Os Pesadelos de Kouta
1 Dia
Era uma bela manhã de sol, mas para Kouta, não tinha nada de bela. Seu cabelo espetado não parecia diferente do normal, mas as olheiras em seus olhos eram profundas e ele não parecia feliz.
—E aí Kouta, que cara é essa! Ganhou na loteria?
Era a voz de seu velho amigo Ryuki, que já chegava agarrando seus ombros e dando um pulo, como sempre. Normalmente Kouta tentava aguentar o peso dele, mas dessa vez ele simplesmente caiu no chão... levando Ryuki junto.
—Ai! — Gritou Ryuki, rindo em cima dele. —Meu deus, tá mal mesmo, hein?
—Sai de cima de mim, Ryuki...
A vontade era de cair no sono ali na calçada mesmo, mas quando Kouta olhou para cima... a bela visão que teve o acordou mais.
—O que estão fazendo? — Disse uma voz feminina familiar. —Não percebem que estão atrapalhando a passagem?
Quem dizia isso era Miku, a linda garota que era não só colega, como representante da classe dos dois. Ela estava de pé na frente dos dois, e Kouta, estatelado no chão, podia ver claramente a calcinha branca dela.
—Qual foi, Miku, a gente só tá se divertindo! — Disse Ryuki. —Ah, espera, esqueci que você não sabe o que é isso!
—Muito engraçadinho, Ryuki. — Ela respondeu séria, com um vento levantando sua saia. —Isso não devia ser da minha conta, mas a aula já vai começar, sabiam?
—Jura? Achei que era feriado hoje! — Ele respondeu, rindo.
—Vocês podem ter essa discussão FORA DAS MINHAS COSTAS? — Gritou Kouta, irritado, pois Ryuki ainda estava sentado nas costas dele. Ele até queria ficar mais tempo no chão admirando a calcinha de Miku, mas ficar com a cara na calçada não era a melhor forma de fazer isso.
Depois dessa, Ryuki finalmente se levantou e ajudou o pobre Kouta a se levantar. Tirando a poeira de seu uniforme, ele finalmente ficava de pé novamente e podia olhar direito pros dois, já que Ryuki ficara o tempo todo nas costas dele e a calcinha de Miku desviava a atenção de seu rosto.
Ryuki tinha o cabelo castanho claro, com a franja partida no meio e um pequeno ahoge no topo da cabeça. Ele tinha olhos verdes e era um pouco mais alto que Kouta, o que o fazia se perguntar por que diabos ele sempre fazia questão de se jogar nos ombros dele, já que ele era menor.
Já Miku tinha cabelos negros que lhe chegavam à altura dos ombros, enfeitados por dois pequenos prendedores nos lados da franja. Ela tinha olhos castanhos, assim como os de Kouta, e era extremamente bonita. E por mais que Kouta não ligasse muito para meninas ainda, a saia extremamente curta do uniforme de Miku lhe causava certos sentimentos.
—Você está bem, Kouta? — Ela perguntou, responsável como sempre. —Espero que o Ryuki não tenha te machucado com suas travessuras.
—Quem é que diz "travessuras" hoje em dia, você é minha avó, por acaso? — Ryuki riu. —Nem parece que tem dez anos falando desse jeito!
—Eu tenho ONZE anos! — Corrigiu Miku, com as mãos na cintura. —Fiz aniversário semana passada.
—Ih alá, parabéns! — Ele respondeu, risonho. —Ganhou o que de presente, material de escritório?
—Por acaso você se diverte sendo inconveniente para todos ao redor?
—É o meu charme~
Miku apenas cruzou os braços e olhou feio para Ryuki, então olhou mais uma vez para Kouta e, vendo que ele estava bem, virou-se e foi andando na frente antes que perdesse mais tempo com aqueles dois. Sua saia curta subiu um pouco com aquela girada, dando a Kouta mais uma vista de sua calcinha branca, dessa vez por trás.
E quando Kouta acordou, já era hora do intervalo.
—Fala sério, cara, que foi que você ficou fazendo essa noite, hein? — Perguntou Ryuki, após encostar uma lata gelada de refrigerante na cara dele.
—Ai! — Ele gritou, com a mão no rosto. —Nada... eu não dormi bem, só isso.
—Não dormiu bem, é... — Ryuki pegou uma cadeira pra sentar na frente da mesa de Kouta. —Fala sério, que tá rolando?
—Já falei, não dormi bem!
—Kouta, eu te conheço desde o jardim de infância. — Ele disse, subitamente sério. —Você nunca foi de ter problemas pra dormir assim do nada.
—...
Era verdade. Kouta nunca foi de ficar acordado até tarde, e nunca teve problemas de insônia. E ainda assim ali estava ele, com olheiras profundas e um cabelo bagunçado que só quem o conhecia bem podia ver que estava ainda mais bagunçado do que o normal.
—... eu ando tendo pesadelos. — Ele admitiu, por fim.
Ryuki não respondeu de cara. Apenas piscou os dois olhos, se perguntando se tinha ouvido direito.
—Pesadelos...? Tipo, monstros debaixo da cama?
—Tá, pode rir. Você vai rir mesmo que eu diga pra não rir.
—Você fez xixi na cama?
—Ryuki, vai se ferrar!
Apesar do tom de piada, Ryuki não ria nem sorria, e Kouta notou isso. Ele suspirou, e voltou a deitar a cabeça na carteira.
—Começou sexta-feira passada. — Ele disse, com os olhos fechados. —E continuou em todas as noites até aqui. E eu não consigo voltar a dormir depois que começa.
—Mas o que rola nesses sonhos? — Perguntou Ryuki, com a sobrancelha erguida. —O bicho-papão vem comer você?
—Eu não sei descrever direito...
—Vai, tenta!
Kouta pegou seu lanche que tinha trazido de casa, um sanduíche de ovo, e deu uma dentada enquanto pensava em como descrever.
—Sempre começa do mesmo jeito... eu tô sozinho no meu quarto, no meio da madrugada. Tá tudo escuro. — Ele começou a descrever. —E então... uma mão entra pela janela.
—Uma mão? Tipo o Mãozinha da Família Addams?
—Não, não é uma mão decepada. É uma mão toda podre, parece só osso e pele de zumbi... e logo depois, a coisa entra pela janela.
—Um zumbi?!
—Não... digo, eu não sei. Não dá pra ver.
—Como assim não dá pra ver?
—Ele usa um capuz preto.
—Zumbi de capuz... ok, essa é nova pra mim.
—Eu não sei se é um zumbi, cara...
—Tá, tá. E aí?
—E aí eu dou um grito e acordo. Meus pais vêm correndo pro quarto e não tem nada lá.
—Poxa, só isso?
Ryuki tentou se escorar na cadeira decepcionado, mas ele estava sentado de frente para o encosto, e acabou caindo pra trás e batendo a cabeça na mesa. Kouta, pela primeira vez naquele dia, riu.
Kouta não tinha falado toda a verdade para Ryuki.
Ele descrevera seus pesadelos exatamente como se lembrava, sim, mas teve um detalhe que ele omitiu. Talvez Ryuki tivesse percebido, afinal, ele era seu melhor amigo... mas mesmo sendo seu melhor amigo, Kouta não achava que ele ia acreditar se lhe contasse a verdade.
Esses "pesadelos"... começavam antes de Kouta dormir.
Tudo começou na sexta-feira, três dias atrás. Após um dia tranquilo de aulas e uma noite no fliperama com Ryuki, Kouta voltou para casa, jantou com seus pais, jogou um pouco de videogame e foi dormir.
Mas é claro, ninguém simplesmente fecha os olhos e cai no sono de uma hora pra outra. Kouta ainda ficou algum tempo olhando pro teto, pensando no dia que tivera... e foi quando aconteceu.
A janela do quarto dele estava aberta, como era o usual. As luzes estavam apagadas, mas a luz do luar adentrava... e então, a sombra.
E não era a sombra de uma nuvem.
E então... a mão.
Uma mão podre, só pele e osso, parecendo carniça que apodreceu há muito tempo... simplesmente agarrou o parapeito da janela dele. E essa mão, claramente, pertencia a um vulto.
Kouta gritou. Os pais dele correram para o quarto.
E nada estava lá.
Naturalmente, os pais dele rapidamente se convenceram de que era um sonho... mas ele sabia que não era. Ele nem sequer fechara os olhos! Mas sua mãe dizia que ele só não tinha percebido que tinha adormecido, e que isso era normal.
E Kouta... acabou se convencendo também. Ora, ele já tinha 11 anos, era velho demais para acreditar em monstros, não é?
... mas ele não conseguiu dormir. No sábado, seus pais perceberam isso, e deixaram ele dormir com o abajur aceso.
Péssima ideia.
A luz fraca do abajur fazia sombras imensas e distorcidas no quarto inteiro. E mesmo antes de dormir, talvez pela lembrança do dia anterior... aquilo, por si só, estava dando arrepios em Kouta.
E então as sombras começaram a se mover.
Mais uma vez, ele não tinha sequer fechado os olhos, quando as sombras começaram a se mover sem ter nada se movendo, e tomar formas mosntruosas que não se pareciam com nada que houvesse no quarto dele. E então... uma das enormes sombras saiu da parede.
Uma sombra tridimensional, imensa, do tamanho do quarto, que agora avançava na direção de Kouta.
E quando ele gritou a plenos pulmões... mais uma vez, seus pais foram correndo até o quarto e nada havia lá.
No dia seguinte, domingo, seus pais deixaram ele dormir com as luzes do quarto acesas. Não o abajur, a lâmpada do próprio quarto acesa.
Kouta não era do tipo que conseguia dormir no claro... antes disso tudo começar, ele sempre preferiu dormir no mais completo escuro. Por isso, mesmo sem as sombras sinistras do abajur, ele não estava realmente conseguindo dormir com o quarto totalmente aceso.
E então... mais uma vez, a mão putrefata na janela.
Kouta cobriu a boca com as duas mãos para não gritar. Ele tentou se convencer de que era só um sonho, que tinha dormido sem perceber, que aquilo não era real... mas o quarto estava claro. Ele tinha certeza que não tinha dormido.
E então... a coisa entrou pela janela.
Uma figura enorme, de mais de dois metros, coberta por um capuz preto. A única parte visível de seu corpo eram as mãos... as duas mãos podres e esqueléticas, que a coisa agora estendia na direção dele.
E quando a coisa tocou seu rosto... com aquela mão gelada, áspera e nojenta... ele deu o grito mais alto que dera nos últimos dias.
E mais uma vez, seus pais entraram no quarto e não tinha nada lá.
E agora era segunda-feira. Kouta passara o dia inteiro com sono, e quase não assistiu as aulas. Muitos professores brigaram com ele, mas ele sempre acabava caindo no sono novamente. Apenas nesses momentos ele conseguia dormir.
E dormir na carteira era surpreendentemente gostoso... ele se sentia estranhamente confortável, como se alguém estivesse gentilmente acariciando seu cabelo enquanto ele descansava. E aquele cafuné era tão bom...
... demorou um pouco para ele perceber que alguém realmente estava fazendo um cafuné nele. E quando ele abriu os olhos, lá estava Miku.
—Você dormiu na aula o dia inteiro hoje. — Ela disse, acariciando o cabelo dele. —Nem o Ryuki é irresponsável desse jeito, você está bem?
—... estou. — Ele disse, voltando a fechar os olhos. —Só não dormi bem essa noite.
—Estudantes precisam dormir cedo para se dedicarem aos estudos. — Ela respondeu, sem parar o cafuné. —Aposto que ficou jogando videogame de madrugada, não é?
—Não. — Ele respondeu num tom mal-humorado, embora estivesse secretamente adorando o carinho na cabeça. —E mesmo se tivesse, isso não é da sua conta.
—Ainda assim, você nunca foi disso. — Ela continuou, ainda alisando o cabelo dele. —Claro, você nunca foi um excelente aluno, mas isso é irresponsabilidade demais até para você.
—Nossa, obrigado.
—Andar com o Ryuki está te fazendo mal.
—Não enche.
—Se não é ele, você deve estar doente. — Ela então moveu a mão do cabelo dele para o pescoço, encostando as costas da mão na nuca dele. —Mas você não parece com febre.
—Eu não tô doente. — Ele disse, finalmente erguendo a cabeça agora que o cafuné tinha acabado.
—Certeza? — Ela perguntou, séria. —Mesmo sem febre, você parece doente. Era melhor ter pedido para ir à enfermaria.
—Eu tô legal. — Ele disse, pegando a mochila e já saindo da sala.
Ele dormira tanto que o sol já estava se pondo, as aulas já haviam acabado. A maioria dos alunos já tinha ido embora, só restava mais alguns. Kouta se perguntou onde estava Ryuki, estava até surpreso que quem o tinha acordado fora Miku e não ele.
E enquanto ele e Miku se aproximavam do portão de entrada (ou de saída, nesse caso), lá estava Ryuki acenando com um sorriso.
—E aí, Bela Adormecida! — Ele cumprimentou. —Demorou, hein?
—Por que não me acordou? — Perguntou Kouta.
—Eu ia, mas aí vi a Miku se aproximando e resolvi deixar com ela. — Ele respondeu com um sorrisão para ela.
—Eu sou a representante de classe, não posso deixar ninguém ficar lá após as aulas terminarem. — Ela respondeu, simplesmente.
—Tô vendo o quanto vocês dois se preocupam comigo... — Disse Kouta, revirando os olhos.
—Eu me importo mais do que o seu amigo, pelo visto. — Disse Miku, inexpressiva.
—Uma ova, você tá preocupada é em ser a perfeitinha e agir feito mãe de todo mundo. — Disse Ryuki, zombeteiro. —Nem todo mundo é uma máquina que nem você, sabia? As pessoas gostam de dormir e se divertir!
—Eu também gosto de me divertir. — Ela retrucou na hora, séria. —Diversão e responsabilidade podem e devem andar juntas.
—Tá, tá. Simbora, Kouta, antes que essa menina mais nova que a gente ponha a gente de castigo!
—Eu sou só alguns meses mais nova que vocês! — Ela retrucou, indignada.
—Exatamente. Mais nova. — Respondeu Ryuki, zombeteiro.
Miku apenas encarou Ryuki com um olhar gelado, apenas para no fim dar um giro de 180 graus e ir embora. Mais uma vez, a saia dela subiu com o giro e Kouta pôde apreciar, mais uma vez, a calcinha branca de Miku.
—A saia da nossa escola é bem curta, né? — Comentou Ryuki com um sorriso zoeiro, percebendo para onde Kouta estava olhando. Kouta rapidamente olhou para o outro lado, fingindo que não tinha visto.
—Ei, Ryuki...
—Que foi?
—... posso dormir na sua casa hoje?
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