Era noite de inverno e a neblina cobria tudo. O dia também fora nublado, mas mesmo que fosse ensolarado Ricardo não teria visto a Pisadeira escondida no telhado de sua casa. Contrariando o que sua mãe sempre dizia quando era criança, ele comeu um farto jantar – regado a muito vinho – e foi dormir. Talvez fosse melhor ouvir o que dizia dona Maria. Mas logo ele descobriria isso.


Ricardo deitou-se sob a colcha azul, ouvindo o barulho da chuva fininha que caia lá fora e adormeceu, de barriga para cima. Nesse momento, a mulherzinha pequena e magra saiu de seu esconderijo, adentrou a casa e lentamente, esgueirou-se pelos cantos. Foi passado devagar pelos cômodos, sorrindo num esgar louco, antecipando o prazer. Chegou ao quarto, parando ao lado da cama da vítima.


Ainda mais lentamente, ele subiu no corpo de Ricardo, apoiando-se em seu peito, uma perna de cada lado do corpo. Respirou fundo, inalando o tormento do homem abaixo de si.


Ricardo sentindo tamanho desconforto acordou. Sentia-se paralisado, sufocado. Tentou gritar pedindo ajuda e não conseguiu. Começou a sentir uma presença estranha em seu quarto. Desesperado, abriu os olhos. E desejou tê-los mantidos fechados. Tinha uma velha montada em cima dele. O rapaz arregalou os olhos, mudo.


A velha parecia ser extremamente magra, caquética, mas mesmo assim, pesava como se fosse chumbo. Seu corpo era todo contorcido, e o rosto mais horrendo ainda. O queixo era virado para cima, como o das bruxas nos contos de fadas. Ele pode ver os dentes esverdeados dela quando a Pisadeira passou as longas unhas sobre seu peito, fazendo seu peito palpitar mais rapidamente. Horrorizado com a idéia de que ela poderia arrancar-lhe o coração, Ricardo gritou. Ou melhor, tentou gritar, porque nenhum som saiu de sua garganta. Finalmente ele percebeu que ela estava sufocando-o. Deleitando-se com o medo do jovem, a velha começou a gargalhar.


A gargalhada era medonha, e apavorou-o ainda mais. Ele não sabia explicar como, mas intuiu que mais ninguém ouviria aquela gargalhada. Mais tarde ele dar-se-ia conta de que se tivessem ouvido-o, teriam lhe socorrido.


Mas não foi o caso, pois ninguém apareceu. No desespero, começou a agitar-se, tentando derruba-la do seu corpo. Ela continuava a gargalhar, a risada assumindo um tom ainda mais insano e foi aumentando de volume, enquanto a mulher idosa começou a desvanecer-se no ar. Ricardo foi sentindo seus movimentos retornando ao corpo.


Com a respiração ofegante e entrecortada, ele deu-se conta de que a vencera. Desta vez. O pobre não tinha como saber que ela retornaria. Que a intenção não era matá-lo. Ela somente precisava do medo dele. Era disso que a Pisadeira alimentava-se.


Levaria anos até Ricardo perceber que bastaria seguir os conselhos de sua mãe: Nunca dormir de estômago cheio e de barriga para cima.


Fim!

Notas finais
A pisadeira ou pesadeira é um mito que ocorre principalmente no estado de São Paulo e parte de Minas Gerais.Ela seria uma mulher magra e feia, que durante o dia se esconde nos telhados e ataca à noite. Pode ser branca ou negra. =)
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