As ruas enchem e se congestionam. Um silêncio carregado de excitação perdura no ar. É sempre assim. Até que abruptamente cartazes aparecem sobre as cabeças dos manifestantes e o protesto começa. Era o terceiro que participava. Meu pai, homem ligado a ARENA, nem sequer suspeitava do meu envolvimento nas passeatas. Ainda menos que seu primogênito era militante da ALN. Seguíamos rumos diferentes – eu escolhi o caminho à esquerda.

Andávamos contra o vento, com nossas mãos erguidas, no sol de quase dezembro em 1972. Eu e Julia, minha namorada e também da ação libertária, não queríamos mais pão, nem circo. Levantávamos nossas vozes contra os latidos dos atos inconstitucionais. Berrávamos para acordar as pessoas na sala de jantar que estavam apenas preocupadas em nascer e morrer. Havia outros amigos do movimento em nossa volta. Encontrar-nos-íamos no Finem, um Hotel abandonado, após a manifestação.

Meu braço direito erguido com o punho cerrado. Podia ver as marcas que minha mãe deixara. Sabia para onde ia. Segurou-me antes que pudesse sair de casa. As paredes azuis da cozinha nos olhavam com frieza. “Até logo”, eu disse. Olhei em seus olhos, marrons como o tronco de uma cerejeira, desprendi-me de sua armadilha desesperada e fechei a porta atrás de mim.

Os tiros me trazem de volta à realidade. A polícia tinha chegado. Uma parte da multidão tenta prosseguir, mas eles não deixariam que estudantes manchassem o governo de Médici. Era preferível manchar as ruas de sangue. Julia grita para que corramos rumo ao Hotel, “não adianta mais ficar aqui!” articulou. Passamos por uma viela apertada e chegamos ao nosso destino. Ela nos conduzia. Subíamos as escadarias apressados. Adrenalina pulsando nas veias. Entramos num dos quartos.

“Fiquem parados e de joelhos!” ordenou um dos quatros soldados armados que nos esperavam ali dentro. Obedecemos. “Vá, garota. Você já fez o que devia fazer” disse o homem à Julia, provavelmente o capitão. Ela me olhou, lágrimas escorrendo daquelas duas baías azuladas. “Eles iam matar minha família, me descul...”. “Vá agora!” a interrompeu o mais alto, apontando a arma para a porta. Abaixei a cabeça e não a levantei mais. Ouvi os tiros que mataram meus amigos. E olhando para as marcas deixadas por minha mãe, escutei o estouro sobre mim. Tudo ficou escuro. Juntei-me às outras almas que partiram na penumbra do anonimato durante os anos de chumbo.

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