Os amores que existem
1 O Parque
Ele chegou no parque. O dia estava lindo, talvez não estivesse, mas o dia sempre estava lindo quando ela estava lá. E ela estava, no mesmo lugar de sempre, o cachorro dormia em seu colo e ela sorria contemplando o nada, pensando em tudo.
Ele se aproximou, ela o olhou e sorriu como cumprimento. Não diziam muitas coisas um pro outro, as conexões eram feitas principalmente na base do olhar.
Mas hoje era diferente.
Palavras seriam ditas hoje, mais palavras do que todas as palavras que eles já haviam dito um para o outro. Hoje ele iria falar o que quisera falar desde a primeira vez que a viu, naquele mesmo parque, com aquele mesmo cachorro, com aquele mesmo sorriso?
- Eu te amo. — disse.
Assim, simples, rápido e prático. Tal como tirar um curativo, mas o que viria depois, ele esperava, não seria dor e sim felicidade.
Pelo menos ele achava.
Ela o encarou, os grandes olhos dela o encaravam, ela ainda sorria, mas n era o mesmo sorriso de antes. O que antes trazia alegria, agora trazia angústia.
- Eu não posso me apaixonar por você, me desculpe.
Ele a olhou.
- Não é que eu não goste de você- ela continuou, cada palavra parecia um corte de navalha em seu coração — É só que eu acredito que o tipo de amor que vc vai me dar não é o tipo de amor que eu preciso.
Não me leve a mal, mas você me parece alguém que ama seguramente. Alguém que vai ser a ultima pessoa que eu vou falar antes de dormir e a primeira pessoa que eu falarei quando acordar. Alguém que vai gostar dos mesmo livros que eu e ver os mesmos filmes que eu, alguém que vai adorar passar o dia inteiro comigo sem fazer nada, só conversando, alguém que vai sempre me apoiar e me entender.
Só que não é isso que eu quero pra mim.
Eu não quero um amor água com açúcar. Sinceramente, acho que ficarei melhor sozinha. Quando (e se) eu me apaixonar eu quero um amor que me tire do eixo, que inverta minha rotação, que faça com que tudo que um dia teve sentido simplesmente não tenha mais. Alguém que invada completamente meus pensamentos, que não me deixe ter cabeça pra mais nada, alguém que seja a única coisa que eu consiga enxergar quando fechar os olhos.
Deus me livre a calmaria de um amor seguro. Eu quero um amor agitado, um tsunami, um terremoto. Instável. Inconsistente. Inquieto. Um amor na corda bamba, que viva entre altos e baixos, mas que viva! Que se movimente!
Não quero um amor passivo, compreensivo, entendedor. Quero um amor que discorde, que se incomode, que brigue e que me dê as costas. Mas um amor que volte, que se importe, que me procure pela cidade inteira só pra se desculpar. Que mande flores em dias banais, que me dê presentes que não significam nada em datas que não significam nada.
Eu quero um amor louco, que me deixe louca e que me faça fazer coisas loucas. Coisas que eu não faria, coisas que eu não sei. Eu quero um amor que me vire 360 graus, talvez seja pedir demais e talvez eu nunca ame ninguém, simplesmente por não existir ninguém assim, mas a verdade é essa e infelizmente o seu amor não é suficiente pra mim.
Ele se levantou e foi embora. Foi tudo tão rápido, tão de repente. Mas houve mudança e ele já podia sentir. O garoto que chegara naquele parque loucamente apaixonado ia embora livre daquele sentimento. Dentro de seu coração, por aquele garota, existia somente pena. Pena de alguém pudesse ser tão ingênuo para pensar que exista amor intenso, amor brando, amor louco... quando não verdade o que existe é apenas amor.
Mas ele se consolava no fato de que o amor um dia chega. Para todos. Sempre diferente.
Mas sempre igual.
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