Os Segredos dos Seus Braços

41 Epílogo - Sempre e Eternamente


Notas iniciais
Uau, viram só? Prometi o Epílogo junto com o último capítulo e aí está ^^ Espero que gostem. E obrigada por lerem. Bjinhos, :*

Epílogo — Sempre e Eternamente

Forks, Washington

Ano 2000

Cintia piscou repetidas vezes enquanto encarava a Sra. à sua frente, fascinada. Era o momento de fazer isso, afinal ela terminava a história que começara à contar à horas atrás, e apenas neste momento a jovem garota se permitiu piscar.

_ Oh vovó! – a jovem exclamou extasiada, lembrando-se de algo. A velha Alice gostava quando a garota lhe chamava de vó. Sentia-se mais jovem, afinal bisavó soava muita velharia em seus conceitos – Então aquela boneca velha de porcelana que a Sra. me deu foi meu avô quem ganhou naquela primeira feira livre? – ela indagou, provavelmente chocada demais com a novidade para se lembrar que sempre desdenhara daquela boneca por achá-la apenas uma velharia incrivelmente velha.

A Sra. riu de forma contida, as rugas acentuando-se mais pelo rosto fino. Ela assentiu.

_ Sim, minha querida – disse ela baixo – Ele era um tanto arrogante, mas muito gentil também – abaixou o tom de voz, olhando para as mãos. Tocou a aliança já gasta, que usava há tanto tempo.

Cintia suspirou, fechando os olhos exageradamente.

_ Oh vovó, isso foi tão romântico! O pessoal da reportagem que virá amanhã terá uma história tão bonita para contar na matéria!

Alice assentiu, sorrindo. Olhou fugazmente pela janela. O sol começava a despontar novamente.

_ Romântica e comprida – disse – Lhe contei tanta coisa que a tempestade até mesmo terminou.

Cintia deu de ombros, sentando-se um pouco mais perto da Sra.

_ Oras vovó, mas termine de me contar, por favor! – ela disse, sem se dar ao trabalho de olhar mais do que um reles piscar por sobre o ombro, confirmando o que a velha Senhora havia dito sobre a tempestade.

_ Mas já terminei minha querida – Alice contrapôs, confusa.

_ Oh não, vovó, me diga o que acontece depois.

A velha Alice sorriu novamente, achando engraçada a empolgação da jovem garota em velhas historias passadas. Ela buscou em suas gastas memórias, como aquilo tudo se encerrava.

_ Bem, algumas coisas mudaram, querida – disse ela, refletindo um pouco antes de rir — Embora outras não mudem jamais...

“Alice e Jasper haviam tido quatro filhos. Tres meninos e uma menina. Havia hoje um médico, um chefe de cozinha, um gerente de supermercado e uma psicóloga. Haviam muitos netos e também bisnetos. E há muito tempo haviam decidido que a vida em Forks parecia mais aconchegante do que em Biloxi.

Jane Volture e Alec se casaram depois que nenhum dos dois conseguira encontrar outras pessoas que fossem corajosas o suficiente para casar com eles. E ela virara a mãe zelosa de seis filhos de Alec com outras mulheres distintas, que apareceram ao longo da vida dos dois.

Rosalie e Bella haviam morrido pela idade e que durante toda a vida que se passara, Bella tivera apenas Reneesme, enquanto Rosalie jamais conseguira ter um filho. Porém, Rose e Emmett acabaram por adotar uma linda menina chamada Bree, que havia aparecido órfã em sua porta com cerca de seis anos de idade. Talvez houvesse sido Esme quem a deixara lá, como mais uma das milhares de crianças que ficavam órfãs devido as guerras recorrentes, sabendo que a filha ficaria suficientemente satisfeita em dedicar seus cuidados e seu amor á alguém que necessitava, sabendo que ela enfim seria feliz e sabendo que havia sido um destino muito menos cruel àquela garotinha encontrar um lar como o dos McCarty para viver. Porém, ninguém jamais saberá ao certo que havia sido isso que acontecera ou não, se havia sido, de fato, Esme à fazer aquilo. Permaneceria um mistério escondido pelas linhas do tempo e da vida.

Esme, por sinal, voltou por um tempo, para ficar com as filhas e as netas. E quando foi embora, Alice nunca mais vira sua mãe. Mas sabia que ela havia sido extremamente feliz. Ela viajava com Carlisle constantemente, de cidade em cidade. Ele havia se tornado enfermeiro, enquanto ela virara sua ajudante em tempo integral, ajudando os feridos e atendendo nos campos de concentração dos mais necessitados.

Mas ela sempre havia enviado cartas dizendo como estava a vida. Perguntando sobre a vida em Biloxi. Porem, houve um momento em que ela parou de enviar as cartas, e Alice sabia qual era o motivo.

Ela chorara por um dia inteiro.

Fortunato Balck nunca mais havia aparecido na cidade, porém soube-se um ou dois anos depois que seu corpo fora jogado do precipício que fazia divisão entre a cidade de Biloxi e a próxima. Certamente, houvera sido algum acerto de contas. Fortunato Black colecionara durante a vida muito mais desafetos do que amigos”

_ Oh, esse homem me dá calafrios, vovó – a jovem estremeceu exageradamente – Eu até acho que..

Cintia foi interrompida com o barulho da campainha. Levantou-se em um pulo, sabendo muito bem do que se tratava. Quando viu Seth, seu namorado, parado na porta ela pulou em seu pescoço, dizendo repetidas vezes, como um mantra, o quanto estava com saudades.

Embora fizesse apenas duas horas desde a última vez que haviam se falado.

O jovem rapaz acenou para Alice, que retribuiu com seu sorriso amarelado.

_ Até mais, vovó! – disse Cintia, efusivamente sorridente – Obrigada pela história. Quando voltar, quero que me conte mais – piscou, antes de fechar a porta atrás de si. Por algum motivo, tentou memorizar os traços delicados de sua vó que denunciavam o quanto o tempo havia passado.

Alice suspirou sorrindo, sabendo que haviam inúmeras mais histórias como aquela, mas que talvez não houvesse tanto tempo para todas elas. E, pouco tempo depois, abriu a porta dos fundos e fora para o quintal, aguar as flores que sempre aguava em seu canteiro.

Ela parou frente as belas flores, cada uma de uma forma, uma cor e um significado. Representavam as pessoas que haviam passado por sua longa vida e que a haviam marcado. Haviam rosas vermelhas, que lembravam-lhe Bella, e seus cabelos avermelhados ao sol. E haviam também lírios, tão delicados quanto Rosalie em sua beleza era.

Haviam outras que havia plantado em homenagem à sua sobrinha, Bree, e à Carlisle, também. À Peter, à Benjamin, à Sam, o enorme índio que não tinha mais mindinhos, orelha ou pedaços das nádegas, mas havia sido o mais gentil dos homens soldados. Aos amigos que seu Jasper tão estimava, e que ela própria passou a estimar também. Haviam sido muitos e muitos anos de convivência, até eles irem, um à um.

Todos eles.

Ela fechou os olhos por instantes, como se pudesse reviver anos dourados. E por algum tempo conseguiu, mesmo. Sorriu, seus cabelos fracos e brancos balançando levemente.

_ Sinto saudades – ela murmurou, olhando incisivamente para um raminho de flores em particular. Quis chorar, mas talvez já houvesse chorado tanto durante sua longa vida que, ali ao chegar àquele momento, não havia mais lágrimas para derramar. Apenas agradecimentos, pelos bons anos compartilhados, os ensinamentos passados e o amor mútuo, que duraria para sempre.

Ela suspirou, colocando as mãos tremeluzentes e de pele extremamente fina e enrugada sobre o peito e fechando os olhos por alguns segundos, recordando nas lembranças velhas como ela a imagem daquela pessoa tão importante em sua vida.

_ Sim, tem razão, Esme era uma boa sogra, posso dizer que sinto saudades também sem ser mentiroso, hãm? – disse um velho alto e de sorriso faceiro, antes tão encantador, agora frágil, amarelo e gasto. Embora o charme de soldado não desaparecesse jamais, pensou a Sra.

Alice se virou para olhar seu marido, que aparecera atrás de si. Estava sujo de terra, pois adorava ficar em seu canteiro de cebolinhas. Havia sido um hobby descoberto quando a idade o atingiu a ponto de não ter mais forças o suficientes para trabalhar em algo mais pesado, com sempre havia feito.

_ Contou à ela a história? – perguntou Jasper, colocando a mão em suas costas ossudas enquanto ambos se dirigiam para dentro da casa.

_ Sim. Sabe como gosto de lembrar dela – respondeu ela vagarosamente, e Jasper precisou abaixar-se um pouco para escutar o que dizia, já que o impiedoso tempo havia lhe tirado a boa capacidade de audição — Mas não se preocupe, não contei as partes mais pecaminosas – ela murmurou, cobrindo a boca logo em seguida, rindo com os dentes naturais que lhe restara, envergonhando-se pelo que dizia.

_ Então você não contou nada da historia, pequena – ele brincou, antes de tossir grosseiramente, pois seus problemas de asma só pioravam. Ela riu mais antes de voltarem para a casa de mãos dadas – Vamos entrar, está passando na TV uma homenagem àquele alfaiate que você gostava, que era todo colorido, pulava tanto igual uma gazeta e era feio feito a peste – Jasper estralou repetidamente os dedos, como se estivesse se esforçando para lembrar de algo.

_ Oh, Pepeu de Valentine! – Alice o ajudou, não esquecendo de lançar-lhe um olhar repreensor pelo modo como sempre se referiu à Pepeu. Havia acompanhado a vida de Pepeu quando ele havia começado á sair nos jornais e revistas, concretizando-se como um importante estilista por muitos anos, até morrer há um tempo, com problemas de cirrose – E você pare de dizer essas coisas sobre ele, ou ele virá hoje à noite e lhe puxará os dedos do pé, era o que minha avó sempre dizia!

Jasper riu sonoramente, acariciando a camisa suja de terra que não conseguia mais esconder a pequena barriga saliente que havia adquirido com o adentrar na terceira idade.

_ E então mulher, está pronta para receber o povo da reportagem amanhã? – ele perguntou, sentindo-se cansado só em lembrar que iriam vir. Era uma reportagem que fariam por serem um dos casais mais idosos de que se havia registro.

_ Bem, não será bom todos me relembrando o quanto eu estou velha – ela riu, inconscientemente ajeitando os cabelos grisalhos e fora do lugar. Embora o riso, ver o quanto o tempo havia passado lhe entristecia, de certa forma — Mas estarei bem depois de uma boa noite de sono – fez uma pausa, sorrindo discretamente depois – Rosalie e Bella iriam gostar disso – murmurou para si mesma – Gostariam sim.

~°#°~

Forks, Washington

Noite de uma sexta feira qualqer

2000

A velha Alice olhava, com as pálpebras pesadas, não pelo sono em si, mais pelos anos carregados, para sua imagem refletida no espelho de sua velha penteadeira de madeira batida. Sorriu um cansado sorriso, como se dá quando se despede de alguém. Gostava do que via, dos tempos refletidos na sua imagem. Parecia... reconfortante.

_ Eu me sinto cansada – disse ela, sua voz baixa. Seu corpo estava um pouco pesado. Talvez pelo próprio dia cansativo, que não combinava com sua atual disposição. Este, em particular, pareceu ter sido mais longo do que qualquer outro teria sido.

_ Me sinto cansado também – Jasper disse, andando em seu vagaroso passo até o velho armário dos dois. Colocou ali seu casado de noite. Estava pronto para seu merecido sono.

Alice concordou com a cabeça, inconscientemente. Passou os dedos levemente trêmulos pelos cabelos branquíssimos, finos, presos em um coque por uma bela presilha de pérolas. Seu metal já descascado.

As retirou dos emaranhados dos seus cabelos, deixando-os cair, imperceptíveis, sobre seus ombros magros e ossudos. Sua camisola de algodão florida era larga, alcançando até nos seus tornozelos. Não lembrava muito o que vestia ha muito tempo atrás, quando seus cabelos eram mais negros do que a noite, e seus lábios rosados. A senhora passou os dedos pelos mesmos lábios, como se pudesse sentir, apenas pela lembrança, a textura macia que antes permeava ali. Agora, eram um pouco secos, ásperos. Assim como a pele de sua bochecha, lugar por onde seus dedos se encaminharam, reconhecendo as rugas acentuadas, a pele flácida de seu antigo rosto liso. Alice suspirou, não parando para analisar seus sentimentos. Pouco se importava se estes eram saudade de tempos bem vividos, mas que jamais voltariam para reavivar sua memoria cansada, ou se era apenas alivio, pois havia sido feliz, e não teria nada para se arrepender. Ela se levantou da cadeira, não se permitindo pensar em nenhuma das duas escolhas.

_ Venha deitar de uma vez, mulher – A voz gutural de Jasper disse, zombeteiro. Embora ele continuasse com um bom humor irritante, Alice gostava de dizer que ele era apenas rabugento.

Alice chegou à beira da cama, descalçando suas sapatilhas de pano. Jasper afastou os lençóis para que ela se deitasse. Era costume. O cavalheirismo e os cuidados com Alice não haviam envelhecido com ele.

Depois de um tempo, Alice se acomodou em seu lado da cama, virada de fronte para ele. Jasper respirava ruidosamente, resquícios de seus problemas de asma e outras enfermidades de pulmão. Ela, era quase como se não estivesse ali.

Dormiam assim, um de frente para o outro, como se dividissem o mesmo ar, como se se certificassem de que o outro ainda respirava. Depois de alguns minutos silenciosos, alguém sussurrou no escuro.

_ Gostaria de viver para sempre? – ele perguntou de olhos fechados.

_ Poderia ser bom – disse ela, puxando o ar com força – Mas não acho que eu suporte mais algumas décadas com você – brincou, rindo – Depois de tantos anos, você ainda é um presunçoso arrogante.

_ Eu te disse certa vez, meu amor – ele respondeu, seu usual sorriso convencido – Esse é o meu charme.

Alice sorriu sozinha no escuro, encostando sua cabeça no travesseiro dele. Tinha muito do cheiro dele ali. Não era mais o mesmo cheiro irresistível que tivera no passado, mas era um delicioso aroma que ela todas as noites adormecia sentindo.

Jasper depositou sua mão pesada e gélida no rosto de sua velha esposa.

_ Você ainda tem a pele mais macia que eu já toquei – disse ele.

_ Oras, por Deus, estou enrugada, feia e velha – ela contradisse-o, fechando a expressão, embora ele não pudesse lhe ver. Com o tempo, sua rebeldia se transformou em uma leve rabugice.

_ Você jamais será feia, pois velhice não traz feiura, apenas anos à mais – ele refletiu, fazendo-a dar de ombros. Mas gostava de escutar as palavras dele e toda sua paciência – A minha Alice de 1901 eu guardei nas memórias... essa é melhor Alice deste momento – enfatizou suas palavras, tocando sua testa com as pontas dos dedos.

_ Me responda uma coisa, mulher – ele continuou – Se você tivesse podido escolher com quem casar, quem teria escolhido?

_ Eu escolheria você – ela respondeu sem hesitar. Há muito tempo admitir aquilo havia deixado de ser uma dificuldade — Eu sabia que o amor da minha vida estava dentro daquela igreja. E eu estava no altar, casando com ele. – sorriu ela, colocando sua mão sobre a dele.

_ Ótimo – disse ele, satisfeito por finalmente saber – Agora, vamos dormir por que não somos mais tão jovens para ficarmos acordados por horas.

Alice assentiu, fechando os olhos para a escuridão. Sua mão continuou com a dele, suas respirações continuaram em união.

_ Eu ainda amo você – ele terminou por murmurar pesadamente.

Alice ainda não havia se cansado de escutar aquilo. Ele repetia aquilo todas as noites para ela. Ela jamais duvidou dele.

Apertou um pouco a mão que estava sobre a dele, na cama. A mão grande, enrugada pelo tempo. A mão que ela mais gostava.

_ É por isso que ainda estamos aqui – ela respondeu com amorosidade, em uma fina voz que já não tinha a mesma força que sempre tivera, perdendo-se, pouco a pouco, na luz apagada de seu recluso quarto.

E eles não perceberam quando o sono lhes alcançou, nem quando foram sendo levados, pouco a pouco, para outro lugar, para outra linha no tempo. Só tinham consciência da presença um do outro bem ao lado, enquanto ambos sentiam o cansaço ir embora, o peso sumir, a tênue linha do real, do imaginário, do outro lado ser irrompida por eles, chegando ao seu merecido lugar depois de tanto tempo.

Juntos.

Por que era mesmo para ser assim.

Eles não chegaram a acordar, no dia seguinte. Mas está escrito em alguma nota de rodapé, que nós não existimos para sempre, mesmo.

Mas nossas lembranças, essas sim, podem perdurar por milênios. É apenas decidir o momento em que estejamos preparados para tornar os melhores momentos em suaves recordações...

Fim.

Notas finais
Sim, eles morreram. Mas morreram velhinhos e juntos, o que achei muito fofo e considero um final feliz haha Espero que tenham gostado. Bjos e até, quem sabe um dia, uma próxima :)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!