conhecia. Enquanto Helga e Salazar ficaram juntos por apenas uma noite, mas foi o suficiente para nascer um menino idêntico ao pai, tanto na aparência quanto na personalidade.
Com o passar do tempo, Salazar foi se aprofundando nas trevas e, com isso, as mulheres temeram pelos filhos, cada uma com suas próprias razões, a corvina, pois era filha da paixão do fundador da Sonserina com seu inimigo; por outro lado, Slytherin não tinha conhecimento do menino. Por causa disso, uma noite Rowena e Helga pegaram as crianças e sumiram por alguns dias, ninguém sabia para onde tinham ido, apenas que voltaram com os braços completamente vazios e a tristeza presente.”
—Obrigado. Mas nem tudo a lenda conta. Quando as duas fundadoras sumiram naquela noite, elas viajaram no tempo muitos séculos há frente, utilizando uma magia poderosa. Passaram dias observando as pessoas daquele presente tão estranho. Rowena decidiu deixar a filha com uma família corvina, torcendo para que, se Salazar por acaso a encontrasse, não lhe fizesse mal, por parecer muito mais com a mãe, o amor dele. Helga por outro lado, mesmo de coração partido pela decisão, escolheu uma família puramente sonserina para deixar o filho, torcendo pelo melhor dele e pela clemência de sua vida, caso o pai descobrisse sobre o primogênito desconhecido. — Dylan fez uma pausa, olhando-me para que eu falasse. Depois, eu conversaria com ele.
—Um detalhe esquecido foi que, com a pequena menina, Rowena deixou duas cartas, uma, explicando tudo para a família e a outra, para a filha, contando sobre a origem. E a lufana desejava que, mesmo com tudo, o lindo menino descobrisse o lado de sua mãe e pudesse viver com as qualidades tão importantes para ela. — Eu fiz uma pausa, organizando os pensamentos. — A Ravenclaw foi deixada em uma família tradicionalmente corvina... Sabem qual é? — Um silêncio reinou por um tempo, até que o Lupin se pronunciou.
—Whites. — Eu o indiquei, concordando com a resposta. — Eu me lembro de Alice comentar sobre isso uma vez.
—Já o Slytherin foi colocado com uma “família puramente sonserina”, como meu irmão disse. Alguma ideia? — Com uma careta James Potter se pronunciou.
—Masons.
—Exatamente. — Dylan retornou à narração. — Os anos foram passando e, como ironia, a filha de Godric casou-se com o filho de Salazar. Eles tiveram dois filhos, um garoto mais velho e uma menina mais nova. – Pude ver a tentativa de Rose Weasley de organizar tudo em sua mente.
—A menina era Jade Ravenclaw Gryffindor, mas passou a ser conhecida por Jade Marin White. — Comentei
—Enquanto o menino, Érick Hupplepuff Slytherin, recebeu o nome de Érick Montgomery Mason. Os filhos deles foram chamados de Dylan e Cecília. — Dylan completou.
—Isso significa que... — A filha de Hermione começou.
—Sim. Somos netos dos fundadores de Hogwarts.
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