Os Super Agentes
2 O Mestre dos Sonhos
Um carro negro luxuoso parou na frente de uma casa velha onde antigamente uma família feliz a decorava para o halloween e fazia coloridas ceias natalinas, mas onde agora sua fachada estava se tornando cinzenta e a tinta descascava em vários lugares. Já era noite quando Augustus e Amanda trouxeram Daniel de volta. O garoto estava no banco de trás devorando um hambúrguer e fritas que fora pago pelo casal.
– vai ficar tudo bem Dan? – perguntou Amanda.
– ah sim – respondeu Daniel lambendo os dedos – está combinado, eu estarei esperando vocês no dia marcado.
– que bom que nos tornamos amigos. – disse Augustus, sorridente.
– eu adoraria convidar vocês para entrar, mas eu não tenho nada pra oferecer e a casa está uma bagunça e...
– tudo bem. Vá e descanse.
– boa noite pessoal. – disse Daniel saindo do carro.
– qualquer coisa, nos ligue – Amanda estendeu um cartão por cima da janela da porta do passageiro.
– pode deixar.
– e outra coisa – disse Augustus, fazendo Daniel se abaixar para olhá-lo nos olhos – você nunca nos viu na sua vida.
– sim senhor!
Daniel terminou de comer o resto do seu lanche enquanto o carro de Augustus deslizou silenciosamente pelo asfalto molhado até desaparecer na esquina. Daniel olhou para o céu e pensou consigo mesmo: “mas que diabos aconteceu hoje?”
– obrigada por redecorar a minha bicicleta – disse Brenda, assustando Daniel assim que o garoto entrou em casa, fazendo-o derrubar o copo de refrigerante da lanchonete de fast-food onde o casal misterioso havia lhe comprado o lanche. Brenda estava de braços cruzados parada no hall de entrada e apesar de irritava era evidente que passara boa parte do tempo preocupada com o amigo.
– e obrigado por quase me matar do coração – Daniel apanhou o copo vazio e andou até a cozinha para pegar um pano e secar o refrigerante que começava a andar pela casa em direção ao carpete.
– é sério Dan, aonde é que você estava? Eu te procurei por toda parte e a professora Sonia nem sequer se preocupou por você não ter voltado pra fazer a prova e... foi por causa daquele cara não é? O que ele disse pra ela e pra você?
– Brenda! – gritou Daniel – não precisa se preocupar, eu tô bem não tá vendo?
– mas você está sumido desde as onze da manhã, eu exijo saber o que aconteceu... aonde aquele cara te levou?
Daniel queria contar, queria mesmo, mas Augustus disse para manter tudo em segredo, até mesmo do pai. Evidentemente Daniel jamais contaria para o pai, ainda que este estivesse sóbrio; Daniel perdera a confiança nele havia muito tempo. Precisava mentir. Pensou em alguma coisa e disse a primeira coisa que veio a mente:
– um circo! – balbuciou – é... aquele cara é dono de um circo e queria que eu me juntasse à equipe dele, mas eu recusei.
– e você levou o dia inteiro só para dizer “não obrigado eu não quero ser sua atração bizarra numa invenção catastrófica da humanidade”? – Brenda cruzou os braços novamente, não acreditando em nenhuma palavra que Daniel dissera.
– não... acontece que... ele me levou para conhecer o circo e tudo o mais e... você sabia que eles tem uma mulher que chora lágrimas de ouro?
– Daniel, conta outra.
– eu tô falando sério Brenda.
– e por que a professora Sonia não se irritou e deu a louca quando você não voltou pra terminar a prova?
Daniel fora pego de surpresa. Ficou mudo e Brenda ergueu uma sobrancelha.
– porque ele é sobrinho da professora Sonia e disse que a convenceria a me deixar fazer a prova outro dia.
Nessa hora Brenda caiu na risada. Daniel se sentiu como um cavaleiro sendo desarmado por seu oponente, mas para seu alívio o celular dela tocou. Provavelmente seria Lucas convidando-a para sair e ela iria correr dali sem se importar mais com a existência de Daniel.
– olha só eu e o Lucas vamos a uma pizzaria e você vai me contar direitinho o que aconteceu hoje amanhã na escola certo? – disse Brenda depois de responder ao telefonema entre risadinhas, indo até o sofá e pegando sua bolsa em formato de cabeça de gato preto. A porta se fechou atrás dela com um estrondo e Daniel se apoiou na parede e deslizou até o chão. Essa passou perto. Mas precisaria inventar algo melhor para quando se ausentasse por algumas semanas enquanto estivesse no treinamento. Que desculpa iria usar? Seria fácil tapear o pai, mas Brenda talvez ficasse um pouco no pé. Quanto aos vizinhos ele não se importava e sobre a escola estaria tudo bem, pois Augustus prometeu cuidar para que as notas dele permanecessem na média e que depois ele iria estudar tudo com um professor particular pago pelo governo. Essa parte não o deixou nem um pouco feliz.
Naquela noite Daniel havia contado para dois recém-conhecidos algo que somente Brenda, seu pai, sua falecida mãe e ele sabiam: sua habilidade especial. Aquilo que ele conseguia fazer que os outros não conseguiam.
– pode nos mostrar? – perguntara Amanda. Era a tarde daquele dia e eles estavam num luxuoso quarto de hotel na cidade vizinha que era maior e servia de ponto de encontro dos jovens da cidade de Daniel nos fins de semana. O sol entrava pelas grandes janelas da cobertura, pintando de dourado o chão de mármore.
– claro, mas eu preciso dormir. – Daniel havia concordado em contar tudo porque havia simpatizado com Amanda e talvez se tornar um super agente não seria tão mal assim levando em consideração a quantia que receberia por cada trabalho.
– tome isto – Augustus surgiu com dois comprimidos e um copo d’água – um para te fazer dormir e outro para te fazer sonhar. Cuide para não trazer algo que não caiba dentro nesse quarto hein?
– não se preocupe – riu Daniel – eu só posso trazer coisas pequenas.
– muito bem.
Daniel tomou primeiro o comprimido branco e em seguida o rosa. Então bebeu toda a água e se deitou na cama.
– talvez isso ajude a acelerar o processo – disse Amanda, deitando-se ao lado dele e acariciando os cabelos desarrumados do garoto. Amanda era jovem, bem mais jovem que Augustus. Tinha uma linda pele branca e parecia ser habilidosa com a maquiagem. Tinha um cheiro muito agradável.
Augustus sentou-se numa poltrona perto de uma das janelas e aguardou. Daniel alternava entre olhar para Amanda e para o lustre de outro pendurado no teto. Em poucos minutos suas pálpebras ficaram pesadas. Seu corpo parecia ter se juntado com a cama e Amanda desapareceu. Parecia estar caindo num poço muito profundo. Daniel não se lembra com o que exatamente havia sonhado. Quando voltou a si relatou para o casal que havia visto dragões e cavalos e um castelo abandonado. Então isso explicava a pedra que estava na mão do garoto quando este foi acordado por Augustus. Evidentemente aquele não havia sido um sonho bom mas também não chegava a ser um pesadelo. O fato é que no sonho Daniel teria usado aquela pedra para se defender de algo, mas ao ser acordado enquanto a segurava, havia trazido ela junto com ele. E então o casal pode ter uma evidencia da habilidade especial do garoto.
– precisa treinar muito – disse Augustos servindo-se de café enquanto Daniel esfregava os olhos, bocejando – você precisa ser deus nos seus sonhos, e não uma marionete. E se você estivesse tendo um pesadelo onde um cara estranho tenta te matar? Se fosse acordado poderia trazê-lo para a realidade, já imaginou o que podia acontecer?
– talvez seja por isso que dizem que não devemos acordar sonâmbulos – disse Daniel, fazendo Amanda dar um risinho. – mas de que maneira pretendem me treinar? E como minha habilidade pode ser útil se eu estiver lutando com alguém?
– se você levar um golpe e ficar inconsciente... Pode sonhar rapidamente com uma arma, pegá-la e trazê-la para a realidade e assim você ganha vantagem sobre o inimigo. – respondeu Augustus passando a mão no queixo. – mas então você precisaria praticar a habilidade de sonhar rapidamente, ter controle absoluto sobre sua mente.
– e é isso que faremos no acampamento que vocês disseram, certo?
– exatamente – disse Amanda ficando em pé – já temos outros quatro jovens que estarão esperando você lá. Na verdade eles ainda estão sendo recrutados por outros colegas nossos, mas como eu e Augustus somos os líderes desta agencia secreta, nós preferimos vir recrutar você pessoalmente.
– mas por que eu?
– porque sua mãe era uma super agente. – respondeu Augustus.
Silencio. Amanda desfez o sorrisinho. Surpresa e choque estavam misturados no rosto abobado de Daniel.
– como?
– você... sabe como sua mãe morreu Daniel?
– sim eu sei... ela morreu durante o parto do meu irmão... eu tinha seis anos e...
– errado. – Augustos interrompeu – ela morreu em missão.
– é melhor não falarmos disso agora – disse Amanda – não é hora de evocarmos fantasmas do passado.
Daniel baixou a cabeça. Não sentia vontade de chorar, mas seu rosto começou a ferver. Há muito tempo não pensava na mãe e pouca coisa sobre ela existia em sua mente.
– ela sabia da sua habilidade, por isso ela me telefonou um dia porque queria que você se tornasse um de nós. Faltava pouco para ela se aposentar antes da falha na missão. É... ela realmente estava grávida e sentia que com uma segunda criança chegando era hora de se dedicar mais à família, mas não foi nenhum parto que a matou.
– o meu pai... – Daniel apertou suas mãos contra o colchão com força – ele sempre soube disso?
– Daniel, vamos parar por aqui está bem? Acabamos de nos conhecer e com o tempo eu contarei tudo, certo? – propôs Augustus.
– quero que você me conte tudo nesse lugar para aonde vocês vão me levar! – Daniel começou a se enfurecer, mas a segurou antes que tomasse forma. Seus olhos lacrimejavam
– contaremos. Agora que tal um lanche?
Todos os dias de Daniel haviam sido iguais até aquele. Ele ouviria o pai chegando bêbado em casa e aguentar o falatório de Brenda mais algumas vezes, mas em breve ele iria desaparecer e se juntar a mais pessoas como ele, que faziam coisas que mais ninguém conseguia fazer, e compartilhariam experiências de como lidavam com isso. Na sexta feira Augustus e Amanda o buscariam em seu carro preto em um lugar marcado longe dos vizinhos e de conhecidos e em seguida partiriam para o lugar onde os próximos super agentes seriam treinados.
Ainda era quarta feira a noite e então Daniel subiu para o seu quarto e entrou nos sites que Augustus sabia que ele acessava depois de hackear o computador do garoto com a ajuda de um programa exclusivo do governo. Eram os últimos dias do garoto em casa, era melhor aproveitar.
Harold, o pai de Daniel continuou chegando bêbado. Brenda praticamente se esqueceu do homem de terno azul escuro e do sumiço do amigo depois da prova e nunca mais tocou no assunto. Daniel fez sua mala na noite de quinta feira e contou as horas para o amanhecer. Deixou uma carta para Brenda dizendo que havia ido para um acampamento militar (seria difícil ela engolir essa mas não custava tentar) na porta da geladeira e quanto ao seu pai não precisava se preocupar; estaria tão bêbado 24 horas por dia que sequer se lembraria de que tem um filho. Daniel ainda não sabia direito o quê haveria nesse acampamento. Seria lá que ele descobriria se quer realmente ser ou não um super agente, então não precisava se preocupar. Só o fato de estar saindo daquela rotina já o deixava feliz.
O despertador foi silenciado assim que começou a tocar. Daniel não dormira quase nada na noite passada. Pegou a mochila cheia de roupas. Ouviu o som do pai caindo no hall de entrada. Passou por cima dele e caminhou até uma pequena pracinha esquecida da cidade que ficava perto da floresta. Ao chegar, lá estava debaixo de duas árvores e perto de um banco de madeira quebrado: o carro preto e dois rostos sorridentes o encarando por detrás do para-brisa blindado.
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