Os Quatro Reinos E O Que Não Era Pra Ser

3 Como não derrotar dito professor de química


Notas iniciais
~se esconde atrás de uma cadeira~ Por favor não me matem! Poucas palavras, mas muitas coisas importantes, hehe. Feito com muito amor, claro! P.S.: agora tem mais palavras. Eba!!!

— O que você está fazendo aqui? – Perguntei.

Ele ficou lá, parado, me olhando como se soubesse de algo que eu não sabia. Ah, se ele soubesse da raiva que eu tinha disso, mais especificamente do sentimento de inferioridade que acompanhava, pararia bem rápido.

—Perdeu alguma coisa? – Ou quer perder? A vida, por exemplo. Quis completar. Eu estava de mal-humor, com fome e ele estava me encarando. Não espere nada bom de mim. Ele não se movia.

Nos encaramos por longos momentos, até que, num impulso, se jogou para cima de mim, com as mãos mirando minha garganta; seus olhos se tornaram pretos por completo e uma fumaça preta e meio esverdeada começou a sair de sua boca escancarada. Suas veias brilhavam um vermelho demoníaco.

Paralisada pelo choque, não tive tempo de reagir. Quando ele me tocou, trovões tremeram o prédio e as os galhos das árvores escalavam as paredes. Senti meu sangue indo para as extremidades do meu corpo e meu pescoço queimando, mas estranhamente, eu não me incomodava pelo calor, e, mais esquisito ainda, quem se queimava era ele. Arrancou suas mãos de mim, e senti pele grudada em meu pescoço colada por sangue negro e viscoso. A pele que tinha sobrado em sua mão borbulhava, a carne machada de preto estava à mostra e esfumaçando. Um relance de osso amarelado me fez quase vomitar.

—Malditas sejam, filhas de Grécia! — ele esbravejou, trazendo as mãos para seu peito. — Malditas sejam todas vocês!! Amaldiçoo-as! — Sua expressão, que antes era de dor e raiva, se tornou ininteligível, e, olhando nos meus olhos arregalados, disse:

—Você está protegida, filha de Grécia, mas por pouco tempo — e a fumaça que ainda saía de sua boca encheu o cômodo por completo, tirando o pouco de visibilidade que ainda tinha.

Tropecei cegamente até a janela, me sentindo asfixiada, e escancarei a janela, quase que por milagre não caindo, e deixando um vento entrar e levar embora todo o gás cinzento pesado. Sentei-me na parede embaixo da janela, e entortei o pescoço desconfortavelmente para ver o céu. As estrelas brilhavam muito forte, já que, apesar de todas as luzes da cidade, podia vê-las com clareza. O estado de choque me deixou assim por algum tempo, delineando de cabeça todas as constelações já decoradas. Deixei a tranquilidade me tomar, esquecendo o sangue já seco em meu pescoço, e os sons foram sumindo e sumindo, até que ouvia somente o vento e as folhas balançando, então me abstraí em meu mundinho particular, sem exatamente dormir.

As batidas abruptas na porta quebraram meu estado de espírito. Distraidamente olhei para ela, e demorei alguns segundos para processar que teria que a abrir.

Fui andando devagar até lá, meu cérebro, que agora acordara, se fazendo tantas perguntas “Quem é ele? Como ele me conhece? Quem são as filhas de Grécia? Por que ele tentou me matar?”que me senti um computador que recebe muitos comandos de uma só vez: ele se aquece demais e para de funcionar. Pesadamente girei a maçaneta, e levantei os olhos, não querendo pensar em quem estava lá.

—Júlia, você está bem? — meu chefe perguntou, com uma expressão de preocupação. -Esqueci meu celular, vim pegá-lo, e, quando cheguei perto da sua sala, ouvi um barulho e vi a luz acesa. Decidi checar, ver se estava tudo bem. Quer uma carona para casa? É caminho. – estava cansada demais para questionar toda e qualquer coisa, inclusive que a casa dele era do outro lado da cidade, sendo de forma alguma caminho para a minha, mas aceitei. 11PM não me parecia uma boa hora para pegar ônibus sozinha, se é que tinha algum circulando ainda. Experiência me dizia que não.

Quando estávamos saindo, um cachorro latia para um gato em cima do carro. Meu chefe pegou um jornal de onde ele tirou aquilo? e acertou no gato até ele sair. Tadinho. Até que era fofo.

Entramos no carro, e o caminho foi bem silencioso. Olhos vermelhos demoníacos apareciam nos olhos de cada gato e cachorro por que passávamos no caminho, e um tremor tomava conta de mim cada vez.

Cheguei em minha casa, finalmente, e virei para meu chefe:

— Obrigada pela carona — disse sem ânimo. – Até amanhã. – Ele acenou com a cabeça, e, mal fechei a porta, ele já saiu correndo.

Soquei o botão do elevador, apertando várias vezes para inutilmente tentar fazê-lo chegar mais rápido. Encarei a luz vermelha que circundava o botão. Quando entrei, olhei para a luz do teto com mais intensidade do que poderia ser considerado são. Algo me incomodava profundamente.

Abri a porta de casa, e o bolo estava lá, em toda sua glória, chamando meu nome.

Peguei-o, esquentei o maior pedaço que meu bom senso me permitia no micro-ondas e o joguei dentro do pote de sorvete de 1 litro que eu sempre tinha no meu congelador. E pensar que algumas pessoas pagavam caro por um petit gateau maravilhoso como esse.

Liguei a TV, e deixei no primeiro canal, que, por sorte, passava The Walking Dead, que eu já havia decorado, assistindo sem pensar. Comi o pedaço todo e metade do pote de sorvete quando fui trazida à realidade por o que só poderia ser descrito como um eco de um grito de pura agonia. Fiquei lá mais um tempo, deitada no sofá, respirando fundo e me acalmando, contando as lâmpadas da sala, remoendo tudo.

O que o meu chefe havia me dito remoía na minha cabeça incessantemente. “quando cheguei perto da sua sala, ouvi um barulho e vi a luz acesa.” Luz acesa, um barulho. O que me incomodava? Ele só havia me ajudado. Repassei a cena várias vezes em minha mente, e encontrei o erro: As luzes estavam apagadas. E a sala estava em completo silêncio.

Notas finais
Me digam o que acharam nos comentários!!