Os Sobreviventes
5 Vagalumes
Notas iniciais
Jamie me levou até uma gruta escura, iluminada apenas por vagalumes. Ele sentou na beira da pedra, sentei ao seu lado. Olhei em volta, o espaço era lindo demais, os vagalumes faziam um barulhinho leve e distante. Só percebi o braço de Jamie encostado ao meu quando ele o retirou para cruza-los acima do peito, cruzei as pernas e sorri para os pequenos insetos.
- é lindo aqui – sussurrei, sabia que devia fazer silencio.
- muito – sussurrou – eu sempre venho aqui, sozinho.
- Mel não vem com você? – sussurrei
Ele balançou negativamente a cabeça.
- eu sou o único adolescente aqui – falou – ou, pelo menos, era.
Sorri, ele virou o rosto para me olhar.
- você cresceu – falou
- você também – falei.
Ele sorriu, ficamos nos olhando por um tempo até ele desviar o olhar para os vagalumes.
- senti sua falta – falou – nem queria ir á escola.
- eu também não queria – falei – minha mãe disse que isso era bobagem minha, mas eu me sentia um lixo.
Ele me encarou outra vez.
- você não é um lixo – falou
Sorri, ele pareceu ficar mais leve com isso.
- sabe quantas noites eu chorei? – perguntei – quantas vezes eu chamei por você e fiquei no vácuo?
Ele baixou os olhos, deixei muito claro?
- eu sinto muito – repetiu
Dei de ombros e encarei os vagalumes.
- acho que isso não importa mais – falei – éramos crianças, nada disso continua vivo.
- eu estou vivo – falou
Revirei os olhos, vi que Jamie sorria.
- isso é bem claro – falei – mas não foi o que eu quis dizer
Ele virou de lado, ficando cara á cara comigo.
- o que você quis dizer? – perguntou – me ajude á entender.
Suspirei, Jamie esperou.
- eu quis dizer que tudo mudou, eu não sou mais aquela garotinha – falei – nem você, a distancia deve ter ajudado nisso. Mas quem liga?
Ele ficou em silencio, comecei á ficar desconfortável.
- eu ligo – falou
Olhei-o, Jamie sustentou meu olhar por bons vinte segundos.
- como? – falei
Ele baixou o olhar, antes que me desse conta, eu estava em seus braços quentes e macios.
- senti sua falta Bon – falou
- eu também Jay – respondi – muito.
Ele enterrou o rosto em meus cabelos, fechei os olhos, aproveitando aquele contato.
- desculpem! – disse alguém
Alguns vagalumes se apagaram com o susto, a pequena Peg e o surpreso Ian estavam parados bem na entrada da caverna. Separei-me de Jamie rapidamente, ele corou e fitou o chão. Ian pigarreou e sorriu para nós.
- não sabíamos que estavam aqui – falou – não queríamos incomodar
Jamie levantou, fiz-me de inocente ao aceitar sua mão como auxilio ao me levantar.
- já estávamos indo – falou – Bonnie precisa dormir
Ian sorriu, Peg desviou o olhar para os vagalumes quando passamos por eles na entrada da caverna. Jamie ficou calado até chegarmos á uma serie de portas improvisadas, ele empurrou a penúltima do corredor e indicou o interior com a mão.
- entre – falou
Sorri e entrei, tinha uma cama e uma lamparina, alguns livros descansavam debaixo da cama. Jamie entrou em seguida, suas mãos foram rápidas e discretas ao fechar a porta.
- deite-se – falou – pode dormir aqui, é meu quarto.
Olhei-o, tentando não corar.
- e você? – perguntei
- eu me viro com um colchonete – falou
- não, durma na cama – falei – eu fico com o colchonete.
Antes que ele pudesse protestar, eu já tinha me livrado do casaco, ficando apenas com uma camiseta de algodão. Sentei no chão e armei o colchonete, Jamie evitava me olhar. Deitei-me ao mesmo tempo que ele deitava, ficamos em silencio até eu bocejar.
- boa noite Jamie – falei.
- boa noite Bon – respondeu
Virei de lado e permiti que o sono me levasse.
Acordei no meio da noite, ofegando e respirando pesado. Agarrei minha própria garganta, as lagrimas me impediram de respirar. Sentei no colchonete e encostei as costas na parede fria da caverna, a visão do meu irmão fugindo para longe me assombrava á cada piscada. Eu chorava baixinho, como qualquer ser humano normal faria ao se separar do único irmão. Estaria ele vivo? Estaria ele com algum parasita nojento controlando-o?
- Bonnie? – disse alguém em voz baixa.
Era Jamie, ele acordara, mas estava sonolento e confuso. Baixei o rosto para ele não me ver chorando, ele continuou me encarando.
- tudo bem? – perguntou
Assenti, não confiava na minha voz.
- não parece – falou
Dei de ombros e fechei os olhos, não o vi sentando ao meu lado, mas senti seu braço passando pela minha cintura e me puxando para perto. Jamie deitou minha cabeça em seu ombro e encostou sua bochecha na minha testa.
- o que foi, hem? – perguntou baixinho – eu nunca mais te vi chorando.
Eu ia negar, mas Jamie começou á afagar meu braço, tentando me consolar.
- é o Daniel – falei – estou preocupada, muito preocupada.
Ele suspirou, respirei fundo.
- eu sei como se sente, já passei por isso com a Mel – falou
- só queria me sentir melhor – falei – é como se tivessem arrancado fora o meu coração e colado na cabeça do Daniel, ele se afasta, e meu coração não bate mais.
Ele assentiu, limpei uma lagrima fujona que descia em minha bochecha.
- você ama seu irmão – concluiu
- amo, mais que tudo – falei – ele é a única família que me restou, e agora, ele se foi.
Ele continuou afagando meu braço, suspirei.
- não perca a fé – falou – ele pode aparecer, como a Mel.
- eu não perdi a fé, mesmo depois de tudo isso – falei – ele vai voltar, eu sei.
Jamie beijou minha testa, meu coração bateu mais forte.
- vai dormir – falei – eu já estou bem, obrigada.
Ele não se moveu, continuou me abraçando e afagando meu braço até eu estar quase dormindo.
- está bem? – perguntou
- estou – respondi devagar, estava sonolenta.
- quer dormir? – perguntou
- quero – respondi do mesmo jeito sonolento e lento.
Ele me ajeitou no colchonete, deitei a cabeça no travesseiro e fechei os olhos.
- boa noite – falou
- boa noite – respondi.
Ouvi sua risada baixa me deixar lentamente, eu já caia no sono.
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