Os Poderes Perdidos

17 Capítulo 17: Minha espada cai no abismo


MEDO. Simplesmente medo. A arma mais poderosa de Hades. Nunca escrita ou relatada em qualquer livro, mas que eu tive de descobrir sozinho. Medo. O que eu estava sentindo naquele momento. Olhei para Selina, mas ela apenas me olhou de volta, sem nenhuma fala, nada. Eu queria poder falar com meu primo agora. Queria que ele me explicasse algumas coisas ou me aconselhasse, porque ele é medroso, sim, mas sabe dar conselhos. Só que agora não era o momento, e ainda que fosse, queria falar com ele sozinho, não algemado a outra pessoa...

– Então? – a Azul perguntou – Para onde vamos?

– Provavelmente só 1 deles é certo, os outros vai nos matar. – disse David.

– Um sorteio? – sugeri

– Vamos decidir nossa vida em um sorteio? – Selina reclamou – Vamos analisar, ver os pros e os contras de cada um. Primeiro, estamos atrás dos poderes Hades, certo?

– A não ser que vocês conheçam outro deus dos mortos sedento pelo meu sangue – disse

– Espera... – a Azul disse – Você é o príncipe?

Ela disse isso meio com desdém. Provavelmente esperava alguém mais experiente, mais velho.

– Infelizmente, sim. – eu disse e ela me encarou surpresa. – Prazer. – falei tentando amenizar a situação, mas não funcionou.

– Estou perdida! – ela disse – Você sequer pode usar as 2 mãos!

Fiquei envergonhado, de certa forma. Eu devia ser uma figura de guerra. Um... Ares da vida, sei lá. Por um momento desejei não ser tão novo e nem tão... fraco? Desabilidoso? Não, não é essa a palavra. A palavra é vulnerável. O clima ficou tenso, eu desviava o olhar para baixo enquanto a menina praticamente despedia-se da vida.

– Hã... vamos continuar? – Selina sugeriu. Me deu vontade de abraçá-la por mudar de assunto – Bem, analisando os tuneis. Um é mais largo, então tende a ser mais curto. O dois é mais estreito e ao julgar pelas paredes áridas e feitas por uma proporção ligeiramente contraria ao da estrutura original, eu diria que ele é, basicamente, a metade de um ligeiro retângulo de dez metros cúbicos.

Selina nos olha e analisa nossos rostos. Todos os 3 ainda tentando absorver as palavras super inteligentes e completamente sem sentido pra nós.

– Traduz – eu disse

– Vai acabar na metade em uma brecha estreita que vai nos impedir de continuar ou até mesmo de voltar.

– Ahhh – todos nós dizemos. – E o terceiro? – perguntei

– Tem uma luz no final. Provavelmente vai chegar a algum lugar lá fora.

– Então? – a Azul perguntou

– Acho que o 3 – David votou e nós concordamos.

– Mas, provavelmente você está certo, David. 1 deles é certo, então se formos todos para 3 e ele for errado, ninguém terá chances. É melhor nos separarmos.

– Ok, eu e Selina vamos para o 1 e... – David começou a falar – Eu tinha esquecido. Eu e a azul para o um, então.

– Vocês vão precisar de luz – eu disse e joguei meu relógio pra ele – Fica com ele.

Ele concorda e depois que Selina e eu ficamos esperando os dois entrarem (já que David reluta em ir na frente e resmunga algumas coisas). Entramos no 3º túnel. Andando um ao lado outro, tendo como foco a luz no final dele. A cada passo que damos, Selina praticamente se esconde atrás de mim.

– Você tem... medo do escuro? – perguntei, quebrando o silencio.

– Não. Mas você viu as frases. Eu devo estar na lista dele agora.

– De Hades? – perguntei e uma nuvem de sombras nos atingiu. Selina agarrou meu braço.

– Quer fazer o favor de não falar nomes? – ela brigou – É como se você estivesse o evocando.

– Desculpe.

Continuamos, em silencio, atentos a qualquer coisa que se movesse ou não na escuridão. Caminhamos 1, 2 metros a frente, muito devagar e muito cautelosamente. Eu avisto a luz mais forte, mas não a frente, ao lado, nos lados. Cutuco Selina com o cotovelo e me aproximo da luz azul. Um círculo com algumas pontas ao redor, azul claro, brilhante, enterrado na caverna. Um diamante.

– Não toque nisso! – Selina avisa segurando minha mão a dois centímetros do objeto. – Pode ser uma armadilha. Na mitologia romana, o equivalente romano do deus dos mortos comanda as pedras preciosas porque elas ficam abaixo da terra. E tudo que fica abaixo da terra é de seu domínio.

Continuamos, eu com a cabeça voltada para trás ainda pensando se voltava para pegar o diamante ou não. Provavelmente eu poderia arrastar Selina até lá, pegar a pedra e por dentro do bracelete, mas se fosse mesmo uma arm... interrompo meu pensamento quando dou de cara com um estalactite gigante. Tipo, do topo do teto quase o final do piso.

– Ai – gemi e coloquei a mão na testa, mas assim que me movimentei o chão tremeu.

– O que é isso? – eu e Selina falamos juntinhos. Só que eu apontando para a pedra e para o chão, e ela pra luz forte que vinha de fundo do túnel. Em um movimento rápido ela ilumina do seu lado, vê uma abertura mínima (talvez um corredor). Ela olha de novo para o estalactite, para luz, para o túnel e só tem tempo de dizer corre!

Tudo foi em menos de 5 segundos. Me joguei para dentro do corredor junto com Selina antes do fogo atingir o túnel inteiro. Cheguei a queimar a camiseta porque não deu tempo de puxar toda para o corredor. Estou olhando para as chamas incessantes quando algo puxa meu braço com força.

– Corre Erick! Corre! – Selina estava gritando

De inicio eu não entendi o porque, até meus olhos conseguirem ver o estalactite através das chamas. Solto, cravado no chão que era frágil o suficiente para se romper inteiro com o peso da pedra. Começo a correr tarde demais, estou apenas 1 passo a frente do desabamento do chão. O corredor não parece muito curto e minha velocidade não parece muito boa, tanto que Selina está alguns passos na minha frente. Olhei para trás, meus pés ainda pisam em um pedaço falso de chão. É aí que o pânico me atinge. Começo a correr e a empurrar Selina na minha frente, logo depois já estou alguns passos na frente dela. Mas o desabamento consegue ser ainda mais veloz. O corredor começa a se estreitar de forma que deixo Omega cair no buraco, mas ela parece estar caindo bem devagar (ou é fundo demais). Um pequeno buraquinho ainda está aberto – o suficiente para passar uma pessoa – no final do túnel, então empurrei Selina para frente e fiz ela passar. Antes de passar estiquei a mão para o buraco e Omega veio até mim. Então passo pelo buraco e já sou puxado túnel adentro.

Achei que tinha acabado, mas o chão começa a cair novamente. Corro de novo, mas dessa vez tenho bastante vantagem. Mais ao longe, meus olhos avistaram duas pessoas andando devagarzinho com uma luz dourada e redonda iluminando a frente enquanto andavam.

– Corre! – eu gritei – David corre!

Ele se virou para mim com a sobrancelha ruiva franzida e meio boquiaberto.

– Erick?

– Corre!

Eu e Selina estamos a alguns passos deles e começamos a empurrá-los túnel a fora. Com força, com velocidade e, principalmente, com medo, corremos até o fim da linha. O túnel simplesmente acabou e nossos pés flutuaram por um segundo antes de começarmos a cair. Para nossa sorte, a altura era mediana de forma que caímos sem nos machucar muito.

Levanto a cabeça, esfrego os olhos e o galo na cabeça. Não enxergo nada. Tudo escuro. Nenhuma luz. Apenas Omega que está bem longe de mim. Alguém segura minha mão como apoio. Tento enxergar, mas continuo “cego”.

Uma. Duas. Duas luzes vermelhas fortes estão atrás de mim. Me viro a tempo de evitar a terceira. Com o braço direito abraço algum corpo ao meu lado e me jogo no chão com ele antes das chamas atingirem nossas cabeças.