Os Segredos dos Seus Braços
35 Que siga-se as pérolas
Notas iniciais
Cap. 35
Fronteira de Biloxi, Mississipi
Casebre abandonado
1902
Fortunato dava alguns passos pelo chão de madeira empenada. As marcas de seus rastros ficavam marcadas no chão por conta da enorme camada de pó que havia ali. Ele parecia procurar por alguma coisa.
Alice ficou mais do que tentada a correr. Embora seu pé latejante e cortado em tantos lugares a impediria de chegar muito longe.
A bala de Fortunato a alcançaria primeiro do que tudo.
Ela não precisava de mais atitudes impensadas. Não, o que ela precisava, realmente, era de tempo.
De uma forma ou de outra, esperava um milagre.
E seu milagre tinha nome, sobrenome, um cheiro irresistível e os melhor beijo de todo mundo.
Seu milagre era Jasper.
Apenas a menção à sua lembrança a fizera apertar as mãos tão forte no tecido de seu casaco vermelho, agora rasgado e sujo, e segurar a umidade que se apossara de seus olhos. Deus, como queria vê-lo. Aceitaria a morte como destino irredutível se pudesse vê-lo uma última vez.
_ A-há – Fortunato quebrou o silêncio que os mantinha ali. Quando se virou para Alice mostrando o que tinha em mãos, ela arregalou os olhos.
_ O que diabos pensa em fazer com isso!? – ela indagou, a voz fina e aguda pelo desespero. Retrocedeu um passo, enquanto ele se aproxima de si, sorrindo diabolicamente.
Em suas mãos de dedos tornos e calejados, pendia uma corda de arames revestida de um tecido trançado e grosso. Quando ele puxou-a para perto de si, Alice tentou espernear.
_ Saia de perto de mim, seu maldito! – ela gritou, tentando empurrá-lo. Sem que pretendesse, sua mão se espalmou em sua face com força, estalando, fazendo-o largar seus braços e dar dois passos para trás.
Os minutos que se sucederam foram tão aterrorizantes que Alice não conseguiu respirar. Ficou estática em seu lugar, a mão ainda estendida no ar enquanto o observava, chocada, levar uma das mãos ate a bochecha, onde ela acertara.
_ Sua filha de uma porca imunda! – ele berrou, de repente, os olhos com tanta raiva que quase saltaram das órbitas. Sem que Alice previsse, ele devolveu-lhe o tabefe. Porém, ele tinha muito mais força do que ela, e sua mão era deveras mais pesada.
Quando a atingiu no rosto, o impacto fora tão forte que Alice rodou nos calcanhares e caiu no chão em um baqui alto e oco. Ela gritou de horror e dor, enquanto segurava o lado do rosto esbofeteado com a mão. Parecia que todos os dentes da boca haviam sido quebrados.
Ela escutou quando ela própria soltou um soluço involuntário.
_ Olha o que você me obriga à fazer! – ele grunhiu entre dentes, abaixando-se para a levantar com força pelo braço fino.
Se ele continuasse à segurá-la com tanta brutalidade, Alice tinha certeza que acabaria com um braço quebrado.
Quando a colocou de pé com rapidez, ela sentiu uma vertigem tão grande que quase caira ao chão outra vez.
Oh, Deus, aquelas vertigens pareciam querer voltar no pior momento.
Ele puxou seu queixo para que ela o olhasse. Do canto de sua boca escorria um filete de sangue fresco, carregando por sua pele a poeira que havia em seu rosto. Havia cortado seu lábio por dentro.
Alice podia sentir o gosto do sangue por entre seus dentes, escorrendo por sua garganta.
Sem que ela ou ele dissesse qualquer coisa, ele começou a amarrar seus pulsos com a corda de arame. Tão presos um no outro que ela pensou que se fundiriam. O arame parecia querer corar sua pele onde não era envolto do tecido.
Iria ficar em carne viva, ela pensou em desespero.
_ Por que está fazendo isso? – ela indagou com a voz fraca. O choro estava muito próximo.
Enquanto ele se abaixava e amarrava seus tornozelos, ele disse.
_ Para que você não tente fugir, mocinha – embora sua voz soasse seca, ela sabia que ele estava dando um sorriso irônico.
Quando ele terminou, ergueu-se novamente, passando as mãos pelos cabelos crespos.
_ Achei que tivesse apreço por mim – ela disse, tentando entender o por que ele dizia certas coisas de uma forma e se comportava de outra. Oras, se ele pretendia com tanto afinco se casar com ela, por que fazia aquela tortura?
Ele a olhou com frieza, e ela sabia que ainda haviam coisas, por ali.
_ Eu sempre amei você, Alice – disse ele asperamente, respondendo sua pergunta à contra gosto. Se afastou novamente dela, sabendo que ela jamais conseguiria fugir dele – Ficava te observando desde quando era uma merdinha de criança, brincando com Alec por todo o canto – ele parecia ter se mergulhado em algum ponto distante do passado – Você foi crescendo sob esses olhos – disse ele evidenciando seus próprios olhos, mordendo os lábios em seguida de forma luxuriosa e fissurada – Ah, como eu a queria!
Alice sentiu a raiva novamente cegá-la. Não podia acreditar no que estava escutando. Nunca havia trocado muitas palavras com o pai de Alec quando crianças pois se recordava de sua presença a deixa-la intimidada.
Mas sempre fora inocente demais para entender a fixação com que ele os observava como forma maliciosa.
_ Seu doente! – ela grunhiu, torcendo os braços da forma que podia – Eu era só uma criança, como poderia me olhar dessa forma!? – estava tão indignada que, dessa vez, não impediu as lágrimas.
_ De fato – ele deu de ombros, como se ligasse muito pouco para aquele detalhe doentio – Mas quanto mais você crescia, mais eu desejava você – seus olhos faiscaram, e desceram pelo corpo de Alice de forma indistinta, antes de voltar à olha-la nos olhos – Quando suas irmãs se casaram, eu pretendi toma-la em casamento, também, embora esse desejo existisse muito antes disso. Mas ainda seguimos essa estúpida tradição de que as filhas mais velhas devem se casar primeiro – ele revirou os olhos, acendendo um charuto. Era tabagista como poucos que ela conhecera. Alice pensou que, se Fortunato não a matasse, toda aquela fumaça e poeira a mataria – E eu queria me casar com você muito antes de Jasper e toda a sua arrogância aparecerem! – ele grunhiu, fechando a mão em punho e desferindo-a em uma mesa velha e carcomida que repousava no centro daquele galpão.
Abandonada como tudo mais ali dentro.
Alice imaginou que, em sua mente, Fortunato imaginava Jasper no lugar daquela mesa.
_ Depois que vocês se casaram, minha raiva apenas aumentou. Minha diversão era apenas em ver o quanto vocês se detestavam mutuamente – disse ele, quando recuperou a compostura – Então eu fiz o que me restava – disse – Roubá-la para mim – fez uma pausa de alguns segundos antes de continuar.
_ Me roubar? – ela indagou. Foi automático se lembrar de todas as vezes que havia sido perseguida. Desde a invasão em sua casa, até a perseguição que havia sofrido enquanto voltava da igreja.
E a sensação de sempre estar sendo observada.
_ Sim, roubá-la – disse – No começo, iria apenas roubá-la e fazer parecer que havia fugido. Teria funcionado, pois se odiavam o suficiente para isso fazer sentido – ele engrossou um pouco o tom de voz, e Alice deduziu que ele tentava manter o controle – Mas isso foi antes de vocês se tornarem mais...íntimos – semicerrou os olhos para ela, fuzilando-a – Eu percebi que estavam se dando bem e então me restou planejar fazer ele ser culpado pelo seu desaparecimento, quando eu a levasse comigo.
Alice escutava tudo atentamente, ignorando a dor em seus pés, tornozelos, pulsos, boca e em todo o resto. Aquela parte da história lhe era muito nova.
_ Até que eu deixei de ser bonzinho. Então eu finalmente decidi por roubá-la e matar a ele. Ao menos, supriria uma outra vontade que eu tinha, além de tê-la para mim – ele riu debochado, enquanto Alice se remexeu em seu lugar, queimando-o com o olhar. Ele tragou seu charuto com vontade, preenchendo o lugar com aquela fumaça mal cheirosa – Eu até mesmo havia planejado isso, naquela vez que ele foi viajar para a guerra. Meus homens esperavam na fronteira em uma emboscada, em sua volta. Quando ele apontasse com seu cavalo, atirariam todas as balas nele, tanto que nem seu pai o reconheceria depois – dessa vez, ele gargalhou com entusiasmo, parecendo sentir aquela vontade nos próprios ossos.
Alice assombrou-se com a possibilidade que poderia ter se realizado. Ele estivera por um triz de morrer.
Alice sentiu todo o corpo estremecer ante aquele pensamento.
_ Mas ele voltou de...
_ Nós esperamos por muito tempo e nada – ele a cortou sem rodeios, como se nem prestasse atenção no que ela falava. Estava vomitando. – Depois fui informado que ele havia se ferido e havia voltado de carruagem com uma enxurrada de outros vermes malditos – estalou a língua com desagrado extremo – Aquele maldito escapou por duas vezes. Deveria ter morrido estourado naquela guerra inútil – dessa vez ele havia murmurado para si mesmo, grunhindo entre dentes – Era um momento perfeito, aquele – ele voltou a erguer a voz, olhando para ela novamente – Você estava sozinha e ele logo morreria na emboscada.
Alice parou de escutá-lo momentaneamente para deixar que as lembranças repousassem em sua cabeça como se estivesse revivendo aquilo.
“_ Você parece cansado – ela murmurou com a voz preocupada. Ele parecia que estava em pé apenas por não ter encontrado algo grande o suficiente para cair. Em um impulso, ela tocou de leve a bochecha empoeirada dele, notando pequenos arranhões e leves olheiras – Veio à cavalo?
Jasper apenas maneou a cabeça, seus olhos jamais deixando de olhá-la.
_ Não – disse – Vim de carruagem com alguns companheiros que iriam passar por aqui para seguirem seu caminho – ele ocultou o real motivo. O motivo de que tinha um machucado recente demais em seu abdômen para agüentar galopar – Peter trará Ramos para mim...”
Então havia sido por isso. Jasper estava vivo apenas pelo incidente que havia acontecido á ele naquela guerra.
Se, naquele tempo, quando ele havia lhe revelado aquele detalhe, ela havia ficado nervosa como o inferno, naquele momento, agradecia mentalmente aquele episódio com todas as forças de seu ser...
_
Jasper, Peter, Jared, Billy, Mike, Sam e outros diversos amigos seus do Exército cavalgavam pela enorme estrada empoeirada e abandonada, cujo seu fim daria à enorme casa da sede daquela fazenda rodeada de capins secos e matas fechadas.
A enorme camada de poeira levantava- se muito além de suas cabeças, deixando um rastro comprido por onde passavam à galopes ferozes. Apenas a construção velha de madeira no final de tudo aquilo era enxergada por Jasper.
Alice estava mais perto do que tudo, agora.
_Jasper! – Peter chamou o amigo à apenas dois palmos para trás. Este se virou para ele, os cachos do cabelo, já duros pela poeira seca, balançavam à frente de seu rosto, deixando sua visão pobre. Mas ambos já estavam acostumados à manter os olhos abertos mesmo diante da poeira de desertos.
_ O que há, Peter? – Jasper indagou, fechando com um pouco mais de força as cordas de Ramos.
_ Acha prudente chegarmos lá assim? – ele pontuou, erguendo as sobrancelhas até enrugar a testa.
Jasper escutou as palavras do amigo e as analisou. A ânsia em encontrar Alice havia delimitado muito seus pensamentos lógicos. Aprendera nos muitos anos de Exército que quando o campo do vizinho parecia receptivo demais, era melhor estar preparado para o pior.
_ Tem razão! – ele grunhiu, apertando os olhos para a casa, ainda consideravelmente distante. Apenas seu telhado repleto de galhos secos podia ser visto, ao longe – É suicídio chegar lá desatentos e desarmados – continuou, diminuindo consideravelmente sua corrida.
Acompanhando-o, todos os demais homens foram parando, até todos estarem reunidos em um amontoado de cavalos e cabeças descobertas ao sol forte.
_ Algo errado, Jasper? – Sam indagou, seu cavalo malhado próximo ao cavalo negro de Jasper.
_ Certamente há algo esperando por nós, no fim dessa estrada – disse ele alto, para que todos pudessem escutá-lo. O silvo baixo que o vento fraco repleto de grãos de areia fazia ao passar por eles era ouvido melhor, agora – Sabemos como essas coisas funcionam – relembrou ele aos companheiros de anos.
E sabiam mesmo. A vantagem que tinham era suas experiências. Afinal, viveram metade boa parte da vida envoltos à guerras e prever o comportamento do inimigo era imprescindível em situações como aquelas.
_ Mas eles ficaram lá na floresta, não se lembra? – Billy ressaltou aquele detalhe – Esperavam para atacar a casa. Não sabiam que estávamos lá e que saímos com Jasper – ele apontou rapidamente à Jasper, enquanto encarava alguns rostos que estavam mais próximos dele.
_ Sempre devemos contar com a possibilidade de eles terem nos visto de alguma forma – Peter disse, ponderando – Não são os homens mais burros do mundo. São acostumados à encurralar presas – fez uma rápida pausa antes de continuar – E nós somos as presas deles.
_ Peter está certo! – Jared exclamou – Mas saímos bem à frente deles, Jasper! Como eles poderiam ter chegado aqui primeiro do que nós?
Jasper movimentou Ramos um pouco até poder ficar mais frente à frente dos homens.
_ Eles certamente se embrenharam por esses matos, Jared – disse seriamente. A testa estava com tantos vincos que pareciam que jamais voltariam ao normal – Não se esqueça que viveram desta forma tanto quanto nós vivemos na guerra – continuou – Conhecem esses matos como ninguém, bem como conhecem a propriedade dos Black, já que esse era seu refúgio.
_ Oh, você está certo! Está certo! – o amigo pareceu surpreso por todos não terem pensando daquela forma antes.
_ Temos a vantagem de dominar uma guerra – Jasper ponderou outra vez, olhando de olho à olho presente ali. Estava nervoso como o inferno, mas não poderia chegar lá de qualquer jeito e comprometer a vida de Alice. Precisava sobreviver, afinal de contas – Mas eles também tem e essa é a deles – cuspiu as palavras, como se não quisesse realmente pronunciá-las.
_ Então chegaremos lá preparados – Jared disse, a voz alta e áspera. Sacou uma enorme pistola de dentro do casaco, engatilhando-a automaticamente e pondo-a á frente de seu corpo – Vamos estourar as cacholas ocas desses miseráveis! – gritou, recebendo de voltas urros de incentivos. Logo, todos os demais homens também sacavam e engatilhavam suas armas.
_ Muito bem – disse Jasper, segurando sua arma com os dedos firmes – Já sabem como fazer. São os melhores que conheço nisso, e lutam como verdadeiros guerreiros! – apertou a boca em uma linha dura. Se preocupava com Alice mais do que consigo mesmo, mas não poderia deixar de se preocupar com seus amigos também. Afinal, sempre havia a possibilidade – Sam, Jared, Billy – ele chamou os homens – Vamos segui-los, pois são os melhores com armas que temos em todo o Exército.
Os três homens assentiram, em rápida concordância. Ali, utilizava-se o melhor potencial de cada um, embora todos tivessem seguro domínio sobre armas de guerra. Sempre haviam se formado desta maneira, e era mesmo a que melhor funcionava.
Tomando a frente, Sam, Jared e Billy, sendo seguidos pelos demais, que impunham suas armas com vigor, atentos à qualquer coisa que aparecessem em seu caminho suntuoso.
Quanto mais se aproximavam daquela casa aparentemente abandona, os corpos de todos enrijeciam mais, os pelos arrepiavam-se, não por medo, mas pela excitação que a situação acarretava. Quando faltavam poucos metros para adentrar o portão quebrado de arame farpado, eles diminuíram o ritmo da corrida.
Os olhos nervosos vagavam com rapidez por todos os cantos. A ideia era empre chegar de soslaio, porém não havia como ter descrição em um grupo de quinze homens enormes, trajando casacos e armas enormes sobre cavalos maiores ainda.
Quando finalmente chegaram ao terreiro, ficaram ainda mais alerta. Estava fácil demais.
E aquilo jamais era bom sinal.
Por segundos que pareceram décadas, o silêncios imperou como um rei. Os grilos do capim seco faziam seus barulhos cansados, enquanto um pequeno redemoinho de areia se formava em algum lugar por ali.
Até seu som se formando poderia ser escutado, naquele silêncio absurdo.
.Jasper tentou olhar para dentro da casa, a fim de procurar algum sinal da presença de Alice. E tudo, então, aconteceu tão de repente que ninguém poderia prever uma reação.
Um zunido agudo ecoou, um corvo subiu urrando ao alto, um homem caiu de cima de seu cavalo diretamente ao chão.
_ OH Diabos!! – alguém gritou quando perceberam que haviam disparado um tiro e Benjamim haviam sido acertado bem no ombro. E, então, outros disparos foram feitos, assustando os animais.
Os cavalos relincharam em uníssimo, pondo-se automaticamente nas patas traseiras. Sam, Billy e Jared começaram a atirar da mesma direção onde estavam sendo bombardeados, assim como todos os outros homens. Os tiros vinham do matagal e das árvores selvagens que ficavam ao lado da propriedade.
_ Protejam-se! – Mike gritou para os demais, enquanto pulava de seu cavalo – E me cubram! – ele correu abaixado de encontro à Benjamim, que segurava o ombro ensanguentado com um expressão de pura dor. Na frente deles, todos os outros atiravam, tentando se proteger do jeito que podiam.
Depois de Mike ter arrastado Benjamim para detrás de uma armação de carroça velha, todos desfizeram a formação. Alguns homens desceram apressados de seus cavalos, que estavam assustados demais para serem de grande ajuda. Se aqueles fossem os animais criados nos estábulos de Michigam, onde ficava o campo de treinamento do Exército, aquilo não teria sido problema, visto que já eram acostumados.
Mas aqueles eram de criação.
Os animais haviam corrido por todas as direções. Porém, haviam dois ou três caídos inertes no meio do caminho entre os soldados e o bando do mato.
Os soldados se espalharam pelas proximidades, protegendo-se atrás de alguma coisa protegível. Os zunidos finos das balas cortando o vento e acertando alguma coisa passou a ser o único e recorrente som. Hà alguns metros da armação de carroça velha, onde Mike, Benjamim e mais dois homens protegiam-se, estavam Jasper, Peter e Jared, escorados em uma carcaça do que havia sido alguma construção algum dia. Sentados, sua proteção ultrapassava apenas cinco centímetros de suas cabeças à prêmio.
Ele recarregavam suas armas, prontos para atirar à frente.
_ Esses miseráveis filhos de uma égua! – Peter gritou, a fim de tentar ser escutados por eles, no matagal. Porém, com os estalidos altos dos disparos e os zunidos agudos das balas disparadas, isso não acontecia – Eles mataram Zé Bedeu! – Vociferou, atirando rapidamente na direção dos homens – Seus bastardos imundos!
Enquanto Jasper recarregava agilmente sua arma com mais balas encontradas nos bolsos de seu casaco, ele disse secamente para o amigo.
_ Ou era Zé Bedeu ou era seu traseiro – murmurou, antes de se posicionar de volta à frente, aguardando um momento de poder atirar. Podiam escutar alguns gritos e urros vindos de trás das árvores. Certamente, haviam soldados gemendo também por algum ferimento de raspão.
Eles eram inevitáveis.
_ Ah, certamente você falaria isso se o cavalo fosse o seu, não é seu mauricinho entojado! – Peter gritou por entre o enorme barulho que se levantava naquela propriedade. Embora estivesse com raiva pelo assassinato de seu estimado animal, aquela sempre havia sido a maneira como se referia à Jasper, por conta da riqueza de seu pai.
_ Se fosse o meu – Jasper murmurou de volta com uma expressão fria e concentrada – Eu estouraria os bagos desses bastardos imundos. – foi o que disse, arrancando risos de Peter e Jared, que atiravam sem remorso.
Aparentemente, haviam mais homens machucados do lado das árvores, do que espalhados pelo terreno da propriedade. Afinal de contas, haviam quatro homens à menos no grupo dos Vingancistas.
Enquanto continuavam a intensa troca de tiros, Peter se virou para Jasper, que tinha todos os cabelos da testa grudados nela por conta do suor.
Além do calor pelo momento, ainda estavam sob o sol.
_ Jasper – ele o chamou, recebendo o olhar dele de imediato – Vá atrás de Alice e tente encontra-la– com a cabeça ele apontou para a casa adormecida – Entre pela lateral da casa, pule pela janela.
Jasper olhou para a lateral em questão. Estava um pouco atrás deles, o que não seria difícil para alcançar. Com um sopro no coração, Jasper assentiu para o amigo. Correu agachado até alcançar a lateral. Não podia ser visto por ali. Quando a parede já o escondia, ele pôs-se a correr á toda velocidade até alcançar uma janela com vidros quebrados.
Com a adrenalina pulsando em cada veia de seu corpo, Jasper pulou rapidamente aquela janela de madeira podre, já, carcomida pelos cupins. Dentro da casa parecia pairar um silêncio quase mórbido, embora os sons do tiroteio do lado de fora se fizesse ouvir em todos os cantos.
Vagarosamente, Jasper começou a caminhar por ali, atento à qualquer sinal de Fortunato e de Alice. Ainda segurava sua arma entre os dedos quando alcançou o corredor.
Também estava acolhido pela solidão.
_ Alice?! – ele chamou-a, para ela saber que ele estava ali para salvá-la e pudesse lhe dar algum sinal.
Porem, apenas o eco de suas próprias palavras foram ouvidas naquele corredor.
Ele olhou porta por porta que se despendiam dali.
Enfim, chegou ao que parecia um escritório. Era a única porta que jazia aberta.
_ Alice!? – ele a chamou novamente, a expectativa ardendo em seus ossos.
Jasper fechou a garganta devida a raiva que o tomou naquele momento por perceber que ela poderia não estar ali.
Mas a recepção que haviam tido significava alguma coisa, não?
Ao menos, eles haviam estado ali, na melhor das hipóteses.
_ Maldição! – ele vociferou, chutando a porta aberta. Porém, quando fora olhar o estrago que havia feito nela, reparou na madeira do chão. Havia poeira por toda a casa, mas ali ela estava completamente remexida – Mas que diabos... – ele sussurrou em meias palavras para si mesmo.
Acompanhou a poeira remexida recentemente, pois ainda não havia sido encoberta por uma nova camada. Ela seguia para fora do cômodo, tomando o rumo contrário do qual ele havia ido até ali.
Chegava até a porta dos fundos.
Tomado por uma força e uma ansiedade que não havia tamanho, Jasper correu até a porta que dava aos fundos. Na terra que havia até o início do matagal seco havia um pequeno caminho marcado pela mesma formação disforme da poeira do chão da casa.
O rastro desorganizado seguia até o matagal, onde terminava, pois não havia terra daquele jeito onde havia capim.
Quando começou a correr em direção à entrada do matagal onde se dava fim ao rastro, Jasper sentiu outra presença atrás de si.
Sabia que era Peter.
_ Eles vieram por aqui, Peter! – ele guinchou por sobre o ombros, não parando para ver a expressão do amigo.
E então, ambos se embrenharam no matagal alto e seco.
_
Alice sentia as lágrimas já secas sobre suas bochechas. Fortunato ainda falava a todo momento, na maioria das vezes era enfatizando seu ódio mortal por Jasper. A cada vez que a boca agourenta dele pronunciava o nome de seu marido, Alice sentia um aperto tão grande no peito que sentia que seu coração estava prestes a explodir.
Ela sentia dores por todo o corpo. E os olhos começavam a pesar um pouco. Não escutava mais tudo o que ele falava. Apenas desejava como o inferno que pudesse voltar para a sua casa e deitar abraçada com Jaspe em sua cama.
Àquela altura, ele já teria se dado conta de que ela havia sumido.
Alice suspirou, desgostosa. Descobrira muito mais do que pretendia. E as implicações daquelas descobertas lhe diziam que as coisas não acabariam como ela havia suposto.
Enquanto divagava mentalmente, Alice não se deu conta da aproximação perigosa que Fortunato dera de si. Quando percebeu, ele estava á sua frente, olhando-a de modo indecifrável.
O pavor de Alice voltara ao seu corpo maltratado.
Com vagarosidade, ele colocou a mão em seu pescoço, conseguindo envolvê-lo quase que completamente com seus dedos. A outra, então, alcançou seu rosto e uma ponta de metal pontiaguda afundou um pouco em sua pele.
Era uma pequena faca de bolso.
Os olhos de Alice se arregalaram de pânico. Porém, dessa vez, ela não se debateu, pois qualquer movimento poderia furar-lhe a bochecha.
_ O que está fazendo!? – ela conseguiu falar em um sopro agoniado. Os olhos de Fortunato pareciam doentios, naquele momento – Então tudo isso era para me matar? – ela continuou, sentindo certa rispidez em seu tom – Queria tanto se casar comigo para terminar desta forma?
_ Não, não – disse ele, rindo por um lado da boca – Vou mata-la depois que eu tiver tudo o que você pode me proporcionar – ele a puxou um pouco mais para perto de si pelo pescoço. Alice sentiu dificuldades em respirar – Mas acalme-se, minha querida, isso não acontecerá nesta noite.
Alice engoliu em seco. Tinha plena certeza de que ele se referia apenas a mata-la.
Podia imaginar o que era esse tudo que ele esperava dela.
As mãos começaram a tremer.
_ O que vai fazer, então? –indagou em um fio de voz. Todos os seus músculos se contraíram.
_ Você irá embora comigo – disse ele por fim. Não era um pedido, era uma ordem. Então, depois de dizer isso, ele a largou bruscamente e dera as costas para ela, dando alguns passos à frente.
Não parecia ter muita pressa. Parecia saber que Jasper jamais encontraria-os a tempo.
Alice encarou fixamente as costas largas daquele homem sentindo a repulsa arder em sua garganta. Ainda tentava digerir tudo que acabava de ouvir, enquanto os olhos ardiam por conta das lágrimas que ameaçavam cair novamente. Tudo aquilo já era demais para ela. Havia sido vendida. Como pagamento de uma dívida de jogo.
E, agora, o comprador havia voltado para buscar sua mercadoria.
Fora perseguida, maltratada, ameaçada. Tudo o que esperava era que Jasper conseguisse acha-la.
Ou a outra opção, eu se resumia à morte.
_ Eu não vou embora com você, seu maldito! – ela grunhiu, entre dentes. Preferia a morte à ter que ir embora com ele para qualquer lugar que fosse. Fechou as mãos arranhadas em punhos, esbranquiçadas. Estava com tanto medo que pouco sentia suas pernas. Porem, não tinha como deixar de ser ríspida com ele. Aquele maldito lhe enojava tanto que ela sentia vontade de vomitar toda vez que o olhava. Ir embora com ele não era algo que estivesse em cogitação – Eu nunca vou embora com você!
Ela não previu o quanto ele poderia ser astuto e rápido. No instante em que ela alterara a voz, ele apareceu frente à ela, segurando sua cabeça pelo queixo fino dela. Apertava como se quisesse quebra-lo. Alice grunhiu, apertando a mandíbula.
_ Onde estão seus modos? – ele indagou, a voz dura – Prefiro você educada, Alice! – ele aproximou-se de seu rosto, fazendo Alice sentir seu hálito de tabaco, advindo dos charutos que fumava constantemente – Nunca mais grite comigo, sua maldita! Nunca mais fale assim com o seu dono!
Ele a soltou com brutalidade, e virou-se de costas para ela novamente. A facilidade com que mudava se temperamentos assustava a ela.
_ Acho que mudará de opinião se eu lhe contar uma coisa – ele disse, com uma naturalidade horripilante .
Alice franziu o cenho enquanto esfregava o queixo, agora dolorido também. Por um momento, sentiu uma certa apreensão com o que quer que ele lhe falaria. Ele era inescrupuloso e mal, e ela temia por seus atos.
_ Não há absolutamente nada que possa fazer para me convencer a ficar com você – ela murmurou, ríspida – Você me dá nojo! –deu ênfase, reunindo toda sua coragem para verbalizar aquilo.
Ela o viu soltar o ar com raiva, os olhos vermelhos de ódio.
_ Pense melhor, Alice – murmurou ele ameaçadoramente – Nem mesmo a vida daquele verme que você defende tanto? – continuou, sabendo exatamente o ponto fraco de Alice. Aquele que ele tinha vontade de derramar o sangue a cada vez que o olhava.
Alice arregalou os olhos instantaneamente. O coração disparou no peito com tanta força que ela precisou se apoiar na mesa logo atrás de si. Ele não poderia estar falando de Jasper!
Não de Jasper!
_ O que está insinuando!? –ela indagou, fuzilando-o com o olhar mais cortante que ela já dera na vida.
_ Estou insinuando que Jasper não está sozinho, na casa de vocês – deu de ombros – Tenho homens por toda aquela propriedade, apenas esperando dar a hora para eu chegar com você. E, se eu não chegar até certa hora, será um sinal para eles acabarem com a vida daquele maldito. Imagine os lençóis brancos nos quais vocês se deitam, completamente ensopados com o sangue dele. Talvez isso a anime, então – blefou ele. Sabia que Jasper havia escapada, porém Alice não fazia idéia daquilo.
Ela abriu a boca em um “o” desesperado. O ar de seus pulmões se trancou ali, e ela ofegou. O medo que sentira antes não se comparou nenhum segundo com aquele que ela sentia agora.
_ Não ouse tocar em um só fio da cabeça dele! –ela gritou, indo para cima dele com ódio nos olhos – Escutou? Seu maldito, não faça nada a ele! – ela não conseguiu alcança-lo por conta dos tornozelos amarrados.
Mas sua rispidez havia o alcançado.
_ Eu tive capangas traidores – disse ele, retrucando ela. Ameaçando. Apavorando-a – Fugiram, aqueles merdas. Mas ainda me restou alguns homens de confiança. E estão lá, rodeando a casa de vocês, prontos para invadir e matar ele caso você decida não ir embora comigo – ele a encarou bem dentro dos olhos – Fuja comigo de bom grado, Alice, e eu prometo não fazer nada. Afinal, se você não quiser vir por vontade própria, irá à força, mesmo – deu de ombros friamente – Deixar Jasper vivo é apenas um bônus que eu lhe permitirei – ele riu de escárnio pela mentira deslava, pois a ordem já era de fuzilá-lo, independente das decisões dela.
Alice sentiu os lábios tremerem por conta da ânsia que tinha no estômago.
Queria gritar.
Queria chorar.
Queria muito matar aquele homem.
Mas nada daquilo faria mudar aquele momento, então ela respirou profundamente, sabendo qual era sua decisão mais certa e mais óbvia.
_ Eu vou embora com você – foi o que ela disse com a maior firmeza que conseguia reunir com a voz chorosa.
_
Jasper e Peter olharam por todo o canto, nas redondezas daquele matagal. Não podiam revirar muito, pois se houvesse algum sinal de que haviam passado por ali, eles não poderiam destruir.
Mas não haviam encontrado nada.
Jasper podia sentir o desespero tirar o controle que tinha sobre o próprio corpo. O medo, pela primeira vez genuinamente, pairou perto de si, envolvendo-o como um amigo. O medo de não encontrar Alice nunca mais estava se tornando irracional.
_ Temos que nos embrenhar mais por ai, Jasper – disse Peter, sob o sol. Jasper estava um pouco mais à frente dele, parecendo desnorteado.
Peter estava sentido pelo amigo.
Jasper jamais havia se importado daquela maneira com mulher alguma. Alias, não se apegava às mulheres para chegar a se importar de qualquer forma que fosse. Mas sabia que com Alice era diferente.
Alice o fazia ser outro Jasper.
Um Jasper que se desolava pela possibilidade de perde-la.
_ Olhe o tamanho desse matagal, Peter! – disse ele, à beira do descontrole das emoções. E o tamanho daquela propriedade era mesmo um fator a se levar muito em consideração. – Se sairmos por ai à esmo, podemos nos distanciar muito mais do caminho certo!
_ Mas precisamos começar de algum lugar! – disse ele, sabendo que o que Jasper falava fazia sentido, porém ficar ali, tentando encontrar algo errado ao padrão também não ajudaria.
E foi enquanto Peter pontuava todas as razões lógicas para que eles saíssem para procurar em qualquer lugar, fora que Jasper avistara uma coisa brilhando por conta do sol por entre os capins secos. Ele semicerrou os olhos, se aproximando com desconfiança.
Ele se abaixou para pegar a pequena bolinha rosa do chão.
_ Isso é... – ele murmurou, um pouco incerto. Aquilo parecia familiar, mas não conseguia identificar o que era nem da onde o reconhecia. – O que diabos é isso...?
_ O que houve? – Peter se aproximou dele, enquanto viu o amigo segurar uma pequena bolinha rosa entre os dedos arranhados – O que é isso?
_ Não sei – disse Jasper, mordendo o lábio – Mas o que me intriga é o que isso está fazendo no meio desse matagal seco.
_ Humm – Peter murmurou, analisando a pequena bolinha rosa – Parece coisa de criança.
Jasper a encarou mais um pouco, e então as palavras do amigo lhe fizeram sentido.
_ Ou de mulher! – exclamou, rodando a bolinha entre os dedos – E se for de Alice? – ele perguntou, mais para si mesmo do que para o amigo.
_ Isso é um botão? – o fez – Por que, se for, pode ter caído de sua roupa.
_ Isso não é um botão – Jasper respondeu sem muita paciência – É...uma pérola...talvez uma conta...
_ Hey! – Peter disse, um pouco mais longe de Jasper. Ele nem mesmo vira quando o amigo havia se distanciado, mas o olhou quando ele se fez ouvir. O viu se abaixar para pega alguma coisa – Tem outra aqui – disse, analisando a bolinha brilhante – Mas é amarela.
Jasper se aproximou do amigo e analisou aquele objeto. E depois de incontáveis minutos de silencio, seu coração voltou a bater tão erroneamente dentro do peito que quase doeu suas costelas.
_ Oh meu Deus!! – ele exclamou lívido, quando o lampejo de clareja desbloqueou sua mente – Eu sabia que já havia visto isso antes! — disse, as palavras saindo de sua boca como um jato – Essas são as pérolas de um terço de Alice, Peter! Ela tem muitos deles, e esse em especial é feito de pérolas coloridas – ele riu nervosamente – Ela o adora, vive pendurado em alguma cabeceira!
_ Bem – Peter remexeu as mãos – Se é de Alice, pode ser um sinal de que ela passou mesmo por aqui.
_ Acho que é muito mais do que um simples acaso de ela ter passado por aqui – Jasper murmurou, de repente, seriamente concentrado – Talvez...talvez seja um sinal da própria Alice, Peter! Talvez ela tenha deixado essas pérolas pelo caminho por onde passavam para que pudéssemos encontra-la!
Peter contorceu-se em uma careta incrédula.
_ Oh Santa miséria! – disse – Você tem razão! Se for esse o caso, vamos procurar por mais destes. Este – ele evidenciou a pequena pérola amarela que havia em suas mãos – Eu encontrei por ali – apontou um pouco ao norte.
Extasiado com a idea e com as esperanças renovadas em todos os poros, eles começaram a seguir naquela direção.
Não tardou para uma terceira e até mesmo uma quarta pérola, de outras cores, serem encontradas de eu descanso entre os pequenos arbustos secos.
A sua busca desesperada, parecia estar chegando em seu destino..
Ao longe, dois amigos deles os viram adentrar cada vez mais no matagal alto e seco.
_
Alice rolou os olhos para os passos de Fortunato. Ele ia e vinha na sua frente, avaliando-a. Parecia um leão prestes a atacar sua pobre e indefesa presa. Por vezes, ele soltava um riso irônico, debochado.
A jovem ainda tinha as bochechas úmidas, os queixos, a garganta por onde as inúmeras lágrimas escoriam em seu trajeto. Umas as mangas de seu casaco estava caída, uma pequena formiga de mato zig-zagueva por seu pé descalço e encoberto de sangue seco.
Contando os minutos, Alice desesperou-se quando o viu parar de andar à sua frente e se encaminhar em sua direção. Seu sorriso de escárnio continuava ali, devorando, revelando seus dentes enormes.
Alice tentou dar um passo para trás, mas seus tornozelos amarrados a impediram de tal ato. O coração disparou no peito e a adrenalina correu por sua veia como se fosse uma droga. Chegou rente à ela em poucas de suas passadas grandes, a enorme botina dando o dobro do pé maltratado dela.
_ Saia de perto de mim – ela murmurou com a boca seca. Não sabia como que o medo a deixava audaciosa ao ponto de verbalizar qualquer coisa para o homem que estava frente a ela, com um olhar perigoso, beirando o psicótico, e um punhal em suas mãos.
Fortunato pouco se importava com o que ela falava ou deixava de falar. Quando estava frente à ela, ele se aproximou de seu rosto, aspirando seu cheiro como um lobo. Alice assustou-se frente ao movimento que ele fizera, afastando a cabeça o mais longe que poderia de seu nariz.
_ Ah, tem um cheiro tão tentador, minha preciosa – murmurou ele secamente, aspirando novamente, mas dessa vez pegou uma mexa dos cabelos de Alice e aspirou o cheiro presente ali com demasiada força.
Alice prendeu a respiração na ponta do nariz empoeirado, apreensiva com qualquer movimento que ele estivesse prestes a cometer. Ele estava em uma proximidade perigosa de seu rosto, e sua boca jogava em Alice um hálito pútrido.
E então seus dedos escorregaram de seus cabelos embaraçados até sua nuca. Alice enrijeceu o corpo todo, como uma pedra esculpida no centro daquele galpão velho e abandonado no meio do nada.
_ Não! – ela grunhiu, tentando forçar-se contra o puxão que ele fazia com sua cabeça, tentando tocar seus lábios com os dele próprio.
Ela se debateu e forçou-se contra aquilo de tal forma que ele desistira, e empurrara sua cabeça com rispidez.
Seu coração acelerava cada segundo mais.
_ Sua miserável – murmurou ele, contrariado. Alice sabia que estava apenas adiando o inevitável.
E tentaria adiar o pior com todas as fibras de seu ser.
Mas nem mesmo percebera quando ele lançou seu punhal em um movimento brusco contra ela.
_ Oh meu Deus! – ela se encolheu, esperando para sentir a dor que vinha em seguida. Porém, nada sentiu e, aos poucos, fora abrindo os olhos, fechados rapidamente ante o ato dele.
O que ele golpeara com seu punhal afiado fora o cordão de seu casaco, abrindo-o como uma pluma. Alice soltou o ar, preso novamente, com força a mais do que poderia. Sentiu-se tonta, pela falta de ar e pela adrenalina do medo.
Levantou os olhos assustados para ele. Mas antes que pudesse dizer algo mais, ele já deferia outro golpe contra ela.
E então ela percebeu o que ele estava fazendo.
Não demorou muito para seu casaco vermelho ficar aos frangalhos na madeira empoeirada do chão parcialmente corroído. Ele havia repicada todo seu casaco, e Alice arquejou outra vez. Temeu se mover e descobrir que havia muito mais do que apenas seu casaco aos destroços sobre seus pés.
Porém, ela conseguiu mexer as órbitas, sentindo-as tremerem, embora isto parecesse impossível. Ela deduziu, então, que todo o corpo estava tremendo histericamente, enquanto Fortunato ria à centímetros de seu rosto.
Aos poucos, Alice olhou para baixo e congelou novamente em sua posição desconfortável. Junto com seu antigo casaco vermelho, também haviam alguns retalhos de seu vestido escuro.
_ O...o que você fez? – ela sussurrou, mas era uma pergunta retórica. Conseguia imaginar as intenções do homem apenas por seu olhar. Mas, no fundo de seu coração, esperada e desejava que aquilo demorasse um pouco mais a acontecer.
A parte de cima de seu vestido estava pendurada em suas pregas na cintura. Apenas suas fina peça de baixo encobria a nudez de seus seios. Alice sentiu a boca do estômago arder e logo embrulhar.
Aquilo não podia estar acontecendo.
O tecido era bege e fino, parecendo que se mesclava à sua pele. O seios iam e vinham junto com a respiração alterada dela, e isso parecia atrair ainda mais a atenção dele ali.
_ Quando a vi aquela certa vez naquela igreja – ele disse, a voz rouca. Evidente desejo – Tive vontade de matá-la – continuou, levando sua mão até a cintura dela e apertando com força, como se aquele relevar fosse algo comum.
Alice lembrou-se quase que automaticamente daquele encontro em questão.
“_ Olá Srta. Cullen – a voz de Fortunato lhe sussurrou com um grotesco sorriso de fundo. Ele a puxara para tão perto de si que ela ofegou de imediato.
_ O Sr.... – ela engoliu em seco enquanto os olhos negros daquele homem lhe encaravam como se quisessem devorá-la.
_ Onde está o Sr. seu marido? – ele perguntou sem um pingo de cordialidade. Seu tom era rude e imponente.
_ Creio eu que não seja de seu interesse – retrucou ela com uma voz fraca. Algo nos olhos deles arderam. Talvez fosse a raiva fluindo, Alice pensou. Em seu braço, ela sentira a pressão por conta de sua resposta insolente.
_ Me custa muito estar sendo tão piedoso,Srta. – ele sussurrou. O hálito quente tocando a pele dela com brutalidade.
_ Do que está falando? – ela perguntou com um fio de voz, tentando entender em que sentido vinha as palavras misteriosas dele.
Ele a encarou fixamente por um longo tempo antes de soltá-la bruscamente, mostrando um lado oculto aos olhos de Alice que a fizera estremecer.
Seu olhar era frio e bruto enquanto a olhava.
Alice sentiu como se ele estivesse tão mortalmente raivoso e irritado com ela que poderia esganá-la logo ali, no corredor da enorme igreja.
Porem, não fazia a mínima idéia do motivo de toda aquela raiva.
_ Vocês saberão, cara minha – disse ele em um sopro rouco. Olhando-a daquela maneira estarrecedora pela ultima vez ele, ele finalmente se virara para se encaminhar a saída, tapando toda a luz que adentrava pelas portas abertas – Muito antes do que fazem idéia.”
_ Porque estava com tanta raiva de mim naquele dia? – indagou ela, inquieta com aquela questão. De fato, Fortunato odiava a Jasper e a situação do casamento deles, mas naquele dia parecia odiar até mesmo ela.
Ele apertou a boca em uma linha dura antes de continuar.
_ Por que eu podia ver a diferença em seu corpo – disse, e Alice sentiu um pouco mais de pressão onde ele a tocava – Ele não era mais o daquela doce garotinha por quem eu alimentava desejos e sentimentos – subiu sua mão, passando-a pelo braço descoberto dela – Você mostrava-se em um corpo de mulher – o tom dele ia diminuindo gradativamente a medida em que ele falava. Parecia divagar consigo mesmo – Aquelas curvas discretas qeu sempre teve, foram reveladas de vez e a sua sensualidade aflorava aos olhos dos de fora – sussurrou.
Alice se encolheu um pouco mais com o toque dele, subindo pelo seu braço. Ele chegou ao seu pescoço, preso com os olhos em algum ponto de sua clavícula.
_ E então eu soube – aumentou o tom da voz, de repente. Voltara a estar grave e ríspida – Soube que você havia se deitado com ele. Com Jasper! O homem que eu mais odiava na face da terra e aquilo me deixou corroendo no ódio! – agora ele rosnava, apertando seus dedos no pescoço dela outra vez. Alice tentou segurar sua mão para empurrá-la para longe e conseguir respirar, mas não conseguia. Ele parecia fora de si. O olhar, fissurado – Sua pureza era minha! Sai daquela igreja com tanta raiva que mataria Jasper com minhas próprias mãos!
Alice o empurrou bruscamente, lançando-lhe um olhar tão zangado quanto o dele. O que ele tinha a ver com a vida deles dois?
Ele não tinha direito algum de ferir a Jasper por ela ter escolhido o que haviam feito.
Naquele momento, a presunção daquele homem fizera Alice o odiar tanto que quase gritou. Porém, preferiu ousar mais do que se impor.
_ Quer saber de uma coisa? – disse ela, fuzilando-o – Me deitei com ele sim. E fizemos isso por diversas vezes – ela sorriu ironicamente, quando viu um lampejo de cólera passar pelos olhos do homem – E quer saber do que mais? – ela semicerrou os olhos para ele, inclinando-se em sua direção – Eu gostei! Gostei muito! – continuou, deleitando-se com a expressão dele – E você pode fazer o que quiser comigo, seu nojento asqueroso – ela cuspiu as palavras para ele, entregando-se ao inevitável, mas provocando o que podia provocar, deixando claro o modo como se sentia, já que estava condenada de toda a forma – Mas vai ser nele que eu vou estar pensando!
_ Cale essa boca! – ele vociferou, enroscando os cabelos de sua nuca e a puxando com tanta força que Alice gritou alto de dor. Sentia como se seus cabelos estivessem sendo arrancados um à um.
E em um ato repentino, ele puxara o tecido fino que encobria a parte de cima do corpo dela, expondo-a.
Alice arregalou os olhos e abriu a boca para começar a gritar. Porém, a mesma mão que rasgara sua roupa tapou sua boca.
_ Vou fazê-la esquecer-se dele à força, então – foi o que ele sussurrou com raiva ao pé de seu ouvido.
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