Os Protetores - Aesir
1 Rapsódia Asgardiana
Notas iniciais
Fico muito feliz de estar de volta trazendo mais conteúdo agora a um diferente fandom - E se você for um de meus leitores antigos, olá! Espero que desfrute dessa aventura que escrevi tanto quanto gostei de retornar ao mundo fantasioso da escrita. Estou tirando recessos mais longos para escrever por motivos de: Sou um adulto hoje em dia e com mais responsabilidades que antigamente, mas ainda cheio de vontade de inventar mundos com vocês.
No mais, boa leitura!
I – Rapsódia Asgardiana
O quarto cheirava à corote, o que, em qualquer lugar do país, era um sinal ruim. A luz do Sol entrava pela janela e desenhava os contornos dos dois jovens jogados na cama, ainda aparentemente desacordados.
Lucas roncou e se moveu sob os lençóis, abrindo os olhos enquanto sentia os braços de Gustavo, seu esguio e galego ficante, ainda envolvendo sua cintura e puxando-o contra a sua.
— Sei que tá acordado. – disse Lucas, a voz manhosa e o nariz se retorcendo com o cheiro de álcool. Ele se remexeu para fora do abraço e ouviu um muxoxo em protesto. – Você sabe que preciso ir.
O muxoxo virou um grunhido, Gustavo se virou e tacou algo na porta do apartamento. Lucas se pôs de joelhos na cama e esticou seu corpo na direção do outro. A pele reluzindo como bronze sob o sol.
— Ei, qual foi? – disse ele, tocando o ombro de Gustavo e deixando seus lábios tracejarem uma linha com beijos subindo por seu braço.
O loiro pegou a almofada e golpeou o rosto com cor de bronze de Lucas.
— Nada, como sempre! Só o mesmo papo de sempre, essa caralha!
— Íh, lá vem. – os olhos escuros de Lucas se reviraram, ele já conhecia a ladainha de Gustavo.
O loiro o encarou e tacou outra almofada, se pondo de pé e revelando o corpo magro, branco como leite e decorado pelas mesmas pintinhas sardentas que tomavam o rosto angelical. Os cachos graciosos dele decaíam sobre o rosto irritado, olhos azuis cheios de ressentimento encaravam o outro garoto ainda nu e de joelhos na cama.
Safado que era, no entanto, Lucas meio que só olhou para a virilha dele mesmo. O que lhe rendeu mais um rosnado enquanto Gustavo vestia sua cueca branca que estava largada no chão.
— Não está indo? Vai lá, merda!
— Ei, vem cá! – Lucas abriu os braços e exibiu um sorriso de mil quilates. Os lábios se desenharam em torno de seus dentes, Gustavo pareceu dar uma última olhada em seu corpo musculoso de bronzeado permanente, mas em vez de se aproximar e cair para mais um beijo, apenas bufou e mostrou o dedo do meio para o rapaz ainda na cama. – Tu sabe porque não podemos sair falando assim da gente.
— Da gente? Como se a gente fosse alguma coisa, Hódrson! Você deixou isso bem claro das últimas três transas!
— Ainda não tô sacando a raiva, bebê. – Lucas pousou as mãos na cintura e respirou fundo. – Tem algo te deixando triste sobre nós, é isso?
— Que tal o fato que você tem uma namorada blogueirinha nojenta e eu sou só sua putinha!
— Eu nunca te tratei assim, porra! Você sabe que é bem mais que só isso! – Lucas se pôs de pé de punhos cerrados, sua cueca foi arremessada na cara dele, o que o fez bufar e se vestir. – A Luíza e eu nem namoramos direito, é só lance pro Instagram, Gus!
— Se foda. Não quero mais saber disso não. – disse o loiro, terminando de se vestir e apontando um dedo na cara de Lucas. – Queria ver o que ela ia achar de saber que namora um viadinho do caralho! Queria ver o que a porra da agência ia dizer se-
— Tu não é nem doido de sair espalhando isso! – a voz de Lucas se elevou mais do que de costume. – Por acaso menti para você que isso teria que ser segredo?! Tu sabia no que tava se metendo o tempo todo!
— Eu sabia e fui otário mesmo. Mas não mais otário que você. – Gustavo andou até a porta do local e a abriu, estendendo o braço para fora. – E, sinceramente, antes otário do que covarde do caralho! Some daqui, vai!
— G-Gus... – Lucas se aproximou dele, mas levou um empurrão no peito e outro grunhido do maior. – Eu não posso fazer isso! Minha mãe, meu emprego...Vai tudo pro espaço!
— Você nem sabe disso, guri. – Gustavo foi até perto da cama e apanhou uma mochila de marca, estufando-a com as roupas do outro e arremessando-a na cara dele. – Larga de ser otário!
Lucas a apanhou antes de ter o nariz amassado, um suspiro arrastado deixou seu interior, seus dedos se fecharam em torno do tecido da mochila.
— Não quer mais nada comigo, então?
— Pensei que você que quisesse, no começo. Mas tem que ser tudo de seu jeito né? Senão nem rola.
— E-eu...Só não tô pronto ainda. – rebateu Lucas, respirando fundo enquanto vasculhava sua roupas. Ele pegou sua calça moletom e a camiseta do Queen preta que estava ali. Seus pés logo foram calçados pelas havaianas que havia ganhado de patrocínio e os óculos de sol repousaram no topo dos cabelos tingidos de loiro. – Pensei que, dentre todo mundo, você fosse entender.
— Fazer psicologia não me torna seu bichinho compreensivo inofensivo, arrombado! – Gustavo vociferou. – É sempre “um dia” com você. Já tem quase um ano, porra!
O dedo indicador de Gustavo indicou a saída, seu olhar, no entanto, estava mais afeito a um Vai para o Inferno, Lucas Hódrson.
— Desculpe. – Lucas apenas disse isso, virando-se para a saída e apanhando o celular na bolsa.
Seis da manhã, umas 500 notificações de seu Instagram e a foto de bloqueio de seu último ensaio na praia aguardavam seu olhar. O garoto bufou e caminhou para fora do apartamento, sendo apanhado pela cor verde dos azulejos que decoravam a parede do corredor e lançando um último olhar no loiro de seus sonhos.
— Nem um último beijo de adeus?
Gustavo se aproximou e, com só suspiro...
BAM, a porta se fechou, seguida de um grunhido e um baque.
Virando-se para o corredor iluminado, Lucas foi andando até o elevador, um nó cada vez mais apertado se formando em sua garganta, enfim.
O espelho refletia o garoto bonito com fones no ouvido e um olhar que fazia o ar dentro do cubículo de metal descer alguns centímetros. Seu lábio grosso inferior foi mordido enquanto uma tempestade se formava dentro da própria cabeça, o ébano de seus olhos ficando cada vez mais nublado.
— Porra. – foi tudo o que disse, até ouvir o silvar das portas se abrindo.
Lucas seguiu adiante com a faceta de sempre, deixando seu reflexo para trás e desejando que o espelho conseguisse refletir a bagunça que ele tinha dentro de si.
Os pés de Lucas mantinham um ritmo bem generoso. A esteira seguia indefinidamente tal qual a playlist recheada com Rock e Metal ribombava nos ouvidos do garoto, através de seus airpods.
Os pensamentos dele lutavam contra as matérias de faculdade que ainda tinha que passar. No fundo, o garoto só queria começar seu dia de novo.
Até o gosto do Whey parecia diferente desde que Gustavo chutara seu traseiro, não que Whey já tivesse sido bom em alguma ocasião, só o seu sabor tinha desaparecido, que nem o ânimo dele.
Lucas nem percebeu que já estava a quase meia-hora correndo, seu short poliéster preto e camisa branca sem mangas deveriam estar empapadas de suor.
Sua instrutora, Cecília, se aproximou das esteiras e observou o garoto contemplativo, completamente absorto no som de Des Rocs.
A morena o fitou com horror ao notar a quantidade de quilômetros percorridos e a velocidade absurda com que seus pés lutavam contra a esteira na velocidade máxima. Mais um pouco e ele completaria cinco maratonas de São Silvestre.
— Ei, Lucas! Lucas, merda! – ela se aproximou e cutucou o garoto, que se virou para observar a mulher com face de preocupação lhe encarando.
Ele diminuiu a velocidade com dedadas violentas no aparelho, até ir diminuindo o ritmo e tirar o fone direito, para então dizer: — Oi, Cê.
— Oi uma ova! Desde quando tu chega cedo assim e porque tá correndo tanto?!
— Nem corri tanto. Só tava aquecendo. – rebatendo, respirando fundo e agarrando sua garrafa gelada para um gole. Ele fitou o marcador de quilômetros e quase engasgou, tossindo ao reparar os quilômetros percorridos. – D-digo...
— Tá estressado, né? Conheço essa cara.
— Manhã difícil. – ele se esquivou do assunto e foi até os halteres, ela o seguiu e revirou os olhos quando ele puxou o celular com a camisa já nos dentes, exibindo o abdômen definido para a câmera do Instagram. – Mas tô de boa.
— Não se continuar a pegar tão pesado assim!
— Tá, tá. – ele tratou de postar a foto e viu a mulher com o canto do olho, ainda incomodada. – Jesus, que foi?
— A Luíza me mandou mensagem. – disse a instrutora, cruzando os braços e enrugando a face de preocupação como sempre. Cecília, a esse ponto, deveria ter tantas rugas quanto músculos trincados. – Ela quer saber porque você não a respondeu direito no último fim de semana.
O olhar de Lucas se rebaixou, um suspiro alongado deixou seus pulmões enquanto falava: — Virou garota de recado dela, agora?
— Ela só é a dona da academia toda. – o sarcasmo meio que jorrou da boca de Cecília, que, já impaciente, negou com a cabeça e começou a se afastar do garoto: — Vê se fala com tua namorada, guri. E para de mexer no celular, foco hein!
— Blá, blá, blá. – disse, fazendo outra publicação para os stories, dessa vez mostrando a língua em um vídeo bumerangue.
A face sensual foi logo desaparecendo, a preocupação de ser jogado para fora do armário por Gustavo voltou a sua mente. Luíza o chutaria e todo patrocínio que ele tinha com academias e da agência de modelos ficariam na berlinda.
Lucas nunca lidara bem com a possibilidade, ele sequer a consideraria de verdade.
O garoto foi até os pesos, pondo o celular de lado e respirando fundo, a mão passeando pelo rosto e massageando-o, como se pudesse esmagar as más decisões e preocupações que tomavam sua cabeça.
Lucas alocou um par de pesos de cinquenta quilos em cada lado da barra, deitando-se e ajeitando as luvas nas mãos. A dor, pelo menos, o distrairia do drama em que tinha se metido.
Exceto que, ao levantar a barra, Lucas sentiu um total de zero dores.
Ele abriu os olhos e respirou fundo, movendo duzentos quilos para cima e para baixo como se estivesse como se os pesos na barra fossem feitos de Lego.
Assustado, o garoto colocou a barra no lugar e se levantando, para então, tomar ela em mãos uma vez mais.
Ele a levantou como se fosse nada outra vez, elevando-a acima de sua cabeça como um campeão halterofilista. Uma risada idiota gorgolejou garganta afora e ele sorriu para si mesmo no espelho.
Só para então reparar que seu olho esquerdo tinha uma espécie de brilho azul e gélido espalhado pela íris, seu braço e os músculos cintilavam com símbolos que, surpreendentemente, não lhe eram estranhos.
Sua respiração vacilou, o brilho foi embora e, então, Lucas caiu para trás, sentindo o peso da barra volta ao normal e largando tudo ao chão. O estrondo fez todo mundo na academia arquejar e Cecília correr em sua direção, apenas para encontrar o garoto ofegando e com os olhos arregalados, a barra largada ao chão tinha lascado parte do piso.
— LUCAS?! V-você tá bem?!
O garoto piscou encarou as próprias mãos, movendo-as a frente do rosto e ofegando, ainda mais nervoso do que quando começara os exercícios.
— Que porra foi essa?! – sua voz vacilou em rouquidão enquanto sua mente acelerava como um trem desgovernado.
Algo estava bem errado.
Lucas deu uma passada em casa no centro de Florianópolis, mas não encontrou sua mãe. Ele checou a hora: Já era quase meio-dia, o que significava que ela devia ter deixado algo pronto e ido lecionar história na UFSC, como fazia toda segunda, enquanto Lucas apenas tinha uma triste aula de Anatomia mais tarde.
Ele passou nervosamente pelo centro da sala de estar decorada com móveis antigos de madeira e observou-se no espelho, cuja parte de baixo era decorada com uma guirlanda de madeira e fitas azuis amarradas – provavelmente alguma das bugigangas Asatru de sua mãe.
Seus dedos passearam pela estante colada na parede, onde haviam vários retratos dele: O garoto brincando em um dia de geada, sua mãe – Greta – pegando sol na praia junto a ele. A mulher loira parecia um camarão avermelhado na foto, Lucas, no entanto, era apenas um gurizinho negro com um luzir brônzeo permanente sob o céu sulista.
Sua vida sempre foi normal, sem grandes surpresas. Futebol toda tarde que pudesse, festas na adolescência e um pai apenas presente em seu sobrenome: Hódrson. Sem mais.
Lucas lembrava de ver sua mãe chorando e sofrendo no quarto as vezes, isolada. Ele não queria causar problemas e ser um babaca como quem a largara para cria-lo sozinho em um mundo cruel.
Não importava que sua mãe apenas se referisse ao pai dele como “complicado”, ele era um covarde se tinha feito isso com ela.
Lucas se esforçou desde então para ser um orgulho: Conseguiu jogar em campeonatos de futebol, se destacar como um dos alunos mais populares na escola e, agora que cursava Educação Física, tirava as melhores notas e ainda tinha um bom início de carreira de modelo graças às redes sociais.
O garoto se sentou e coçou os curtos cabelos tingidos de loiro, estava cansado da academia, estressado e perdido graças à sua manhã mais do que conturbada. Sua cadeia de pensamentos ia de como sua mãe dissera que ele era especial a vida inteira até o dia onde, completamente bêbado em uma calourada, conhecera Gustavo Amarantes e tinha, pela primeira vez, ficado com alguém que gostava: Um menino bonito com o rosto de um anjo, que entendeu sua dor ao vê-lo sustentar uma imagem perfeita para todos que lhe cercavam. Sempre vivendo de aparências.
O beijo de Gustavo tinha sido doce que nem o morango na batida que bebiam à beira da piscina. Todos estavam tão morgados e largados que Lucas sequer se importara em beijá-lo em público. Ninguém tinha lembrado deles no dia seguinte mesmo.
O pensamento foi interrompido logo em seguida, tal qual todos os seus planos naquele dia haviam sido pelo chute na bunda que tomou mais cedo.
Ele checou a tela do celular: @LuGalharda: vc tá bem, bb? Cê me contou do que ocorreu na academia. Me responde!!!
Um suspiro.
@hódrson: tô sim, de boas ;] mals pelo sumiço, a festa sexta ainda de pé?
@LuGalharda: óbvio. Mas, vem cá, o que tá rolando?
Lucas tentou imaginar a reação de sua “namorada” ao receber uma mensagem contendo: Ah, passei o fim de semana com um guri aqui que me faz mais feliz que você em todo sentido possível e ele me chutou porque sou um enrustido do caralho. Eu sou um puto covarde do cacete.
Outro suspiro escapou de si, seus ombros relaxaram e ele digitou a mensagem: Sou gay, Luíza.
E então, a apagou. Tomou fôlego mais uma vez e enviou outra.
@hódrson: Queria pensar na vida longe de tudo um pouco. Até da mãe.
Então, ela apenas enviou uma foto fazendo um sinal de “Legal” com a mão direita, bem no meio da sala de aula onde estava. Ela estudava Moda em uma particular cujo nome ele sequer se importara em saber.
Lucas suspirou e se encarou novamente no espelho.
Ele estava cada vez mais perdido.
E com fome.
O garoto passou mais tempo do que julgava necessário trocando mensagens com Luíza. Almoço afora e tarde adentro, ele logo teve que ir para sua aula de Anatomia, passando boa parte do vespertino fingindo estar prestando atenção.
Ele só conseguia pensar no que caralho havia ocorrido na academia. Mas não importava o quanto pensasse, nada parecia uma solução convincente.
Seus dedos triscaram a tela do celular pelo que deveria ser a décima vez em sala de aula. Sua professora palestrava com um esqueleto e anunciava a data da prova enquanto Lucas eliminava notificações com os dedos.
Ele hesitou, no entanto, vendo uma postagem de Gustavo – uma música que guardava bastante significado para Lucas e que ele sabia que estava ali como indireta.
Era a canção que havia tocado durante o primeiro beijo de ambos. Uma música completamente brega e bem longe do estilo metido a roqueiro de Lucas – o Sol, de Vítor Kley. Ele jamais admitiria amar aquela melodia apaixonada e melodramática, principalmente para Gustavo, que simplesmente reparou em como a música mexia com Lucas em uma de suas noites juntos.
Ela havia virado uma lembrança dividida.
Uma lembrança que ficara amarga com o súbito fluxo de mudanças na vida de Lucas.
O garoto nem percebeu que seus dedos já o levaram para o perfil do loiro e, em um piscar de olhos, uma mensagem havia sido enviada.
Podemos nos ver?
Ele teclou mais algumas vezes, apagando todas a mensagens subsequentes – todas eram idiotas demais para Lucas. Ele repetiu o processo mais algumas vezes, até sair e entrar na conversa algumas vezes.
A tarde foi seguindo, a aula acabando e a paciência de Lucas ia junto.
Ele então foi à caixa de mensagens privadas uma vez mais, atualizando-a e reparando, enfim, algo novo.
— Filho da...
Gustavo o havia bloqueado.
Estresse tinha tomado a cabeça de Lucas pelo resto da semana. Ele tratou de fazer suas postagens habituais, mas toda vez que seu rosto (ou abdômen) saía da mira da câmera, sua face de tempestade tomava conta.
Seu humor se arrastou pela casa noite afora, e, na quinta-feira, sua mãe enfim o interrogou, preocupada.
— Se tu encarar as ervilhas mais, elas vão corar de vergonha, guri.
A voz de Greta rasgou o pensamento de Lucas, que piscou e a assimilou a sua vista. Sua silhueta magra estava oculta em um roupão felpudo e preto, os cabelos louros recém-cortados. Sua face tinha tédio estampada nos olhos, de um jeito zombeteiro que só sua mãe tinha.
Ela cortou a carne com pouca cerimônia, raspou-a no purê de batatas e guiou um monte de ervilhas para o garfo junto, colocando tudo na boca fina enquanto mantinha um olhar afiado para o filho. Nada podia enganar os olhos de ébano daquela historiadora.
— Qual foi? – perguntou ela, depois de engolir. – Tá de mistério pra quê, guri?
— Não tô de mistério. – ele torceu o nariz, mirando o próprio prato. Uma parte da montanha de purê em seu garfo despencou na carne do jeito mais patético imaginável.
Lucas suspirou, sua mãe ainda o encarava.
— Tem umas coisas rolando comigo.
— Olha se você não dissesse... – ela repuxou um sorriso cáustico. Lucas bufou e arrancou um suspiro de Greta. – Vai direto ao ponto, meu amor.
Um silêncio involuntário se seguiu. O grilo da sala voltou a soar.
O garfo do garoto encontrou sua boca, ele mastigou por alguns minutos e sua mãe apenas suspirou, admitindo derrota. Era sempre assim, Lucas chegava na porta, mas nunca batia, prolongando o ruído quieto que havia dentro de si, como um globo de neve que tinha uma nevasca contida.
— E a faculdade?
— Chata.
— Por falar em chata. – Greta tirou seu prato da mesa e se levantou, fitando o filho ainda com curiosidade. – Como vai a Luíza?
Lucas quis rir da acidez do comentário, sua mãe não era facilmente enganada e com certeza não tinha caído no papo de apaixonado dele. A verdade sempre ficava no limiar da língua do garoto, mas a coragem sempre lhe faltava, como um carro sem ignição.
— Tá de boa, vai fazer aniversário amanhã. Eu vou pra festa.
— Se beber demais, vou confiscar teu carro de novo.
Greta se pôs a lavar os pratos, de costas para o filho. Ela suspirou e disse: — É sério. Nada de afogar a mágoa na bebida.
— Não tô magoado.
— Então, nada de afogar a raiva.
— Nem com raiva! – ele retrucou, aumentando a voz.
Ela apenas se virou, fitando-o de soslaio e erguendo uma sobrancelha. Seus ombros caídos, pouco impressionada.
— Já que tu quer continuar o jogo, ok, sr. Segredo.
E secou as mãos, tirou o casaco e o colocou no cabide que ficava perto da estante com seus artefatos pagãos. Ela estalou os dedos e buscou um fósforo nas gavetas.
Lucas deu uma outra mordida e continuou calado, assistindo sua mãe procurando incessantemente o objeto. Ele logo se levantou, foi até o fogão e o achou na boca da direita, a de trás.
— Aqui. – e entregou, vendo-a sorrir para ele e acender uma vela. – Alguma reunião se aproximando?
— Sempre tem uma. – ela suspirou e assistiu a chama da vela branca se mexer. – Quer vir comigo? Sei que gosta de hidromel.
— Pensei que não pudesse.
— A gente nunca te enxotaria. Nosso grupo foi feito para acolher tudo e todos. – a voz dela de gralha velha ficou rouca. A mulher tossiu e foi até o bebedouro. – Além do mais, se alguém implicar, eu peito.
— Tenho a impressão que tu gostaria dessa encrenca.
— Tu puxou isso de mim, eu acho.
Lucas abaixou a cabeça e fitou a vela no altar decorado com as formas triangulares valknut – um símbolo do deus Odin, pelo que Lucas se recordava. Ele era assim encrenqueiro? Não sabia dizer ao certo. Sentia que tinha corrido e se escondido mais do que arranjado encrenca.
Talvez ele devesse arranjar uma mais vezes.
— Mãe, o que tu faria por alguém que tu gosta?
Ela parou para pensar por dois segundos.
— Depende do que me pedem para fazer e de quem eu gosto. – a voz dela ressoou às suas costas, ela tomou uns goles de água e suspirou. – Geralmente curto quem me entende.
Involuntariamente, o garoto se virou para ela e perguntou como um raio: — Era assim com...?
A palavra papai assomou a conversa como uma tempestade de granizo. Os cristais afiados de gelo se formando entre os dois olhares que se cruzavam.
— Era diferente. – foi todo o dito, embora ele pudesse ver uma sombra de incômodo trespassar o rosto de sua mãe. Ela pareceu envelhecer dez anos só ao lembrar. – Porque tá perguntando isso? O que a Luíza te pediu?
Ele suspirou e lembrou-se do jeito que Gustavo o olhou.
Nojo e decepção misturados com o azul de seus olhos.
— Nada insensato. – ele quase miou o dito, suspirando em seguida. – Mas nada que eu esteja tão preparado, também.
Greta o estudou com olhar, seus olhos de águia se semicerraram e ela estendeu a mão para o rosto do garoto. Seus dedos acariciaram a bochecha esquerda dele.
— Tem algo que não quer me dizer, né?
— Sempre tem. – admitiu ele.
— Ainda terei ouvidos amanhã. – ela decidiu, afastando-se do filho e dando um sorriso fraco. – Se decidir que pode contar comigo, é só chamar.
Greta se foi a passos lentos para o quarto. Quando seus dedos moveram a maçaneta, braços fortes a envolveram em um abraço. Ela riu e virou o rosto choroso do filho.
Ela o deixou para trás com um beijo. Ele soluçou sozinho e sentou-se no sofá.
Os pensamentos dele continuaram a drenar sua força de vontade. Sua mente era como um sem-teto exposto ao frio mais glacial. Os dedos envolviam-se entre si como sua dúvida quanto ao que estava acontecendo com seu corpo se embolava ao medo de ser jogado para fora do armário.
Lucas logo não aguentou mais ficar em casa.
Ele apanhou um casaco cinzento com capuz, enfiou o celular no bolso e tratou de deixar sua casa.
Greta, de sua janela, assistia o menino deixar a casa para uma caminhada rua afora. Seus dedos tatearam o criado mudo em um gesto já costumeiro.
Ela abriu a gaveta e moveu o dedo da mão direita. Com um silvo brilhoso e verde, um objeto saltou de dentro dela para sua mão – uma moeda, encravada em bronze, com símbolos similares a remos e tridentes encrustados. Um vegvisir, chamariam.
Ela observou os símbolos rúnicos como sempre, não esperando reação alguma enquanto seus olhos estudavam o objeto despreocupadamente.
— Para de se preocupar. – falou para si mesma, suspirando e pousando a moeda no criado.
Greta sentou-se à cama e suspirou, massageando suas têmporas, murmurando a velha oração de proteção que sempre entoava. Seus olhos pesavam de sono e cansaço.
O dia seguinte poderia ser bem cheio.
Ela então deitou a cabeça no travesseiro por quase uma hora, imóvel. Os olhos fechados, mas a mente ainda veloz nos pensamentos e preocupações com seu filho.
Então, uma careta surgiu em sua feição de meia-idade. Seus olhos se abriram e ela se sentou, ainda envolvendo-se com as cobertas felpudas. A vista vagou quarto adentro, focando-se no criado mudo.
E então ela viu.
Um tímido flash rubro tomou parte do vegvisir. O ar perdendo o calor e a escuridão do quarto ficar mais densa. A luz de seu abajur piscou e seu olhar viajou até a janela.
A mulher se levantou em um sobressalto, subitamente sem ar.
Neblina tomava a cidade, o ar da noite ficando cada vez mais escuro enquanto todo o Centro apagava as luzes em uma reação em cadeia preocupante.
Seus dedos se fecharam em um par de punhos trêmulos. Greta fitou o medalhão, agora reluzindo em vermelho na parte de cima enquanto seu centro exibia então um símbolo azul e frio. Duas chamas dançantes, prestes a se encontrar.
— L-Lucas? Como?!
A mulher correu, nervosa e trêmula. Vestindo-se tão rápido quanto podia e agarrando o casaco com cor de musgo de seu cabide. Greta se virou para a estante no meio da sala enquanto corria e gesticulou na sua direção, fazendo algo voar de sua parte de trás – uma vareta de madeira encrustada com símbolos velhos já perdidos no tempo, bindrune, seus companheiros de Grupo Asátru diriam.
Ela tomou o objeto em mãos, apertando-o com força, sabendo de seu real potencial.
— Você não vai pegá-lo! – prometeu para si mesma, seu tom cálido se tornando algo quente e palpável.
Seu rosto de leves rugas ganhou um brilho verde e dourado, criado pela súbita escuridão pela queda de energia geral, tanto pelas chamas que bruxuleavam na ponta da vareta, cuja madeira se alongava e ganhava vida em um cajado de um metro inteiro, feito do mais puro carvalho.
Lucas não estava seguro.
Os passos de Lucas seguiam um ritmo firme. O frio já não o tocava dentro da calça moletom e casaco, com o capuz puxado a frente. Ele estava deixando os pensamentos cansarem seu corpo junto do exercício.
Ele passou por palmeiras imperiais e fícus indianos nos arredores da praça, as folhas balançando com o vento e a neblina se arrastando pelo chão como se fantasmas pudessem surgir das pedras. A proximidade com a Catedral Metropolitana atraía tanto movimento quanto uma quantidade considerável de moradores de rua. Um até havia parado Lucas por uns trocados, mas o garoto não tinha nada trocado.
Ele seguiu correndo praça afora, então, até achar um quiosque de lanche jogado no limite dela. Ele pediu uns pastéis e se distraiu no celular, encostando-se no metal do quiosque.
Tô no lugar do encontro. – Lucas enviou por sms, para ninguém menos que Gustavo. – Lembra? Na Figueira.
— Amigo, a gente tá quase fechando. – disse o velho dono do quiosque. Ele tinha um sotaque nordestino que Lucas não sabia realmente apontar direito de qual estado vinha. – Acho que tu não vais querer ficar aqui por muito tempo, visse?
— Valeu moço. – ele riu e entregou uma nota de vinte, recebendo o troco e os pastéis. – Conheço a região.
— E eu os trombadinhas daqui, guri. – o velho riu e agarrou um cigarro. – Boa noite.
Lucas andou até o senhor que estava no limite do monumento aos heróis – uma lápide grande com o nome dos que guerrearam contra o Paraguai no passado – e o entregou os pastéis, junto com parte do troco.
— Obrigado. – o moço falou, trêmulo de frio. Os olhos, castanhos, fitaram Lucas de pé diante dele. – Seu nome?
— Lucas, senhor.
— Boa noite, menino Lucas. – ele pegou os pastéis e os cheirou, a barba grisalha desgrenhada parecia graxa cinza. – Tu é um guri do bem.
Os olhos do rapaz se recaíram. Ele deu tchau e seguiu seus exercícios, aumentando a música nos fones e verificando se Gustavo o tinha respondido.
Ele não estava exatamente longe da casa do loiro, não seria tão difícil brotar lá de surpresa (e seria uma baita surpresa, tendo em vista que Gustavo morava com os pais e a única vez que Lucas estivera lá, foi quando eles haviam viajado). Mas, sem a resposta do loiro, Lucas simplesmente decidiu que já tinha feito besteira o suficiente.
Ele deu algumas voltas na praça, seu olhar sempre voltando à árvore centenária em seu centro. Ela parecia um monumento feito de madeira e raízes, a copa da figueira era tão grande que parecia ter sido projetada por um deus detalhista e excêntrico. Havia pássaros dormentes, morcegos passantes e quatis aleatórios embolados em suas raízes.
Os galhos eram tão grandes que rasgavam o céu sobre a praça, estendendo-se para todos os lados e sustentados por hastes de metal distribuídas por toda a parte.
Lucas parou de correr e tomou fôlego, arrependendo-se de imediato de não ter trazido água.
Ele se sentou em um banco e respirou fundo várias vezes, até pegar o celular a vista e ver que havia um sms junto das zilhares de notificações.
Me erra. – a mensagem de Gustavo dizia, curta e grossa.
As sobrancelhas de Lucas recaíram. Ele queria jogar o celular longe e gritar até o Centro todo acordar. No entanto, Lucas apenas chorou alto mesmo.
Seu olhar se ergueu para a árvore e ele não pôde deixar de se recordar, Gustavo e ele, voltando de mais uma noitada quando não havia mais tanta gente por perto. Ambos girando em torno da Figueira como os amantes faziam, para dar boa sorte e o relacionamento durar.
E então eles deram um beijo tão longo e duradouro, que só pararam quando a chuva afugentou o par de bêbados jovens e idiotas que eram.
Talvez ele sentisse mais falta daquilo do que deveria admitir.
E talvez ele estivesse sendo um otário com Luíza, que não havia sido nada além de gentil com ele todo esse tempo juntos.
Lucas se sentia como o otário que era. E cogitou ligar para sua mãe no meio do acesso de choro, até perceber que estava sem área. Os dedos foram ficando com os nós brancos e seus soluços, menos frequentes, condensavam-se no ar frio.
Gotas de chuva logo começaram a cair, Lucas se refugiou debaixo da Figueira como podia, mas a gelidez de tudo era mais do que seu casaco e calça aguentariam. Ele com certeza resfriaria na manhã seguinte.
O que já seria uma boa desculpa para não ir à festa de Luíza.
Seus pensamentos, no entanto, foram sendo substituídos por outras coisas que chamaram sua atenção.
Primeiro foram as luzes – todas elas em um raio de um quilômetro, foram sumindo numa reação em cadeia bem extravagante. Os faróis verdes da praça, as lâmpadas dos postes e os letreiros, tudo iam virando breu. Depois, o súbito aumento da neblina e o vento combinado com a chuva, tudo pareceu aumentar.
O ar desceu mais graus do que ele achou possível e Lucas se viu recostado na árvore, tremendo e sozinho.
Ele tomou o celular em mãos de novo e tentou ligar para sua mãe, ainda sem sucesso.
O garoto grunhiu de raiva, colocou o aparelho no bolso e tomou todo o fôlego gélido que podia. Tanto que começou a tossir e correr de imediato, tentando voltar para casa.
Ele correu praça afora na chuva que se fechava sobre cada canto de Florianópolis. Seus passos molhados cruzaram o monumento aos heróis, onde seu breve amigo sem-teto já não estava – claramente tinha sido mais esperto do que Lucas e vazado dali quando o frio apertou.
Seguiram-se apenas alguns instantes até Lucas correr por mais alguns metros, a chuva e o frio drenando sua força, a tristeza em seu interior congelando seus órgãos e a vontade de gritar borbulhando em seu peito.
— Merda de dia! – gritou o garoto, ainda correndo e já chegando perto da catedral e seus degraus imensos, que normalmente serviriam de dormitório para os moradores de rua também.
Agora, no entanto, eles chamaram sua atenção por outra coisa lhe aguardando.
Um cachorro à distância, parado na chuva ruidosa e envolto por neblina branca. Ao ver Lucas parando diante de si, o bicho, que estava a mais de cinquenta metros dele, deu alguns passos para frente, grunhindo baixinho, mas alto o suficiente para o garoto ouvir e estranhar.
Mesmo na escuridão, Lucas sabia distinguir um rottweiler crescido quando via um. Mas havia algo diferente sobre o cão que ele simplesmente não conseguia assimilar.
O rottweiler então deu passos adiantes, a neblina insistente o rodeando como um manto somado ao gotejar gélido que descia dos céus incessantemente, mas apesar das gotas a neblina não sumia. O ar parecia mais frio, o negro de seus pelos era mais escuro que as sombras que recaíam sobre o Centro inteiro.
Então o cachorro avançou mais, deixando visível a corrente de elos negros em seu pescoço, reluzentes como seus dentes que vieram soturnamente a mostra. O bicho ganiu, a neblina ao seu redor se agitou, sendo expelida por seu bafo. Uma camada de gelo inteira começou a irradiar de onde suas patas firmes encontravam o chão.
Lucas deu um passo para trás, subitamente percebendo o óbvio: O cachorro aumentava de tamanho conforme a distância era cruzada. Ele ficava maior e maior, até que, quando chegou nos últimos degraus a menos de quinze metros de distância do garoto, Lucas percebeu que via diante de si um cão do tamanho de um sofá inteiro e bem largo.
Ele ganiu uma vez mais, uma lufada de frio agitou o ar e a chuva.
— Ca-cachorro b-bomzinho?! – a voz de Lucas vacilou.
Os dentes do bicho vieram a vista, seu corpo se tensionou e, bem pouco inteligentemente, Lucas começou a correr do cão gigante.
Notas finais
Conheçam: Lucas Hódrson - https://www.youtube.com/watch?v=V6m7b5xJq7Y
Na academia: https://www.youtube.com/watch?v=yHWDqRpqUgk
Greta e Lucas conversam: https://www.youtube.com/watch?v=Ju6jDgWq-Ts
Lucas recorda-se de Gustavo: https://www.youtube.com/watch?v=yOwwSByMd0k
O cão na neblina: https://www.youtube.com/watch?v=jRG0gyVFP60
Eis o fim do primeiro capítulo, amigos!
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