Os Tomos da Eternidade
1 Capítulo 1 - O Atentado
A luz da lua cheia toca as poças d’água enquanto os refletores iluminam a sacada do prédio com os dizeres: Universidade de Newhaven. Estudantes de todos os lugares do país caminham em direção ao prédio para dar início a mais uma noite de aulas e, no meio de todas essas pessoas, caminha solitariamente um jovem de dezenove anos que, de maneira alguma, se destaca na multidão. A bolsa que carrega nas costas contém os itens básicos que utiliza para estudar: cadernos, canetas, lápis, um laptop e alguns outros objetos que, vez ou outra, coloca dentro de sua mochila para não sujar o chão e acaba esquecendo de retirar de dentro dela.
Por não possuir a primeira aula às sextas-feiras, o jovem decide sentar-se em um dos bancos localizados no pátio do primeiro prédio. Retirando sua mochila, ele se reclina e encosta suas costas no banco, começando a observar o céu estrelado. Uma leve brisa, um tanto quanto gelada, passa vez ou outra, mas não há sinais de que o tempo mudará para uma chuva novamente.
O movimento de pessoas cessa por alguns momentos, já que a primeira aula se dá início e, as poucas pessoas que são visíveis fora de aula são alunos que não possuem a primeira aula, alunos que não foram à primeira aula ou então funcionários da universidade. Alguns minutos se passam e o garoto resolve se levantar e dar uma volta pelo campus, caminhando à direita em direção à capela.
Uma movimentação um tanto quanto incomum estava acontecendo dentro dela, contudo o garoto continuou andando, considerando que poderia ser algum evento do qual estava ignorante sobre. Andando em direção à quadra, totalmente molhada devido à chuva que caiu durante à tarde, ele vê um grupo totalmente descontente.
“Porra, ainda tá molhada? Nunca reservamos a quadra e quando reservamos, chove!”, um dos rapazes se queixava de sua má sorte.
O jovem caminha por mais alguns minutos, compra um salgado em uma das lanchonetes, e continua andando. Logo mais à frente ele avista uma jovem, cerca de vinte e dois anos, pensa. Deve ser a mulher mais bonita que já viu na vida e ela está, aparentemente olhando para ele.
“Bela camiseta.”, diz a jovem para o rapaz que para para olhar qual camiseta está usando, pois não se lembra qual é. Trata-se de uma camiseta de uma de suas bandas favoritas, Reality Theater.
“Valeu, gosta da banda?”, tenta puxar assunto da forma mais natural possível.
“Sim! Minha música preferida é Trivial Deja Vu.”, eles continuam conversando por alguns minutos e então decidem caminhar juntos pela universidade. “Isso não está acontecendo, que tipo de armadilha é essa?”, indaga constantemente em sua mente, mal conseguindo acreditar no que está acontecendo. Já assistiu e leu diversas mídias que retratam acontecimentos parecidos e eles nunca acabam bem.
Ao passar novamente no pátio, ele percebe que uma mulher loira está observando a capela atentamente, com um certo olhar de apreensão. Uma fumaça de cor verde é observada vindo do segundo prédio, que fica em cima de um morro e, logo em seguida, as diversas pessoas que estavam dentro da capela logo estão do lado de fora. O rapaz observa toda a cena e percebe que algo está para acontecer e não parece ser nada bom. Ele olha para o seu lado esquerdo e a mulher loira já não está mais sentada no banco, um estrondo é ouvido vindo do terceiro prédio, localizado na parte de baixo do campus e, imediatamente, o jovem vê que seus instintos estavam corretos.
“Isso aqui vai dar merda, vamos sair daqui!”, ele olha para a garota com quem está caminhando e tentam dar meia volta e correr para fora do campus. No mesmo instante, as pessoas que saíram da capela e estão agrupadas em sua frente, retiram de suas bolsas armas de fogo e começam a atirar para todas as direções. O ensurdecedor barulho dos disparos faz com que inicie-se um tumulto de pessoas saindo das salas, tentando compreender o que está acontecendo.
O casal mal chega nos portões do primeiro prédio e são surpreendidos por dois homens armados até os dentes. Sem nem mesmo anunciar qualquer tipo de frase, ambos apontam suas armas na direção dos dois jovens e, instintivamente, o garoto pula na direção de um dos atiradores, fazendo-o cair no chão. Imediatamente ele inicia uma sequência de socos no rosto do atirador, mas logo é obrigado a parar pela insuportável dor que começa a sentir em seu ombro esquerdo: havia sido baleado. Por uma fração de segundos, o garoto percebeu a enrascada ao qual havia se metido: o que estava pensando? Atacando com as próprias mãos duas pessoas armadas? Sua morte é certa, o atirador que está de pé não exitará em realizar um segundo disparo.
“Gga--g-aag”, o atirador que está de pé emite sons incompreensíveis com sua voz enquanto, lentamente, cai no chão. Uma lâmina atravessada bem no meio do seu coração é então retirada e, em um elegante movimento, a pessoa que a empunha limpa o sangue da espada.
“Você é corajoso, garoto. Corajoso ou tolo.”, a mulher se agacha para ver o ferimento de bala causado no ombro do rapaz. “Que bom, a bala atravessou. Consegue andar?”, o rapaz acena com a cabeça e vê que se trata da mesma mulher loira que observava o movimento estranho na capela alguns minutos atrás. Não há tempo para ficar questionando, pensa, enquanto levanta, com muita dificuldade.
“Q-quem é você? Você matou esse cara!”, a garota que acompanha o jovem luta para se manter de pé enquanto o tiroteio continua. Uma das balas passa zunindo em seu ouvido e ela acaba soltando um grito de susto.
“Agora não é hora para responder, me sigam se quiserem viver.”, a mulher ajuda o rapaz a se levantar e então começa a caminhar para fora do campus. Assim que pisam para fora, uma explosão ocorre no prédio em cima do morro e uma rajada de vento quase derruba o rapaz. “Não estão mesmo de brincadeira.”, a mulher sussurra para si mesma enquanto caminha para o meio da rua, sacando seu celular e digitando uma mensagem para alguém. “Fiquem perto de mim.”, o casal de aproxima da mulher que começa a realizar alguns movimentos um tanto quanto peculiares e a recitar o que parecia ser um encantamento. Obviamente, os dois jovens começam a questionar se fizeram a decisão certa em segui-la, já que tudo parece ser uma grande piada, até que ela começa a levitar e uma parede circular roxa circunda os três, formando um casulo de proteção.
“M-mas que porra é essa.”, o rapaz fala com certa dificuldade. A mulher loira permanece flutuando no ar, totalmente focada em recitar palavras que nenhum dos dois jovens consegue compreender. Uma rajada de tiros atinge a proteção, assustando o casal que, espantados, observam as balas ficando presas nessa proteção violeta. Não demora muito e eles são cercados por diversos atiradores que não cessam seus disparos. Quando um homem vestindo o que parece ser uma roupa de clero ordena que cessem fogo, as rajadas param.
“Entregue-nos o garoto, criatura.”, o homem retira seu capuz revelando que não possui seu olho esquerdo, demarcado com uma cicatriz deveras profunda.
“Zack está sob minha proteção, tal foi a ordem do Senado.”, a mulher responde lentamente para não perder o foco de sua magia. “Vocês demoraram demais para encontrá-lo e, quando o fizeram…”, solta uma leve risada enquanto o barulho de um carro acelerando atinge em cheio diversos dos atiradores, formando uma barreira entre eles e o casulo de proteção. As portas do carro abrem e um homem dentro começa a gritar:
“Entrem, entrem, entrem!”
Com uma acenada de cabeça provocadora, a mulher desativa sua proteção e os três entram no carro que sai em disparada para fora do campus. Sem ninguém visivelmente em perseguição, o motorista diminui a velocidade.
Zack segura seu ombro baleado enquanto a garota permanece no canto, atônita com tudo o que estava acontecendo. A mulher loira, sentada no banco da frente do carro, revira o porta-luvas procurando alguma coisa e, ao encontrar entrega ao rapaz.
“Tome, isso vai fazer parar um pouco a dor.”, o jovem engole o remédio, esperando que comece a fazer efeito. “Aliás, este é o Jonnah.”, o motorista acena com a mão, dizendo olá.
“Desculpe, mas… Quem é você? O que raios aconteceu lá atrás? Por que tinha atiradores na universidade?”, a garota não consegue conter sua curiosidade, misturada com frustração.
“Quando chegarmos na mansão, tudo ficará claro. Quanto a quem sou eu, meu nome é Verônica.”
Um clima de silêncio impera no carro por cerca de quinze minutos. O efeito do remédio começa a funcionar e a dor no ombro de Zack começa a diminuir.
“Se eu não tivesse perguntado sobre sua camiseta… Acho que estaria morta, você não acha?”, a garota pergunta à Zack.
“O destino às vezes sorri para a gente… Mas às vezes cospe na nossa cara. Não se sinta mal por ter sobrevivido, Luna.”, a garota tenta sorrir, mas não consegue. Lentamente o carro se aproxima de uma mansão no topo de uma colina.
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