Os Problemas de Akazawa Jundō
3 Vol.1 Aliens Problemáticos (Parte 2)
No dia seguinte, Akazawa acordou mais cedo como de costume. Ele se levantou e tentou não pisar no futon de Lyra acidentalmente em seu caminho para as luzes. Quando o cômodo foi iluminado, a garota sentiu um pouco de desconforto pela mudança súbita de iluminação, mas voltou a dormir. O garoto então se retirou do quarto sem acordá-la, indo direto para a cozinha.
Na cozinha estava apenas seu pai, que estava sentado em uma das banquetas da mesa, com uma xícara de café em sua mão. Ao ter a visão de seu filho cruzando a sala até a cozinha, ele perguntava:
— Nossa nova hóspede não acordou ainda? Temos que discutir o custo da hospedagem. — disse ele em um tom sarcástico.
— Então você decidiu aceitar ela no final? Duvido que ela entenda quanto vale nosso dinheiro, quanto você vai cobrar dela? — Ele perguntou enquanto reunia alguns suprimentos para preparar o café da manhã.
— Eu ponderei um pouco sobre os gastos que ela me traria e decidi que cobrar 30 mil ienes seria um bom negócio. É um pouco mais barato que o aluguel de um apartamento, mas ela terá bem mais do que apenas o espaço, então estou fazendo um favor.
— Bom, não tem o que ser feito. Eu trouxe ela pra cá então eu ajudo ela a arranjar um jeito de pagar os custos. O problema é que ela não parece saber fazer nada, então eu vou ter um trabalho bem difícil. — disse Akazawa enquanto colocava uma porção de arroz para cozinhar.
— Ela é uma garota muito bonita, talvez você possa colocar ela para trabalhar em um cabaré. — disse Suigin em um tom mais sério do que deveria ser ao dizer algo assim.
— Você está maluco velhote? Como se eu pudesse fazer isso! Aquele lugar só tem predadores, eu nunca vou deixar ela em um lugar assim! — O garoto disse, totalmente irritado apenas com a possibilidade de fazer algo assim.
— Bom, não importa o que você diga, ainda é uma possibilidade. Mas você não acha que está se preocupando demais com alguém que é totalmente estranho para você?
— Eu não me importo com isso! Ela é uma boa garota, não quero que ela passe por problemas como velhos em um cabaré olhando para ela como se fosse um pedaço de carne. — Ele disse e então cruzou os braços, emburrado. — Eu ouvi falar que alguns clientes abusaram sexualmente de garçonetes. Ela é inocente demais para ser deixada com pessoas tão mal-intencionadas. — Ele disse, com os olhos arregalados como se estivesse assustado.
— Ou é o que ela quer que você pense? Já parou para pensar na possibilidade de ela estar tentando te enganar? — O pai disse se debruçando na mesa e encarando seu filho.
— É claro que não! Se tem uma coisa que ninguém deve subestimar é minha intuição! Eu não senti nada de ruim nessa garota. Além disso! Se você está desconfiado, por que deixar ela ficar? — Com essa resposta, Akazawa apontou a colher de pau para o velhote e então rapidamente preparou uma tigela de arroz, quebrando um ovo cru por cima e temperando com molho shoyu, colocando na frente de seu pai.
— Eu não estou desconfiado, é apenas uma possibilidade. Além disso, você nunca pareceu confiar tanto em alguém assim, então estou impressionado. — Ele respondeu observando o prato que Akazawa o havia servido. — Com ovo de novo? Já é a terceira vez nessa semana.
— Ah, deixe de reclamar. Eu também tenho comido isso faz algum tempo, não posso preparar algo elaborado para o café da manhã todos os dias. Além disso, qualquer coisa que eu prepare é bom. — Akazawa respondeu.
— Você realmente é um garoto muito convencido. — Ele abriu um sorriso sutil e começou a comer.
Durante essa conversa, sua irmã Saki chegou até a cozinha, sendo acordada pela entonação alta de Akazawa ao defender Lyra. A garota prontamente reclamou da atitude de seu irmão:
— Pelo visto meu irmãozinho realmente está agitado hoje de manhã, eu não consigo dormir com todo esse barulho. É sobre sua nova namorada? — Ela disse e então bocejou.
— Cala a boca, sua peste. Apenas come logo. — Aparentemente ele já havia preparado mais dois pratos de arroz com ovo, servindo um para sua querida irmã.
— Arroz com ovo de novo? Tu tá de brincadeira? Se tem tantos ovos assim para gastar, me faça uma panqueca bem doce! — Ela reclamou, indignada.
— Eu já não disse pra calar a boca? Você é mesmo uma pestinha mimada! Come o que tem ou fica com fome! — disse Akazawa, totalmente irritado com a impertinência de sua irmã.
— Ei papai, olhe só! O Akazawa está sendo maldoso comigo! — disse ela fingindo um olhar de choro. — Papai? — Ela perguntou, ao perceber que seu pai estava se retirando da mesa e ignorando totalmente os dois.
— Eu não tenho tempo para suas brigas idiotas, tenho que ir trabalhar. Faça o que o seu irmão mandar, Saki. — Ele se retirou, acenando para sua filha.
Ao ouvir isso, Akazawa abriu um enorme sorriso maléfico, fitando sua irmã com um olhar assustador. Saki ficou ainda mais irritada e gritou:
— Não ouse me olhar com essa cara, seu desgraçado!
— E quem é que falava alto mesmo? — disse ele, tapando os ouvidos e mudando para uma expressão mais séria. — De qualquer forma, já está quase na hora. Vou acordar a Lyra para que ela dobre o futon. — Ele disse e então pegou a última tigela de arroz com ovo, se retirando da cozinha.
— Levando café na cama. Que romântico, hein? Espero que meu namorado no futuro faça isso por mim. — Ela disse com um olhar presunçoso.
— É por esse tipo de provocação que você ainda é uma criança. — disse ele sem estar muito irritado.
Ele então fez o caminho bem curto da cozinha até o quarto e abriu a porta observando que Lyra ainda estava dormindo. Ele gentilmente se aproximou da garota, pegou os dois ombros dela com suas mãos e então a balançou bem forte, dizendo em um tom bem alto:
— Está na hora de acordar!
Aparentemente delicadeza não era o forte de Akazawa, mas mesmo assim funcionou. Qualquer um acordaria ao ter seu corpo balançado tão rapidamente. Lyra fitou Akazawa, abrindo lentamente seus olhos, uma cena que ele achou extremamente fofa, ficando um pouco desconcertado com isso. Ele ignorou e então entregou a tigela de arroz com ovo para a garota:
— Aqui está seu café da manhã. Depois que terminar vamos dobrar os futons. Preciso que você aprenda exatamente como se faz, pois de agora em diante fará isso todos os dias. E eu não vou fazer por você, não importa o quanto me peça! Também vou te ensinar como comer com hashis agora que temos um pouco mais de tempo.
— Sim senhor! — Ela tomou os dois palitinhos em mãos de um jeito totalmente estranho agarrando eles com sua mão direita e fechando ela. — O que eu devo fazer? Espetar a coisa branca com os dois ao mesmo tempo?
— Não! Você não viu eu te dando comida ontem? Preste atenção! — Ele disse, chamando a atenção dela e então se aproximou para demonstrar. — Esse aqui você coloca entre o dedão e o indicador. Aí você fecha o dedo anelar assim, certo? — Ele pegou na mão da garota e arrumou o primeiro hashi corretamente. — Agora você pega e segura esse daqui que nem uma caneta. Desse jeito. — Ele arrumou o segundo hashi na mão de Lyra, agora ela estava pronta para comer. — O que você tem que fazer para comer com esses palitinhos é pegar os alimentos, colocando eles entre os palitinhos. Comendo arroz, o melhor é você levantar a tigela e colocar eles de lado, para ficar mais fácil de pegar. Entendeu?
Ela então brandiu seus hashis, segurando-os da maneira que Akazawa arrumou, porém na hora de tentar se alimentar com eles, ela levantou a tigela e fez um movimento de uma maneira nada fluida, derrubando o arroz que tentou pegar no chão. Ele realmente era bem pouco habilidosa com isso, mas até que tinha ido bem considerando que era totalmente sem noção da cultura japonesa. Akazawa percebeu, com isso, que o tempo que eles tinham não seria o suficiente para que ela aprendesse. Mesmo tendo dito que não iria fazer por ela, ele a alimentou mais uma vez.
— Akazawa, eu que estou aqui para te servir, você não devia fazer esse tipo de coisa. — disse ela, protestando.
— Não se preocupe, eu não me incomodo muito. — Ele respondeu. — Talvez se tivéssemos talheres ocidentais aqui em casa fosse mais fácil para ela aprender. — Ele refletiu. — De qualquer maneira, isso foi só porque eu não queria que você sujasse tudo e fizesse uma bagunça tentando comer isso com a mão. Eu que teria que limpar depois!
— Ah sim, entendo! Então você só fez para não ter mais trabalho depois. Desculpe-me por questionar. — disse ela, fazendo uma reverência.
—Agora você vai aprender a dobrar o futon! Eu disse que não iria fazer isso por você, então você vai ficar aqui até aprender. — Disse ele levantando o dedo indicador para dar sua ordem.
Akazawa então ensinou Lyra a dobrar o futon, algo que ao contrário dos hashis ela aprendeu a tempo. Após isso, se arrumou, colocando seu uniforme escolar e retornou percebendo que sua nova amiga não teria o que fazer enquanto ele não retornasse. Com isso, ele apresentou alguns jogos de computador para a garota que logo tomou apreço por um jogo chamado “Raposa Estelar” onde você é uma raposa antropomórfica controlando uma nave. Lyra sempre quis pilotar uma nave de verdade, pois na sua viagem ela foi explicitamente obrigada a deixar seu veículo no piloto automático. Agora com esse jogo ela tinha essa oportunidade, ficando completamente vidrada no brinquedo.
Após suas horas comuns no colégio, Akazawa retornou para a sua casa indo direto para seu quarto sem dessa vez prestar atenção na sua irmã na televisão que, como de costume, cuspia asneiras sarcásticas para seu irmão com o intuito de deixa-lo irritado. Chegando no quarto ele tinha a visão de Lyra observando a tela do computador bem de perto com os olhos arregalados, sem sequer mexer no controle direito para mover o seu personagem. Akazawa estranhou aquilo, então logo questionou:
— Lyra-chan, o que você está fazendo? — Ele abaixou suas sobrancelhas, fazendo um olhar de quem estava achando aquilo muito esquisito.
— Akazawa, sua irmã me disse que se eu ficasse 4 horas olhando para essa tela bem profundamente eu iria habilitar um novo programa que me permitia entrar dentro da nave e pilotá-la de verdade. Isso é realmente impressionante! Não temos tecnologia como essa em Mercúrio. — disse ela sem se desconcentrar do que estava fazendo.
— Muito menos na Terra! — pensou ele um pouco irritado com sua irmã e um pouco impressionado com a ingenuidade de Lyra. — Lyra-chan, quando exatamente minha irmã disse isso para você?
— Eu cronometrei 2 horas desde então. — Ela era curta e direta, respondendo sem nem olhar para o garoto.
— Pode parar de olhar, você foi enganada. Eu vou ter uma conversinha com minha irmãzinha querida. Aliás, isso é roupa de dormir, procure no armário alguma coisa que goste e troque de roupa. — Ele disse e então se retirou do quarto, indo até a sala.
Akazawa foi direto em sua irmã e pressionou sua mão direita no estofado em uma parte que estava próximo pelo lado direito da cabeça de sua irmã com o objetivo de intimidá-la, ele então tentou dizer com um tom ameaçador:
— Saki, por que você disse aquilo para a Lyra-chan?
— Ah, oi para você também meu amado irmãozinho. — disse ela casualmente, enquanto chupava um pirulito. — Aquilo? Foi só uma piada, por quê?
— Uma piada? Já faz 2 horas que ela está olhando fixamente para a tela do computador! — Ele respondeu em um tom um pouco mais alto.
Ao ouvir isso, a pequena menina não resistiu e caiu na gargalhada assim como tinha feito no dia anterior, aparentemente ela conseguia rir de qualquer coisa que possua um mínimo de graça. Quando conseguiu se conter um pouco, ela disse ainda em um tom de risada:
— Você tá falando sério? Eu não acredito que ela ficou 2 horas inteiras olhando para aquela tela! Imagina se ela fica as 4 horas e depois descobre que não tem nada? Isso é hilário! — Após dizer isso ela voltou a rir.
— Sinceramente, Saki? Esse seu senso de humor é uma bela bosta! Não brinque mais com a inocência dela, você nunca sabe quando ela pode fazer algo perigoso por engano. — disse ele com uma preocupação justificada.
— Algo perigoso? Que perigo tem em ficar olhando para uma tela? Você já foi mais divertido Akazawa! — disse ela, flexionando seu pulso repetidas vezes pedindo para ele se acalmar.
— Ora pois, ela pode ficar com problemas de visão. Isso seria ruim porque se ela se envolvesse em uma briga ela poderia se dar mal. — disse ele, acreditando que esse era um motivo totalmente válido para incomodar sua irmã.
— Mas se ela ficasse com problemas de visão isso não seria bom? Afinal, nesse caso ela ficaria exatamente como você gosta! Há! — Ela disse e então mostrou bem na frente dos olhos de Akazawa uma revista hentai que tinha uma garota de óculos com seios bem grandes como capa. — Sabe, a Lyra-chan é realmente uma ótima investigadora. Foi só eu dizer o que eu queria que ela encontrou rapidinho! — disse ela com seu olhar presunçoso de sempre.
— Ora sua garota suja! Como você ousa fazer ela encontrar isso pra você? Eu não acredito que você mostrou essas revistas para ela. Me devolve agora mesmo! — Nesse ponto Akazawa já estava gritando, bastante irritado com tamanha vergonha.
— Ei ei, calminha aí. — Ela disse tentando proteger a revista do seu irmão, mas sem sucesso já que teve ela arrancada de suas mãos. — Não foi você que disse que não dava a mínima pra quem encontrasse essas revistas, por que está tão incomodado agora, hein? — Ela disse e então deu algumas risadinhas.
— Mas isso é diferente! Não é porque são as minhas revistas. Você não pode mostrar nenhum conteúdo erótico pra Lyra-chan! Ela é totalmente pura e não entende nada dessas coisas, pode acabar tendo a ideia errada! — Ele levantou o dedo indicador e corrigiu sua irmã.
— Se uma garota da minha idade já sabe, não tá na hora de ela aprender não? Digo, sabia que essa é a idade que garotas como ela começam a fazer “isso” e “aquilo” com seus veteranos? Principalmente as mais bonitas. — Dessa vez foi ela que levantou o dedo indicador em uma tentativa sarcástica de imitar o garoto.
— Cala a boca! Você representa a podridão desse mundo! Não tente se colocar no mesmo nível dela! — Ele disse bem alto e apontou para Saki, com uma enorme irritação.
— Ei ei, por acaso isso é jeito de chamar sua irmãzinha pequena super mega fofa? Assim eu fico ofendida, meu amado irmãozinho. — Ela disse e então arregalou os olhos, fazendo olhar de gatinho.
— Vá para o inferno, sua maldita! — Ele gritou e então se retirou da sala, retornando para o seu quarto com a revista.
Ao retornar para o quarto, Akazawa observou que Lyra já havia se trocado. Ela estava vestida com uma camisa regata vermelha e uma bermuda preta de ginástica. Ele observou ela da cabeça aos pés e então disse:
— Por que você está vestindo isso?
— Essas roupas são bem confortáveis e me dão bastante mobilidade, olhe só! — Ela disse e então deu um chute bem alto para cima.
— Então é com esse tipo de coisa que você se preocupa? Bom, se você está bem com isso tudo bem. — Após dizer isso ele olhou para o lado por um momento, envergonhado. — Ouvi dizer que a Saki te mostrou minhas revistas.
— Sim, sua irmã me disse que essas revistas eram muito importantes para você e que não queria que ninguém visse, então eu escondi elas em outro lugar e soquei minha cabeça para me esquecer onde ficavam além do que havia nelas. — Ela disse isso com um olhar sério.
— Ah sim, nesse caso tudo bem. Espera, o que você acabou de dizer? — disse ele com um olhar surpreso.
— Que eu escondi as revistas e não sei onde estão! Nunca mais irei pegar elas, não se preocupe.
— Mas isso não quer dizer... que eu também não vou encontrar elas? — Ele disse isso em um tom bem alto, com uma mistura de irritação e desentendimento da estupidez alheia.
— Sim! Mas por outro lado ninguém vai encontrá-las. Assim você não precisa se preocupar que vejam. Isso não é algo feliz? — Ela então abriu um sorriso que derreteu o coração de Akazawa.
— Claro... você é uma garota tão boa... — Ele abriu um sorriso melancólico, deixando escorrer uma lágrima de seu olho direito.
— Muito obrigada! Estou feliz que tenha sido útil para você! — Ela disse e então voltou a jogar Raposa Estelar.
— Lyra-chan, você já comeu alguma coisa? — Ele perguntou, um pouco preocupado.
— Não, eu estive controlando a nave desde que você saiu! Venci grandes batalhas!
— Certo, então eu vou preparar alguma coisa para você comer e dessa vez irei te ensinar como usar os hashis corretamente. Pause o jogo por um momento e venha comigo.
No momento em que Akazawa diz isso, uma pedra atingiu a janela de seu quarto e a quebrou em vários pedaços. Aquilo deixou o garoto muito irritado, que gritou:
—Quem foi o maldito? Quando eu encontrar vou arrancar os rins dele com minhas próprias mãos! — Ele então percebeu que Lyra estava com os pés descalços e ficou desesperado com medo que ela se machucasse. — Lyra-chan, não chegue perto da janela! Você pode se machucar com os cacos! — Então agilmente começou a juntar os cacos de vidro com a própria mão, com velocidade e destreza incríveis, saindo do quarto rapidamente e jogando-os fora.
Ao retornar para o quarto, Akazawa percebeu que a pedra que havia quebrado sua janela possuía um pedaço de papel, aparentemente de caderno, enrolado nela, o que sugeria que era uma espécie de bilhete do vândalo. Ele tomou o papel em mãos e o leu, nele estava escrito:
“Compre uma nova janela com Vidrarias Misaki.” — Com lápis de escrever — “OLHE O VERSO” — Em vermelho, na parte inferior do papel.
Akazawa então virou o verso para ler o que estava escrito atrás:
“Prezado Akazawa Jundō, eu descobri pelas minhas fontes que você surrou covardemente um dos meus parceiros em um parque no dia de ontem. Peço encarecidamente que apareça no seguinte endereço às 5 da tarde para termos uma conversa civilizada. — Assinado: Kubo Pachinoda.”
No bilhete estavam as informações sobre o endereço onde Akazawa devia encontrar o remetente, que supostamente era uma pessoa chamada Kubo Pachinoda. Mas quem era Kubo Pachinoda? Bom, o frio na espinha que Akazawa sentiu a ler esse bilhete de fato dizia alguma coisa sobre quem poderia ser. Ele era o líder de uma gangue local, conhecido por derrotar muitos homens sozinhos com sua incrível força e por se tornar um assassino violento quando ficava enfurecido. Esse histórico definitivamente era o suficiente para colocar medo em qualquer pessoa normal.
Akazawa, ainda um pouco afetado pelo bilhete, observou seu celular para descobrir as horas e se assustou ao perceber que já eram 4 e meia da tarde. Isso significa que em meia hora ele teria que conversar com um maníaco. Ele olhou Lyra por 1 minuto, até que ela percebeu a situação e perguntou:
— O que tem nesse bilhete, Akazawa? Você parece estranho.
— Ah, não se preocupe. Não tem nada demais. Eu vou ter que sair agora, está bem? Fique aqui jogando que em pouco tempo eu estarei de volta. — Ele disse isso, decidindo que se não fosse a esse encontro algo terrível poderia acontecer. Afinal, eram uma gangue de delinquentes, poderiam vandalizar sua casa novamente ou ainda pior.
— Onde você vai? — Ela perguntou com curiosidade.
— Eu vou comprar um pouco de sorvete! Você sabe o que é sorvete? É um creme doce gelado delicioso. Tenho certeza que você vai adorar. Em pouco tempo estarei de volta, então não se preocupe comigo. — disse ele.
— Oh. Está bem então, boa sorte comprando sorvete. Aguardo seu retorno. — Ela olhou para o lado ao dizer isso.
— Ótimo, estou indo então. — Ele disse isso e então saiu correndo.
Lyra voltou ao que estava fazendo, ao passo de que Akazawa tomou seu caminho com o bilhete em mãos, indo até o endereço apontado pela gangue.
O lugar onde ele havia chegado não era muito receptivo. Era uma espécie de depósito a céu aberto onde haviam diversos objetos que eram nada mais do que lixo: alguns eletrônicos como televisões, ar condicionados e eletrodomésticos que haviam sido jogados fora estavam sendo usados. Havia uma espécie de construção feita apenas de tijolos, sem ser pintada, onde havia uma placa escrita: “banheiro”. Por último, Akazawa observou algumas cadeiras onde estavam sentados diversos membros da gangue. Também havia um sofá no centro, onde estava sentado um garoto jovem que se destacava entre os demais. Enquanto a maioria deles pareciam os famosos bandidos que você encontrava por aí, com braços musculosos, carecas, com regatas e segurando bastões. O que estava sentado no sofá tinha uma face mais parecida com a de Akazawa, Ele usava óculos, vestia uma camisa branca e usava uma calça preta bastante elegante. Seu cabelo era roxo e mais curto do que o de Akazawa, com um estilo topete.
O garoto sentado ao sofá, então, quebra o silêncio ameaçador que estava no ar, cumprimentando Akazawa:
— Então você realmente veio garoto. Vou ser sincero, admiro sua coragem. Vir na toca do inimigo depois de surrar covardemente um dos meus, eu estou tão feliz que poderia arrancar sua cabeça nesse exato momento. — Ele cruzou as pernas e disse em um tom frio.
— Kubopacchi, você tá me dizendo que foi esse moleque que quebrou a costela do Montanha? — Um dos membros da gangue disse com um tom de deboche. — Se ele apanha para um garotinho desses devíamos cortá-lo!
— Garotinho, huh? Do que você está falando? Só por causa da aparência dele ele não é forte? Mas se for assim, você não acha que eu pareço um pouco com ele? — Ele disse e então fitou o membro debochado. — Está dizendo que eu sou fraco, huh? — Ele abriu seus olhos um pouco mais, ainda mantendo a aparência séria.
— Não, não, nada disso. — Ele tentava se escapar do que havia dito.
— Bom, voltando ao que estávamos conversando... você pode me explicar o porquê de ter batido em meu amigo? — Ele voltou a fitar Akazawa, fazendo essa pergunta.
— Então esse é o famoso Pachinoda? Ele não me parece tão perigoso quanto os rumores diriam, mas se existem rumores já deve ser alguma coisa. Pelo menos ele parece educado o suficiente para me deixar explicar. — Akazawa pensou e então respondeu: — Seu amigo “Montanha” tentou abusar sexualmente de uma garota mais nova. Eu fiquei irritado e dei um soco nele. Não teve nada mais além disso. Eu não tenho nada contra vocês, então me deixem ir. — Ele disse sem relutar nem um pouco.
— Então ele abusou sexualmente de uma garota? Interessante, você chamou a polícia para isso? — Ele perguntou sem mudar a expressão.
— Eu... não tive tempo pra isso. — Akazawa olhou para o lado ao responder.
— É mesmo? Que engraçado... será que você tem essa garota para dar um depoimento sobre o que aconteceu? Huh? — Ele perguntou abrindo um pouco mais os olhos.
— Droga... eu deixei a Lyra em casa. Mas espera, mesmo que eu não tivesse feito, será que ele iria acreditar que ela é a mesma garota? — Ele pensou e começou a suar frio, percebendo que estava em uma clara desvantagem numérica. — Não... eu não tenho.
— Huh? Então você está me dizendo que acusa meu amigo de um crime vil e sujo desses sem ter prova alguma? Huh? — Ele arregalou os olhos e se levantou do sofá, ele era realmente mais alto que Akazawa, o que o intimidava um pouco. — Você realmente quer morrer... eu vou te matar... se você fala isso... eu vou te matar... se você mente... eu vou TE MATAR! — Ele gritou “Te matar” bem alto e então retirou seus óculos, estendendo a mão com ele para o lado. Os óculos foram pegos por um dos seus companheiros.
Akazawa se levantou e ficou em guarda, mas ele ainda estava assustado. Era realmente perigoso lutar com tanta gente ao mesmo tempo. Foi aí que ele percebeu que apesar de Kubopacchi ter se levantado nenhum de seus companheiros haviam feito o mesmo. Aparentemente eles estavam rindo, conversando entre si, algo como: “Esse garoto realmente está frito.”. Isso quer dizer que eles confiam na força de seu líder tanto assim?
Antes que Akazawa pudesse terminar de pensar, Kubopacchi tomou impulso e se lançou ao garoto, direcionando um soco direto de esquerda que o atingiu no meio do nariz. O golpe foi forte o suficiente para que o estudante tivesse que dar alguns passos para trás e se equilibrar para não cair graças ao impulso. Ele tentou tomar ar, mas nesse momento ele percebeu que o líder da gangue estava no seu impulso furioso dos boatos e não iria parar.
Akazawa foi novamente atacado com socos diretos que não se esforçavam muito em enganá-lo e eram bastante previsíveis, mas, ao mesmo tempo, a fúria com que eram aplicados demonstravam a enorme força física de seu oponente, algo que mostrou que ele tinha muito mais que o dobro da força do estudante, fazendo com que ele ficasse muito na defensiva.
— Esse cara não pode ser normal, eu não consigo nem me mexer com esses ataques que machucam mais que uma patada de elefante. Eu não posso me segurar, tenho que ir com tudo se não quiser morrer. — Ele pensou enquanto recebia essa chuva de ataques.
Akazawa então estendeu sua mão esquerda no momento em que Kubopacchi atingiu um soco de direita. O garoto conseguiu defender o soco do líder, mas a pressão do golpe fez com que seu braço fosse bastante machucado e ele tivesse que retirá-lo por um momento. Por sorte, o plano dele havia dado certo, pois no momento em que estendeu o seu braço esquerdo uma enorme quantidade de energia cinética atingiu Kubopacchi, o que será que havia acontecido?
— Isso vai ser o suficiente para afastá-lo, ele não vai resistir a esse ataque. — Ele pensou, tranquilizando seu braço machucado.
Porém, foi cedo demais para dizer isso. Kubopacchi resistiu ao ataque de Akazawa. Com o lado direito da sua boca manchando de sangue, ele cuspiu um pouco de sangue coagulado para o lado e atingiu um soco ainda mais forte em Akazawa, que dessa vez foi impulsionado ainda mais para trás. O garoto começou a se desesperar e atingiu outro “Soco Vazio” em seu oponente que dessa vez demonstrou estar ficando mais lento e diminuindo sua força, pois estava recebendo impacto máximo. Mesmo assim, ainda não foi o suficiente para fazê-lo se afastar. Kubopacchi atingiu outro soco em Akazawa que foi um pouco mais fraco que todos os outros, fazendo com que o próprio estudante não precisasse se afastar, tendo a oportunidade de tentar direcionar um cruzado no lado direito do gangster. Porém, Akazawa já estava sem forças depois dos dois golpes totais que havia desferido.
A partir daquele momento a luta se tornou um massacre, o garoto sentiu o verdadeiro terror de ser subjugado por alguém mais forte. Mais socos na sua guarda fizeram com que ele ficasse muito machucado e tivesse que abaixá-la, permitindo que Kubopacchi lançasse uma barragem de socos e chutes que não permitiam que ele sequer se movimentasse. Ele sentiu muita dor e perdeu bastante sangue enfim caindo para o líder da gangue.
Após essa humilhação, o que se seguiu foi o corpo de Akazawa sendo descartado em uma lixeira próxima. Ele estava todo ensanguentado e cheio de marcas. Essas marcas começaram se regenerar bem rapidamente, de uma forma misteriosa. Ele permaneceu um bom tempo desacordado no lixo, até que ouviu uma voz feminina familiar dizendo as seguintes palavras:
— Ei, você! Está tudo bem? Alô? Oizinho? Se você estiver morto levante a mão.
Quando finalmente conseguiu recobrar a consciência não acreditou na pessoa que estava em sua frente...
(Final do Capítulo 1 do Volume 1)
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