Os tambores tornavam-se mais fortes, como se a marcha virasse a esquina no fundo da rua.

Nos confins da sua loucura sentia esperança. Era algo pequeno, quase imperceptível, mas a jovem sabia que estava lá.

Se fechasse os olhos conseguia sentir a textura das mascaras e dos tecidos à sua volta, mas desta vez não sentia medo. Já não era uma menina assustada que se refugiava na mãe, com demasiado medo para encarar os carros alegóricos que passavam.

Desejava-os. Queria vê-los. Queria vê-lo. O misterioso bailarino de vermelho que todos os anos lhe dava um colar e lhe sorria.

No dia de Carnaval sentia-se mais viva, quase sorria.

Vestiu-se rapidamente, ansiosa por ver a marcha passar por First Street.

Ao final da tarde juntou-se à multidão que já esperava nas ruas.

O sofrimento da antecipação corroía as suas veias.

E então ouviu-os. Mais claro que nunca. Os tambores ressoavam pelas ruas. Grandiosos! Triunfantes!

A multidão esticava-se para os puder ver, mas não ela. Eça mantinha-se quieta no seu lugar.

Retirou os colar que ganhara nos anos anteriores e exibiu-os ao pescoço.

A marcha já caminhava pelas ruas. E então viu-o.

Quando a avistou, o bailarino de vermelho desceu do seu carro alegórico como fizera todos os anos. Foi ter com ela e segurou-lhe a mão.

- Este dia nunca mais chegava, não é? – Perguntou-lhe sorrindo.

Ela não falou. Deixou que ele a guiasse até ao seu carro, de onde descera. Aí colou-lhe o último colar ao pescoço.

Ela pode sentir barras de ferro erguerem-se à sua volta, enjaulando-a.

Então viu. Todos aqueles que marchavam tinham também dez colares no seu pescoço, tão presos como ela.

Todos eles tinham uma memória negra que os prendia ali e os colares eram a sua trela.

Na curva que levava ao Irish Chanel viu-a. Uma pequena menina ruiva, olhava-a com um misto de fascínio e medo. Não tinha mais de cinco anos, aquela menina era ela própria.

- Queres fazer as honras? – Perguntou o bailarino, entregando-lhe um colar nas mãos.

Num prazer sádico indescritível, desceu do carro e foi por o colar ao pescoço da menina.

- Um dia juntar-te-ás a nós! – Prometeu-lhe.

E a pequena menina sorriu, mordendo o lábio inferior com os dentinhos da frente, sem perceber a promessa que lhe tinha sido feita.

A mais recente bailarina voltou ao seu carro alegórico, sem qualquer remorso, apenas feliz por saber que dali a dez anos nunca mais ouviria os tambores de Nova Orleães.

Notas finais
fim! ^^
deixem reivews! ;)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!