Os Outros
3 Primavera da Vida
Notas iniciais
Acordei com meu pai gritando do andar de baixo. Levantei logo e peguei meus óculos. Desci correndo as escadas e encontrei meu pai no chão coberto de farinha eu sorri e o ajudei a se levantar.
– Me desculpe querida, querida fazer uma surpresa para você, mas acabei me atrapalhando um pouco. Não sou tão bom na cozinha como você. — Ele riu.
Fiz vários sinais com minhas mãos. "O que estamos comemorando?" Perguntei.
– Ah! Sua vai vir nos visitar ela também trouxe seu irmão.
"Que irmão?" Fiz outros sinais.
– Esqueci de te avisar, ela teve um filho. O nome dele é Jorge não que seja muito importante...
"Vou me trocar". Voltei para o meu quarto.
Coloquei uma saia branca comprida que ia até o joelho com várias notas musicais na estampa, uma blusa social branca estilizada, um salto alto preto e peguei minha bolsa branca favorita. Não queria dar uma impressão ruim sobre mim para meu novo irmão, por isso arrumei meu cabelo com hairspray e o prendi com uma fita branca. Me encarei no espelho, sou baixa, mas sempre uso salto para disfarçar, tenho a pele levemente morena, mas como nunca saio de casa estou pálida "Preciso passar um tempo na praia, o inverno não fez bem para mim..." tenho cabelo castanho claro e olhos mel. Sou muda desde que nasci, mas ainda posso apreciar a música, não escuto músicas com voz, pois me faz me sentir ruim, por isso escuto muito música celta e instrumental. Ouço um carro chegando e olho pela janela do meu quarto. Um carro branco chega e um homem pelo menos dois anos mais novo que meu pai desce, ele abre a porta do passageiro e minha mãe desce. Ela tem cabelo curto e loiro, é alta e tem olhos azuis. Ela vai para o banco de trás e o abre, uma garotinha de quatro anos pula para fora do carro, Júlia é minha irmã, mas minha mãe ficou com a guarda dela. O homem vai para a outra porta e pega o pequeno bebê do carro. Quando eles finalmente vão para a porta da frente, saio da janela.
Desço as escadas e encontro a nova família de minha mãe. O homem olha para mim e sorri. Sinto algo de ruim em meu estômago e tenho vontade de vomitar, mas me seguro. Percebo que Júlia fica ligeiramente longe do homem, eu imagino o por quê. Minha mãe vai até mim e me abraça.
– Lilly! Que saudade! Eu queria ter te visitado, mas não consegui! Mas você sabe que eu te amo, não é?
"Claro que sei mãe...". Respondo. Ela olha para mim sem entender e depois sorri.
– Que legal! — Ela não entendeu o que eu disse, nunca se importou em entender. Ela largou meu pai após descobrir que eu era muda!
– Então essa é a famosa Lilly? — O homem se aproxima de mim e me cumprimenta, mas aperta meu ombro de um jeito estranho eu logo me afasto.
"Olá" Digo.
– Ela é muda mesmo! — Ele parece fascinado. Ridículo. — Não acreditei na sua mãe quando me contou. Tenho pena de você.
"Não precisa eu gosto de ser muda". Ele olha para mim espantado. Então meu pai aparece atrás de mim.
– Ela disse que gosta de ser muda.
– Este é o meu ex-marido, John, pai da Lilly. John este é Michael, meu novo marido.
– Prazer em conhecê-lo. — Eles se cumprimentaram. — Onde vamos hoje?
– Oh desculpe John, só reservamos lugar para quatro pessoas e Jorge é claro.
– É claro. — Ele suspirou. — Tudo bem, fiquem de olho na Lilly, por mim.
– Mas é claro! Não a perderemos de vista.
Logo estamos em uma balsa. Estou agora usando um biquíni branco e um kimono branco e transparente por cima. A balsa está praticamente vazia. Não falo com ninguém, quer dizer, não tem como se tivesse um jeito de eu fazer isso. Estou deitada no sol lendo uma revista quando minha mãe se deita ao meu lado.
– Lilly. — Ela se vira para mim, assim como eu me viro para ela. — Eu e o Michael estávamos pensando... Se você não gostaria de vir morar conosco?
"O quê?".
– Eu sei. Não vai ser fácil se adaptar, mas deixar seu pai vai ser muito fácil, acredite em mim, eu já fiz isso antes.
Eu faço não com a cabeça e nego com as mãos.
– Acalme-se criança, não vai ser hoje, pode ficar uma última semana com ele. Aquele bêbado do John... Ridículo ele ter ficado com a sua guarda... Tenho certeza que ele maltratou muito você. Já lhe faltou comida na mesa?
Ela continuou falando meu do meu pai. Fiquei com raiva, peguei minha águas e joguei nela.
– LILLY! O que você está fazendo?
Dou de ombros e saio andando. Quando vou descer as escadas me encontro com Michael ele olha para mim e para nos meus peitos. O empurro para o lado e continuo andando, ele corre até minha mãe. Alguns minutos depois, estou saindo do banheiro quando o encontro de novo. Ele me empurra para trás, entro no banheiro novamente e ele entra atrás de mim, trancando a porta.
– Sabe garota, desde que sua mãe me disse que tinha uma filha muda de 17 anos, logo senti uma vontade de te conhecer...
Ele me empurra contra a parede do banheiro e beija meu pescoço. Sinto todo o meu corpo tremer de medo. "O que ele está fazendo?".
– Você deixou minha mulher muito nervosa e a molhou inteira. — Ele sussurrava no meu ouvido. — Você merece ser punida.
Ele passa a mão pela minha cintura, mas cravo minhas unhas em seu pulso.
– Ah. Ah. O que pensa que está fazendo? — Ele prende meus pulsos na parede. — Logo você vai estar sob as minhas ordens, nós já pedimos a sua guarda, é só uma questão de tempo.
Ele aproxima o rosto do meu e me beija. Viro minha cara para o lado. Ele ri e prende meus pulsos com apenas uma mão e começa a inspecionar meu corpo com a outra, tento me soltar, mas ele é muito forte. Ele ri.
– Tenho anos de experiência, criança. Nem tente.
Respiro fundo e chuto suas partes baixas com o máximo de força que tenho. O impacto faz ele afrouxar meus pulsos, eu me liberto e dou um soco em seu nariz, que começa a sangrar. Alcanço a maçaneta do banheiro e saio correndo, deixando Michael sentado no chão com o nariz sangrando.
Enquanto corro me encontro com minha mãe. Ela vê as marcas no meu pulso e fica surpresa.
– O que aconteceu?
Ouço os passos de Michael e puxo-a para minha mochila, pego um bloco de notas e escrevo o que aconteceu. Quando minha mãe termina de lê, se levanta furiosa.
– Onde está aquele filho da puta!? — Ela sai andando pela balsa. Suspiro e guardo o bloco de notas em minha mochila, se Michael a encontrar, ele pode destruir essa única prova que tenho. Saio andando pela balsa, preciso encontrar um segurança para prendê-lo.
No meio de minha caminhada, passo por um corredor vazio que sei que leva ao bar. Continuo andando até que sinto uma mão no meu ombro, me viro e encontro Michael, seu nariz ainda sujo de sangue. Ele me segura pelos ombros e me empurra para a grade da balsa. Olho para trás e vejo a água do rio, posso ver várias pedras no fundo. Michael me empurra mais contra a grade, ele coloca o braço em minha garganta e fico sem ar. Começo a engasgar até que minha mãe finalmente chega com dois guardas. Michael me empurra contra a grade e se joga no rio, me puxando junto. Minha mãe consegue me segurar, mas acaba sendo puxada junto. A água nos envolve e ao contrário do que imaginava, ela não está gelada, e sim quente... Abro os olhos e percebo que a água quente na verdade é sangue. Michael está a poucos metros de mim, com uma pedra enfiada em seu abdômen, olho para o outro lado e encontro minha mãe, com uma pedra enfiada em seu peito, um pouco a baixo do coração, ela olha em volta, em desespero. Nado até ela. Ela olha para mim como se pedisse desculpas. Fecho os olhos e a abraço. Ela toca minha testa e sinto um pouco de dor.
Logo fico sem ar, mas não tenho forças para nadar e acabo desmaiando. Tudo fica escuro, não consigo ver nada... Até que ouço vozes ao meu redor, várias vozes. Abro os olhos e percebo que estou na praia. Me levanto e cuspo um pouco de água do rio. Olho em volta. Vejo várias família com crianças brincando na areia, mas elas não parecem me ver. Uma velhinha aparece usando roupas simples. Ela me ajuda a levantar e me entrega uma capa azul escura com uma gota d'água nas costas. Eu a visto por cima de meu biquíni e a velhinha a prende com um pingente em "L" com uma gota d'água. Eu a encaro.
– Pode perguntar minha filha.
"O que aconteceu?" Pergunto.
– Você foi escolhida para se tornar uma Outra.
"O que é uma Outra?".
– Ora, quantas perguntas! Venha, vou lhe contar tudo, mas primeiro vamos arranjar uma roupa para você. — Ela me guia até um carro prata. Uma garota alta, de olhos azuis e cabelo ruivo usando uma capa vermelha está encostada no carro casualmente com um olhar entediado.
– Como você demora! — Ela desencostou do carro e o destrancou.
– A magia leva tempo para fazer efeito.
– Sei, sei. Eu vou buscar a pessoa da próxima vez.
– Nada disso! Eu tenho que fazer isso, você não conhece o ritual.
– Acorde a pessoa, lhe entregue a capa e o pingente, leve-a até o esconderijo. É eu acho que conheço muito bem o "ritual". — Ela fez aspas no ar e olhou para mim.
"Olá, sou Lilly". Ela me encara por um tempo.
– Oi. Eu sou Lucy. Agora entra no carro, está muito trânsito.
UM MÊS DEPOIS
Parei na frente da minha casa. Usava a capa, calça preta, bota de caminhada e uma camiseta branca. Coloquei meu capuz e toquei a campainha. Me escondi atrás de um arbusto e observei. Meu pai saiu da casa com Jorge em seus braços, olhou em volta.
– Lilly? — Ele perguntou. Senti vontade de ir até ele e lhe dar um abraço, mas não o fiz. — John seu idiota, ela não está mais aqui.
Ele volta para dentro de casa e respiro fundo. "Não era para ele se lembrar... Por que ele ainda se lembra?". Observo as atividades dele pelo resto do dia. Agora ele cuida de Júlia e Jorge, e as vezes sussurra o meu nome para o vazio.
Era tarde da noite, quase meia noite. Entrei no quarto dele pela janela e o observei dormir. Cheguei perto dele e beijei levemente sua bochecha. "Adeus, papai". Tirei meu anel favorito, um presente de aniversário de 15 anos dele, e o deixei em cima de seu criado mudo. Senti lágrimas escorrerem pelo meu rosto. Meu pai acordou eu pulei a janela. Ele se levantou com um pulo e olhou pela janela.
– Lilly? Você está aí? Lilly? Por Favor, volte para mim... Por favor...
Ele voltou para dentro do quarto. Observei ele olhar para o criado mudo e pegar meu anel. Algo brilhou em seus olhos, ele olhou em volta e saiu correndo para fora do quarto. Senti uma mão em meu ombro e me virei. Lucy me encarava com uma lanterna na mão. Eu a abracei.
– Eu sei. Não precisa ficar assim... — Comecei a chorar. — Pode chorar, faz bem chorar sabia? Colocar tudo para fora...
"Cala boca". Fiz alguns sinais.
Ela riu e voltou a me abraçar.
– Vamos, vamos para casa.
Ela me guiou pela floresta que cercava a minha casa.
– Sabe você vai adorar ser uma Outra. Eu me acostumei bem rápido.
Dei um soco de leve em seu braço, o que fez ela rir.
– Uma Outra muda, quem diria...
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