Os Segredos dos Seus Braços

34 Grandes escolhas, difíceis consequências


Notas iniciais
Boa leitura.

Cap. 34

Biloxi, Mississipi

Interior da floresta

1902

Alice sentia as mãos suarem, geladas e duras como concreto, dentro do bolso de seu casaco aveludado. Podia sentir as contas de seu terço de pérolas. Fazia cerca de meia hora que eles caminhavam, em um silêncio absoluto, pelo meio pouco receptivo da mata úmida.

A única exceção dos barulhos eram os animais e as gotas que caiam das folhas.

Alice tentava não esboçar reação alguma diante do medo que rondava-a, ameaçando fazê-la desabar. Não sabia para onde estavam indo, e com o silêncio acompanhando-os, Alice tinha muito tempo em sua cabeça para pensar em coisas que a assombravam.

E a pior das realidades que pairavam em sua cabeça era o receio de não ser encontrada nunca mais, caso não pudesse voltar de próprias pernas para sua casa.

Agora, a idéia de deixar Jasper em casa para protegê-lo parecia ter sido equivocada. Se fosse para morrer, preferia o fazer lutando ao lado dele. Morrer dentro do coração de uma floresta fechada, com o corpo esquecido e abandonado ao nada, não era a forma mais heróica de morrer.

Morrer por um objetivo tendo o alcançado sim era louvável.

Mas ela ainda sabia, de uma maneira ou outra, que não havia sido estupidez. Que, ao menos, descobriria de uma vez por todas, o que estava acontecendo.

Alice descobrira que Jane Volture, sua mãe e suas futilidades eram os menores de seus problemas.

_

Jasper acordou de repente. Talvez algo em seu sonho o houvesse despertado.

Ou talvez o instinto.

Era mais ou menos aquele horário que acordava para ver se Alice estava bem. O sobressalto o fez fechar os olhos, a cabeça ainda afundada no travesseiro macio. Embora molhado, naquele momento, pelo seu suor.

Aos poucos a consciência alcançou seu despertar e lhe repassou tudo o que havia acontecido durante aquele dia. Apenas nesse momento que ele sentiu o incômodo latejar de seu pé.

Embora ele ficasse imensamente grato por não ser mais tão ruim.

Como um ato automático, Jasper olhou para o lado, quando não sentiu o peso da cabeça de Alice sobre seu braço, como de costume. Ela não estava ali.

Ele sentou-se na cama, a testa franzida. Olhou por tudo em volta.

Definitivamente, ela não estava no quarto.

Ele girou na cama, colocando as pernas para fora, pronto para levantar quando escutou um barulho de algo caindo chão, um pouco distante. Talvez Alice estivesse por perto, afinal.

Porém, algo em seu parcialmente adormecido instinto lhe sussurrou no ouvido, que ele não deveria chamar o nome dela. Levantando-se da cama com destreza, pisou sobre as tábuas do piso com leveza treinada.

Fora até a janela de vidro, e olhou pela fresta da cortina, que balançava levemente com a brisa úmida que a chuva fraca trazia. Semicerrou os olhos para o breu noturno, embora pudesse enxergar muito bem com a ajuda da iluminação da enorme lua do céu.

Às margens da floresta que cercava sua propriedade, Jasper viu um movimentar de um vulto grande. Parecia caminhar de um arbusto à outro. Logo outro movimento rápido apareceu nos arbustos de flores, agora já em seu quintal, perto demais de sua casa.

_ Infernos! – ele murmurou, entendendo muito bem o que acontecia ali. Se Alice houvesse feito o que ele acabava de imaginar, ido até o chefe deles como ele queria, Jasper já era uma carta fora do baralho.

Valeria muito mais à Fortunato Black se estivesse morto.

Jasper movimentou-se pelo quarto escurecido rolando os olhos por ele para encontrar uma camisa em algum canto. Pegou a primeira que repousava no criado mudo, ao lado de um bilhete.

Um bilhete.

Jasper o abriu sem muita cerimônia. Tinha a letra de Alice em poucas palavras.

Sinto muito, mas eu precisava saber a verdade e não queria que você se envolvesse.

Não se preocupe, eu darei um jeito de voltar logo.

Até breve.

Sra. Witlock

Jasper bufou de indignação, amassando o pequeno bilhete entre os dedos compridos. Um tremor passou por seu corpo. Um misto inquietante de apreensão e raiva. Ela havia feito mesmo o que ele imaginou. E, enquanto era apenas uma hipótese absurda, ele podia lidar com ele. Mas, assim, sendo a realidade, ele sentiu raiva na boca do estômago.

Como Alice poderia ser tão teimosa e imprudente desta maneira?

Se ela contava com o fato de Jasper se manter de fora de tudo aquilo quando descobrisse sua loucura, ela estava enganada, mais uma vez. Aquilo lhe dera ainda mais determinação. Desejava acertar contas com Black há muito tempo, agora, ao menos, tinha um motivo muito mais do que plausível.

Ele desceu as escadas até a sala principal. Tudo estava em silêncio, acalentado pela serenidade da meia noite que já acabava. Lilly e Consoelo certamente dormiam em seus quartos, onde as trancas haviam sido trocadas e fortificadas. Elas estaria bem, ali.

Jasper pegou o casaco do cabide que ficava no canto da sala. Alguns lenços de Alice e seu chapéu azul adormeciam ai. Ele não conseguiu encarar por muito tempo aqueles objetos.

Porque Alice fazia aquilo com ele?

Meneando a cabeça consigo mesmo, ele prometeu, no fundo de seus pensamentos, que quando a encontrasse, logo depois de beijá-la, ele iria ralhar com ela até ela sentir-se culpada e pedir desculpas.

Um sermão de horas, se fosse o que ela precisasse.

Ele se dirigiu para a porta da frente, os sapatos já devidamente colocados e o casaco em volta do corpo. Fizera tudo aquilo tão mecanicamente que nem percebera. De repente, outro barulho nos fundos de sua casa.

Ele podia escutar o “tilintar” das adagas dentro dos bolsos.

Com uma mão na maçaneta, Jasper apertou sua pistola no bolso do casaco. Tinha a impressão de que tudo acabaria naquele dia que chegava ao céu.

Mas a impressão não era boa o suficiente para garantir-lhes que acabaria bem.

Então no momento em que abriu a porta de uma única vez, deparou-se com uma mão estendida ao ar, em forma de punhos, como se estivesse prestes a bater.

_ Oh meu Deus!- Jasper murmurou, descrente – O que vocês estão fazendo aqui? – indagou, encarando seus amigos prostrados à sua porta, pingando incessantemente por conta da chuva que vinha logo atrás.

Eram Peter, Sam, Mike, Jerad e tantos outros soldados amigos seus. Eram cerca de 15, espalhados pela sacada, pelo gramado e no portão, enquanto ainda seguravam as rédeas de seus cavalos.

_ Viemos visita-lo, irmão – anunciou Peter e rápido como um piscar, abraçou à seu amigo, que ainda parecia um tanto descrente.

Jasper o abraçou de volta com dureza e empolgação, ao mesmo tempo. Aquela visita não poderia ter sido mais desejável e conveniente.

_ Viemos conhecer pessoalmente a famosa Alice – Mike disse, batendo às costas de Jasper com um sorriso cansado e, ao mesmo tempo, contente no rosto — Tenho certeza que pela hora, nosso encontro com ela não vai ser dos mais animados – ele riu, acompanhado dos demais amigos.

Porém, Jasper não sorriu. Passou as mãos nervosamente pelos cabelos enrolados.

_ O que foi, Jasper? – Jerad indagou, pondo-se ao lado de Mike – Age como se nossa visita o incomodasse.

_ Aconteceu alguma coisa? – dessa vez fora Peter o indagar, aproximando-se de Jasper para fitar seus olhos preocupados e astutos. Sabia que a visita deles não desagradara o amigo. Porém, havia alguma coisa grande acontecendo ali.

Jasper apertou a mandíbula fortemente.

_ Foi Alice – disse ele com aspereza na voz – Alice foi ao encontro do bando do mato por que queria saber a verdade. Ela está com...está com eles – ele não viu quando esmurrou o batente de sua porta. A raiva o esquentava por dentro como labaredas de fogo.

Um silencio incrédulo se estendeu pelo grupo de homens molhados e sujos.

_ Marrenta essa sua mulher, não é não? – Sam disse, de repente, cortando o silêncio.

Atrás dele, alguns outros homens concordavam fracamente com a cabeça.

_ Ah, certamente – Jasper concordou a contra gosto. Uma das características que sempre gostara nela, naquele momento, o irritava mais do que qualquer outra coisa – Marrenta e inconsequente! – emendou – É apenas uma, mas me vale por 20!

Peter sorriu brevemente, embora soubesse que a situação e o desabafo do amigo não lhe permitia isso. Colocou uma das mãos sobre o ombro tenso de Jasper.

_ Vamos atrás dela com você, Jasper – disse para ele, sustentando firmemente seu olhar – Vamos trazer Alice de volta! – apertou, inconscientemente os dedos sobre o ombro do amigo.

Apertando os lábios fortemente um contra o outro, Jasper assentiu, sabendo que poderia contar com todos os seus amigos para aquela pequena guerra.

_ Neste momento, o Bando do mato está na floresta aqui ao lado, certamente esperando o momento certo para entrar aqui dentro e acabar comigo – ele disse em um tom mais baixo, não querendo deixar que eles pudessem escutar que ele sabia de sua existência e de suas intenções.

_ Ótimo, então! – Jerad exclamou com entusiasmo, apertando os punhos – Vamos até lá acabar com esses malditos! – o fez, recebendo muitos acenos em concordância.

_ Não! – Jasper tratou de o interditar rapidamente – Não podemos, porque eles nunca nos revelariam nada! Iríamos apenas perder tempo lutando com eles – continuou, sensato. Seus amigos o escutavam atentos – Preciso descobrir onde Alice está, antes que o maldito do Black desapareça com ela daqui e nós...nós nunca mais possamos encontra-la – ele engoliu em seco, com dificuldade, sentindo sua garganta rasgar com aquele ato. Não quis aprofundar os pensamentos perturbadores que atingiram sua mente. E se não conseguissem encontrar Alice nunca mais?

Ele se perguntou se estaria preparado para encarar aquela realidade.

O nó no estômago de Jasper quase o fez vomitar ao pensar naquilo.

Seus amigos se entreolharam, percebendo a agonia do amigo.

_ Vamos trazer sua mulher de voltar, Major – Billy, um dos homens que usualmente era quieto demais, disso logo atrás de Jerad. Havia convicção nos olhos dele. Jasper acenou para ele, sentindo suas mãos se fecharem em punho em imaginar que, talvez, houvesse mesmo aquela possibilidade.

_ Então vamos nos mexer, homens! – Peter exclamou, apontando para a rua, onde as dezenas de cavalos estavam prostrados.

Jasper agradeceu o fato de ter passado a deixar Ramos solto pelo quintal, uma vez que ficava irritadiço quando ele o prendia no estábulo. Ele ficava por ali, no gramado da frente, fartando-se nas folhas verdes.

Em poucos minutos, todos já estavam devidamente montados em seus cavalos, enquanto discutiam entre eles por onde deveriam começar.

E, do lado de dentro da propriedade, atrás de árvores velhas de grandes folhas verdes, os homens os encaravam, da beira da floresta. Quatro deles haviam levado Alice, enquanto o restante esperava pacientemente até que chegasse o momento. Por muito pouco não havia conseguido alcançar o objetivo que os levara até ali.

Por muito pouco não haviam matado o soldado. Em sua própria cama.

Porem, o homem havia lhes avisado que ele era astuto. Que não era o homem mais idiota do mundo e, então, ali estavam eles, olhando o agitado grupo de homens que saiam pela madrugada à galopes rápidos e determinados.

Sua presa continuava viva.

_ Mais que diabos – o homem da cicatriz sobre a boca estalou a língua, irritado – Soldadozinho de sorte, este. É a segunda vez que nos passa para trás – murmurou, irritado. Não falava com nenhum dos outros homens que também estavam ali, que apenas esperavam uma ordem sua.

_ E agora, Sr.? O que faremos? – o mais magrela dos homens se pronunciou, rodando um pequeno canivete entre os dedos calejados.

O homem acompanhou o pequeno Exército com os olhos semicerrado até que eles sumissem no breu da madrugada.

_ Você vai até o chefe – disse ele, sem olhar para o homem – Vai avisá-lo que o maldito escapou e que já sabe que a vadia sumiu – cuspiu no chão, segurando sua espingarda com força — E diga que ele está procurando por ela. E que não demorará para que ele chegue até lá.

O homem assentiu, retrocedendo os passos para o interior da floresta. Aquele era um bom caminho. Tinha uma saída que dava direto aos cavalos deles, no meio de um campo aberto, à beira de um precipício.

O homem da cicatriz rolou os olhos pelos que ficaram.

_ Quanto à nós, vamos atrás desses miseráveis – disse, apontando para o estábulo de Jasper, um pouco distante no gramado molhado. Tinha cavalos de sobra para todos eles ali – Vamos impedi-los de achar Black e a mulher. – sussurrou – E vai ser muito divertido...

_

Alice andou atrás daqueles homens em silêncio. A floresta começava a dar lugar à uma campina à boca de um precipício. Haviam diversos cavalos pastando por ali. O sol começava à querer despontar, enquanto a madrugava serpenteava pela cidade. Logo começaria a ficar claro, e Alice poderia ver aqueles homens mais nitidamente.

Não sabia se aquilo a reconfortaria.

Mas parecia melhor do que ter a impressão de que seguiam um monte de sombras bizarras.

_ Você vem comigo – um dos homens disse para ela, indicando o cavalo marrom que ele começava a subir. Os outros três o imitavam.

Alice engoliu em seco, apertando o casaco vermelho-sangue contra si.

_ Não vou com você – disse ela, firme – Vou em um cavalo sozinha – não parou para olhar a expressão deles, apenas seguiu até outro dos cavalos, não se intimidando mais com o tamanho daqueles animais. Jasper a havia feito se acostumar com eles, afinal.

Enquanto subia no enorme cavalo malhado, ela escutou-os rosnarem. Não gostavam, de forma alguma, de serrem contrariados. Ainda mais por uma mulher. Porém, pouco se importou. Se fosse para morrer, morreria não demonstrando um só pingo de medo diante deles.

Logo eles começaram a correr com os animais, enquanto ela tratou de acompanhá-los. A clareira se estendia por um longo caminho. Depois de cerca de quinze minutos correndo no enorme campo aberto, eles e Alice voltaram a correr por uma floresta, cheia de troncos caídos e algumas folhagens sobre o chão. Alice pensou que já estavam um tanto longe de sua casa.

Aquela floresta, inclusive, não era mais a que rodeava sua casa.

A cada galope, ela ficava mais e mais distante dele...

Quando, por fim, a floresta terminou, logo eles estavam correndo por um mato baixo. Por vezes, havia resquícios de uma estrada de terra batida, encoberta por um pouco de capim e plantas rasteiras.

A estrada era longa, e Alice sentiu os músculo gritarem por um descanso. Corriam havia cerca de 40 minutos, e a única parte agradável de tudo aquilo era o sol nascendo à sua direita.

Alice notava que a paisagem era quase decadente. Havia poucas árvores e muito capim seco ao longo da estrada. Não havia vizinhança ali. Tampouco ela podia ver sinais da cidade de Biloxi, salvo algumas construção mais altas, que apareciam distante, e ficando cada vez mais.

Alice se assombrou com aquilo.

A poeira que os cavalos levantavam a estava deixando tonta, uma vez que era a última daquela fileira disforme. Ela sentia o coração começar a disparar no peito. Estava fraca. Se eles não parassem logo, ela sentia que poderia desmaiar.

Foi então que Alice avistou, há alguns metros à frente, uma enorme casa de madeira velha, porém aparentemente conservada. Tão distante de tudo e de todos que Alice teve a impressão de ser outro estado!

Ela não sabia se se sentia aliviada por finalmente poder parar, ou se a apreensão esmagadora de seu peito era seu maior sentimento.

A enorme capa vermelha balançava em conformidade com o vento que embaraçava seus cabelos. Entre as cores mortas que se misturavam àquela paisagem, a viva cor de sua capa parecia dar certa vida à ela.

Fora mais cinco minutos à galopes rápidos, até que eles alcançaram a espécie de fazenda desabitada. Eles pararam, e Alice correu os olhos por todo o lugar. O mato alto cercava aquela propriedade e de uma cerca de arames farpados pendia uma velha placa anunciando os proprietários daquele lugar.

Os Black.

Alice engoliu sentindo a garganta seca. O vento que passava por ali trazia junto consigo um aroma de capim seco, feno e morbidez.

Alice jurou ter sentido cheiro de ferrugem e sal.

_ Venha – um dos homens lhe chamou, quando a viu parada, enquanto eles

começavam a se encaminhar para a entrada da casa aparentemente desabitada.

Com certa hesitação, Alice os acompanhou. Quando entraram ali dentro, ela correu os olhos nervosos pela sala de estar. Havia algumas fotografias em preto e branco dispostas de forma uniforme nas paredes. A tinta descascava e no canto mais distante havia um vaso com uma flor seca.

O ar ai dentro era um pouco mais denso do que de qualquer outro lugar. Pesado. Austero. Alice abraçou a si mesma ao notar, esquecido na mesma mesa do vaso de flor seca, uma foto de Alec. Não sorria, tampouco olhava para o fotógrafo. Ao seu lado, seu pai. A falta de afeto ali era evidente, quase em auto-relevo. Por um segundo, ela se perguntou se Fortunato Black era capaz de gostar de alguém.

_ Ele está no escritório dele – uma voz atrás dela anunciou, pegando-a desprevenida outra vez. Quando ela voltou para si, tendo o cuidado de tomar certa distancia, viu que ele apontava para o final de um corredor escuro.

Alice respirou fundo discretamente. Porém, enquanto se encaminhava pelo caminho indistinto e desconhecido, sentiu risadas trocadas à suas costas. Mas ela meneou a cabeça consigo mesma e obrigou seus pés a continuarem o caminho.

Os cômodos que as portas fechadas escondiam pareciam abandonados, assim como o restante daquela casa. Sentira falta, de repente, da receptividade que tinha a casa em que vivia com Jasper.

Um pouco da poeira do piso de madeira grudava em seu sapato, enquanto seu rastro ficava pelo caminho, como se os resquícios de seus passos serpenteassem como sua sombra. Ela arfava, muda. Esperava que a boa sorte a acompanhasse em um dos seus lados. Parou seu caminho quando este lhe fez chegar até a porta entre aberta. Alice empurrou sua porta pesada com as pontas dos dedos finos. Havia luz lá dentro, e novamente a densidade.

Quando a porta abriu todo seu espaço, ela o viu. Estava de costas, e sua figura grande envolta a um sobretudo negro ocupava quase toda a janela de vidro. Acima de sua cabeça, na parede, havia a cabeça de uma águia empalhada. Ao seu lado, um abutre.

E ambos a encaravam com seus olhos brilhantes congelados.

Alice não se moveu. Não conseguiria. As mãos se apertavam no tecido de seu casaco, enquanto ela vacilava. A realidade da situação não era tão fácil quanto ela imaginara que pudesse ser.

Ela não disse nada até que ele se virasse de frente para ela, finalmente se dando o trabalho de ver quem estava li. E quando seus olhos a viram, um sorriso de escárnio apareceu.

_ Ora, mas se não é a Sra. Witlock – disse ele mansamente. Embora houvesse surpresa em seu olhar, suas palavras eram de superioridade. Como se ele apenas admirasse o inevitável – O que faz aqui de tão bom grado? – disse, semicerrando os olhos para ela – Ainda mais sem seu guarda-costas...

_ Paremos de fingir, Fortunato – ela pigarreou discretamente ao pronunciar aquele nome. Era a primeira vez que o chamava pelo nome, sem um mascarado respeito – Vim aqui para saber a verdade de uma vez por todas. Sei muito bem quem você é e o que faz – ela fez uma pausa, engolindo em seco – Sei que matou meu pai! – foi inevitável a garganta de fechar, assim como suas mãos.

Fortunato riu, tragando seu charuto malcheiroso.

_ Não minha cara – disse ele – Eu não o matei, apenas mandei que matassem – deu de ombros, como se aquilo fosse tão insignificante quanto matar um pernilongo – É a graça de ter o poder – riu, debochado, encarando-a – Não se precisa sujar as mãos com pouca coisa.

Alice rosnou baixo, sentindo os punhos tremerem.

_ Como ousa falar desta maneira de meu pai!? – ela vociferou, batendo o pé no assoalho.

_ Seu pai era um imprestável, tratante e viciado! – ele aumentou o tom de voz, fazendo ela calar-se de imediato. Ele tinha uma voz tão dura que faziam suas palavras parecerem muito mais cortantes.

_ Como pode fa...

_ Você não queria saber a verdade, garotinha? – ele a cortou, inclinando o corpo em sua direção, derrubando alguns carimbos que estavam dispostos displicentes pela mesa bagunçada – Segundo você, veio até mim para isso, não?

Alice tentou se controlar. Fulminou Fortunato Black e desejou poder conseguir atirar fogo pelos olhos.

_ Sim, eu vim para isso – disse – Exijo saber o que havia entre você e meu pai. Quero saber a verdade de uma vez por todas.

Fortunato sustentou seu olhar por um tempo, enquanto seu sorriso era encoberto por sua barba desleixada. Aos poucos, ele se endireitou, começando a caminhar pelo escritório abafado, que cheira a suor, tabaco e whisky adormecido.

_ Muito bem, então – disse ele, pegando outro charuto e acendendo. Fazia tudo com extrema calmaria, como se quisesse matar cada nervo de Alice – Você sempre soube Alice que seu pai valia muito pouco. Aliás, a cidade toda e toda a região – ele riu, debochado. Alice abriu a boca para ofendê-lo, porém ele lhe olhou com uma ferocidade que ela calou novamente — Não ouse me irritar com suas palavras, pois já estou irritado o suficiente e não quero acabar com minha brincadeira enquanto ela ainda começa.

Alice retrocedeu um passo, assustada. O coração disparou no peito, enquanto ela tentava se concentrar no momento.

Se parasse para pensar no que estava por vir, ela choraria, e não queria chorar.

_ O que meu pai lhe fez de tão terrível que merecia a morte!? – ela indagou baixo, indignada.

_ Era um tratante maldito – disse ele abruptamente – Ele fez muitas dívidas por onde passou, e uma delas foi com o bando do mato – meneou a cabeça, entediado – Que idiota, o Cullen. Não podia pagar nem as ceroulas, quanto mais uma dívida com o meu bando.

_ Você sabia que ele não poderia pagar, por que aceitou a dívida que ele resolveu fazer com vocês? – ela própria sentiu sua voz grasnada pelo choro contido – Deus, é tão cruel assim?

Fortunato Black riu alto, embora não achasse realmente graça das palavras de Alice. Parecia fazer apenas para provoca-la.

E ele conseguia a isso.

_ Porque não vim ao mundo para ser bom e justo – disse por fim, como se aquilo justificasse qualquer coisa. Era a sua natureza, afinal. Ele fez uma pausa por um tempo, antes de recomeçar a falar – Mas então, o bando começou a ameaça-lo e ele se desesperou. Era um merda, mesmo – deu de ombros outra vez – E quando viu que não poderia pagar de forma alguma, ele veio até a mim. Sabia que poderia oferecer algo à mim em troca do dinheiro que precisava.

Alice semicerrou os olhos para ele, enquanto o acompanhava andar devagar.

_ E o que ele... o que ele tinha que você pudesse querer..? – ela indagou, porem suas palavras não tinham força. Ela sabia que não queria saber a verdade, no interior do seu ser.

Fortunato dera mais alguns passos antes de se virar para ela. Não havia mais humor no semblante frio dele.

Havia ferocidade.

_ Você – foi que ele disse depois de um tempo observando-a – Desde quando brincava com Alec. Eu sabia que você se tornaria uma...mulher interessante – ele tragou seu charuto com força – E seus pais sabiam disso. Sua mãe nunca me dera muita abertura para lhe dizer meus planos...mas seu pai – ele riu – Seu pai gostava dessa idéia. Me bajulava como a um cachorrinho.

Alice sentiu os olhos arderem.

_ Então eu fiz a proposta para ele. Eu lhe daria o dinheiro que precisava se em troca ele me desse você.

_ Seus nojentos! – ela vociferou, sentindo as lágrimas quentes descerem sem cerimônia por suas bochechas secas e empoeiradas – Eu não era propriedade de meu pai nem de ninguém mais para vocês me tornarem uma mercadoria de troca!

_ Ah, iríamos fazer parecer que ele me daria sua mão, afinal eu simplesmente não poderia pegar você e levar embora, uma vez que algumas pessoas pensam que vocês mulheres não são apenas objetos descartáveis – ele revirou os olhos, mostrando mais uma vez a Alice por que ela o odiava tanto.

_ Eu não...

_ Estávamos até conversados. E era o plano perfeito, esse – ele aspirou de seu tabaco e expirou uma fumaça negra pelo ambiente. Alice precisou se esforçar horrores para não cair em um rompante de tosse aguda – Eu daria o dinheiro para ele como um empréstimo...e o receberia de volta, já que era à mim que ele devia. Desse jeito, eu ficaria com você, com uma dívida em aberto e com o meu dinheiro intacto. Teria ganhado você de graça – ele riu alto. Tinha extrema satisfação ao falar sobre aquilo. Jogou seu charuto no chão, pisando nele até ele se tornar uma massa disforme e sem vida sob seu solado – Eu tinha ficado extasiado com essa ideia – ele sorriu para o nada. Um sorriso deveras bobo. Mas então uma sombra de ódio passou por seu rosto e acomodou-se ali no mesmo segundo – Todavia, o desgraçado de Félix Witlock apareceu e ofereceu o dobro do dinheiro eu que iria “emprestar” ao Cullen só para garantir um casamento entre você e o filho mauricinho dele. Com a ideia de ter o dinheiro para pagar a dívida e ainda sobrar para ele gastar com bebida, mulher e jogo, ele não pensou duas vezes e desfez o acordo comigo para fechar com Witlock – quando terminou de falar, sua voz transbordava tanta raiva que Alice retrocedeu mais um pouco, sabendo que ele não mediria esforços para aliviá-la.

Mesmo que fosse nela.

Ficaram, então, envoltos a um gritante silencio por um longo tempo. Alice nem mesmo se dera mais conta do tempo, aliás. Ali, as coisas não parecia fazer sentido.

Nada perto de Fortunato fazia sentido.

_ Você não pode...

Porém Alice fora cortada novamente, mas dessa vez não por Fortunato, e sim por rápidas e fortes batidas do lado de fora da porta.

Fortunato olhou por sobre o ombro dela.

_ Entre – disse com a voz monótona. Ele havia se controlado. Ou estava à beira do controle.

Um homem magro, recobertos de cicatrizes nas mãos se pôs ao lado de Alice. Automaticamente ela abraçou a si mesma, distanciando, assim, o braço dele.

_ O que faz aqui? – Fortunato lhe interrogou, um vinco em sua testa de impaciência.

_ Desculpe Sr., mas... – ele fez uma pausa, olhando sugestivamente para Alice. Fortunato rolou os olhos dele para ela, também, e entendeu. Assim, chamou o homem com o dedo para que chegasse perto dele – Houve um contratempo – ele murmurou, inclinado para o homem – Não o matamos. Ele escapou e está com um grupo de homens procurando por ela – acenou discretamente com a cabeça para uma Alice muda – O restante de nós está atrás deles, para pará-los, mas tem chances de eles aparecerem por aqui.

Fortunato bufou, empurrando o homem para longe de si.

_ Saia daqui e...espere pelos outros – disse ele para o homem. Se Jasper fosse aparecer ali com seus amigos soldados, logo o restante de seu bando apareceria junto. Então, ele se virou para Alice – Anime-se, meu amor – disse maliciosamente, contornando a mesa para chegar até ela. Quando a alcançou, segurou seu braço com tanta força que Alice gemeu de dor – Vamos dar um passeio.

Alice se assombrou com aquilo. Tentou espernear, mas Fortunato era demasiadamente mais forte do que ela. A puxou com tanta brutalidade porta a fora que ela sentiu os pés, por vezes, arrastados pelo chão de madeira empoeirado.

_ Não! – ela guinchou, tentando livrar seu braço daquele aperto de ferro. Ele a arrastava para os fundos da casa, enquanto ela tentava firmar o pé em qualquer lugar para poder parar – Me solte! Eu não vou para lugar algum! – ela começou a gritar, desesperada. Não era assim que imaginava aquilo. Poderia ficar por ali com ele, até que soubesse de tudo. Então, até lá, Jasper apareceria e a salvaria. Mas, se ele a levasse para outro lugar, como ele a acharia, algum dia?

Alice olhou para o outro lado do corredor, que dava até a sala de estar. Os cinco homens a olhavam com um olhar de divertimento. Alice começou a gritar até ficar rouca, a garganta arder tanto que parecia sangrar.

_ Socorro!! – ela puxava seu braço inutilmente. Olhou mais uma vez para os homens, que apenas observavam ao longe. Todos eles começaram rir entre eles. Em um momento, Alice viu um deles passar a língua pelos dentes amarelos – Me solte!! – ela gritou ainda mais, agora chorando displicentemente – Socorro! – ela se engasgou, começando a tossir. Haviam chegado à porta, e agora ela sentia a terra do quintal dos fundos sob seus pés, que ainda se debatiam. Embora estivesse amanhecendo, o céu ainda estava um pouco escuro por ali, já que havia um matagal por todo o lado.

Os pés se debatiam para todos os lados. Fortunato a arrastava para a beirava do matagal seco.

_ Não! – Alice gritava em desespero, porém sabia que era inútil. Não havia vizinhança, por ali. Aquela propriedade era afastada de tudo e de todos.

Alice estava nos confins do mundo.

Então, a mão cujo braço não era puxado enfiou-se dentro do bolso de seu casaco, onde seu terço de pérolas coloridas adormecia. Remexeu ali com os dedos nervosos.

Em um momento, ela sentiu que perdia um dos sapatos. Agora ele a puxava com mais brutalidade, pois ela dificultava muito o seu trabalho de tanto que se debatia. Em resposta, ele puxou um dos lados de seu cabelo e ela gritou de dor. A cabeça passou a doer, assim como o braço e o pé que havia perdido o sapato, pois era arrastado pelo matagal, encontrando em seu caminho pedras, arames e farpas.

E a única coisa que lhe restou fora chorar ainda mais, gritando tanto que perdeu a voz.

E vez ou outra ela enfiava a mão nervosa dentro do mesmo bolso, remexendo ali com um único fio de esperança.

Ela foi arrastada por ele por cerca de meia hora. Não sabia se era porque o lugar para onde estavam indo era distante demais ou se o caminho era muito confuso. Haviam entrado por tantas fendas entre o matagal que ela se desnorteara. Porém, quando eles alcançaram um lugar mais limpo, ela entendeu.

Haviam chegado à um galpão velho e carcomido, escondido no coração do matagal.

Havia tanto mato envolta, que Alice tinha absoluta certeza de que era impossível vê-lo da fazenda. As tábuas das janelas pendiam desesperadas nas paredes. Cupins apossavam-se dali como se demarcassem seu território.

Havia pó e teias de aranha por todos os buracos imagináveis.

_ Esse é um galpão de ferramentas abandonado – disse ele, quando eles entraram ali dentro. Alice sentiu o nariz arder por tanto pó que brigou entre si para entupi-los. Novamente, ela recomeçou a tossir. Tapou a boca para que Fortunato não visse se acabasse por tossir um pouco de sangue.

Se achasse que ela estava doente, a mataria sem remorso.

Ela parou ao meio do galpão quando ele soltou seu braço. A marca de seus dedos estava tatuada em sua pele, levantando-se em cinco vergões. Ela sentiu seus braços arderem por conta dos diversos arranhões que ganhara do capim.

Ele caminhou mais um pouco pelo ambiente imundo. Alice viu, ao canto, alguns ratos correrem de um lugar ao outro. No alto da parede, havia facões e foices enferrujados pendurados na madeira por pregos tortos.

_ Você pode gritar o quanto quiser, Alice – disse ele, de costas para ela – Ninguém poderá escutá-la daqui – se virou, então – Se alguém chegar à fazenda, jamais chegará aqui.

Alice sentiu finas lágrimas rolarem por sua pele, agora, além de seca e empoeirada, rabiscada com riscos brancos e avermelhados.

Jasper corria a uma velocidade tão grande que o vento zunia em seu ouvido. Precisou até mesmo semicerrar os olhos para poder enxergar. Peter, que de todos os outros homens do exercito, era o único bom sobre um cavalo assim como Jasper, corria equiparado à ele. Estavam bem a frente dos demais, cujos talentos iam em outras direções.

Jasper decidira ir até a casa de Fortunato, pois precisavam começar de algum lugar. Sabia que a possibilidade de eles estarem lá era mínima. Fortunato Black poderia ser todas as coisas ruins do mundo, mas burro, definitivamente, não era uma delas.

Eles contemplaram a cidade acordando aos poucos. O sol começava a se erguer por entre as nuvens espaçadas e brancas. Algumas janelas começavam a se abrir, embora as ruas permaneciam quase inabitadas.

Mas isso era bom, afinal, pois eles perderiam muito tempo tendo que desviar dos pedestres.

A cidade nunca parecera tão grande para Jasper, pois parecia que galopavam por dias sem chegar. Quando, finalmente, avistaram a enorme casa dos Black, uma propriedade impessoal e cinza, cuja grama do quintal estava resseca, ele conseguiu sentir o ar ser solto duramente dos pulmões.

Os raios do sol ainda eram tímidos, porém iluminava-os nitidamente. Quem quer que olhasse para a rua, os veriam. E ficariam assombradas.

Mais de uma dúzia de homens e cavalos enormes chegando abruptamente à casa de Fortunato.

Jasper desceu de Ramos antes mesmo deste parar por completo. Ele correu até as grades do portão, empurrando-o com as mãos frias pelo vento da madrugada.

O ferro das grades estavam tão frias quanto ele.

Nem mesmo olhou para trás para ver quem estava acompanhando-o.

Sabia que Peter era um deles.

Correu pela calçada de pedras lascadas do quintal. Atravessou a área de madeira batendo com dureza as botas contra o chão, fazendo um barulho que assustaria.

E quanto as diversas outras botas fizeram o mesmo, o impacto alto fizera parecer trovões.

_ Ah meu Deus do céu! – uma mulher exclamou, arregalando os olhos com tanto pavor que eles quase saíram das órbitas. Ela pôs a mão sobre o peito, chocando-se à parede da sala quando retrocedeu diante da invasiva entrada de Jasper e os demais homens.

_ Onde está Fortunato Black? – Jasper perguntou sem rodeios. Sentia-a, bem no fundo, mal por estar assustando a pobre mulher, que não tinha culpa de sua ansiedade, sua presa, sua tensão e sua ira.

Só queria Fortunato Black, não causar boa impressão.

A mulher meneou a cabeça em desespero, os olhos avermelhando-se.

_ Não sei não Sr.! Juro que não sei – ela exclamou com a voz aguda – Ele não está aqui!

Jasper rosnou furiosamente, fechando as mãos em punhos de ferro. Nem mesmo notou quando outro alguém apareceu no ambiente.

_ Mas que algazarra está acon... Oh Jesus! – ele parou no mesmo segundo ao ver Jasper e todos aqueles homens enormes em sua sala, que diminuira seu tamanho consideravelmente. Seu pavor era evidente. Por vezes, mais do que da própria mulher.

_ Parem de evocar os Espíritos Santos em vão! – Sam ralhou, batendo a mão na mesa de canto.

Sam não o modelo perfeito de paciência.

_ Ahhh!! – Alec pulou para trás diante do susto pelo ato do enorme índio. Apertara o tecido azul de suas vestes de dormir. O seu nome bordado sob o coração fora desfeito – Sinto muito! Sinto muito! Sinto muito! – ele bradou, apavorado.

Mas antes que qualquer um falasse qualquer outra coisa, ele virou-se de costas e começou a correr corredor adentro.

_ Volte aqui, seu maldito! – Jasper grunhiu, movendo-se pela sala para ir atrás dele. Porém, Billy passara por ele como um jato e sumira pelo corredor assim como Alec.

Billy sempre fora o melhor e mais rápido corredor dentre todos eles.

Não tardou para que ele o alcançasse, puxando-o pela gola antes impecavelmente passada de Alec.

_ Nâo, por favor, não façam nada comigo! – ele choramingava em pavor. Certo que muitas vezes havia irritado e provocado à Jasper, inclusive tentando seduzir sua mulher, mas ele pensava que as consequências não chegariam à tanto. Quando fora arrastado de volta à sala, ele parou seus olhos amedrontados em um Jasper bufante – Jasper! Eu sinto muito, sinto muitíssimo por qualquer coisa – disse – Não façam nada comigo, sim?

Jasper não tinha paciência para Alec, sua covardia e seu choramingo. Chegou até ele e o segurou pela mesma gola, aproximando-o de si perigosamente.

_ Onde está o miserável de seu pai!? – exigiu, não dando muitas escapatórias à ele.

_ Hey! Não fale de... – ele se engasgou quando Jasper apertou um pouco mais o tecido por sua garganta.

_ Não vou perguntar de novo, Alec – ele murmurou, olhando bem fundo nos olhos minguados dele – Onde está Fortunato?

Alec engoliu em seco, rolando os olhos por todos ali de dentro. Mesmo que quisesse retrucar Jasper por que o odiava demais, sabia que não acabaria muito bem se todos aqueles homens fizessem com ele o que seus punhos fechados ameaçadoramente prometiam.

_ Não sei, realmente não faço ideia, Jasper – disse ele com certa dificuldade. Temeu falar alguma coisa errada – Ele não aparece aqui há dois dias! Tampouco no Banco. Ninguém lá sabe dele, eu lhe juro!

Jasper empalideceu-se ainda mais. Era uma reação da raiva. Da falta de circulação do sangue. Largou Alec com estupidez, passando as mãos pelos cabelos embaraçados.

De certa maneira, sabia que Alec falava a verdade. Alec era a parte mais insignificante de tudo aquilo.

_ E agora? – Jared pronunciou-se, inquieto – Temos que voltar para a rua, procurar.

_ Jared tem razão – Mike também disse, com a determinação de um jovem nos olhos – Não vamos mais perder tempo aqui!

Alguns homens saíram de volta ao gramado, indo sem rodeios de volta à seus cavalos. Jasper ficou em seu lugar por alguns segundos, tentando pensar em alguma coisa rápido.

Não podiam simplesmente sair às cegas procurando, iriam perder tempo demasiado. Precisava pensar racionalmente. Com coerência.

Alguma coisa deveria fazer sentido.

Tentando juntar todas as peças desregradas de um quebra-cabeças mental, Jasper começou a refazer passos, repassar diálogos, relembrar situações.

Incrustado em tudo aquilo, deveria haver algo que lhe desse um caminho.

Havia alguma coisa...

Uma pista...

Um diálogo...

“_ E agora nós estávamos deixando aquele brando – o homem de enorme barba se pronunciou primeiro, cortando os minutos de silencio com impaciência – Mas ele ainda conta com mais uma dezena de homens, loucos iguais a eles, embrenhados nos matos da fazenda dele, no fim de Biloxi, planejando alguma forma bem pouco cristã de dar um fim no problema dele e pegar a sua recompensa...”

Aquela conversa de pouco tempo atrás estalou na cabeça de Jasper como um fuzil.

“...embrenhados nos matos da fazenda dele, no fim de Biloxi...”

Era isso. Ele sabia que havia escutado alguma coisa daquela magnitude. Era o maior dos caminhos que eles tinham.

A sensação de ansiedade baixou com violência sobre seu corpo.

_ Eu já sei! – ele gritou, repentinamente. Correu porta a fora, sendo seguido de perto – Eu sei que os Black’s tem inúmeras propriedade por aqui, mas há uma específica – dizia ele, enquanto corriam até os cavalos, prostrados frente á casa, na rua – Uma que fica esquecida no fim de Biloxi, quase nos limites da cidade. Tenho certeza que eles estão lá!

Com o coração aos pulos, Jasper subiu em Ramos com destreza e agilidade. Sua intimidade com cavalos e sua capacidade quase inata de andar bem neles lhe garantiu, novamente, a frente do grupo de homens.

Correu como nunca havia corrido antes. A vida e a integridade de sua Alice dependia de sua rapidez.

Ele iria salvá-la, custasse o que custasse.

Com galopes furiosos, eles se puseram à correr em direção contrária ao centro da cidade.

Atrás deles, outro grupo de homens montados em cavalos também se puseram em alerta.

Porém, este grupo de homens começaram à correr por outro caminho. Ir por ali lhes garantiria alguns minutos de antecedência em relação ao Exército de Michigan.

A poeira levantada fora tanta que pequenos redemoinhos de terra se formavam nos rastros dos dois grupos de homens.

_ Vai começar a diversão – um deles sussurrou para si mesmo, enquanto rasgava a boca em um sorriso de escárnio.

Notas finais
Até o próximo.