Os Panidos
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Dedico isso aqui pra você, princess.

Os Panidos
Conta-se que num grande e florido vale, no sopé de uma montanha, havia uma pequena aldeia, onde morava uma gente miúda chamada de panidos. Essa gente pequenina era feita de pano bem costurado e enchido com espumas macias, tão macias que eles adoravam ficar apertando uns aos outros. Havia panidos de todos os tipos e jeitos: magrinhos, gordinhos, baixos e altos, novos e velhos, bem como de todas as cores. Eles eram muito agitados e viviam correndo de um lado para o outro procurando alguma coisa para fazer. Uns trabalhavam muito enquanto os outros se divertiam, uns cantavam, outros consertavam alguma coisa; uns faziam teatro, outros malabarismos e piruetas: ninguém parava.
Contudo, havia algo que todos eles faziam: colocar apelidos uns nos outros baseados em seus fracassos ou em suas vitória. Assim, um panido cantor cantasse desafinado era logo chamado de “senhor desafinado” e logo aparecia alguém que colava uma pequenina faixa com esse apelido. Eles não davam apenas apelidos negativos uns aos outros, mas também davam apelidos positivos como: Senhor afinado, senhor vencedor, senhor flautista e até senhor bom lixeiro. Assim, se algum deles fazia alguma coisa boa ou admirável, recebia uma marca com bom apelido, mas se fizesse alguma coisa feia ou decepcionante, logo recebia uma marca com apelido negativo.
Por causa dessa política de apelidos, havia entre eles os panidos equilibrados, os panidos sucessos e os panidos fracassos. Os “equilibrados” eram aqueles que apesar de terem sidos marcados com muitos apelidos negativos, também receberam muitos apelidos bons; esses eram respeitados e aceitos. Os “sucessos” eram aqueles que praticamente só tinham marcas positivas; eles eram admirados, venerados e quase adorados. Estes muitas vezes recebiam mais uma marca positiva só porque algum panido o admirava por ter muitas marcas positivas. Os “fracassos” eram o inverso dos sucessos, pois eles tinham praticamente somente apelidos negativos e ganhavam marca de fracasso gratuitamente, só porque alguém se admirava que ele tivesse tantas marcas negativas. Esses panidos eram rejeitados e ninguém os queria por perto porque tinham medo de ficarem como eles, cheios de apelidos negativos.
Deco era muito triste, pois era um panido fracasso. Ele passava agora todo o tempo pensando em quantas coisas já havia tentado fazer sem conseguir, recebendo assim muitas marcas de fracassado. Ele já não tentava mais fazer muita coisa com medo de errar, mais isso já não ajudava muito porque quando um panido o encontrava em algum lugar, o marcava como fracassado ou perdedor só porque ele já tinha muitas marcas negativas.
Um dia, Deco estava se sentindo sozinho e tão triste, que começou a chorar e a reclamar da vida, recostado num posta na rua principal da Aldeia, ele chorava tanto e tão desesperadamente que muitos panidos paravam para assistirem a cena:
— Eu sou um fracassado, nada dá certo comigo! — E chorava bem alto.
Logo uma multidão de panidos estavam ao seu redor, colando marcas de fracasso a ponto de ele ficar praticamente todo coberto de marcas negativas. Quanto mais recebia marcas, mas Deco chorava, e quanto mais chorava mais marcas eram colocadas em seu corpo. Até que Patici apareceu e entrando no meio da confusão carregou seu amigo dali protegendo e recebendo por causa disso muitos apelidos. Deco agradeceu e disse:
— Você me salvou! — ela respondeu:
— Ora, você faria o mesmo por mim. — Ele abaixou os olhos e disse triste:
— Não conte com isso, não se esqueça , sou um fracasso.
Nesse momento, Deco percebeu que todas as marcas que foram grudadas em Patici pela multidão, se soltavam espontaneamente e ela ficou sem nenhuma marca, nem boa nem ruim. Foi quando ele lembrou que desde o começo ela não tinha nenhuma marca. Ele perguntou:
— Por que você não tem nenhuma marca e como conseguiu tirar as que lhe colocaram agora?- e ela respondeu:
— Desde que passei a visitar o senhor Panoá, la no alto da montanha, nenhuma marca fica em mim, nem boa nem ruim — Deco ficou curioso:
— Quem é ele? — Ela disse sabichona:
— Ele é o criador de todos os panidos. Um homem muito bondoso que cuida muito bem de mim quando o visito. Ele nos quer felizes. — Ele ficou ainda mais interessado:
— Mas como ele fez isso para tirar as suas marcas? — Ela:
— Não sei como ele fez isso! Vou lá porque gosto de ficar perto dele e do jeito como ele me olha — e Deco quis saber se poderia visita-lo também e ela o levou.
A porta da casa do Sr. Panoa era enorme, parecia ter sido feita para um gigante, mas ainda bem que já estava aberta, pois com o medo que Deco estava sentido, com certeza não conseguiria bater. Ele foi entrando bem de mansinho e começou a perceber que tudo lá dentro era enorme: a mesa, as ferramentas de fabricas bonecos de pano, o banquinho e o homem sentado no banquinho. Deco olhou para seu corpo cheio de apelidos negativos e teve medo do que o Sr Panoá pensaria dele, então resolveu ir embora antes que ele o visse. Quando ele já ia saindo bem quietinho, ouviu: “Deco! Que bom que veio me visitar!” Ele desconfiado olhou para cima e perguntou:
— Como sabe meu nome? – E aquele homem grandão disse sorridente:
— Eu sei o nome de todos vocês, pois fui eu quem os fiz. – E ele abaixou-se e elevou Deco para perto de si, à altura dos olhos. Quando viu todas aquelas marcas espalhas pelo seu corpinho disse:
— Vejo que foram muito cruéis com você lá embaixo – Imediatamente o pequeno panido perguntou-lhe como ele podia ajuda-lo a se livras delas como fez com Patrici. A resposta do Sr. Panoá o deixou muito confuso, pois ele explicou:
— Isso não depende de mim, depende de você. As pessoas lhe colocam essas marcas porque você acredita nelas. Quando entender que tem valor independentemente do que os outros pensam ou galam, as marcas perderão o sentido e cairão. Você é o que é não o que dizem que você é.
Deco ficou pensativo, coçou a cabecinha e disse:
— Não entendo, como vou acreditar que não sou tudo o que dizem se todos me acham um fracasso? – O Sr. Panoá deu um de seus melhores sorrisos e acrescentou:
— Não precisa entender agora, apenas venha me visitar diariamente e eu lhe falarei do quanto você é importante para mim e por isso lhe criei. Vou lhe mostrar que a opinião deles não é tão importante, pois ele são apenas panidos como você. Eles não entendem de onde vem o valor de um panido, pois nunca fabricaram um sequer. A opinião que conta é a de quem entende de panidos e os faz.
Deco ficou num profundo silêncio. Depois de algum tempo ele olhou nos olhos daquele homem grande e arriscou:
— Isso significa que o senhor goste de mim do meu jeito? – Ele respondeu embargado:
— Como eu poderia não amá-lo, Deco? Você é muito precioso pra mim. – E o pequenino meio sem jeito disse:
— Mas sou tão estabanado... — Ele retrucou:
— Mas também é muito divertido e espontâneo.
O panido insistiu:
— Mas eu não consigo fazer nada certo! – E com um tom de voz de quem encerra o assunto ele disse:
— Desista Deco! Você não vai conseguir me convencer a não gostar de você ou lhe colocar uma marca negativa. Você realmente é muito precioso para mim.
Então o pequenino justificou:
— Mas ninguém nunca me amou.
Nesse momento o Sr Panoa já estava bastante emocionado pensando em quanto aquele panido passou sem saber do seu amor:
— Eu sempre lhe amei e se tivesse vindo há mais tempo já saberia o quanto lhe amo e o quanto que você é importante para mim. – e abraço forte o corpinho de Deco – Você é importante para mim.
Depois disso, quando Deco já estava de saída voltou-se e olhou pra o Sr Panoa e perguntou de novo:
— O senhor me ama de verdade? – E o Sr Panoa sorriu divertido:
— Sim pequenino, eu o amo de verdade.
E Deco eufórico começou a gritar:
— Os apelidos estão soltando! Eles estão soltando!
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