Os Poderes Perdidos

2 Capítulo 2: Uso uma espada mágica


DEPOIS DA noite estranha, acho que meu dia não podia ser mais anormal. E eu estava certo. Fui para aula e foi tudo normal, nada de estranho (a mesma galera apanhando no recreio, os mesmos valentões batendo e os mesmos professores fingindo que não veem nada).

Meu dia, então, foi completamente normal tirando pela noite. Fui ler os livros da vovó um pouco, mas fui dormir cedo, queria ver Marte de novo e perguntar sobre meu pai. Não demorou muito para que eu dormisse, pois andei com sono o dia inteiro porque me cansei em meu sonho anterior. Estava no mesmo lugar de sempre, o campo, as armaduras, tudo menos o Marte.

– Oi Marte – eu chamei procurando por ele – você está aí? Sou eu Erick.

Silencio, não havia ninguém. Comecei a sentir uma presença atrás de mim, apertei os botões do meu relógio e quis que ele se transformasse e ele se transformou em Alfa ligeiramente em minha mão (sim, estava tentando achar um nome para o escudo e acho que Alfa foi o melhor que pude pensar). Virei para trás a tempo de bloquear o ataque de alguém, primeiro achei que era Marte, depois vi que não. O cara era super estranho. Tinha uns dois metros de altura e usava um sobretudo preto, coturno, luvas, óculos escuros, chapéu e tinha a pele marrom madeira. Em suas mãos estava um porrete de espinhos.

Corri desesperadamente pelo campo procurando uma espada e peguei a primeira que encontrei, esta era mais pesada ainda que a peguei na noite anterior mas não podia me dar o luxo de escolher. Estava escuro exceto pela luz da lua e por algumas lâmpadas que haviam no local. As “prateleiras” com armaduras faziam circulo me deixando sem escolha a não ser lutar, que para mim era sinônimo de morrer.

O bicho veio para cima de mim, me lembrei do que Marte dissera ontem sobre me concentrar e desviar. Fiz isso, desviei para o lado e desferi um golpe contra seu calcanhar e dele começou a sair fumaça. Eu posso feri-lo e ele pode me ferir, que ótimo! Ele me deu um tapa e eu caí. Ele levantou o porrete e eu pude ver exatamente para onde tinha que sair. Rolei para o lado e levantei a tempo de cortar seu braço estranho do punho ao cotovelo de onde começou a sair mais fumaças que se dissipavam logo a cima, de modo que não formava uma “nuvem” como se fosse uma fogueira.

Ele urrou de dor, acho, e tentou me acertar. Eu desviei de novo como se já soubesse lutar a anos, me sentia bem, me sentia como se tivesse sido feito para lutar até levar um soco na barriga e cair de cara no chão. Deixei minha espada cair quando apanhei e o “esquisito” a chutou para longe me deixando apenas com Alfa. Foi aí que o momento mais esquisito da noite aconteceu, estiquei a mão para a espada desejando que ela viesse para a minha mão e ela veio. Não havia tempo para pensar em como fiz aquilo, apenas corri em direção ao oponente e o feri no peito, desviei de seu golpe, passei por baixo do seu braço e feri suas costas. Ele estava sentado no chão com uma das mãos no peito e a outra tentando pegar o porrete.

– Melhor não – eu disse confiante com a espada em seu pescoço. Esperava que ele fosse me bater enquanto eu fazia cena, mas ele apenas ficou me olhando e rosnando.

Do fundo do campo, atrás de uma prateleira saiu um homem batendo palmas. Marte.

– Isso foi incrível irmão! Eu achei que ia ter que me meter, mandar ele parar ou coisa do tipo, mas pelo que vejo você aprendeu rápido! Isso é ótimo! Nunca tinha visto ninguém alem de mim derrotar um ogro da caverna com tanta facilidade.

– Ogro o que?

– É um ogro que eu criei em uma caverna para treinar. Esse aí é filhote, mas os maiores são bem mais fortes, embora acho que não sege problema para você.

– Ah, obrigado Marte. – eu disse enquanto transformava Alfa de volta em um relógio e largava a espada na prateleira de onde tirei – Eu, bem – começou a me dar um mal estar – eu vou sentar um pouco.

Sentei em uma cadeira próximo a Marte e tomei um pouco de água.

– Não se preocupe Erick – ele disse ainda orgulhoso – é assim mesmo, até seu corpo se acostumar.

– A levar socos na barriga?

– Não, a lutar usando os poderes.

– Ah, aquela espada é... mágica?

– Não irmão. Você é, você pode fazer isso. Você herdou os poderes do papai.

– Que poderes?

– Harg maninho, sabendo lutar desse jeito como ensinei, quem precisa de poderes?!

– Sobre o nosso pai, o que ele faz?

– Cuida do mundo.

Ah, meu pai cuida do mundo, que legal! Vou levar ele na escola no dia da profissão. Que idiota, como ele ia cuidar do mundo?

– Você vai conhecê-lo quando chegar a hora certa. Só ele pode te dizer quando é. Vamos treinar?

– Vamos, mas como eu faço aquilo com a espada?

Ele tentou me explicar dizendo que era só eu querer, mas disse que meu corpo não estava preparado ainda e muitas coisas sem sentido que não consegui entender. Eu e ele lutamos um pouco e depois a imagem dele começou a tremeluzir.

– Está na minha hora irmão. Você começará a colocar a prova seu treinamento daqui a alguns dias.

Eu não entendia bem o que ele queria dizer com colocar o treinamento a prova, mas acho que deve ser mais um ogro da caverna ou coisa assim que ele vai me dar para treinar.

***

Sexta feira chegou, eu todos os dias treinando a noite com Marte e aprendendo coisas de guerra. Na noite passada ele me ensinou aonde deve atingir um ogro adulto para desarma-lo (é na parte de baixo de seu punho, porque lá ficavam as correntes e a pele estava machucada), ensinou táticas como se sua espada for menor que a do oponente tente sempre ficar mais perto, essas coisas.

Era noite, minha mãe e eu estávamos jantando (pastéis que ela ganha da pastelaria quando sobra no dia). Eu comentei com ela que estava com sono e logo iria dormir. Ela estava me achando estranho nos últimos dias. Eu não gostava de ir dormir cedo, mas andava indo cada dia mais cedo pra cama.

– É que eu ando cansado – eu disse – e gosto de dormir.

– Você está de férias Erick, não precisa ir se não quiser. Não tem mais aula, pode dormir até que hora que quiser.

– Eu sei, mas estou realmente com sono.

Fiquei tentado a contar tudo a ela. Sempre contei tudo para minha mãe, mas aquilo era loucura e a deixaria preocupada então achei melhor mentir, dizer que era cansaço mesmo. Ultimamente à tarde eu andava brincando com Alfa e uma espátula da minha mãe (a espátula era a espada) refazendo os golpes que Marte me ensinara.

– Vamos conversar um pouco – ela disse – Eu estava pensando, podíamos ir na sua avó este final de semana, o que você acha?

Eu adoro ir na minha avó, quando ela vai para o sitio é mais legal ainda. Gosto de brincar com os animais, andar a cavalo, e lá eu podia brincar com meu primo David a vontade sem o pai dele se implicar. Nossa ia ser tão legal, ia poder mostrar ao David o Alfa, os golpes, a gente podia brincar de corrida com cavalos, jogar juntos...

– Eu ia adorar, ela está no sitio?

– Está, o David está junto com ela. Eu andei pensando se você não quer passar a semana lá com eles.

Ia ser muito legal, mas deixar minha mãe sozinha não era bom. Ela não gosta de ficar sozinha e estava me propondo para ir. Fiquei pensando um pouco.

– Mas e você? Vai ficar sozinha?

– Sou grande Erick, sei me cuidar.

– Não tem problema então, se eu quiser ficar lá?

– Não. Prepare suas malas, vamos amanhã pela manhã.

Fui para meu quarto preparar as malas, ia ser super legal, minha vó, eu e David, ela sempre dava livros para nós dois. Nunca entendi porque só pra a gente, no natal os outros ganhavam roupas, brinquedos, nós dois sempre ganhamos livros e jogos como mytomania e outros do tipo.

Alfa ficou em meu braço, afinal precisava dele a noite para treinar com Marte. Coloquei meus assessórios de toalete, roupas de banho (no sitio da minha vó tem piscina, embora eu não goste muito de água. Quase sempre quase me afogo ou coisa assim). Coloquei uns livros que vovó me deu para ler na viagem ou coisa assim.

Deitei, querendo dormir o mais rápido possível para falar com Marte. Dormi e apareci no mesmo lugar de sempre, ele me esperava com um sorriso no rosto.

– Pronto para mais um dia de treinamento?

– Sim, acho que sim. E aí vamos aprender o que hoje?

– Primeiro uma pergunta, Erick. Se eu me rebelasse e lutasse contra você. Vamos dizer, eu seria poderoso, poderia te reduzir a pó se quisesse, o que você faria?

Não entendi o motivo da pergunta. Ele estava pensando em se rebelar? Ele ia me reduzir a pó? Dei de ombros.

– Eu te enfrentaria. – seria a única opção já que correr eu não poderia cogitar se não ia virar pó instantaneamente. Ele riu como se aquilo o animasse.

– Ótimo, você é corajoso e ousado e é isso que mais gosto em você irmão. Vamos lá.

Treinamos táticas de guerra e lutamos um contra o outro algumas vezes. Uma delas eu ganhei, então ele disse que ia aumentar o nível de dificuldade e eu perdi as outras duas seguidas.

– Você tem um gênero forte. – ele disse enquanto bebíamos água – É um grande líder, difícil de dobrar e autoritário.

– E isso é bom?

– Oh céus, Erick, claro que é! Você é um líder nato, espero ver você liderando exércitos um dia. Bem, tenho que ir – ele parou como se sentisse um pressentimento ruim – na ida, quando você estiver indo para a sua vó, ele vai... ele vai te achar.

A imagem tremeluzia, eu não o enxergava direito.

– O que? Do que você está falando?

– Aceite a minha benção. Aceite e você lutará melhor. Aceita?

Fiquei confuso, por um momento não sabia o que responder. Quer dizer eu não sabia de nada, nada fazia sentido, mas senti que tinha que ser rápido e resolvi aceitar.

– Eu, Marte, deus da guerra dou minha benção a Erick Griffin, em sua consciência. Eu Marte divido parte de meu poder com esse mortal. Que a guerra viva em Griffin como vive em mim! – ele gritou e desapareceu

Um trovão rugiu nos céus, um raio deve ter caído perto de mim, mas nem senti. Eu estava me sentindo ótimo. Por um momento pude ver uma fraca luz dourada entrando em mim. Comecei a me sentir forte, como se sentisse que a luta estava em mim.

Olhei para meu punho. Lá estava uma marca que eu nunca tive. Uma marca de duas espadas cruzadas na parte de baixo do meu punho estava lá, como se eu tivesse feito uma tatuagem.

Acordei em minha cama. Sentei e olhei as horas eram cinco horas da manhã. Marte foi mais cedo hoje. Olhei meu punho, a marca estava lá. Resolvi levantar. O que mais me intrigava era a frase que ele disse: “na ida, quando você estiver indo para a sua vó, ele vai... ele vai te achar”. Conferi minha mala, estava tudo lá. Conferi Alfa, em meu pulso. Conferi as horas: seis horas, minha mãe levantou, entramos no carro e saímos.

Comecei a pensar no que ia acontecer. Ele vai te achar, quem? Quem será poderia estar interessado em mim assim. Só sei que isso não parecia nada bom.