Os Poderes Perdidos

25 Capítulo 25: Visito a casa do meu pai


Notas iniciais
Último

EU DEVERIA ir para o Olimpo, mas sem as asas do meu tênis, não sei como chegaria lá. Pensei isso até avistar o pegaso branco com a crina marrom. Ele pousa no chão do pão de açúcar e Selina desse xingando todos os xingamentos possíveis.

– Idiota, porque você fez isso? Você queria me matar? – ela pragueja mais em grego – Cavalo inútil.

– Aí, não se critica o trabalho de um profissional, garota enxerida! Aí parceiro, porque você mandou essa carga... chata?

– O que está acontecendo? – perguntei a Pedro que descia da sela com os olhos semisserrados

– Ah, Erick! – Selina disse em tom de animação. Ela se movimentou devagar, talvez pensando se me abraçava ou não, então apenas parou na minha frente – Você esta vivo!

– É, eu estou – disse, tolamente – O que aconteceu, por que estão brigando?

– Seu pegaso louco! – Selina disse brava – Ele começou a mergulhar do nada e subir e eu quase caía toda a vez que fazia isso!

– Imagine eu que estava na ponta – Pedro disse calmo

– Mas você não morre de medo de altura! – Selina bufou

Levanto a sobrancelha pra ela. Ela nunca admitiu pra mim que tinha medo de altura, mas agora falou. Pela cara dela acho que saiu sem querer, não era a intenção dela expor os medos. Me voltei para Hercules.

– Por que você estava fazendo aquilo? – perguntei a ele mentalmente

– Eu não gosto dela. E foi divertido. – ele respondeu como se fosse obvio

– Por causa do negocio de Atena? Você não deve ficar matando os passageiros, parceiro, isso não é legal, nem um pouco.

Ele relinchou e reclamou um pouco, mas depois ficou quieto logo em seguida. Selina me encarou por um momento, depois ela veio com a manga da camiseta e a apertou contra minha testa fazendo uma careta.

– Bela surra, você tomou ein?

– Digamos que Bruno é bom com uma espada. Mas... eu não entendo. Os outros ferimentos curaram, porque este ainda está doendo?

– Como filho de Hades é possível que ele use uma espada... indestrutível –ela disse e continuou dando tapinhas de leve em minha testa cortada – Banhada no rio Estige, para ser mais exata.

– Indestrutível? Tipo Aquiles e o calcanhar de Aquiles? Ai!

– É. Isso ta muito feio, Tomadinha.

– Ã... – Pedro começou – Acho que não temos muito tempo. – ele apontou para os céus. O furacão ficou pior e o mar também estava agitado, bem agitado. Formulei a palavra vamos na boca quando um raio caiu perto de nós. Quase caí por cima Selina. – Vamos logo.

– Vocês querem acabar com a minha coluna? – Hercules reclamou – 3? Eu sou um pegaso não um burro de carga.

– Ah qual é? – eu disse a ele – O Pegaso Rei não consegue carregar três pessoas? Duvido.

Ele reclama novamente e nos deixa montar. Eu vou na frente, Selina logo atrás e Pedro na outra ponta. Hercules é grande até mesmo para um cavalo, o que não nos deixa muito desconfortável. Ordenei Hercules para ir para o Olimpo e ele partiu me dizendo que estávamos perto. Começamos a ir em direção ao furacão que estava bem acima do Cristo Redentor. Olhei para cima e pude ver um raio cruzando de cima pra baixo, bem de cima da estátua. Lá está o Olimpo.

O caminho é curto, já que estamos voando, mas na metade dele já estou com dor na barriga de tanto Selina a apertar cada vez que Hercules sobia um pouco mais. Me virei para trás.

– Que horas foi feito o pacto de sacrifício? – gritei para ser ouvido através do vento. O céu está bem preto embora seja umas 2 horas e 30 da tarde mais ou menos

– Não sei, lá por umas 3 horas, eu acho. – Selina disse de olhos fechados – Afinal, 3 é um numero sagrado.

Depois disso levamos uns 5 ou 7 minutos até chegar ao Olimpo. A entrada dele é incrível. Um enorme portão de uns 10 metros de altura e largura. O portão é todo dourado com um cadeado enorme de ouro preso no centro. Há também duas estatuas, uma de cada lado do portão. Não olhei bem, mas acho que era Hermes. Me concentrei no cadeado, o olhando e firme e bum! Ele explode e o portão abre com a força. É, talvez eu estivesse mesmo gostando dos poderes do meu pai. Uma grande corrente de ar concentrada nos lugares certos pode fazer qualquer coisa e... Wow. Interrompi meu pensamento quando avistei as escadarias, mármore dourada, branco e de todas as cores conforme a luz (do próprio Olimpo) refletia no chão. Os degraus eram enormes como para gigantes e tinha muitos deles. Ao redor das escadas, em cada andar via-se uma coisa diferente de cada lado. Plantação de uvas com milhares de sátiros comendo e festejando (imaginar Aron feliz foi confuso em minha mente), ninfas correndo e se transformando em tudo (arvores, rios e etc...), mulheres aparentemente normais andando de um lado para o outro enquanto festejavam felizes. Esse povo aqui em baixo parecia nem perceber o que estava prestes a acontecer lá em cima...

Quando Hercules esgotou suas forças, já estamos a alguns passos da entrada gigante. Um arco com flores enormes está na volta da entrada com as flores formando a palavra PAZ no topo. Selina bufou com raiva.

– Até parece que ela iria influenciar em alguma coisa.

Pensei em perguntar a ela porque ela odiava tanto a sua mãe assim, mas achei que esse não era o lugar certo e nem a hora certa. Estávamos prestes a entrar no Olimpo e eu não sabia bem o que esperar.

– Caramba, isso aqui é um espetáculo! – Pedro disse – É lindo, perfeito não acham? Eu daria um dedo pra morar aqui.

– É, é lindo, mas temos que entrar, rápido – eu disse.

Andamos alguns metros e percebi que estava a recém em um degrau, mas ainda bem era o ultimo. Ouço alguns ruídos e depois uns gritos. Gritos raivosos terríveis.

– Você está me acusando de traição? – uma voz familiar berrou. Ela era grave e um tanto ameaçadora, um calafrio percorreu meu corpo quando a escutei. Poseidon. – Eu não acredito que me acusa de traição, irmão, sendo que você mesmo pode ter muito bem passado a perna em nós.

– Ora, Poseidon, não seja tolo! – essa voz era de meu pai – Por que eu faria isso?

– Por que você sempre teve inveja dos meus poderes!

– Eu nunca precisaria desses poderes inúteis e fracos – berrou meu pai.

Eu apressei o passo. Corri de verdade com Selina e Pedro atrás de mim correndo a mesma velocidade. Passamos pelo marco correndo a toda velocidade e paramos logo que entramos. Cheguei a soltar um suspiro. O mármore branco cobria toda a sala com os tronos depositados estrategicamente em todos os lugares. Mas algo me chamou mais a atenção. Nenhum dos deuses notaram nossa presença, todos estavam prestando atenção em Zeus e Poseidon, mas meus olhos encontraram os dele. Do meu pior inimigo, o cara que quer me matar. Hades. Ele ri com o canto da boca pra mim e me encara. Poseidon está com os seus cabelos pretos, jovem e com um corpo de um guerreiro. Meu pai também está diferente. Jovem, com os cabelos loiros e os olhos azuis. A única coisa, quase sem importância era que eles tinham uns 5 ou 7 metros de altura. Uma armadura começa a crescer no corpo de Poseidon. Azul, como feita de conchas, com as ombreiras sobressaltadas e o elmo como uma grande alga brilhante. Em meu pai começou a crescer uma dourada e eletrificada e seu elmo era grande como uma cabeça de leão. Eu gritei para pararem, mas nem ouviram. Meu pai puxou a espada em forma de raio da bainha e um escudo estranho surgiu em sua mão esquerda. Poseidon fez crescer um tridente de água em sua mão, um de uns dois metros. Gritei novamente mas nada aconteceu. Eu precisava chamar a atenção. Concentro os poderes nas tochas espalhadas e estas explodem em chamas causando um barulho estrondoso por todo o mármore que chegou a vibrar com o eco.

– Quem ousa interromper uma reunião... – Zeus começou e para ao olhar para mim. Eu o encarei de volta. – O que quer... semideus? – Ele falou semideus com cuidado.

– Que parem com a guerra – respondi

– Devíamos atira-lo do Olimpo agora mesmo! – Poseidon disse – Ele interrompeu a reunião nos dando ordens.

– Eu vim aqui para reestabelecer a paz – eu disse. Todos os deuses voltaram a atenção para mim. Eu ia dizer que Hades pegou os poderes, que tudo era plano dele, mas eu só tinha uma chance. Uma chance de falar. Se eles não acreditassem de primeira, eu seria morto e não acreditariam. Eu já havia visto o quanto Hades é influente e no fundo eu sabia que ele iria convencê-los. Ele devia estar se preparando pra invadir o Olimpo, preparando um exercito, mas estava ali. Eu não podia convencê-los de que ele era traidor. – Bruno, filho de Hades, roubou os poderes perdidos. – Todos os deuses se entreolharam e murmuraram alguma coisa. Hades fez cara de surpresa e decepção profundo. Aquele filho da P... – Eu lutei contra ele e os recuperei – Abri as mãos e mostrei os 4 cristais nelas. Zeus abriu um sorriso. – Não precisam mais de guerra.

– E então – Zeus disse, sentando-se em seu trono – Você o matou?

– Não. Ele escapou.

Zeus estica as mãos, e eu jogo o cristal do ar e da terra a ele. Não confio que Poseidon e Hades vão dividir igualmente de novo. Jogo os do mar para as mãos de Poseidon e os do fogo para a mão de Hades. Trovões, terremotos e barulhos estranhos rugiram fora do Olimpo. Zeus me encarou.

– Muito bem, semideus – ele disse, sentado no trono com satisfação – Os deuses reconhecem seu feito.

– Eu não fiz sozinho – disse e olhei para Selina e Pedro. Selina estava com o rosto vermelho de raiva e tinha uma fúria nos olhos que não havia visto nos olhos de ninguém ainda. Nem mesmo nos de Poseidon ao olhar para meu pai, ou Hades quando olhava para mim ou até mesmo eu quando olhava para Bruno. Segui seu olhar e ele dava direto no trono de Demeter, sua mãe. – Eu tive ajuda.

– Quais suas graças semideuses? – meu pai perguntou, se acomodando no trono e desfez sua armadura, transformando-a em uma túnica branca com uma faixa vermelha

– Erick – disse primeiro – filho de Zeus.

Os deuses se entreolham quando eu pronuncio a palavra Zeus. Há murmúrios, mas logo se calaram. Demeter sorri e aproxima a boca de um deus que eu acho ser Hermes. Ela fala algo (e aponta pra Selina) que consigo entender em seus lábios: minha filha.

– Pedro – disse – filho de Apolo.

– Selina – disse com raiva, quase engasgando-se com as próprias palavras – cria de Atena.

Os deuses se entreolharam de novo e murmúrios mais altos surgiram. O sorriso no rosto de Demeter desapareceu enquanto Atena fez um leve movimento consentindo com a sua cabeça. Segurei a vontade de olhar pra Selina e ver o que estava acontecendo, mas deduzi que não é muito comum se apresentar sem dizer o seu pai/mãe olimpiano.

– Muito bem – disse meu pai – Os deuses reconhecem o que fizeram por nós e lhe daremos o nosso agradecimento. E, claro, um modo de se locomoverem. Para onde vão? – eu não sei aonde Bruno vai largar as famílias, mas tenho certeza de que ele não vai demorar. Encarei Hades nos olhos, confiante, ele teria de e dizer.

– Talvez devêssemos voltar a agradecê-los como era antes. – ele disse – Apenas com um aceno de cabeça.

É o suficiente para eu saber aonde Bruno vai largar as famílias. E é o suficiente para eu saber que Hades pensa que eu talvez possa entregá-lo a eles, e que eles acreditem, mas não o faço. Ainda é perigoso.

– Para o antigo acampamento grego. Ah, alguns amigos meus ficaram em seu esconderijo, talvez possa levá-los para lá também.

Zeus franze a sobrancelha e me olha por um longo segundo. Depois se vira para Hermes.

– Creio que saiba onde fica. Pode lhes conceder uma maneira rápida de viajar?

Hermes faz que sim com a cabeça e coloca um frasco no chão.

Os deuses não dizem obrigado, e eu não espero isso deles. Meu pai estala os dedos e uma mulher nos traz comidas em bandejas. De primeiro, eu hesitei em aceitar, mas logo depois peguei um pedaço. A porção era extremamente pequena, do tamanho de meia laranja na verdade e possuía uma tonalidade amarronzada estranha. Eu a pus na boca; o gosto era agradável e senti como se os ferimentos estivessem se curando, mas eles não estavam. Não, nesse momento. A cara de pau deles me irritou. Eu quase morri pra pegar a droga dos cristais umas 4 ou 5 vezes (no mínimo) e eles me dão... comida? Que falta de consideração! No momento eu estava arrependido de não ter pego aqueles cristais e posto a correr um por um de lá de dentro.

Marte me encarou, com um sorriso no rosto. Ele está diferente, está mais... feio. Os cabelos emaranhados e sujos igual ao rosto e com um nariz desproporcionalmente grande mas reconheço o seu sorriso, em qualquer rosto. Minha vó me disse uma vez que os deuses podem mudar a sua forma, mas não usam muito isso, só os mais vaidosos.

– Bom trabalho garoto – Marte disse em minha mente – Que bom que está vivo.

Eu me virei, sem dizer nada e comecei a andar até o final do Olimpo, até o marco na porta. Agora eu estou com raiva. Eu não sei o que eu esperava, eu não sei o que queria. Um obrigado não seria ruim, ou um que bom te conhecer em quase 13 anos meu filho! Engulo com dificuldade as poucas e boas palavras que quero falar a meu pa... não, não vou chamá-lo de pai, se eu não mereço ser chamado de filho então ele não merece ser chamado de pai.

Os ventos estão fortes contra minha armadura, que agora que a adrenalina passou, parece pesar mais de 10 kg em meu corpo. Eu a arranco do corpo e jogo pelo lado do Olimpo, e continuo andando, um pouco rápido demais. Selina pega meu braço.

– Ei, mais devagar. O que você esperava deles? Que eles se ajoelhassem, eles não são assim.

– Você tem razão. E não vale a pena se sentir mal por causa deles.

Ela sorri e continua andando, dessa vez a minha frente. Paro e olho para trás, o marco na porta ainda é o mesmo, mas as flores estão um tanto murchas agora. Bem, pelo menos Selina conseguiu irritar alguém.

– É bom saber que você se importa com o Olimpo, príncipe. – disse meu pai na minha mente – Que se importa comigo.

– Nunca foi por você.

Me virei novamente para as escadas. Sinto que o sangue do meu machucado na testa parou de escorrer, talvez até cicatrizar. Alcanço Pedro e Selina no caminho, as descendo. A raiva de Selina parece ter diminuído ao julgar pela nova cor em seu rosto. Ela está rindo de alguma coisa que Pedro falou.

– É serio, ele piscou pra mim – ele disse rindo ainda mais

– Quem piscou? – eu comecei a rir também.

– Apolo piscou pra ele – ela ri – Tinha que ser Apolo mesmo...

Nós três rimos por um instante. Me lembro de todas as dicas para que Bruno era o traidor, e só agora elas fazem sentido. O fogo, logo que vi que ele era “filho de Hefesto”. Hefesto é simbolizado pelo fogo, por isso tive essa visão. A visão no fogo, quando estava sendo atacado pela hidra. Puxei-a da memória e acho que consegui ver a sombra melhor. Me pareceu alguém entrando na roda de fogo. O objetivo da hidra nunca foi matá-lo, e ele precisa se encarregar de que isso não fosse transparecido a nós. Franzo as sobrancelhas

– Você desconfiou dele

– O que? – Selina disse

– Você desconfiou de Bruno, quando ficamos algemados.

– Ah – ela faz uma cara não muito boa – A sua espada nunca eletrocutou ninguém, ela sempre causou queimaduras, mas Bruno tinha a benção de Hefesto, o fogo não o machucaria e a espada provavelmente ia dar choque nele. Mas como ele poderia saber disse se nunca a tocou?

– Nossa, eu nunca ia pensar nisso – disse Pedro

– De que importa? Eu não segui em frente com esse pensamento. Se estivesse seguido, talvez seria melhor agora.

– Ele enganou a todos nós. – dou um sorriso travesso – Mas eu também enganei ele.

– O que você fez? – Selina disse, quase rindo

– Nada de mais, só fiz ele jurar pelo Estige que ia devolver nossas famílias.

Ela cai na risada de satisfação (acho) e Pedro a segue. Ele se põe no meio e abraça nós dois, descendo as enormes escadas de mármore branco. Estamos rindo, felizes, a salvo. Dessa vez, tenho certeza que estou entre amigos.

***

Depois de contar toda a historia da luta enquanto descíamos mais uns degraus, nós usamos o frasco dado por Hermes. O pó se formou no ar e passamos pelo portal azul que estava mais parecido com roxo hoje. Do outro lado encontramos nada mais, nada a menos que o campo do antigo acampamento grego e o resto da nossa equipe de caça aos poderes. David vem correndo falando um monte de coisas as quais eu nem sei o que quer dizer. Ele me abraça e depois me solta e continua falando.

– ... Aí a gente apareceu aqui do nada, foi muito sinistro, muito estranho mesmo, cara, eu fiquei apavorado, porque eu pensei e se aconteceu alguma coisa com o Erick? Aí eu fu...

– Calma, David, está tudo bem – Selina disse calmamente.

– Haha, você também está viva, que ótimo, é bom ver... pessoas vivas.

– Com certeza é – Pedro disse

– Vocês conseguiram? Eles conseguiram? – Lívia vinha dizendo – Eu sabia que iam conseguir!

– Sinto muito ter... estragado os seus tênis voadores – eu disse

– Você acha que eu ia querê-los de volta? – ela ri – Estou brincando, estou brincando.

A maioria das pessoas, até mesmo as que eu nunca havia falado antes, vem me cumprimentar, me dar os parabéns ou falar coisas sem sentido como o jeito que apareceram ali. Eu estou feliz, todos estão. Bem, pensei isso até ver Selina sentada no gramado passando os dedos contra a grama. Eu me sentei ao seu lado.

– Qual é o problema? Acabou, podemos ir pra casa.

– Esse é o problema, Tomadinha, eu não sei se eu estou... preparada para vê-lo de novo. – ela me olha com os olhos tristes – E se ele me rejeitar, ele se ele não me quiser mais?

– Não se preocupe com isso, seu pai vai aceitar você de volta.

Ela suspira

– Espero que esteja certo.

Ouço gritos, mas os ignoro. As pessoas estão eufóricas e os gritos são de euforia. Continuei ali parado ao lado de Selina olhando o campo a minha frente. Um lugar tão bonito me causou tanto desespero e alegria. Não sei se vou gostar dele ou não. Alguém grita meu nome varias vezes, é David, e me forço a olhar para trás e lá está ela. Com a mesma roupa que eu a vi da ultima vez: uma camiseta vermelha, uma legue preta e o casaco marrom escuro por cima da blusa. Minha mãe. Eu coro e a abraço com força. Ela chora em mim, mas eu não derramo uma lagrima. Minha mãe diz que nunca fui muito de chorar, e vejo que isso é verdade agora. Nós ficamos abraçados por mais de um minuto e então ela me solta e me abraça de novo e beija o rosto.

– Pensei que não ia mais ver você! – ela disse

– Eu também. Mas estamos aqui, não estamos?

Nós rimos. David me empurra rindo e logo atrás dele está vovó. Corro e a abraço também, ela ri. Ela sempre me protegeu de uma forma ou outra, com os livros, os ensinamentos e com os presentes de aniversário. Depois damos um abraço em família, os 4.

– Foi muito louco, eu fui raptado por Hades e aí ele nos obrigou a ir atrás de uns poderes que... – comecei

– Calma, filho. Vamos ter muito tempo para conversar. Em casa.

Por trás do ombro de minha mãe me assusto ao ver uma águia voando baixo. De primeira, achei que ela ia nos atacar mas então vejo que ela deixou uma caixinha pequena, de madeira, no chão.

– Eu... já volto – disse e fui até a caixinha. Eu não tinha certeza de que era para mim, mas no fundo eu pressentia que era. Peguei-a na mão e analisei. Havia um bilhete em cima, com letras miúdas e gregas:

Foi um desafio refazer essa lamina. E sinto dizer-lhe que ela pode não voltar a ser a mesma de antes devido ao material que tive de usar.

Faça bom uso Príncipe.

Ass: Hefesto

Ao abrir a caixa, avistei metais brilhantes que quase me segaram a luz do sol forte. Caminhei até a sombra. Dentro da caixa havia, naqueles moldes de espuma, um relógio levemente dourado com dois Alfas nos cantos, e um anel, em forma de águia, metade prata e metade dourado. Sorrio. Talvez os deuses não sejam tão pães-duros assim. Coloco o anel no dedo da mão direita e ponho o relógio no pulso esquerdo. É apenas um anel e um relógio, mas já me sinto armado.

Uma visão me chama a atenção a minha esquerda. Uma menina, de cabelos castanhos claro e olhos extremamente verdes que estão piscando para segurar as lagrimas. É inútil piscar, lagrimas já escorrem em seu rosto. Ela está abraçada em um homem de uns 38, 40 anos. Os dois choram e se abraçam com força. Eu tinha certeza que o pai de Selina não ia afastá-la. Mais ao longe, vejo Pedro abraçado em sua mãe e seu irmão. E quanto mais eu olhar, mais vou ver famílias felizes juntas, abraçadas.

Depois de alguns minutos, vou até Pedro para me desculpar e me despedir dele. Eu o devo muitas desculpas, acreditei que ele o traidor e o tratei mal todas essas semanas. Ele diz que não foi nada, que ele entende e que ia fazer o mesmo com Selina, que já estava vindo ao nosso encontro.

– E então – perguntei – para onde vão agora que ficaram sabendo desse tal acampamento?

– Eu... – Selina sorriu ainda mais – Acho que já fiquei tempo demais longe de casa.

Pedro fica na duvida, mas acabamos todos nos decidindo ficar com as famílias. Pedro pedi desculpas a Selina e ela o abraça. Geralmente acho que não é do costume das pessoas abraçarem as outras que conheceram a pouco tempo, mas quando você passa uma experiência de vida ou morte com essa pessoa, isso se torna compreensível. Pedro saiu falando umas coisas as quais nem prestei a atenção. Logo ele voltou com um saquinho – na verdade era mais um pedaço de tecido – apontado pra nós. Ele desenrolou o tecido e lá havia... diamantes! Grandes, do tamanho de meias laranjas. Havia uns 10 lá dentro.

– Toma – ele me deu um – E esse pra você – ele colocou outro nas mãos de Selina.

– Onde conseguiu isso? – perguntei

– Na caverna de Hades. Acho que da um pra cada um. – ele sai rindo com o saquinho

– Acho que alguém deve desculpas a alguém – eu disse a Selina

– Claro, estou ouvindo. – ela disse e nós dois rimos – Me desculpe, Tomadinha. Achei mesmo que você era x9.

– É... mas... bem não vamos ter um meio de manter contato?

– Você tem rede social? – ela perguntou e eu acenei com a cabeça – Então, eu te acho lá.

– Internet não é perigosa para semideuses? – perguntei

– Erick, você é um filho de Zeus com a benção de Ares que acabou de irritar Hades e Poseidon, acha que é o facebook que vai te matar?

Nós caímos na risada outra vez. Fazia sentido, na verdade. Eu a olhei por uns segundos e dessa vez sou eu que hesito em abraçá-la. Então apertamos as mãos meio sem jeito.

– A gente se vê? – ela perguntou

– A gente se vê.

E nos viramos, cada um para um lado. Caminhei até minha mãe, minha avó e David. Eles estavam sorrindo e me olhando o que me fez corar, não sei se estavam me olhando ou apenas olhando a paisagem mas corei de qualquer jeito. Vovó e David saíram na frente. Minha mãe passa o braço em volta da minha cintura. Ela é uma mulher alta, e ainda é uns 3 centímetros mais alta que eu.

– Quem era aquela garota? – perguntou ela

– O nome dela é Selina – respondi – Ela é uma amiga.

– Ela é bonitinha – concordo com a cabeça sem perceber o que estou fazendo. Coro ainda mais.

– Mãe!

Ela cai na gargalhada e me aperta contra seu corpo

– Vamos para casa.

FIM

Notas finais
Gostou? Então aguarde por que as aventuras desse travesso semideus vão continuar em breve ;)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!