Os Poderes Perdidos
20 Capítulo 20: Me comunico com uma filha de Afrodite
TODOS FICARAM felizes quando viram a nuvem de fumaça enorme que saiu da caverna. Alguns vieram agradecer a gente, outros vieram cantando felizes, alguns olhavam em volta pensando em fugir.
– Terra, fogo e água. – eu disse pra mim mesmo – Falta apenas 1 para eu poder ir pra casa
– Nós irmos pra casa – David disse
– Eles pegaram a vovó?
Ele assentiu triste
– Sim. Mais uma pessoa pra você ter que salvar.
– Nós termos que salvar – eu disse dei um soco de leve em seu ombro. Embora ele fosse mais velho, era mais baixo, e sempre inseguro. Mas mesmo assim, ainda era meu melhor amigo. – Você fez um ótimo trabalho hoje.
– Não, eu só joguei o escudo – ele disse, mas é claro que estava feliz com o elogio. – Eu nem sei o que querem comigo aqui.
– Iam dar falta da gente. Você, a vovó. Seus pais ainda vão dar falta de vocês.
– Não vão, não. Eles acham que estou com a vovó, nem vão ligar. Ainda bem que ninguém se feriu.
– Ah, não.
– O que foi?
– Meu parceiro... Hey, você está bem?
– O que? – David perguntou
– Qual é, parceiro, ninguém derruba o alazão aqui tão fácil. – o pegaso disse em minha mente
– Ainda não sei seu nome... – disse
– O mandachuva, pegaso rei cara. Hercules.
– Belo nome – observei – Até mais.
– Com quem estava falando? – David perguntou – Você está bem?
– Estou, eu só estava falando... com um amigo alado. O nome é Hercules, estou em dívida com ele.
– Onde vamos agora? – David perguntou
– Eu não sei... talvez devêssemos esperar. Mas, enquanto isso, me fale desse acampamento que você frequentava.
***
Ficamos lá por mais ou menos uma hora. O suficiente para David me contar bastante dobre o tal acampamento. Ele me falou que lá é o lugar ideal para mestiços e Olhos-de-Vidro. Ele disse que lá tem um lugar para cada deus, uma casa pequena. A mais populosa nesse ano foi a de Hermes... Hermes gosta muito das pessoas a quem ele entrega as mensagens, suponho. O acampamento também tinha tarefas diárias de treinamento, como arco e flecha, escalada, equilíbrio e a coroa de louros. Pela descrição dele era o paraíso, lá se tinha paz, amigos e tudo de bom... pelo menos tinha, agora com esse lance de guerra que está pra acontecer, provavelmente deve ter abalado toda essa estrutura.
Quando Aron e Quíron foram nos buscar, nos levaram para outro lugar. Um prédio. Sim, como apartamentos. Mais espaçosos e tudo mais, mas quando olhávamos pela janela só víamos escuridão e vultos. Ninguém nunca ia conseguir escapar. A boa noticia era que tinha um chuveiro e a má era que Pedro voltou a ficar com a gente. Era difícil pra mim olhar pra ele sem querer matá-lo repentinamente, mas eu havia recebido bons conselhos quanto a isso. Já era noite quando parei de andar de um lado pro outro no apartamento, uma coisa me incomodava: a profecia ainda não resolvida.
As 4 relíquias juntas estarão, caso contrario 10 dos 13 cairão... Não fazia sentido, não a segunda parte. As 4 relíquias, os cristais tem que estar juntos, caso contrario 10 dos 13... os deuses, 13 deuses contando com Hades. Agora porque 10? Isso não fazia sentido... Depois de me cansar, me deitei e adormeci e o que eu esperava dessa noite? Visões, pesadelos, coisas horríveis, mas apenas caí no sono.
***
Acordei com o barulho da porta batendo. De um sobressalto eu pulei da cama. Havia esquecido que estava ali, provavelmente eu sonhei que estava em casa, mas pena que eu não me lembrava do sonho. Olhei em volta, ninguém nas camas, as camas estavam desarrumadas e limpas, diferente de mim. Me levantei e me olhei no espelho.
– Santo deus da guerra. – murmurei
Eu estava... horrível. Sujo, mais magro, os cabelos pareciam eletrocutados. Em meu rosto tinha manchas de sujeira, manchas de sangue e manchas de coisas que sequer sabia o que era. Minhas roupas estavam chamuscadas, meus olhos com enormes olheiras e o corpo então... pura fuligem. Eu não havia me olhado no espelho desde que cheguei aqui.
– Acho que um banho te faria bem – Selina disse pelas minhas costas, quase caí de susto. Me virei. Ela estava... diferente. Os cabelos estavam molhados e soltos, ela estava limpa, roupas limpas também. Uma blusa branca com rosa, calça jeans e um tênis rosa. Ela estava... ah deixa pra lá.
– Pra você fez – eu disse meio sem pensar
– Com certeza, pra todo mundo deve fazer. Tem roupas limpas nos armários. Deve ter o seu tamanho.
– Que horas são? – perguntei
– Agora? 12:30. Você dormiu ein? Quem dera eu pudesse ter tanta paz no sono.
– E Pedro?
– Saiu. Disse que a perna estava doendo e saiu. Melhor pra nós – ela deu de ombros – Ah, tem comida na geladeira.
– Que comida? – perguntei
– E importa? – ela riu
Eu fui até o armário, guarda-roupas. Tinha algumas roupas lá, uns casacos, ternos, vestidos. Passei a mão em uma camiseta azul marinho, calça jeans, tênis brancos e meias pretas. Me perguntei se as roupas já estavam ali ou se foram colocadas por algum servo de Hades. Me dirigi ao banheiro e comecei o banho. Esfreguei o rosto e tirei o sangue seco. Tirei as fuligens do cabelo e gastei quase todo o xampu até tirar o fedor de peixe. Eu me sentia melhor. Renovado. Bem. Me vesti e ainda achei pasta de dentes, a qual eu usei para escovar os dentes com o dedo (é meio anti-higiênico, eu sei, mas é melhor do que usar escovas dentais de quem você nem conhece). Me olhei no espelho novamente depois de sair do banho. Agora sim. Os cabelos loiros estavam penteados, as roupas limpas, o rosto limpo e os olhos... bem, melhores.
Fui até a geladeira. Tinha um hambúrguer e uma latinha de pepsi lá. Era melhor que nos outros dias que eram só cereal e suquinho. Fui até a mesa e Selina estava lá, lendo alguma coisa. Um livro, provavelmente achou na casa.
– Patético – ela reclamou – Ridículo.
– O que foi?
– Esse livro. É ridículo. – ela fechou o livro, e se arrumou na cadeira – Eu vou sair
– Pra onde?
– Tanto faz, estou cansada de ficar aqui – ela disse
Eu queria pedir para ela me esperar, mas fiquei um pouco com vergonha e estava muito faminto para parar de comer. Terminei a refeição em silencio. Fiquei um tempo lá ainda, olhando pela janela, olhando a escuridão profunda. Eu não aguentaria ficar mais um minuto ali. Eu não sabia aonde eu ia ir, aí me lembrei que precisava alertar alguém.
Desci as escadas até onde me informei com Lívia era o lugar dos verdes. Bati na porta e quem me atendeu foi a pessoa certa: Bruno. Só que atrás dele Pedro vinha vindo.
– Eu já estava saindo – ele disse. Também estava limpo e arrumado, mas ainda caminhava com dificuldade. Depois que ele subiu as escadas Bruno se virou pra mim.
– E então? Você está bem diferente, em? – ele disse – Quer entrar?
– Ã... sim – eu passei pela porta. O apartamento deles não era tão bonito, era bem mais simples, mas ainda assim era aconchegante. Ele me mostra um sofá, nós nos sentamos um de frente para o outro. – Você está sozinho?
– Tem uma no banheiro, mas ela está tomando banho, não se preocupe – ele se ajeitou na poltrona. Seus cabelos pretos estavam arrepiados e os olhos castanhos estavam brilhantes, ele usava uma camiseta branca polo e calças jeans. – Olha, eu acho que sei do que você quer falar...
– É, eu acho que você sabe. – eu disse – Mas antes de tudo, eu quero agradecer a você por ontem, você me salvou. De verdade, eu ia estar morto agora.
– É isso que os amigos fazem, não é? – Ele disse e forçou um sorriso.
– É. Bem eu estou aqui para alertar você. Já tem um tempo que eu... descobri sobre Pedro. Ele... – baixei o to de voz – é filho de Hades.
– Eu sei – ele disse triste – Mas não posso simplesmente mandar ele embora, ele pode me matar!
– Eu sei... mas toma cuidado, ok? – eu disse e me dirigi até a saída. Ele apertou minha mão e notei algo estranho. Uma marca. – O que é isso? Você é filho de quem?
Aquilo soou idiota e impulsivo. Eu sei o quanto é delicado falar da família, mas simplesmente saiu. Involuntariamente. É sério.
– Ah – ele puxou o braço – Eu sou filho de Hefesto. Estranho, não é? Eu achava que... ah sei lá, achava que não era Hefesto.
– Ah, certo. Eu também, não achava que você era filho de Hefesto.
– Você é filho de Ares? – ele perguntou
– É... – toda a longa a história sobre Marte me veio em mente, e eu estava com preguiça demais para contar. – Sim.
– Legal. – ele disse e eu fui embora.
Logo depois de subir as escadas do apartamento, eu sentei no sofá e minha cabeça começou a doer muito. Latejar de verdade. Levei a mão nela e de repente eu estava vendo fog, fogo para todos os lados. Sacudo a cabeça, fecho e abro os olhos varias vezes. Durou uns 5 minutos até passar. Quando volto a mim Selina e David estão abrindo a porta.
– Como está Tomadinha? – Selina pergunta, de um modo frio.
– Ótimo – meti – E vocês?
– Bem – Selina respondeu ainda fria
– Eu to legal – David disse feliz e então começou a andar na direção de uma parede. – A quanto tempo estão capturados.
– Sei lá, uns 15 dias?
– 17 dias, 12 horas e 30 minutos – Selina disse
– Como você sabe disso? – perguntei
– Eu sei das coisas, ta? Por que, David?
– Então... hoje é dia 24 de dezembro. – David disse – Véspera de natal.
– E daí? – perguntei
– Daí – Selina disse –, que amanhã fecha os exatos 100 anos do Pacto de Sacrifício.
***
Estava anoitecendo e não me importava que horas eram, eu só queria dormir. Pedro chegou no apartamento minutos depois de David sair. Ele apenas se deitou e riu pra mim. Aquilo me enojava, eu poderia ter morrido diversas vezes por causa dele, mas aquilo sequer o incomodava. Tive uma noite tranquila de sono, certo? Errado!
O meu sonho não foi bem um pesadelo, mas também não foi agradável. Vi nosso antigo acampamento, o antigo mais recente. Nak estava ajoelhada envolta de um menino moreno de olhos róseos. Ela chorou e colocou uma bandagem em cima da testa do garoto. Este estava desacordado, mas mesmo assim se contorceu um pouco. Olhei em volta. Os outros estavam dormindo, em seus sacos de dormir na rua. Aquilo me comoveu, Nak e o garoto. Eu me aproximei deles e olhei o menino com calma. Eu iria dizer alguma coisa, mas sei que seria inútil, ninguém me ouviria mesmo.
– Ele vai ficar bem – eu disse alguns minutos depois.
Nak se virou a procura do som.
– Alguém está aqui?
Ela me ouviu... Ela me ouviu! Senti meu corpo saindo do sonho, me senti voltando a cama, deitado.
– Socorro! Apartamentos, escuridão, cidade! – gritei e acordei sentado na cama suando frio.
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