Os cânticos de guerra - Primeiro volume.
2 Quem é você ?
Acordou sentindo os olhos pesados e o corpo dolorido, sentiu que os pulsos estavam desamarrados, era sua chance. Com dificuldade ele se sentou na cama e observou o quarto que estava iluminado apenas pela luz fraca de uma vela, atrás dele a janela de madeira era empurrada pelo vento do lado de fora, ele podia ouvir vozes exaltadas, alguém estava discutindo; também ouviu gritos de uma voz familiar, era a voz da garota que ele havia conversado mais cedo naquele dia.
— Daen? — ele repetiu e em silêncio procurou novamente a direção das vozes que discutiam.
— Seu velho caquético, se não nos entregar a garota, vamos queimar toda a vila. — Pôde ouvir uma voz rústica e grave gritar.
Em um surto intuitivo lançou a mão direita contra a janela de madeira que ficava um pouco acima da cama,quebrando-a em vários pedaços.Sentiu o vento frio no próprio rosto junto com gotas de chuva que pareciam flechas
— Daen?— disse procurando na escuridão até perceber três ou quatro tochas a alguns metros. Saltou a janela pisando em uma poça de água gelada, seu coração batia mais rápido conforme ele caminhava em direção a luz das tochas.
Daen estava ajoelhada em frente ao pai chorando, haviam dois ou três fazendeiros empunhando foices e machados, a frente deles um grupo de cerca de dez homens usavam armaduras de couro negro e empunhavam espadas rústicas
— Vamos,entregue a garota...é só uma garota,é ela ou a vila.— Disse o líder, um homem troncudo com grossas tranças ruivas e um rosto marcado por cicatrizes
— Não ! Não podem fazer isso! Ela é minha filha! — O pai de Daen avançou sobre o homem, mas foi instantaneamente derrubado por golpe com o cabo da espada
— Eu vou.Não posso ser a causa da morte de todos aqui...— Ela disse com um tom sério e a voz sóbria
— Você ficará ai, sentado, enquanto eu a levo.— disse o homem agarrando o braço fino de Daen que se deixava levar relutante,mas firme.
— Não! Por favor, não façam isso! — O pai gritou duas ou três vezes.
Dárgaro sentiu todos os músculos do corpo se contraírem, respirou fundo fazendo o ar gelado preencher seus pulmões e apertou os punhos
— Daen! — gritou avançando no ímpeto da sua fúria sobre o homem que segurava a garota.
O enorme punho de Dárgaro se chocou com a mandíbula do líder do bando que nem teve tempo para reagir, foi lançado a três metros de distância e caiu inconsciente em uma pilha de lenha. Os dois homens mais próximos brandiram as espadas; o primeiro tentou uma estocada contra a barriga dele que se livrou do golpe saltando para o lado, desferiu uma joelhada na barriga do guerreiro que caiu se contorcendo de dor.
Dárgaro agarrou o segundo guerreiro pelo pescoço e o lançou a metros de distância, sobre uma pilha de feno. Andou a passos largos em direção ao líder do bando e o agarrou pela cabeça erguendo a alguns centímetros do chão, todos ao redor olhavam em silêncio, havia pessoas nas janelas e portas de várias casas observando a luta assustadas. Em silêncio ele pegou um fragmento de madeira quebrada e cravou na perna do homem que soltou um sufocado urro de dor.
Soltou o guerreiro que se arrastou com dificuldade até perto do seu bando; os homens estavam todos paralisados pelo medo quando Dárgaro soltou um grito gutural mais parecido com o urro de um urso. Imediatamente todos os homens correram em desespero, uns tropeçavam, outros corriam velozes largando suas espadas ali mesmo e o líder do bando se arrastava em meio à confusão.
Dárgaro sentiu o sangue quente escorrer pelas peles que ele estava enrolado, tonto percebeu a luz escapar gradativamente de seus olhos e desmaiou.
Quando abriu novamente os olhos, estava no mesmo quarto. Percebeu que não estava mais amarrado e, na porta, o velho pai de Daen, Ulber, observava pensativo. Tinha poucos cabelos sobre a cabeça e um rosto cansado e queimado pelo sol com grossas barbas negras salpicadas de branco ao redor da boca.
— Então acordou... Rapaz, eu lhe devo a minha vida, a minha e a de minha filha. — disse apontando para a garota que estava cochilando na cabeceira da cama.
Dárgaro se virou e a observou em silêncio, o lugar onde o ladrão havia apertado o braço da garota estava vermelho.
— Onde estão os ladrões?— perguntou se sentando na cama e passando a mão sobre o rosto, seus longos cabelos estavam oleosos e a barba estava ainda mais densa.
— Se borraram e fugiram aos gritos. Rapaz, você tem uma força fora do comum... Quem é você? — Ulber se aproximou da cama ainda com certo receio.
— Se o senhor me responder isso, lhe serei eternamente grato. —
—Acordou! — a garota gritou saltando sobre Dárgaro com um sorriso no rosto, dando-lhe um abraço.
Dárgaro se manteve imóvel, sentia que precisava cumprir uma missão, só não sabia qual.
— Eu preciso ir, eu devo ir — disse.
Dárgaro era maior que as pessoas comuns e Daen não era tão alta, parecia uma criança diante dele.
— Pedimos que fique... Você tem a minha gratidão e da vila inteira, fique pelo menos por um tempo! —
— Você é um homem valoroso, tenho certeza que no momento certo você vai descobrir a verdade. — Disse o velho pai.
Dárgaro respondeu o cumprimento apertando a mão do pai de Daen. Algo lhe dizia, no interior da sua alma, que ele nunca havia feito aquilo, nunca havia confiado em alguém.
— Tudo bem... — respondeu.
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