Prólogo.

Não se esqueça de quem eu sou

Sou aquele que abre montanhas, que rasga a rocha e

Que destrói homens e deuses com a força dos punhos;

Aquele que não teme, nem treme diante de ninguém.

Meus olhos são flamejantes

Minha língua é a lâmina do mais puro aço

Minhas lágrimas são as lavas dos vulcões

Os raios e trovões são minha voz

Ajoelhem-se diante do seu senhor Asart

“Pois eu sou seu senhor, deus e suserano...

.

A Caverna estava imersa na fumaça do incenso, os velhos feiticeiros se reuniam em círculo em torno de uma mulher que vestia uma túnica verde e dourada. As paredes estavam adornadas com crânios de homens e animais,velas e tochas iluminavam o lugar.

— A Serpente de três cabeças. Não haverá piedade, uma cabeça cobre o passado, uma cabeça lança veneno sobre o presente e a outra olha ansiosa e faminta o futuro que tenciona engolir. — Comentou a profetisa, os velhos homens ao redor tentaram escutar o que ela falava e questionar ainda mais.

—Há como vencer esta serpente?

A Mulher, que parecia em transe, cuspiu outras palavras confusas:

— As três cabeças devem ser cortadas em sequencia. O mal deve ser colocado em seu lugar ou em um piscar dos olhos dos deuses não haverá mais a criação do peregrino.

Os velhos escribas anotavam freneticamente o que a profetisa dizia.

— Quais são os sinais da serpente, espírito?— perguntou um dos homens.

— As cabeças virão um por vez, primeiro virá o homem, depois virá a besta e por último a morte propriamente dita.

Os velhos pareciam assustados, um deles ousou perguntar:

— Haverá esperança nessa hora, Espírito?

—Luz e trevas são irmãs, onde um pisa o outro há de pisar. Ele, A Mão humana dos deuses, a mão divina dos homens, A Luz em extensão. Ele cortará as três cabeças da serpente, o homem, a besta e a morte.

A mulher desfaleceu em seguida sendo impedida de cair no chão duro pelos velhos homens que se juntaram ao seu redor. Isso aconteceu no berço dos tempos. A Profecia foi esquecida pelas pessoas comuns, mas os sábios, os atentos, os homens que a ouviram propagaram cada palavra em livros, inscrições e poemas espalhados pelo mundo.

Capitulo Um

Sentiu o gosto da lama úmida contra o rosto e ouviu duas ou três vozes sussurrantes vindas de algum lugar. Dárgaro só conseguia distinguir o horizonte cinzento se encontrando com o marrom da lama e as poças de água no que parecia ser um caminho em meio a uma floresta

— Ali, ele deve ter algo de útil! , vamos antes que ele acorde! — alguém disse. Ele próprio não conseguia identificar nada, não sabia onde estava, sentia frio e dor.

— Vamos! Peguem, deve ter algo de valor ai! — ouviu outra voz mais grossa gritar e usou um pouco de suas forças para se virar vendo o céu nublado e escuro que se erguia acima dele cuspindo pingos gelados de chuva sobre seu rosto.

Passou as mãos sobre a face tentando retirar a água dos olhos, mas sentiu a dor lancinante do pé de um dos homens contra suas costelas.

— É só um mendigo, não tem nada de valor — um dos homens o empurrou com o pé e ele viu apenas seu grande cabelo ruivo sujo e despenteado.

—Vamos, esse maldito não tem nada de valor. — outro homem conversou olhando ao redor, assustado — E acho bom sairmos daqui, ai vem os homens da vila! —

Ele conseguiu ouvir os passos firmes dos ladrões correndo antes de ser acertado por um chute no queixo, ouviu também os gritos dos guardas e por fim, tonto, fechou os olhos. Abriu os olhos cansados novamente e ouviu o canto de pássaros, se sentia confortável e quente embaixo dos grossos cobertores pele animal. Virou-se para o lado contrario se deitando sobre o lado esquerdo e sentiu a dor de uma ou duas costelas quebradas.

— Ele está acordando! Está acordando! — exclamou uma voz feminina da porta do quarto, era algo diferente do que ele estava costumado a sentir, mesmo que não se lembrasse de nada além do chute na costela e da pancada forte no rosto.

— O-onde estou?— Perguntou com dificuldade tentando encontrar uma posição confortável onde não sentisse tanta dor, mas não foi respondido, duas mulheres olhavam para ele atônitas e amedrontadas diante da porta.

Olhou novamente ao redor e percebeu o pequeno quarto simples, sua cama estava encostada na parede esquerda do lugar e acima dele havia uma janela que permitia os sons vindos de fora entrarem junto com a luz do sol.

— Onde eu estou? — gritou novamente se sentando na cama, percebeu que estava sem roupas. As duas mulheres que olhavam da porta saíram correndo aos gritos quando ele se levantou. Caiu ainda tonto sobre o assoalho de madeira.

Abriu os olhos de novo, estava sobre o colo de alguém que ele não conhecia, mas estava amarrado.

— Acalme-se ai, meu pai está trazendo seus remédios... Seja o que for que deseja fazer, vai ter que esperar sua costela ser curada. — Disse.

Dárgaro se mexeu tentando inutilmente desatar os nós que prendiam seus braços e percebeu que não iria conseguir mesmo que tentasse o dia todo,a dor era forte demais.

— Porque você é tão inquieto?— Olhou a moça que cuidava dos cortes em seu rosto, tinha longos cabelos ruivos e olhos castanhos muito claros, traços delicados e uma voz melodiosa.

— Você não fala nada! Chamo-me Daen. Diga-me seu nome... —

Dárgaro não respondeu, tinha os olhos fixos no teto acima.

A garota passou novamente uma compressa com uma mistura de ervas sobre um corte na fronte

— Não sei... — respondeu relutante, era verdade que ele não sabia nem o próprio nome, nem de onde vinha, nem quem era de fato.

— Meu pai diz que você é um mendigo, mas você é bonito demais para isso. — Ela disse entre uma tímida risada.

Dárgaro sentiu uma rápida vontade de rir, mas sem saber porque sentiu-se pesaroso e fechou os olhos novamente.

— Preciso me levantar e ir — disse forçando o braço direito contra as cordas e sentindo a dor da costela quebrada.

Daen se levantou colocando cuidadosamente a cabeça dele sobre o travesseiro.

— Precisa ir? Para onde?— Dárgaro desistiu de tentar fugir, se o que a garota dissera era verdade, não sobreviveria muito tempo fora Dalí.

— Não sei... Não sei... —

— Descanse, por favor... Volto daqui a algumas horas. — a garota atravessou o pequeno quarto e desapareceu depois da porta de madeira.