Os Sete Pecados Humanos
3 Preguiça - Benjamin - 2018
Notas iniciais
– Eu sinto que querem tirar minhas cores. — Benjamin dizia, ao deitar no confortável divã de sua pequena e aconchegante sala. — Eles circulam meu corpo, como abutres em carne podre.
– Ben, não seja tão duro. — Dizia Gavrel, uma linda garota de olhos escuros e cabelos castanhos. Seu corpo era bonito, sua cor de pele era morena. Sua expressão, forte e definida. Passou a mão na cabeça sem cabelo algum de Benjamin, logo, os dois trocaram olhares e se beijaram, suavemente.
– Eu te odeio. — Ele disse, sorrindo. Feliz. Logo, os dois caíram na gargalhada. — É ótimo ter uma psicóloga aqui em casa.
– Só mês que vem, mocinho. Ainda não nos casamos.
– Por favor, não pode vir morar aqui? Está tão perto da data, e...
– Você sabe, Ben. Isso vai contra meus princípios, mas faz bem esperar...
– Para o corpo e para a alma. — Ele falou, tentando imitar Gavrel, que riu e começou a dar pequenos tapas em seu ombro, logo pegando sua bolsa, que estava em cima do sofá.
– Te vejo amanhã, Ben. Até mais, e cuidado pra não cair em depressão novamente.
– Okay, até mais. — Benjamin falou, dando um beijo nos lábios macios de Gavrel, logo deitando no sofá da sala, após a porta bater.
E aí, o homem que sentara naquele divã com uma bela noiva, estava com seus olhos marejados por lágrimas quentes.
– Você é doente, Ben. Ninguém te quer. Todo mundo te odeia, você é um monstro! — Disse, com as mãos cobrindo o rosto, e logo indo a frente do espelho. As lágrimas ainda caíam, mas sua expressão era de raiva profunda. Ele pegou a cadeira ao seu lado, e quebrou o mesmo com ela. — Quem diabos tem um espelho na sala Benjamin? Apenas um idiota como você! — Ele falou sozinho novamente, pegando uma garrafa de whisky e levando a bebida até a boca, sem mais nem menos, indo até os fundos.
– Seu bêbado imundo! — Ele disse, soluçando e colocando as mãos na cabeça, largando a garrafa no chão, consequentemente fazendo um estrondo. A bebida se espalhou no chão, até terminar rastejando até a piscina, onde Benjamin se ajoelhou, logo depois disso deitando no chão, e dormindo.
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– Bom dia, dorminhoco. — Disse Gavrel, a cabeça de seu amado em suas pernas, ele acordou e sorriu.
– Bom dia. Acabei cochilando ontem, aqui. Me desculpe.
– Eu vi. — Ela disse, olhando de relance para os cacos de vidro que haviam sobrado da garrafa.
– Ah, isso.
– Tudo bem Ben, eu não tenho problema com um marido que bebe, mas por favor, não fique bêbado.
– Não ficarei. — Ele disse, rindo. Gavrel sempre melhorava as coisas. Era ela quem deixava o monstro estabilizado. Era ela quem oferecia um sorriso gentil e um ombro — com cheiro de frutas vermelhas — para quem precisava. Dá pra entender a paixão dos dois.
Seus lábios se tocam, os narizes se cruzam, as testas se juntam, a brisa suave movimenta os cabelos dela, e arranca uma respiração funda dele. Aquele momento era perfeito. Risadas, troca de olhares, era quase que como um sonho. Mau sabiam eles, que aquela seria a última vez.
Em questão de segundos, os risos gentis de Gavrel haviam se transformado em gritos de horror, e a expressão calma de Benjamin viravam olhos arregalados, e braços contidos para trás por homens de uniforme preto, ele apenas gritava para não levarem Gavrel, que estava sendo carregada no ombro de um homem negro e forte. Seus cabelos estavam bagunçados, e os fios molhados por lágrimas. Benjamin tentou, e tentou, mas sua revolta resultou em uma injeção com sonífero cravada em seu pescoço.
E foi aí, que o pobre homem caiu no chão, e sua última visão foi a mulher que amava aterrorizada por um homem espancando sua bochecha.
–-
– Onde eu estou? — Perguntava Benjamin, que havia acordado em uma sela fazia mais ou menos meia hora.
– Onde eu estou?
– Onde eu estou?
– Onde eu estou?
– Onde eu estou?
– Onde eu estou?
E essa pergunta se repetiu, ecoando no local vazio , por exatamente uma semana.
Benjamin ficara louco. Insano. Transtornado.
– Ele não sente fome? — Ouviu-se uma voz, lá de fora. Por um instante, Benjamin parou e abaixou sua cabeça.
– Parece que não. O objeto A12 não responde a fome, a necessidade de urinar, ou de falar algo além de ''Onde estou''. Parece que ele está em transe. E isso não é nada bom.
– E agora, oque faremos?
– É simples. Traga o objeto A13. Melhor transtornado que em transe. — Disse novamente, era uma mulher.
E ouviram-se passos, eles iam embora. E, em questão de segundos, Gavrel estava na frente das grades, Benjamin deu um pulo e correu para tocar suas mãos. Ela ofegava, seu corpo estava com hematomas e feridas. Ben teve uma curta conversa com sua noiva:
– Por favor, nunca mais me deixe Gavrel. — Os dois choravam, se beijando, através das grades frias. Um segurança, o mesmo que bateu em Gavrel no dia do sequestro, estava com uma arma na mão. Ele puxou Gavrel, prendendo seus braços em suas costas.
– Isso vai doer mais em você do que em mim, querida. — Disse o homem, colocando o cano gelado da arma na cabeça da garota. — As últimas palavras pro seu garotão?
– Não! Não! Não faça isso! NÃO! — Ben gritava, inquieto, tentando arrancar as grades, sem sucesso.
– Eu te amo. — Ela disse, sorrindo, seu pijama de hospício estava sujo, e agora molhado pelas lágrimas. Seu rosto estremeceu, mas o grande sorriso não parava de estampar sua face.
– Hum, serve. — Ele disse, soltando os braços da mesma, logo após atirar. Seu corpo frio caiu no chão, imóvel.
– Nhá, nem era tão bonita assim.
E Ben também caiu no chão. Seus olhos arregalados, sua boca tremendo, seus olhos inundados e dua visão embaçada pelas lágrimas. Terrível.
Não se sabe quanto tempo se passou. Um ano, dois, três. O cadáver fora retirado de lá, montes de bandejas de comida se abarrotavam na cela, a maioria podre. Ninguém tinha a capacidade de entender o motivo daquele homem não sentir necessidade alguma. Ele não se mexia, mas não estava morto. Apenas... dormindo.
Até o dia que a organização foi invadida pelo governo. Tiros eram ouvidos por todos os lados. Vidas de cientistas, perdidas. E Ben? Ben continuava ali. Com os olhos abertos, tentando dormir. Alguém lhe libertou, e mandou-lhe fugir.
Ele não fez isso. Ele continuou lá, parado. Jogado no chão. Imóvel.
Outra pessoa entrou na cela, calma, andando, jogando uma arma na barriga de Benjamin. Ele, por incrível que pareça, olhou-a e imediatamente agarrou a mesma. A pessoa sorriu, e foi embora. Era o mesmo cientista que havia matado Gavrel.
E Ben pôs um fim nisso tudo.
Porque um coração corrompido pela preguiça não pode bater em um peito humano.
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