Os Seguidores De Anúbis 3.
13 O lado negro de Rá.
Notas iniciais
PDV HÓRUS.
O clima estava tão tenso que eu mal ousava me mexer. Minhas mãos soavam frio e eu desejava silenciosamente que tudo aquilo não passasse de um mal entendido. Anúbis não pode ter nos traído, ele não faria isso...Ou faria?!
–Droga...-Grunhi apertando os punhos. A lei e a ordem, mais que nunca, estavam abaladas e o sol trazia consigo uma luz tão forte que fez-me arrepiar. Rá estava com raiva.
–Ele não pode...-Natália levantou cambaleante, olhando transtornada para o próprio corpo. Nefertum soltou um suspiro dolorido, enquanto Rakel tentava se aproximar da amiga, mas como todos aqui, a seguidora de Anúbis também parecia triste. Um leve tremer percorreu o chão, fazendo-me virar o rosto para Rá.
–Eu avisei...Avisei que não era a hora!-Gritou sr. Rá. Natália gemeu colocando a mão sobre os ouvidos como se não quisesse ouvir. Lagrimas se acumulavam nos cantos dos olhos da garota, que tinha uma expressão desesperada no rosto. A mesma murmurava coisas sem nexo, virando-se com tudo para trás.-Natália? Não ouse...Natália!-A Ramsés ignorou o deus do sol saindo correndo rapidamente. Trinquei o maxilar a seguindo sem pensar, ouvindo os gritos raivosos de Rá atrás de mim. Vi Natália conjurar um portal adentrando o mesmo sem exitar.
–Natália!-Gritei pulando dentro do portal da garota sentindo-me dentro de um liquidificador. Fui cuspido na sala do trono vendo Natália desaparecer pela porta, deixando todos os deuses da sala confusos. Eu estava pronto para segui-la quando fui parado por Khonsu.
–Hórus, oque esta acontecendo?-Questionou o deus da lua.-Porque tudo ficou mais escuro de repente? Oque houve?!
–Khonsu, você precisa ir atrás de Anúbis! Tente acha-lo...Ou eu não sei oque pode acontecer...-Falei temeroso. Khonsu encarou-me por alguns segundo confuso, mas com apenas um olhar meu o deus entendeu sumindo em meio a uma névoa prateada.
–Hórus, oque...?-Começou Osíris.
–Agora não, pai. Tenho que achar Natália.-Cortei saindo correndo novamente. Tentei imaginar onde a garota estaria e apenas um lugar veio em minha cabeça: A casa da vida. Me teletransportei até o lugar,saindo diretamente no corredor onde ficava o quarto de Natália. Girei a maçaneta do quarto, adentrando-o sem ao menos bater.
–Natália?-Questionei. A garota estava sentada em sua cama, inteiramente suja de terra e com alguns ferimentos. Ao me ver, Natália jogou o antebraço sobre os olhos numa tentativa de esconder seu choro, porém, seus soluços eram tão frequentes que era quase impossível não perceber sua crise.
–Me deixe em paz...-Soluçou Natália fazendo-me comprimir os lábios.
–Natália...Por favor.-Pedi.-Khonsu foi buscar Anúbis, eu tenho certeza que ele não vai nos trair, ele vai voltar!-Exclamei. A garota socou seu colchão com força engrenhando as mãos no cabelo logo depois.
–Não! Ele não precisa voltar...Não preciso de vocês aqui! Por esse motivo eu não queria que vocês voltassem! Eu sabia, sabia que iria acontecer!- Exclamou enquanto grossas lágrimas desciam de seu rosto.-Rá sabia que eu não iria aguentar. Que eu sou fraca quando se trata de vocês! Eu tentei, juro que tentei. Eu fingi não lembrar de nosso beijo em meu aniversário, tentei ser o mais fria possível...Mas é impossível!
–Espera...Oque? Você se lembra do beijo?
–Acha mesmo que algumas bebidas iriam derrubar tão facilmente a escolhida de Rá? -Natália sorriu sem humor.-Quem dera fosse tão fácil...
–Porque está fazendo isso? Porque tenta esconder seus sentimentos tão de debilmente?-Questionei.
–Porque estou em uma guerra! Porque preciso matar mais a droga de um deus...Porque se algo acontecer com algum de vocês eu preciso ser forte...
–Você não é uma maquina, pode ter sentimentos!-Rebati.-Você é apenas uma humana, que se machuca, que tem sentimentos, que pode viver se quiser! Fuja, Natália...Fuja de tudo isso!
–Não me encha de esperanças tão facilmente. Não diga que podemos fugir, porque não podemos...Você é um deus, e eu...Apenas uma humana, como você mesmo disse.
–Não disse que iria fugir com você. Não precisa de ninguém para sobreviver... Faça seu próprio destino!-Incentivei.
–Pra que?! Pra Rá me seguir até o fim do mundo? Para o "duat" perecer? Não...Obrigada.-Murmurou Natália negando com a cabeça. Meu coração palpitou dolorido. Eu queria ajudar Natália, tira-la dessa dor...Mas parecia que era impossível.
Fiquei a encarando por alguns minutos, enquanto um silêncio torturante se espalhava entre nós. Natália tombou a cabeça para trás , encostando-a na parede. Continuei a observando, perguntando-me se naquela garota ainda existia um pouco da Natália antiga. A Natália de cachos negros e perfeitos, de olhos cativantes e dona do melhor beijo que uma mortal poderia dar em alguém. Como se lê-se meus pensamentos Natália se inclinou em minha direção e eu fiz o mesmo sem pestanejar, senti seus lábios roçarem os meus mas um forte barulho fez a garota se afastar, antes mesmo de encostar seus lábios nos meus. Natália arregalou os olhos quando a porta de seu quarto se abriu com um estrondo.
–Mas oque...?!-Antes de qualquer reação minha Rá adentrou o quarto, exalando uma áurea tão maligna que fez um calafrio passar por minha coluna. Natália prendeu a respiração engolindo em seco.
–Sr.Rá...-Antes da garota conseguir terminar Rá a agarrou pelo braço, puxando-a para si violentamente. Natália gemeu, enquanto o deus apertava seu pulso com força. Com a mão livre Rá tampou a boca de Natália fazendo a garota tentar se soltar do deus sem sucesso algum.
–Vai machuca-la!-Protestei..
–Não se meta...-Vociferou Rá, olhando-me com raiva.-Não ouse dizer uma só palavra Hórus!-Olhei incrédulo para o deus do sol ao mesmo tempo que Nefertum adentrava o quarto.
–Sr. Rá...Por favor!-Pediu o moreno suplicante.
–Calem-se! Natália precisa aprender uma lição...-O deus virou-se mortalmente para a Ramsés, que não conseguiu nem ao menos falar diante do olhar acusador do deus do sol. Natália tentou tirar a mão de Rá de sua boca, olhando suplicante em minha direção.
–Meu sr., sei que está nervoso mas isso não vai adiantar nada!-Argumentou Nefertum olhando de um jeito desesperado para Natália.
–Veremos então.-Grunhiu Rá. O deus saiu do quarto marchando, arrastando Natália atrás de si. Olhei temeroso para Nefertum, que parecia preste a vomitar.
–Oque foi isso?
–O orgulho de Rá falando mais alto que sua consciência....Natália o desafiou, ela não devia ter feito isso...
–Oque ele vai fazer com ela?-Perguntei. Nefertum suspirou derrotado,passando a mão pelo rosto.
–Eu não sei, Hórus. Eu não sei.
PDV ANÚBIS
Eu e Khonsu caminhávamos em silêncio pelo duat. Estávamos quase chegando no salão dos deuses mas meus pensamentos estavam longes. Eu ainda tinha minha atenção totalmente focada em Kebechet, com as lembranças ainda vivas em minha mente, corroendo-me por dentro.
–Anúbis...-Chamou Khonsu. Levantei a cabeça para ele.-O clima está meio tenso, tente, por favor, não piorar as coisas.-Aconselhou. Percebi que já havíamos chegado, estando parados na frente das grandes portas da sala dos deuses. Abri a boca para responde-lo, porém, fui cortado por um alto grito. Várias vozes explodiram dentro da sala fazendo eu olhar para Khonsu assustado.
–Oque...?-Antes do deus da lua terminar sua frase abri as portas do salão adentrando-o rápido. Senti o ar pesado e meu corpo gelou diante daquela cena. Natália estava ajoelhada no chão na frente de Rá que tinha uma expressão severa no rosto. Grossas lagrimas escorriam do rosto da garota, se misturando com o sangue que saia de seu nariz. Juntei as sobrancelhas sem entender virando-me para o resto dos deuses. Todos estavam de pé, como se pretendessem ajudar Natália, porém, nenhum deles ousava se meter entre Rá e Natália. Hórus era oque mais parecia tentado a ir até os dois, seu queixo estava rígido e seus olhos passavam pela Ramsés com dor. Osíris estava com a mão em seu ombro, acho que apenas por causa dele Hórus não partia para cima do deus do sol.
–...Desobediência!-Bradou Rá.
–Só fiz oque eu achei que era certo...A droga da vida é minha!-Rebateu Natália. Rá rosnou, passando a mão fortemente pela garota. Sua mão nem chegou em encostar em Natália, porém, levou consigo uma luz dourada que saia do corpo da menina. Natália engasgou, colocando as mãos firmes no chão para não cair.
–Rá, não acha que está exagerando?-Perguntou Kepri sem nenhum interesse.-Não se esqueça que ela precisa viver.
–Não se meta, Kepri!-Falou Rá.-Isso é entre eu e ela.-Kepri levantou a mão para o alto em sinal de rendição, sendo bombardeado por olhares acusadores de todos.
–Oque?! Eu tentei!-Justificou-se o deus escaravelho.-Não a nada que eu posso fazer, ela é a culpada!- Rá rondou Natália, olhando-a com raiva.
–Você ousou me desobedecer mais uma vez, Natália. Ousou me desafiar...Em outras circunstâncias sua pena seria a morte mas ainda precisamos de você para vencer essa guerra
–Então é isso ?! Eu não passo de uma arma para você?!-Natália soluçou.-Achei que era diferente, que tinha deixado essa mania de grandeza para trás!
–Não vê que estou fazendo isso para seu bem?!
–Me jogando para a morte, não me dando escolhas e fazendo-me viver como o sr. quer?! Isso é para o meu bem?!-Questionou Natália.-Ah, por favor...Se isso é seu maior nível de bondade o pegue e vai pro inferno!-Um zumbido de surpresa e horror encheu o salão. Nefertum olhou para Natália sem acreditar, enquanto Hórus remexia-se inquieto. Olhei para Rá vendo o deus adquirir um tom purpura, enquanto sua carranca raivosa aumentou.
–Nunca-mais-ouse-me-desobedecer...-Avisou o deus pousadamente antes de erguer a mão novamente em direção a Natália.
–Não faça isso!-Gritei. Rá se virou para mim e incrivelmente seu ódio aumentou.
–Anúbis...-Falou em tom irônico.-Vejo que voltou.-Natália virou-se surpresa em minha direção.
–Voltei. Achou que eu não voltaria?-Questionei.
–Achei que tivesse nos traído. Me traído, traído sua amada Natália.-Trinquei o maxilar.
–Eu nunca irei fazer isso.-Rosnei.
–Será? Me diga Anúbis, esse amor entre vocês realmente é real?
–Você não sabe nada sobre nosso amor.-Falei. Rá sorriu virando-se para Natália.
–Ouviu ele? Eu não sei nada sobre o amor de vocês...-A garota o encarou suplicante mas mesmo assim o deus do sol passou a mão pela garota, retirando mais da luz dourada que supus ser ser poder. Voltei-me para Natália vendo seus olhos se fecharem, seu corpo brilhou e um último arfar saiu de sua boca.
–Efeito colateral...-Sussurrou Natália antes de cair diretamente para o chão. Rá não moveu um músculo deixando-a apenas bater a cabeça no chão frio da sala dos deuses. Todos ali pareciam chocados. Eu nunca tinha visto Rá ser tão frio, mesmo na antiguidade. Pelo jeito que ele sempre tratou Natália era difícil imaginar que ele poderia ser tão maldoso com a menina.
–Sr. Rá, por que isso?!-Perguntou Nefertum olhando horrorizado para Natália, que jazia desacordada no chão.
–A ousadia de Natália esta ultrapassando limites. Ela pode querer viver, pode querer fazer oque bem entender mas ela nasceu com a profecia.
–Ela não escolheu nascer com a droga dessa profecia!-Rebateu Hórus.-Não pode fazer isso com ela!
–Hórus, acalme-se.-Pediu meu pai, olhando Hórus censurador.
–Um cego não escolhe nascer cego, caro deus da guerra. Ela nasceu com um peso e nada pode tira-lo dela. O duat está em suas mãos e não deixarei anos e anos de história perecerem por causa de uma birra.
–Uma birra?-Perguntei incrédulo.-Ela parece estar fazendo birra?!
–Você também, Anúbis...Acalme-se!-Ordenou Osíris, virando-se para mim. Vi o desgosto passar por seus olhos, porém, não liguei, continuando a olhar Rá.
–Não conhece Natália como acha que conhece, Anúbis. E Osíris...Deixe seus filhos falarem. Quero saber oque os supostos "apaixonados por Natália" pensam.
–Você está errado. Eu a conheço! A conheço melhor do que qualquer um nesse salão! Ela é minha seguidora!-Rebati.
–Ela era sua seguidora, não se esqueça disso. E pelo que eu bem me lembro você fazia oque queria com ela nessa época. Deixou a mesma presa em seu castelo por dias, apenas para ser pega por Set...Porque está me julgando então?-Engoli o bolo que se formava em minha garganta não sabendo como responde-lo. Olhei para o corpo inerte de Natália no chão, voltando-me para Rá logo depois.-Ouçam bem oque vou dizer. Podem me chamar do que quiserem mas ninguém dentro desse salão conhece Natália melhor que eu. Eu vivi mais de um ano dentro dela, sei todos os seus segredos , todos os seus desejos e sei sua missão. Não me importo com que digam, contanto que não atrapalhem seu destino. Pois se continuarem a incentiva-la a desistir de tudo, não me importarei em virar o vilão dessa história.
–Isso está errado.-Rebateu Hórus.
–Não me importo. E ah, um adendo para vocês.-O deus olhou para mim e para Hórus, virando-se lentamente em circulo como se quisesse que todos vissem o seu rosto.-Nunca mais toquem em Natália. Eu saberei caso essa regra seja descumprida. Ela não precisa de mais distrações...
–Não pode fazer isso!-Protestei.
–Eu posso e eu vou. Inclusive, Anúbis. Acho bom abaixar o seu foucinho, estou te perdoando dessa vez, mas na próxima, quando eu achar que você , nem se for um pouco, está tentado a ir para o lado de Kebechet passará uma noite agradável no inferno, banimento sem duvidas.-Rá fez uma pausa.-Estamos entendidos?-Não respondi mas isso foi o suficiente para Rá. O deus foi até Natália, pegando seu corpo e jogando-o sobre o ombro. -Nefertum...-Chamou. O deus da beleza foi vacilante até Rá, segurando no ombro do deus. Os três sumiram em uma névoa deixando todo o salão em completo silêncio.
–Mas que droga foi essa?-Questionou Khonsu.
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