Os Pássaros
1 01 - Migração
Existem espécies de pássaros que migram todos os anos quando o inverno se aproxima. Ninguém sabe exatamente como isso acontece, embora haja várias teorias possíveis, mas o fenômeno é sempre o mesmo: quando percebem que o inverno está chegando, algo dentro deles avisa que é hora de partir, e eles voam, todos juntos, ao mesmo tempo, com o mesmo destino, em busca de calor, alimento e sobrevivência.
Foi exatamente esse o motivo pelo qual eu tive que voltar para casa, migrar todos os meus planos, meus sonhos e minha dor comigo: o frio. Um frio insuportável e letal que preencheu meu coração quando Greg saiu por aquela porta naquela terça-feira, no final de dezembro.
Eu me lembro como se fosse hoje, ainda sinto minha garganta queimar e as lágrimas amargas escorrendo por meu rosto, ainda posso ouvir a porta fechando enquanto eu estava sentado de costas para ela, abraçando minhas pernas no sofá, sentindo o cheiro do perfume dele que permaneceu por horas na minha pele depois que ele foi embora.
"Sinto muito", ele disse. "Aqueles planos agora são só seus."
Eu sabia o motivo, mas preferia não acreditar em mim mesmo. Sabia que tinha a ver comum ex-namorado que estava de volta na cidade, sabia que os dois acabariam ficando juntos de novo e que a amizade reatadamuito, muito estranha. O que eu não sabia, no final das contas, era como lidar com aquilo tudo, ainda mais no dia da formatura.
Horas mais tarde, depois de chorar muito, de prometer para mim mesmo que a formatura seria o último evento social do qual eu participaria e que eu nunca mais sairia da minha cama até morrer, eu me enfiei debaixo do chuveiro, me sentei no chão e deixei que a água fizesse seu trabalho em meu corpo. Era a única coisa que eu tinha forças para fazer, na verdade.
Coloquei minha roupa formal da forma mais preguiçosa possível, tentei pentear meu cabelo de forma apresentável e não passei perfume. Minha colega de república, Jéssica, já estava pronta quando eu terminei, e nós caminhamos juntos até o local da cerimônia, a algumas quadras do nosso prédio.
- Que cara é essa? — Jéssica perguntou. — Quem não te conhece e te vê vestido de terno e com essa cara, pensa que você está indo pra um velório.
- O Greg terminou comigo.
Acabei de dizer essa frase e comecei a chorar de novo.
- Ah, Lion — murmurou Jéssica, me abraçando. — Por favor, não fique assim. É o dia da nossa formatura! Nós temos uma vida pela frente, e ela só está começando agora!
Enxuguei minhas lágrimas e respirei fundo, tentando me recompor. Não fazia ideia do que Jéssica estava falando, sobre ter uma vida pela frente, mas eu não queria demonstrar para ninguém o quão triste e miserável eu me sentia. E aquele era odia em que todos estariam reunidos para celebrar a felicidade da formatura. O único problema era que "felicidade" não era uma palavra disponível em meu vocabulário.
- Boa noite, alunos e parentes! — anunciou o reitor da Universidade de Letras e Ciências de Outona. — É com muito orgulho que estamos todos aqui reunidos nesta linda noite para celebrar o fim de o ciclo, e o início de outro. A formatura de nossos queridos e admirados alunos, que venceram cada obstáculo de suas vidas acadêmicas, até chegarem aqui, no dia de suas consagrações para um mundo cada vez mais competitivo e brilhante. Para nossa sorte, eles estão à altura desse mundo. Iniciaremos a cerimônia em alguns minutos. Obrigado pela presença de todos.
A plateia, composta de familiares e amigos de alunos, aplaudiu euforicamente. Eu olhava para todos os lados procurando por Greg, mas aparentemente ele não havia chegado ainda.
- Ok, coloque um sorriso nesse rosto e fique feliz. Hoje não é dia dessa cara de quem comeu e não gostou — ordenou Jéssica, enquanto arrumava meus cabelos com as próprias mãos. — Ai, eu estou tão nervosa! Você não está?
- Super — respondi, com o tom de voz mais animado que eu consegui fazer. Pela cara que ela me olhou, não foi nem um pouco convincente.
Vários minutos depois, fomos convidados a subir no palco montado no meio do gramado da faculdade, e foi só então que vi Greg. Ele abraçou um garoto loiro e muito bonito (detesto admitir isso), e entrou na fila da pequena escada que subia ao palco.
Começaram a chamar nossos nomes por ordem alfabética e a entregar canudos com um diploma dentro. Depois, foi a vez do orador da turma fazer seu discurso, e ele era ninguém menos do que Greg.
- Senhoras e senhores, boa noite — ele começou. — Estamos todos aqui hoje muito felizes e, por que não dizer "eufóricos pra cacete?" — a plateia gargalhou, surpresa, e o reitor balançou a cabeça para os lados com um sorriso no rosto, como quem dizia "Esse garoto não tem jeito."
Eu não consegui ouvir o resto do discurso. A voz de Greg entrava em meu cérebro em decibéis muito maiores do que eu estava acostumado, às vezes interrompida por ruídos de microfonia, e toda aquela intensidade apenas amplificava a minha dor, a minha vontade de sair correndo dali, me enfiar dentro de um buraco, nunca mais ver a luz do Sol.
Meus pais olhavam para mim da plateia. Minha mãe chorava enquanto meu pai acenava, como se eu tivesse oito anos e estivesse em uma peça de teatro da escola infantil. Eu sou filho único e minha família vive brigada, então eles eram as únicas pessoas que eu conhecia na plateia. Além, obviamente, da família de Greg. A sra. Lucia ria do discurso espirituoso do filho, também entre lágrimas, e o sr. Hugo filmava tudo com um tablet maior do que o próprio rosto. Era uma família divertida e muito compreensiva, que eu adorava. Eles sempre me receberam bem quando viajava para a cidade onde Greg e sua família moravam, e aquela era uma das coisas que eu mais sentiria falta.
As lágrimas voltaram a brotar em meus olhos, e dessa vez eu não as contive. Todos estavam chorando, afinal. Por motivos extremamente opostos aos meus, mas isso era meu grande álibi para poder chorar também.
Quando Greg terminou seu discurso, todos jogaram seus capelos para o alto. Eu demorei um pouco para entender o que estava acontecendo, e fui o último a lançar o meu chapéu para os ares, o que me fez sentir mais patético do que eu já me sentia normalmente.
Depois disso, haveria um jantar de celebração, para o qual eu não estava nem um pouco com vontade de ir. Então desci do palco e fui abraçar meus pais.
- Estamos tão orgulhosos! — disse minha mãe, ensopando meu pescoço de lágrimas.
- Obrigado, mãe. Podemos ir para casa agora?
- O quê? E o jantar?
- Não estou me sentindo muito bem. Vamos até a minha república pegar minhas malas, e vamos embora dessa cidade.
- Embora da cidade? Lion, o que aconteceu? Você não ia viajar com o Greg?
- Não quero falar disso, mãe. Por favor. Vamos embora daqui.
Jéssica já estava na república com seus pais quando eu cheguei com os meus. Eles estavam trocando de roupa para o jantar, e eu não consegui me despedir. Apenas levei minhas malas para o carro e, em alguns minutos, aquela cidade desapareceu pelo vidro do carro, juntamente com todas as memórias que eu tinha dela, as memórias mais preciosas e dolorosas da minha vida. Tudo isso havia ficado para trás em poucos minutos, e eu me sentia aliviado na mesma proporção em que me sentia devastado.
É verdade que alguns pássaros migram quando sentem o frio se aproximando, e o meu momento de migração não foi diferente. Não havia mais calor, alimento ou vida onde eu estava. Eu precisava abrir minhas asas e voar, encontrar meus modos de sobrevivência e ficar o mais longe que eu podia daquele frio existencial.
O problema é que, durante o voo de migração, muitos pássaros acabam se perdendo. Quando eles veem, já estão longe demais da segurança do bando. Quando dão por si, o cenário é completamente diferente. O destino não é aquele que eles haviam planejados. E é aí que começa a verdadeira jornada da sobrevivência: no momento em que você pensa que está seguro, você percebe que precisará aprender a voar sozinho.
Fale com o autor