Os Tambores de Nova Orleães
2 Capítulo 2
Tambores! Malditos tambores! Ensurdeciam-na!
Tocavam demasiado altos. Ela conhecia bem aqueles sons. Ouvia-os todos os anos. Vinham com os carros alegóricos e marchavam pelas ruas de Nova Orleães todos os Carnavais.
Ela abriu os olhos sobressaltada. Estava deitada no chão fora do carro. Não tinha qualquer ferimento.
A marcha aproximava-se do local do acidente. As pessoas à sua volta festejavam indiferentes.
- Por favor, ajudem-me! – Gritou desesperada. – A minha mãe está ferida!
Mas a marcha ignorou-a. Alguns desviaram-se sem a encarar, outros chocavam com ela como se fosse invisível.
A jovem sentia-se devorada. Aquela mistura de sons e cores afogava-a. Tão fria, tão indiferente.
Então viu-o. O bailarino de vermelho, vestido como um demónio, que todos os anos lhe sorria e vinha por um colar ao seu pescoço.
- Por favor, ajuda-me! — Implorou, correndo na sua direcção.
Mas ele também a ignorou. Não veio entregar-lhe o seu colar como sempre fazia, em vez disso esboçou um sorriso malicioso e atirou colares a um grupo de raparigas na casa dos vinte anos que exibiam os seus seios aos carros alegóricos.
Ela chorou. Sentiu-se novamente a menina assustada de cinco anos, aterrorizada pelas marchas de Carnaval. Desta vez não tinha a mãe para a confortar, para lhe dizer que não passavam de jogos para espantar os seus demónios.
O seu corpo pesava-lhe nos braços, era demasiado grande, demasiado frio. Quando o olhou viu-o em avançado estado de decomposição.
Isso reduziu-a ainda mais. Estava completamente sozinha. Abandonada entre as marchas frias e barulhentas.
Desejava morrer. Nem o inferno podia ser pior do que aquilo...
Já falta pouco!
A casa vitoriana de First Street parecia-lhe demasiado grande. Parecia estar de luto após a morte da mãe de família.
Depois disso não haviam mais jantares, nem mais festas, nem mais risos.
A menina nunca mais tinha dito uma palavra. Após um mês em como tinha acordado em trauma profundo.
O som dos tambores assombrava-a. Não havia um minuto de silêncio na sua mente. Ela queria gritar. Ordenar silêncio aos tambores, mas as palavras morriam na sua garganta.
Ela queria falar. Queria recompor a sua família destroçada, mas então a imagem do cadáver putrefacto da sua mãe invadia a sua mente, emudecendo-a.
Desde que acordara o único estado que conhecia do pai era, como definia o irmão mais velho, “a uma uva do coma alcoólico”. Esta situação trazia discussões diárias à família, onde ela assistia a tudo impassível, embora chorasse por dentro.
O seu irmão repetia vezes sem conta que apenas não se ia embora porque não queria deixar a irmã com um “bêbedo nojento”, a seguir as discussões recaíam sobre a jovem.
Num jantar, o irmão agarrou-a fortemente pelos ombros e gritou-lhe para que falasse, mas logo se arrependeu perante a expressão impassível da irmã. Chorou agarrado ao corpo frágil da menina e pediu-lhe desculpas.
“Só poderei falar quando os tambores pararem.” Pensava ela com desgosto.
Logo chegou a altura do ano que mais temia. O Carnaval de Nova Orleães.
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