Notas iniciais
O capítulo final de nossa história finalmente chegou: Lucas vs Hódr enquanto Floripa assiste o embate. Quem vive? Quem morre? Lucas falará novamente com os amigos e amores que fiou em sua vida até então. Tendo aceitado suas verdades e tomado a Visgo para si, que coisas ele será capaz de fazer agora? Leiam o capítulo final e teremos a resposta juntos. Coloquei a trilha sonora nas notas finais!

Brigas de família feias fazem parte da história de cada um. Poucas são as que realmente acabam sem um ou mais se machucarem.

E, olhando para o confronto de proporções épicas que estava tendo, a mente mortal simplória de Lucas apreendeu o que se tratava sua própria história: Uma grande, cósmica e conspiratória treta familiar.

As lâminas de ambos combatentes abriam caminho, cortando o vento e tecendo o ar com sombras gélidas cheias das réstias do poder asgardiano que vibrava em seu sangue. Azul e vermelho, cobalto e sangue coagulado. Ambas frentes frias se enlaçavam aos arcos de uma lâmina gélida chocando-se contra o fio rubro-negro de um machado aterrador.

Lucas grunhiu e desvencilhou-se do golpe, seu instinto movendo seus dedos, alternando o peso nos pés e escapando para longe de uma lufada negra de aço asgardiano que rachou o chão em uma explosão gélida.

A rachadura solidificou o ar em gelo sombrio e escarlate, criando um rastro de três metros raspando a esquerda do garoto. Lucas manteve o ritmo de sua respiração e gingou para mais um arco enorme do machado, ouvindo seu pai grunhir: — QUANDO EU ACABAR AQUI, TRANSFORMAREI VOCÊ, SUA MÃE E TODA ESSA CIDADE EM NADA!!! – outro golpe esquivado. Lucas aproveitou e moveu a Visgo em um arco contra o rosto do deus, que repartiu o ataque com uma trombada de ombro que jogou o menino metros para trás cambaleando. – VOCÊ VAI MORRER!

O machado voou na direção dele com um giro mortal, arrastando uma nuvem negra de gelo e pesadelo, com o urro do pior pai da galáxia logo atrás ecoando pelo vento.

Lucas teria sido decapitado, não fosse a intervenção da outra deusa no meio de Floripa.

— Varða!

Chamas douradas reluziram em um turbilhão de nuances verdes como clorofila. Lucas as viu chocarem-se contra o machado e manda-lo longe, aos pés de seu pai. Atrás dele, no entanto, se encontrava sua mãe com a palma estendida para frente, ofegante e fitando-o com urgência.

— PRETENDE SE INTROMETER, SUA VADIA ESTÚPIDA?! SEMPRE NO CAMINHO! VOCÊ SEMPRE FOI IMPRESTÁVEL SEM MIM!

— VÁ PRA HEL!— ela urrou em resposta, projetando chamas adiante e deixando seu poder jorrar enquanto escandinavo riscava sua língua com encantos antigos.

Hódr foi jogado para trás, envolto em chamas e mágica de Greta, que ofegava e oferecia sua mão para o filho: — De pé!

Lucas não protestou.

De pé, ele a encarou nos olhos, o coração batendo velozmente como o vento que uivava nos céus acima. O clima em Floripa parecia brigar, com duas frentes frias inimigas fazendo morada em um funil nebuloso e sombrio que fazia o vento parecer cortante com seu gelo em rota de colisão para todo lado.

— Mãe, eu sinto muito não ter te contado.

— Contado que era gay?! É ISSO SUA PREOCUPAÇÃO?! MEU DEUS, LUCAS! – ela berrou e bagunçou o cabelo, negando com a cabeça e rindo, sôfrega. – Não te amaria nem um pouco menos e CUIDADO-

O machado passou rente a ele, errando-o por pouco graças a sua mãe, que o abraçou e gritou algum de seus encantos, fazendo uma parede de vento dourado explodir em uma rajada de força enquanto seus braços se encontravam.

Ela ofegava, vendo a Fimbulwinter retinir contra eles enquanto a forma aterradora de Hódr se aproximava para mais um golpe de ódio.

Lucas empurrou sua mão de lado e sentiu a barreira cair bem a tempo de ver seu pai odioso cortar o espaço entre eles com seu machado.

O entrave com a Visgo liberou uma lufada de frio uivante. O ar rodopiou entre ambos, os olhos dos dois vagando entre si e suas lâminas. Eles grunhiram um para o outro como animais ferozes, disputando por espaço.

— Sacrifiquei tudo por isso, criança tola! Não deixarei nada ficar entre mim e o que quero!

— Ninguém...- Lucas gemeu de dor e sentiu a força dele ser testada uma vez mais. — ...se...- O garoto berrou e estendeu os braços com força, abrindo um pequeno vão no entrave e gritando na cara de Hódr com todo seu fôlego. — ...importa!

O choque se desfez com um gingado de Lucas, que apenas moveu o corpo e chutou o pai com força, bem no abdômen.

Ele viu o colosso ser atirado longe, amparando-se ao chão com o machado, tal qual uma bengala laminada. O olhar de ódio em sua face era pura revolta.

— Eu não ligo para suas ambições. – falou Lucas, ouvindo o rugido da ventania e do frio. Gelo cobria o chão e afastava qualquer lembrança de um verão próximo. – Nem para seu grande objetivo.

— Mediocridade sempre foi o estilo de vida dela. – Hódr se pôs de pé e cuspiu no ar em direção a Greta, que recuava da praça junto a uma assustada Luíza. Os passantes distantes olhavam o confronto com curiosidade, viaturas policiais iluminavam a noite escura na distância. – Você nunca poderia maior que o que ela lhe permitiu. Gullveig te privou da vida de um guerreiro honrado, criança tola!

Hódr cintilou em rubro, as sombras e o vento serpenteando o ar ao seu redor como um funil. Lucas se colocou adiante, o ar ainda rodopiando em seu próprio luminoso redemoinho.

— Tudo que têm em sua patética vida é este lugar miserável e estes mortais que não reconheceriam grandeza nem que ela os esmagasse. E é exatamente o que acontecerá, quando eu matar a ti e todos aqui!

Alguém gritou na multidão que assistia. Lucas suspirou, sentindo seu coração batendo e os músculos iluminados por espirais, runas e marcas mágicas doendo com o esforço que estava fazendo.

— Você não entendeu, Pai.— a palavra pareceu se desmanchar em sua boca como carvão e cinzas. Ela não pertencia a seu vocabulário, mas com certeza chamou a atenção do asgardiano homicida, como se fosse um insulto. – Tu fala de grandeza, conquista e outras babaquices. Invade minha casa, machuca quem eu amo e tenta me humilhar por não ser o que você esperava. Mas, de novo, te digo: Eu não ligo! Eu estou bem, tenho gente ótima aqui comigo e amor pra caralho. Tudo isso é maior do que você é e mais poderoso do que você jamais será!

Um estampido de disparo foi ouvido junto ao rugido do asgardiano, a pressão do ar se alterando enquanto ele espumava de raiva entredentes trazia o frio ártico para o sul do Brasil.

— Não tenho medo de você e nem de ser quem eu sou! – Exagero ou não, Lucas empunhou a espada adiante e tensionou o corpo, vendo o pai começando a vir em sua direção com passos que estrondavam o chão em lascas de pedra.

Lucas correu na direção do pai com tudo e se jogou para o lado bem na hora de um amplo golpe de machado, que jogou uma labareda gelada e rubra que cristalizou o chão em rachaduras frias bem onde o garoto estava um segundo antes.

Ele girou a Visgo com toda a habilidade que tinha (não muita, diga-se de passagem, Lucas estava seguindo seus instintos como podia) e riscou as costas do pai em um arco com a lâmina gélida. O gigante gritou e se voltou com outro golpe de seu machado, mas Lucas apenas recuou com um salto de seis metros para trás, esquivando do aço frio.

Hódr urrou como um mamute e golpeou o chão, que rachou em uma onda de ar frio e trevas. Gelo rubro-negro emergiu em uma tempestade de estalagmites recém-criadas, quebrando em uma onda na direção de um Lucas surpreso e aterrorizado pela visão. Aquilo era tão grande que engoliria o rapaz e todos em um raio de trinta metros burro o suficiente – Luíza e Greta— para estar ali.

Ele teve meio-segundo para reagir.

E uma vez mais, apenas seguiu o seu instinto.

Suas mãos sentiram o pulsar de sua arma encantada bem no meio e, com um repuxo rápido, ele a viu se separar em um par de espadas, não mais uma única haste.

Riscando o ar para cima com apenas um golpe, ele gritou com todo seu fôlego. Vento e fúria seguiram o movimento, a luz em seu corpo emanando pelas lâminas enquanto seu grito tomava a forma e o nome da runa em formato de ᛁ que se formou.

— Isaz! – “Gelo!” sua mente traduziu em um lampejo.

A lufada de poder estilhaçou a onda de terror pontiaguda que vinha em sua direção com o som de uma geleira se partindo: Amplo e estrondoso. O ar se laminou adiante com estilhaços gelados em sua extensão azul-cobalto em um risco de poder que viajou até um Hódr surpreso.

Ele mal teve tempo de reagir quando o poder encontrou seu corpo, golpeando-o com projéteis gelados que rasgavam sua pele e sentindo-se arremessado longe como um boneco de pano perfurado por granizo.

Lucas ofegou e sentiu tudo em seu corpo doer, mas não parou.

Ele correu adiante enquanto via seu pai ainda atordoado se levantando com o machado em mãos, ódio e confusão nublando sua vista.

O semideus saltou adiante com uma espada em cada mão, o vento levando-o para os céus, alto como nunca em um único salto. Frio se acumulou nas lâminas, o vento formando uma camada de poder azul cristalizada que envolvia-o em um manto formado por sua coragem.

Era hora de acabar com aquilo de uma só vez.

Lucas caiu do céu como uma estrela de topázio. Fria, certeira e poderosa.

Hódr tentou um último golpe ainda, saltando na direção do garoto em seu ódio escarlate. O deus golpeou o ar bem na hora que seu filho vinha com as lâminas em riste, descendo em sua direção como a foice da morte.

O machado se estilhaçou com o choque, uma onda nuclear de frio intenso eclodiu do choque, cobrindo todo o horizonte com um anel de neve, gelo e poder. O baque estrondoso seguinte abalou toda a praça como um terremoto.

Quando a neve e a neblina abaixaram, os mais corajosos se aproximaram.

Greta e Luíza foram as primeiras a gritarem: — LUCAS! LUCAS!

— A-aqui! – gritou ele, ofegando e tremendo, se tornando mais visível assim que a cobertura de névoa sumia.

Greta parou no lugar ao ver a cena, Luíza, como sempre, apenas ergueu o celular e se juntou à multidão de flashes com o celular.

Hódr estava com ambas lâminas enfiadas no peito, o olhar estupefato congelado em um esquife azul de gelo encantado criado pelo poder de seu filho. Lucas estava agachado no peitoral dele, segurando os cabos das lâminas Visgo com os dedos trêmulos.

Seus olhos eram pretos de novo, as runas em seu corpo haviam sumido, junto com toda reação de seu pai petrificado.

Lucas sorriu sôfrego e quase imóvel.

Sua última visão foram as lágrimas de sua mãe e o sorriso vitorioso de Luíza.

— Ele está demonstrando melhora em uma velocidade...— a voz do doutor cessou assim que ele percebeu Lucas acordado. Greta, vestida com uma camisa bege e cheia de curativos, se aproximou do garoto com um sorriso cálido que Lucas já não lembrava de ter jamais visto. – Enfermeira! – chamou o médico.

O que se seguiu foi um check-up que arrancou mais risadas de Greta que o pretendido. O hospital simplesmente não parecia capaz de lidar com um Aprimorado, como eles tão bondosamente nomearam Lucas.

Sua mãe se recusava a sair de seu lado, não importava o procedimento. E, aparentemente, todos haviam visto o vídeo onde Lucas enfrentava o Gigante de Gelo, como nomearam Hódr.

Quando eles finalmente conseguiram tempo para si mesmos, Greta ligou a TV e mostrou o que se passava nas reportagens de todo o país: Jovem misterioso enfrenta suposto alienígena. Testemunhas confirmam confronto entre asgardianos em Florianópolis. PRIMO DO THOR enfrenta JÖTUNN.

— Primo do Thor me fez rir. – confessou Greta, jovial como nunca enquanto continha sua gargalhada. Ela observou a face incerta de Lucas e se ajeitou no assento ao lado da cama. – Como se sente...com tudo isso?

— Honestamente? Não sei o quê pensar. – ele pousou as mãos sobre o robe do hospital e a coberta. Seus músculos já não gritavam em ardência ou dor, mas as tatuagens agora estavam visíveis: Linhas negras sobre a pele com runas que sua mente fazia certo esforço para entender. – Eu estou tatuado todo? Até na cara?

— Não. – a mãe o tranquilizou. – Mas metade do peito, perna e braço sim.

— Eu ainda estou sob o feitiço? Digo, o que contém meu poder?

— Não tenho certeza. – ela passou os dedos sobre o braço direito do rapaz e suspirou. – Acho que você mudou ele de algum jeito. Tornou a mágica que o prendia em sua própria força.

Um lampejo de orgulho iluminou os olhos de sua mãe. O respeito de uma bruxa antiga reluzindo sob sua fachada de sempre.

— Acho que te devo desculpas por esconder tudo por tanto tempo. — ela procedeu, suspirando e se recostando no assento.

— Acho que nenhum de nós estava preparado para honestidade. – murmurou Lucas, coçando sua cabeça por alguns longos segundos.

— Tu diz? – Greta riu.

— Vai dizer que nunca desconfiou?

— Tinha minhas suspeitas, seu tanso. – ela deu um soco amigável no peito do garoto e riu para si, negando com a cabeça. – Não sou idiota. Sou tua mãe, guri.

— A melhor que eu podia pedir.

O sorriso de ambos veio fácil. A cabeleira loura de Greta foi afagada pelos dedos do filho em um abraço merecido e duradouro. Não demorou para o choro se fazer presente entre ambos.

— Amo você, mãe.

— Também te amo, pequeno.

Ela beijou sua bochecha e limpou as lágrimas, se afastando.

— As coisas vão ficar complicadas agora. – clarificou. – A praça virou um circo de oficiais ao redor de sua espada, que ninguém consegue tirar do chão. Sua amiga te divulgou como super-herói e de algum modo você virou um ícone gay de repente no Twitter com a súbita publicidade. Seu pai foi levado para longe, uma prisão que chamam de Ilha.

Greta negou com a cabeça.

— E eu acho que tem gente querendo falar contigo sobre...Você sabe, ter se tornado o super-herói do momento.

— Meu Deus. – foi tudo o que ele conseguiu articular.

Ao menos seu pai estava longe e preso, esperançosamente, para sempre.

— Eles vão conseguir contê-lo? Quer dizer, meu pai?

— Não sei. Mas, honestamente, duvido que haja algo poderoso o suficiente para romper o gelo que você criou daquele jeito. – Greta admitiu, expondo sua palma, que reluziu com a forma dourada de uma espada ilusória. A Visgo. — Tu é muito poderoso e precisa tomar consciência disso.

— Quando peguei ela, vi Baldr. Ele disse algo sobre alguém heroico e corajoso poder clamar ela para si, alguém equivalente a quem a espada matou.

Greta assentiu: — Esse deve ter sido o encanto de Odin antes de arremessar a espada para cá. O velho sempre viu mais a frente do que todos.

— E então...A Visgo é sua, rapaz. O que vai fazer com ela? – os olhos verdes de Greta assomaram sobre ele, que deu de ombros. – Pretende fugir de seu destino?

Lucas se recostou na cabeceira e fitou seus dedos, juntando-os com força e tomando fôlego em seguida.

— Chega de correr.

Greta pareceu apreciar a resposta.

Ela se moveu e deixou um último beijo na testa antes de sair do quarto.

Lucas estendeu a mão para a janela e a chamou, então.

Alguns segundos depois, quase um minuto inteiro se passando, ele viu os estilhaços de vidro da janela se espalharem no ar enquanto que o silvo de sua arma ao pousar em sua mão cessava.

— Visgo é um nome estúpido. – ele decidiu com um sorriso. – Acho que prefiro...Sombra do Inverno. Tipo aquela música de Simon e Garfunkel.

O garoto riu para si mesmo quando a enfermeira, desesperada pelo barulho, entrou no quarto e o encontrou com uma espada de dupla ponta em mãos.

Sim, ela desmaiou.

Lucas olhou para a TV, onde um story gravado por Luiza se repetia no Jornal Hoje.

“Então ele tipo que me salvou do cachorro gigante do Inferno, velho! Foi demais! Aesir era meu namorado e tal, e eu nem sabia!” — ela contava. Depois, Sandra Annenberg intervia para mostrar o vídeo, filmado ainda por Luiza, do Confronto em Floripa. “—eu sou viado!” e a filmagem era tomada por vento e gelo, além de espadas de chocando e um Lucas flutuante, grandioso.

O garoto riu e se voltou a sua esquerda: — Eu adorei o nome, Æsir.

— Sou uma excelente manager. De nada. – ela murmurou enquanto pegava mais uma colherada da sobremesa, Mousse de Maracujá. – E os patrocínios não têm parado, hein. Mas se bem que achei sem noção aquela galera pedindo por uma sessão de fotos de armadura para uma propaganda de ar-condicionado. Por favor, né.

Lucas rachou de rir e tomou uma colherada para si. Luiza o censurou com um tapa forte, mas agora aquilo para ele era como ser golpeado por um Lego arremessado.

— Vai largar a faculdade, é? – ele perguntou, sincero.

— Nunca quis Moda. – ela confirmou e deu de ombros. – Além do mais, sou bem melhor como Influencer e administradora. Por sinal, o Prefeito te quer para a confraternização de Fim de Ano que vai ter na praça. E eu disse que você vai.

— Pensei que ele tinha ficado irritado com o dano colateral.

— E ficou. Até eu lembrar calmamente o público que, caso não fosse por ti, não haveria Floripa para se viver no dia seguinte.

— Sua cobra, a gente não sabe disso! – Lucas rebateu.

— Ei, agora eles sabem. E isso é suficiente. – a garota riu e deu mais uma última colherada no mousse, que acabou. — De nada.

Luiza se levantou e Lucas a acompanhou até a porta. Ela gritou um sonoro “Tchau, Dona Greta!” que estava ocupada lendo seu tomo antigo de feitiços de Vanaheim que tinha conseguido invocar de seu antigo lar. Ela estava fazendo o possível para analisar o que poderia ocorrer agora que Lucas tinha despertado suas habilidades, tanto de meio-asgardiano como o talento latente para magia que vinha graças a ela.

— Te vejo amanhã? – perguntou a garota. – Na praia, que tal?

— Eu tenho tempo na agenda, Luiza? – perguntou.

Ela riu, acenou com a cabeça e o abraçou forte, como sempre fazia agora. Os dois trocaram um olhar de cumplicidade sincera e honesta. Um perdão construído no meio do caos da forma mais espontânea que tinham conseguido.

Era algo ótimo para se testemunhar, algo verdadeiro, que o garoto amou poder testemunhar diante de si e de sua melhor amiga.

Lucas a viu ir embora em um Uber que não demorou. Ele teve que tirar foto com o motorista, por sinal.

— Ei. – uma voz ecoou da rua assim que ele ia fechar a porta.

Lucas saiu e encontrou Gustavo, vestido em uma regata branca estampada com uma praia. Os olhos brilhantes do louro se iluminaram de preocupação por alguns instantes.

Ele deu passos à frente, Lucas abriu a porta e o convidou para dentro.

— Você sumiu. – disse Gustavo, com um olhar vago repentino.

— Tava ocupado me mudando e com...Tudo. – ele falou, mostrando a casa nova onde estava. Os móveis novos combinavam-se com as fotos antigas de sua mãe e ele, além de um espaço para a Sombra do Inverno na parede, com uma estante ao lado que tinha uma foto inusitada: Luiza abraçando-o e ele estando de armadura, posando de frente à Figueira.

— Saquei. – Gustavo sentou-se em um banco de frente a um tablado de granito, perto de onde sua mãe guardava os licores que haviam sobrevivido ao ataque à casa, junto a um barril de Hidromel Vanír que, segundo ela, tinha a acompanhado desde suas vidas mais antigas.

Lucas sentou-se de frente ao garoto, seus dedos batendo de leve contra o joelho e o tecido preto do short que usava.

O silêncio desconfortável se prolongou.

Os garotos se observavam à luz do pós meio-dia que vinha da janela ao lado da porta. Lucas ajeitava-se em sua camiseta de futebol branco-e-preto velha do Figueirense que usava dentro de casa apenas. Já Gustavo se remexia vez ou outra, seus dedos se movendo sobre o zíper da bolsa tiracolo que carregava.

— Acho que te dev-

— Nossa o que aconteceu-

Os dois, tendo se interrompido, se encararam e respiraram por alguns longos segundos. Gustavo fez um sinal de “Você primeiro”, com a mão.

— Te devo explicações, eu acho. – murmurou Lucas.

Gustavo assentiu e riu de leve.

E então sua face foi viajando para toda emoção que tinha no escopo humano quando Lucas narrou o que tinha acontecido com ele naquele fim de semana com o pai.

Ele acendeu suas runas diante do outro, que estendeu os dedos e tracejou as linhas braço acima, dedilhando os músculos de Lucas com cautela e gentileza. O toque deu arrepios e sorrisos ao garoto, que respirou no mesmo ritmo que Gustavo, vendo-o se afastar depois do que pareceu uma eternidade.

— Hódrson, isso é...Incrível.

Lucas queria dizer que incrível era um baita de eufemismo. Ele jamais poderia conceber a ideia que sua vida daria uma curva dessas assim do nada.

— Na noite do aniversário, você já sabia?

— Sim. – murmurou. – O cachorro era de meu pai, a propósito.

A cara de Gustavo era um grande “Porque não, né?”.

— C-Como se sente agora, depois de tudo? — ele gesticulou em confusão para o garoto, a casa nova e todo o resto.

— Novo, eu acho. – a honestidade respingou de sua língua com uma facilidade e leveza que Gustavo jamais testemunhara. Os movimentos de corpo de Lucas eram mais despreocupados, como se uma leveza sobrenatural fluísse por seus músculos, agora mais bem-pronunciados do que nunca.

Ele parecia uma cascata límpida de bronze, se levantando, pegando um copo de água e bebendo diante de Gustavo, que só conseguia segurar sua respiração. Aquele menino havia mudado muito.

— Soube que se assumiu. – foi direto ao ponto, virando o olhar para Lucas e deixando o ar de seus pulmões escapar. O meio-asgardiano parou, fitando-o com seriedade.

Greta, que entrava na sala com o livro em mãos, parou de repente. Ela fitou-os de relance, riu para o filho e deu meia-volta imediatamente ao ver Gustavo ali. O loiro acenou para a deusa, mas foi ignorado.

— Estou feliz por ti. – o loiro disparou e sorriu de soslaio.

Um segundo inteiro de silêncio se seguiu.

— A gente pode ir lá pra cima? – perguntou Lucas, recebendo um assentir do outro.

Eles subiram às escadas até o quarto do garoto, que fechou a porta e se virou para um Gustavo perdido sentado na cama. O azul do quarto enaltecia o dos olhos do rapaz. O céu nublado lá fora com chuva perene brigava com raios de sol que entravam pela janela.

Lucas estava parado na porta.

E então, depois de meio-minuto calado, sentou-se ao lado de Gustavo.

Os dois ficaram juntos por quase um minuto inteiro. Lucas o esquadrinhava com o olhar, estudando sua feição com detalhismo e expressões na face que fugiam aos olhos absortos de Gustavo, ele estava ainda distraído ao jeito como Lucas se movia e fluía diante de si.

Lucas o beijou, inclinando-se para seu rosto iluminado, tragando os lábios junto aos dele e segurando seu rosto. Os suspiros de ambos eram leves, livres e vivos. O movimento deles agora era um ritmo consonante e justo. Os dedos claros e magros de Gustavo explorando as novas tatuagens de Lucas, que deixava seus lábios passearem a encosta do pescoço do outro enquanto aspirava seu aroma de hibisco e chuva fresca.

A perna do loiro se cruzou com a dele. Seus corpos se moveram e se enroscaram ao passo que os estalos de beijos preenchiam o ar. A textura dos lábios de ambos fiando uma história ornada de mentira minguadas a verdades, agora expostas, vivas e reluzentes como as runas de Lucas.

Gustavo encarou a face de Lucas, deitando-se sobre ele e beijando-o uma vez mais, apenas para notar algo e recuar com as mãos dentro da camiseta do semideus.

— Chorando?

— Sim. – Lucas se levantou vagarosamente, os corpos de ambos hesitando em se desgrudarem, suspiros de lamúria se arrastando com o movimento de cada um.

Ele fitou Gustavo, buscando uma calma dentro de si que não existia antes. Juntando as mãos e respirando fundo, Lucas disse: — Eu acho que a gente não pode ficar junto, Gus.

O olhar retorcido de Gustavo doeu mais que Lucas previa. O mesmo olhar quando dizia que precisava ir embora ou que não era para se falarem pessoalmente demais.

O olhar que Gustavo fazia quando Lucas dizia que tinha medo de sair do armário, era aquele.

— Por quê?

Outro suspiro longo, Lucas fitou os olhos azuis de Gustavo e disse: — Eu não precisava de pressa ou julgamentos antes. Não que eu fosse perfeito ou que Luíza merecesse o que eu fazia com ela, mas você nunca tornou nada fácil. – Lucas suspirou fundo, vendo resquícios de lágrimas tomarem a face bela de seu ex. – Não é fácil encarar suas próprias verdades. Elas doem e te escracham. Eu fui atirado em direção às minhas e não desejo isso para ninguém. Mas a questão é que...Sua verdade, a que eu quero te deixar saber é que...

Um segundo de silêncio mais longo que o possível se passou. Lucas percebeu tudo: Os punhos cerrados de Gustavo, a dor vermelha tingindo sua face e a constatação perfurante que ele estava prestes a fazer iriam derrubar o loiro.

Mas era preciso.

— ...você nunca foi um namorado compreensivo quando eu mais precisei.

— Nunca fui seu namorado! – a resposta estalou de volta como um chinelo na parede, Lucas apenas se inclinou para longe por um instante, vendo Gustavo fita-lo com raiva pura. – E eu teria que ser o compreensivo, guri? Caralho, vai se foder!

— Para você isso era o que importava e tu sabe disso. – a calma enervante de Lucas parecia fazer Gustavo querer explodir. As lágrimas frias desceram uma ou duas vezes no rosto escuro do semideus, que suspirou e disso: — Mesmo eu tendo sido um otário, acho que é válido dizer que tu também foi um. Essa é a verdade, desde o primeiro dia.

Gustavo não tomou aquilo com mais paz e tentou discutir. Lucas admitiu vezes e vezes o quão otário havia sido, já o outro não parecia tão propício a isso.

Dando de ombros, Lucas se deitou na cama já perto das três da tarde.

Greta entrou no quarto sem bater na porta, encontrando-o reflexivo e triste.

— Diga a ele que se bater a porta na saída daquele jeito de novo, transformo ele em um jabuti.

Ela se deitou ao lado do filho, que riu de leve.

Lucas chorou mais e a abraçou, suspirando.

A chuva e o sol lançaram um arco-íris sobre ambos.

—-----------------------Æsir–------------------------

Quando Æsir lançou os dois sequestradores que apreendera na perseguição policial instantes antes para dentro da delegacia, ele se virou para sair, já que estava atrasado para uma entrevista.

Ainda assim, tinha o celular em mãos e falava com os seguidores: — Sério, eles estavam formando essa quadrilha de sequestradores tinha tempos. Mas a polícia tinha segurado eles o bastante e os alcancei à tempo! Conseguimos mais uma vez, família! Æsir fora! Vejo vocês hoje à noite, vai ser tri!

E ele postou a filmagem despreocupadamente, rindo ao receber notificações imediatas. Acenou para um conhecido e se virou, apenas para dar de cara com um cara de terno encarando-o.

O broche prateado em seu bolso tinha a figura de dois peixes indo atrás da cauda um do outro. O vento balançava os cabelos ondulados e castanhos do homem, que tinha uma tatuagem nas laterais raspadas, também com a figura de dois peixes em cada, pretos e brancos.

— Boa noite, sr. Hódrson. Æsir, ou como queira. – murmurou o homem, remexendo no óculos escuros que usava em plena noite.

— Quem? – ele apenas perguntou, cauteloso e guardando o celular em um vão na armadura. A Sombra do Inverno pendia junto à capa azul pequena em suas costas.

— Sou o agente Octávio Morais, da P.I.S.C.E.S. – a voz dele guardava uma seriedade angulosa, como seu rosto. Seus olhos eram argutos e o queixo era bem pronunciado. Todo movimento no corpo parecia medido e dosado.

— Pisces?

— Programa Intensivo de Segurança Coletiva Especializado e Super-Humano. – a face de Morais se contorceu ao dizer aquilo tudo. – Sei, péssimo acrônimo.

— Tu diz? – murmurou Lucas, irônico.

— Estou aqui representando o Governo e o interesse de regulamentação de suas atividades, como são conhecidos nos Acordos de Sokóvia. – Morais juntou os pulsos e falou, em seguida. – Nossa organização, no entanto, busca um ponto de meio-chão entre as necessidades de empregar os talentos de indivíduos aprimorados no campo e satisfazer a ordem social. Estou aqui, mais especificamente, para falar da iniciativa Protetores.

Lucas riu do nome, uma clara alusão aos Vingadores de fora.

— Vemos em você, Æsir, uma oportunidade única de parceria que...Poderia salvar a vida de milhares, na ocasião de precisarmos de auxílio. – o tom de Morais pareceu mais amistoso nessa. Ele se recostou no próprio carro e buscou papéis dentro do terno, para entrega-los para Lucas. – Ser um vigilante ilegal é efetivo em certa escala, mas peço que considere nossa proposta. O financiamento é tentador, modéstia parte.

Um sorriso breve se formou no rosto de Agente Morais, Lucas pegou os papéis e disse: — Hã...Eu vou pensar no assunto. – admitiu, cheio de incertezas, mas com a possibilidade de fazer coisas maiores, bens maiores, surgindo em sua mente. – Mas obrigado, sr. Morais. Como te acho?

Morais logo lhe entregou um cartão e acenou com a cabeça para ele.

— Gostei da capa, Æsir. – disse, então, antes de entrar no carro e partir.

Lucas fitou o cartão com cautela e o guardou.

— Depois pensamos nisso. – murmurou para si, para então alçar voo em um só salto.

Ele se ergueu acima da luminosa Florianópolis e atendeu o telefone, ouvindo a voz familiar de Luíza gritar: — Onde tu tá, guri?!

O garoto riu e respirou fundo, apreciando a vista e as estrelas, sentindo o vento ecoar contra sua silhueta e o frio das altitudes lhe abraçarem.

Ele sorriu, feliz com que havia se tornado, com o rumo que havia tomado.

E uma vez mais, voou adiante.

Æsir.

Notas finais
*Playlist do Capítulo* — Hódr Odinson vs Lucas Hódrson - https://youtu.be/lhg9bYNLvOg - Thunderstruck AC/DC — Lucas, o Aesir - https://youtu.be/YEJp6UiLI8c - Mortal Reminder - Pentakill — Construindo algo novo/Lucas e Greta - https://www.youtube.com/watch?v=0hBwa3upI-E - Bury the Past, Build the Future - Max Aruj — Um novo começo/Lucas em sua casa nova - https://youtu.be/dVA-1iJxRQI - Hazy Shade of Winter, Simon & Garfunkel. — Seguindo em frente/Tema final de Aesir - https://youtu.be/hkyOSdfjyJY Bem pessoal, foi uma jornada e tanto. Agradeço bastante quem me apoiou até aqui! Um beijo a todos, foi um deleite escrever essa história e finalmente partilhar com vocês. Até outra hora!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!