Os Viajantes

1 Capítulo 1: Pesadelos




Eu acordei com o som distante de meu despertador, que parecia ecoar cem vezes mais forte em minha cabeça. Sonolento, levei minha mão a ele e o desliguei,deixando minha mão por cima dele. Após algum tempo assim, comecei a ouvir os sons de todo dia: A buzina dos carros, o canto de alguns pássaros e o cão do vizinho latindo.

Desculpem se não me apresentei antes, estava muito distraído. Eu sou Rafael dos Santos, contando minha história.

Se você está lendo esse livro por que acha que é um livro de turismo, minha dica é que você o feche e o deixe onde achou. Ele conta a história de alguns jovens que, em sua busca por diversão, acabaram por descobrir outras milhares de coisas.

Eu moro no Morro do Pavão, Rio de Janeiro. Tenho 14 anos, um irmão mais velho e uma irmã mais nova e meu pai. Eu teria uma mãe, mas, há alguns meses, ela foi morta durante uma troca de tiros entre policiais e traficantes. Mas vamos esquecer isso e voltar para a história.

Após dois ou três minutos, respirei profundamente e, reunindo minhas forças, me forcei a me levantar, indo em direção do banheiro. Me olhei rapidamente no espelho e vi o que sempre via:Os cabelos negros cacheados,a pele bronzeada e o rosto marcado pelas espinhas da adolescência.

“Nada mudou, afinal” Pensei, olhando meu reflexo no espelho “O mesmo Rafael de todo dia”.

Como sempre, Eu era o primeiro a acordar em casa, tendo que me virar se quisesse chegar cedo às aulas. Me dirigi para o chuveiro e abri a torneira, deixando a água cair por cima de mim, devaneando sobre o meu dia e como ele seria: Possivelmente eu iria para a escola, como todos os dias eu faço, depois iria para as aulas de vôlei, e passaria o resto do dia em casa, estudando.

“E vou ver Daniela”. Eu quase havia esquecido aquele detalhe maravilhoso. Ela era minha colega de classe, com quem eu jamais havia trocado mais que cinco minutos de conversa, algo horrível, pois era apaixonado por ela.

Ela era perfeita. Dos olhos castanhos, aos cabelos negros, até a pele clara. Nos vimos pela primeira vez quando, por coincidência, fomos fazer nossa matrícula juntos. Conversamos por pouco tempo e depois nos separamos cada um para o seu canto.

Depois de um tempo, por outro milagre, descobri que nos matriculamos na mesma sala. Tentei algumas aproximações mais diretas, como criar um grupo de estudos e convidá-la para estudar em minha casa, mas nunca deu certo.

Fechei o chuveiro e deixei a água escorrer do meu corpo. Fiquei um tempo assim e peguei minha toalha. Após me secar, fui para meu quarto e vesti o uniforme do Centro Escolar de Copacabana: calça jeans azul, camiseta cinza e tênis pretos.

Fui para a cozinha e sentei à mesa e comecei a preparar e a comer meus cereais, querendo logo sair de casa. Assim que terminei de comer, peguei a minha mochila e sai porta afora.

Eu morava na base do morro, portanto não precisava me preocupar muito com balas perdidas, embora elas acontecessem em todo o morro. Peguei um ônibus e fui para a escola, que ficava quase no final de Copacabana.

O percurso sempre demorava de 20 a 30 minutos, permitindo que eu tirasse um cochilo no caminho. Fechei os olhos e me encostei no vidro da janela, procurando ficar mais confortável. Porém, quando consegui cochilar, preferia não ter conseguido.

Sonhei que estava na escuridão total. Não conseguia ver nada, apenas a mim mesmo. Estava preso pelos pés no chão; no chão MESMO. Era como se meus pés tivessem sido mergulhados em concreto. Alguma coisa se aproximava, segurando algo. Era algo comprido, comprido e brilhante. Após uns instantes, notei que se tratava de uma daquelas espadas que os samurais usam nos filmes, porém essa não parecia em nada as espadas de metal barato que se usavam nos filmes. Parecia de aço, cruelmente afiada, pronta para fatiar alguém.

E o mais estranho a respeito daquela arma era que ela emitia um brilho carmesim, um brilho macabro.

A coisa também assustava, gargalhando, como se estivesse adorando o meu pânico. Até que, cansada de brincar, ela brandiu a espada em minha direção. Quando podia sentir a lâmina a centímetros de distância, quase tocando minhas costelas, um solavanco me sacudiu. Quando me dei conta estava novamente no ônibus, que agora estava a um quarteirão de minha escola.

“Que droga foi essa? Uma hora eu estava quase sendo fatiado, e na outra eu estou aqui, de volta ao ônibus.”

Logo depois, conclui que aquela cena tinha sido um sonho. Isso mesmo, apenas um terrível e cruel pesadelo. Quando desci do ônibus, senti alguma coisa me incomodando no peito. Imaginando que se tratava de uma coceira, ignorei essa comichão e segui meu caminho.

Quando passei pela entrada, vi o de sempre: as meninas em seus grupinhos, dando risadinhas ridículas (que eu sempre achei que eram de mim), alguns caras tentando impressionar essas garotas e os outros, os que eu considerava “normais”, o meu grupo.

Estava indo para minha sala, quando ouvi alguém chamando

- Ei, Rafa! Espera ai!

Virei-me e vi Lucas, meu amigo.

Ele era o tipo atlético, a pele bronzeada, olhos “cor-de-avelã”, como ele próprio dizia, mas era meio chato com sua mania de criticar tudo e todos.

Veja bem, nós nos conhecemos na 1ª série, por causa de um filme. Depois disso ficamos super-amigos, não nos desgrudávamos. Depois, fomos descobrir que éramos primos! Saca só essa viagem: o pai dele era primo do meu pai, e eles não se falavam a um tempão. Isso só contribuiu para aumentar ainda mais a amizade.

- E ai? Como foi de fim de semana? – ele perguntou, batendo sua mão na minha.

- Tudo bem, ao nível do normal — Respondi, simplesmente – e você? Como foi?

Ele deu os ombros.

- Nada. Só acho que esqueci de terminar o dever de física – Disse, mas logo depois lembrou de algo que o fez sorrir maliciosamente – Mas vem cá, quando você vai tentar “cair em cima” da Daniela?

Aquilo me fez parar no meio do corredor e enrubescer, pensando em alguma escapatória.

- Isso te interessa, por acaso? – Perguntei, voltando a andar.

- Sim, me interessa – Ele rebateu, na mesma hora – Me interessa desde o dia em que você decidiu me falar que era a fim dela.

Já estávamos na porta da sala, quando decidi responder.

- Eu não sei ainda, pode ser hoje, pode ser amanhã, me deixa!

Ele me fulminou com o olhar e deu os ombros novamente , nós entramos, escolhendo lugares no fundo da sala. Olhei para a frente e notei que Daniela não estava ali.

Olhei para os lados, esquadrinhando a sala e vendo quem estava lá. Até onde eu tinha visto ninguém tinha faltado, exceto por ela, até que olhei para minha frente.

Lá estava ela, na cadeira na frente da minha, arrumando seus cadernos. Tentando simular descontração, cumprimentei.

- Oi Dani. Tudo bem?

Ela se virou, olhando para mim e sorriu com simpatia.

- Oi Rafael, eu estou bem, sim – Respondeu, com simpatia.

Eu sei que devia ter dito mais alguma coisa, mas não conseguia mais olhar para ela, de tanta vergonha. Até que em certo momento o professor de física, André, entrou em sala e pôs a sala em ordem.

Quando ele começou a falar, eu entrei em um torpor terrível, como se o som da voz dele fosse um sonífero. Senti novamente a pontada em meu peito, e dessa vez passei a mão lá, para tentar aliviar aquilo. Quando passei a mão ali, senti em minha mão um corte, que corria da última costela direita até a primeira costela esquerda.

Quando senti aquilo, empalideci, lembrando do sonho que tive no ônibus, em que uma criatura me atacava com uma lâmina escura.

Mas sonhos assim não podiam se tornar realidade.

Podiam?

Tentei pensar em qualquer outro motivo para que esse corte tivesse aparecido, mas não consegui pensar em nada. Aquele sonho tinha tido efeitos reais sobre o meu corpo.

Sacudi a cabeça, tentando esquecer isso, mas aquilo ainda martelava na minha cabeça: como um sonho podia me afetar?

Não tenho certeza de quando eu dormi no meio da aula, só sei que aconteceu, e de repente eu voltei àquela escuridão, mas agora eu estava solto, mas continuava a não ver nada. Assustado, comecei a correr, tentando fugir daquele pesadelo. Porém, quanto mais eu corria, menos eu parecia sair do lugar, até que eu parecia fazer um moonwalk reverso.

Esperando que o pesadelo terminasse, pisquei com força, esperando voltar para minha sala. Em parte deu certo: eu estava de volta à sala, mas eu não havia voltado sozinho. Aquele monstro, o que tinha me atacado da primeira vez, estava comigo, mas agora estava mais nítido: era algo que lembrava levemente uma pessoa normal, mas possuía uma boca cheia de dentes pontiagudos que saltavam da boca, salientes, e também tinha olhos vermelhos – vermelhos MESMO não existia mais nada, só a coloração vermelha doentia. Quando me dei conta, viu que a criatura segurava nas mãos quem ele mais prezava: Lucas, meu melhor amigo, e Daniela, a garota por quem era apaixonado, ambos pendiam sem vida, o pescoço preso entre os sujos e grossos dedos do monstro.

Aquilo não podia estar acontecendo. Simplesmente não podia. Sem me dar conta, gritei desesperado.

Pisquei novamente, com força, e vi que estava de volta a minha sala. Agora, a verdadeira. Todos me encaravam, surpresos com o grito repentino.

- Rafael, você está bem? – Perguntou André, me olhando com expectativa – Está passando bem?

Encabulado e nervoso, me desculpei, prometendo que aquilo não ia se repetir.

De repente lembrei-me de como um corte feito no sonho se projetou na vida real. Será que meus amigos...?

Olhei para frente e vi que Daniela parecia normal. Ela olhou para mim, ainda parecendo preocupada com me grito, mas viva.

Olhei para o lado e vi Lucas. Ele estava recostado na carteira, mas não se mexia.

- Psiu! – Chamei nervoso – Lucas, acorda.

Nada.

- Lucas, acorda! – Falei mais alto, mas baixo o suficiente para só ele ouvir – para de brincar comigo!

Ele se mexeu, e respondeu:

- Você é que deve estar brincando comigo. Você sabe que eu sempre durmo na aula de física – ele me encarou, sonolento – Tem algum problema?

Aliviado,suspirei, notando só depois que aquilo não tinha sido uma pergunta retórica. Pensei em lhe contar tudo, o meu primeiro sonho, o corte, o último sonho... Mas repensei, decidindo que ia lhe contar durante o intervalo.

- Não, mas eu quero falar com você – Respondi nervoso – Depois da aula, embaixo das arquibancadas.

Aqueles sonhos tinham sido a experiência mais estranha da minha vida, mesmo não sendo real. Eu precisava dividir isso com alguém, e não sabia em quem mais confiar.

Depois, iria descobrir que aqueles sonhos eram apenas uma iniciação para algo muito pior.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.