Os Sete Amores
5 Philia
Notas iniciais
Philia é o amor sentido entre amigos e companheiros, sendo uma ligação sincera e platônica; é dito que a amizade em si é o maior dos bens.
Desde a morte de sua família e ter visto seu irmão Sanemi matar sua mãe – que havia sido transformada em um demônio, Genya passou a desenvolver uma grande raiva dentro de si ao perceber seu erro de chamar seu irmão de assassino, não o vendo desde aquele fatídico dia. Genya quis entrar para o Esquadrão de Exterminadores para se desculpar com seu irmão, mas percebeu que não conseguia usar nenhuma técnica de respiração, mas podia comer demônios e obter técnicas demoníacas. Por um tempo, ele viveu como conseguia, até que foi encontrado por aquele homem: Himejima Gyoumei. Genya ainda era uma criança cheia de raiva e medo quando o cego lhe acolheu, e nos primeiros dias, era arisco demais para com seu salvador, que sempre chorava quando o mais novo se afastava e proferia xingamentos a sua pessoa; não ficava realmente ofendido, apenas chateado de que o menino não conseguia confiar nele. No entanto, gradativamente o Shinazugawa aprendeu que aquele homem era uma boa pessoa e que estava lhe ajudando por puro altruísmo – diferente de outras que tentaram lhe dar algum auxílio, mas planejando obter algo em troca. A aceitação da parte de Genya de confiar em Himejima não aconteceu da noite para o dia, mas sim aos poucos, até o momento em que ele finalmente confiou totalmente no outro e o considerava um amigo.
Amizade, essa era uma palavra que Genya acreditava que não existia mais em seu vocabulário. Antes do incidente ele não tinha realmente muitos amigos que não fossem seus irmãos, irmãs e mãe, e depois da tragédia, não se abria o bastante para que fizesse um amigo; Gyoumei era seu primeiro amigo na vida. Quando Genya estava confortável o bastante na presença do mais velho, percebia como ele se importava consigo e cuidava de si com carinho; mesmo sendo cego, ele tinha uma grande percepção de tudo ao seu redor e sempre sabia quando o menino estava emburrado, triste, irritado ou feliz. Genya as vezes não tinha fé que Himejima o aceitava por completo pelo fato de que ele tinha a habilidade de adquirir poderes dos demônios ao comê-los, mas Himejima nunca o julgou, apenas chorava enquanto dizia que isso poderia ser perigoso e que o gosto deveria ser horrível para uma criança e que haviam outas formas para ser forte; mas se o menino lhe pedia ajuda, o homem nunca a negava. Os dois comiam juntos durante a manhã e o ajudava com afazeres domésticos e o observava treinar tanto o corpo quanto a mente, e muitas das vezes que era treinado pelo Hashira, Genya sentia todo aquele sentimento de companheirismo que Himejima tinha por si; era um sentimento bom, aquecia seu coração.
Shinazugawa não tinha experiência em lidar com outras pessoas, mas Gyoumei teve muita paciência para consigo e era grato por ter sido salvo por ele ou nem imaginava o que seria de si caso tivesse continuado sozinho. O mais velho era seu confidente, seu amigo, um ombro para chorar e alguém para desabafar; sempre o ouvia quando tinha algo para dizer e o auxiliava no que desejava realizar. Estava sempre ao seu lado, se divertiam juntos, treinavam, comiam, se banhavam e dormiam juntos, haviam construído um verdadeiro e forte laço de amizade sincera e lealdade. Eles ouviam um ao outro, ajudavam a lidar com problemas, se apoiavam no outro e mesmo que tivessem suas ocasionais brigas, sempre se desculpavam e voltavam a ter uma boa interação. Eles compartilhavam angústia, tristeza, raiva, felicidade e compaixão, sabiam que limites não podiam ultrapassar e os gostos de cada um. Alimentavam os gatos da região onde conviviam todo final de tarde antes de Himejima ir cumprir seu dever como Hashira e Genya ficava treinando por algum tempo para depois preparar a janta de Gyoumei e esperar por seu retorno.
Genya podia não ser o Tsuguko de Himejima por ser incapaz de usar uma técnica de respiração, no entanto, isso também nunca foi um obstáculo para eles; Gyoumei não era só o mestre de Shinazugawa, era seu melhor amigo, e nutriam um forte sentimento de amor e amizade um pelo outro, que foi crescendo conforme os anos se passavam com os dois juntos. Himejima tentava ajuda-lo e fazer as pazes com Sanemi – irmão mais velho de seu protegido – e mesmo que muitas das vezes não conseguia nada, Genya negava com a cabeça e o agradecia por pelo menos tentar. Eles realmente se entendiam e a deficiência de Gyoumei nunca foi um problema naquela amizade; apesar de que ele vez ou outra esquecia de como o outro cresceu rápido e, ao querer bagunçar seu moicano, acabava metendo a mão na cara do rapaz. Eles tinham muitas cenas engraçadas que os faziam rir quando comentavam durante o almoço; e Gyoumei dizia que sua amizade com Genya era uma verdadeira benção para si.
— Himejima-san, pode me ajudar a pegar o saco de arroz? Não alcanço. – Gyoumei estava no hall da casa brincando com alguns gatos quando escutou Genya vindo do corredor.
— Claro. Onde está? – O alto homem se levantou e foi em direção a voz do mais novo.
— Na dispensa, na última prateleira da direita. – Os dois acabaram se encontrando no meio do caminho e foram juntos para o cômodo. – Nós temos de fazer compras mas sempre vejo esse saco e acho que já passou da hora de usarmos. – O rapaz de cicatriz na bochecha comentou e se pôs na ponta dos pés; mesmo com seus 1,80 ele não alcançava o saco.
Mas antes que ele tentasse novamente puxar o saco, dois braços compridos e fortes ficaram acima de sua cabeça e o saco foi pego com muita facilidade pelo homem cego, que entregou o arroz para Genya, que quase caiu ao notar que era mais pesado do que imaginou – e Himejima havia o segurado em mãos como se fosse nada.
— Precisa de ajuda? – O mais velho ofereceu enquanto saiam da dispensa para a cozinha.
— Hm, não, estou bem. – Genya disse ajeitando o saco nos braços e sorriu. Ele sabia que Gyoumei não veria seu sorriso, mas sabia que tipo de feição ele fazia, então gostava de demonstrar isso. O outro sorriu também.
Uma amizade sincera e honesta era difícil de se criar e mais ainda de se manter, e vivendo em um mundo como o deles, com criaturas diabólicas canibais, as coisas não eram das mais simples. Mas Genya e Himejima eram grandes amigos e, enquanto as coisas continuassem assim, estaria tudo bem, não importa as dificuldades; amigos de verdade estão sempre por perto para lhe ajudar a levantar.
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