Os Sem Nome

12 Modesta vitória


Tóquio, Japão, 1980

Hikari estava imóvel, sem reação. O horror estava estampado em seu rosto. Mesmo a certa distância, foi capaz de compreender toda a cena se desenrolando à frente. Sua respiração estava pesada, como se fosse ela mesma vivendo aquilo, mas ao mesmo tempo, era como se fosse um filme, uma ficção. Seu estomâgo estava embrulhado.

Ainda processando o que entrou por seus olhos, mas invadia seu coração, Hikari olhou para os lados, de uma forma meio furtiva, como se estivesse em um lugar e não pudesse ser descoberta. Ela torcia para Hideki não entrar em seu campo visão. Ele não poderia, jamais, ver isso.

Começou a caminhar procurando por Hideki. A cena era passada repetidamente na sua mente, de modo que ela enxergava tanto o que estava à vista quanto o que esteve à sua frente. Mesmo sabendo que o que se passou era realidade, era difícil olhar na direção daqueles meninos, a prova material de o que viu não era cena de novela. Era a vida real.

Aliviada em não encontrar o amigo, Hikari se sentou ao pé de uma árvore, segurando lágrimas que refletiam o impacto na sua alma.

“Ele tinha razão. Isso já foi longe de mais.” Ainda sentia certa dificuldade em respirar. Hesitando, olhou de novo em direção aos órfãos.

“Ela não é assim com a gente.” Os joelhos de Jabu ainda sangravam.

Não podia ficar assim. Não podia ficar por isso mesmo. Alguém deveria contar para Saori Kido que isso não era jeito de tratar os outros.

Quem?

Olhou para o jardineiro. Para Yoshiko, que passava por ali. Para Aisha. Keisuke. Todos seguiam fazendo suas tarefas. Era como se aquela cena nunca tivesse existido.

Saori já tinha voltado para a casa principal da mansão.

Um menino passava um pano nos joelhos de Jabu, molhado com água de uma torneira do jardim.

Se levantou num ímpeto. Ela não seria cúmplice do acordo silencioso daquela casa. Não deixaria o medo consumi-la. Se ninguém queria se indispor para frear a menina Kido, então ela faria isso. Antes que o Hideki pudesse saber.

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Saori estava em um dos corredores da mansão, acompanhada de Mii, a garota do Reino Unido.

— Senhorita Saori.

— Hikari?

— Você entende o que acabou de fazer? — a menina mais velha falava de forma exasperada.

— Do que você tá falando?

— Daqueles meninos.

— O que tem? Eles são uns folgados!

— Eles são vigiados o dia todo…

— Então são mal vigiados! Eles quebram coisas toda semana, ficam fazendo barulho e ainda têm a ousadia de querer recusar brincar comigo! E não importa se tomem castigo, continuam!

— Senhorita Saori, não é–

— E além do mais, com que direito você vem falar assim comigo?

Hikari ficou calada, estupefata. Quando Saori começava essas birras, é porque ela estava brava, mas, mais do que isso, é porque ela não estava ouvindo. Ela começou mal. Mii observava tudo como quem não soubesse o que fazer. Tinha que mudar o curso daquela conversa.

— Senhorita Saori, como eu disse, não é isso. Eu entendo como você se sente — aquelas palavras saíam com certos esforço para parecerem sinceras — É que eu acho que aquela não é uma forma de uma dama se portar.

Com anos lidando com a garota, Hikari sabia bem que Saori se preocupava com a aprovação de seu avô. E Mitsumasa sempre se mostrava satisfeito quando ela tinha bom desempenho nas aulas de etiqueta. Hikari, Hideki e Takeshi todos já haviam “brincado” de etiqueta com ela. Era o melhor blefe que tinha naquele momento.

— Uma dama?

— Sim, sim. Seus professores não falam isso? Que uma ojousama(1) se porta com elegância mesmo na frente de subordinados que a deixem irritada?

— É mesmo, senhorita, eles falam isso… — Mii tomou coragem para entrar na conversa.

— Huuum. Eles dizem.

— Então. Acho que agir daquele jeito com aqueles… chatos… não está a altura de alguém do seu nível.

Por ser mais velha, menina e, ao contrário de Hideki, ter um certo afeto por Saori, Hikari sabia que podia agir de vez em quando como se fosse uma irmã ou uma prima mais velha da menina educando ela, se soubesse fazer isso da maneira certa.

— O problema é que eles não respeitam nada! Por culpa deles, tudo mudou nessa casa! E enquanto eu tenho que ficar aqui, fazendo tudo direitinho, eles quebram o quintal inteiro!

— Mas isso é porque eles são uns pé rapados sem modos. Você quer ser igual eles? O que o seu avô vai pensar? — essa era provavelmente a última cartada que Hikari tinha.

— Huuuuuuuuum…

— Ei, garota, o que você está fazendo aqui? — Era a última voz que Hikari queria ouvir.

— Ah, Tokumaru, é que eu–

— Vocês acham que estão onde? Você e aqueles dois acham que podem ficar entrando e saindo dessa mansão como se fosse a casa de vocês? — Ele foi em direção a menina.

Tecnicamente, era. Mas, tecnicamente, não era.

— Não!! Eu quero dizer que–

— Vocês pensam o que?! Ficam querendo enfiar besteiras na cabeça da Senhorita Saori — Tatsumi pegou no braço dela, como se fosse arrastar a menina para longe dali, mas Hikari resistia.

— Tatsumi, o que você está fazendo?

— Senhorita, essa garota não pode ficar vindo aqui assim e falando com você dessa maneira. Ela precisa aprender o lugar dela.

Saori assumiu uma postura altiva, mesmo tendo menos da metade da altura de Tatsumi.

— São ordens do meu avô?

Tatsumi virou-se para Saori e aliviou a pressão que fazia no braço de Hikari.

— … Não.

— Então pode soltar ela.

— Mas, senhorita…

— Gostaria que você cumprisse as ordens que te dão, e não as que não foram dadas. Talvez não seja ela quem não se coloque no devido lugar.

Tatsumi soltou o braço da menina e fez uma reverência para Saori.

— Sim, senhorita. Me desculpe.

— Se puder dar licença…

— Como quiser.

Tatsumi fez uma segunda reverência e saiu… não sem antes encarar Hikari, que ainda estampava um certo medo na cara, com um leve ar de vingança.

Depois que ele foi embora, ela se virou novamente para Saori, que, com um sorriso triunfante, disse:

— Uma dama não perde a compostura na frente dos subordinados. Não era isso?

Hikari escondeu um sorriso. Ela havia vencido, de certa forma. Jamais em seus sonhos imaginaria que teria ganhado uma batalha retórica contra uma invicta deusa da guerra.

— Sim, senhorita. Acredito que assim é mais adequado para lidar com aqueles meninos.

Era um vitória, mas não o melhor resultado. Talvez esse fosse máximo que conseguisse chegar ao tentar convencer Saori. Se pelo menos evitasse cenas como aquela que vira, consideraria a guerra ganha.

Ainda incerta do verdadeiro resultado do que acabara de fazer, fez também uma reverência a Saori e foi embora.

Notas finais
(1) “Ojousama” é uma palavra geralmente usada para a filha de pessoas ricas, ou uma mulher rica, jovem e solteira. Tem sentido similar a “dama”, mas serve também como pronome de tratamento. A Saori é uma ojousama, e o Tatsumi chama ela assim na série. Se gostou dá um joinha, deixe seus comentários, se inscreva no canal e ative o sininho.