Os Outros 52: Ignição!

1 O surgimento de Ignição!


Notas iniciais
"— Sim... — Um sorriso se espalhou em seus lábios, e a palavra brotou dentre eles. — Ignição."

— Pare, antes que se arrependa! — gritou um rapaz de moletom vermelho para os três homens que rodeavam a mulher ajoelhada e praticamente despida. Estavam em um beco sujo e fedorento, em plena luz do dia. "Bandidos não temem mais o sol", seu pai dissera algum tempo atrás. Latas de lixo se erguiam por todos os lados, mas os detritos nunca estavam dentro delas, e isso o irritava profundamente.

O mais alto dos três indivíduos trocou olhares com os outros dois e abriu um sorriso sarcástico. Uma cicatriz cortava a testa até o canto de sua bochecha esquerda, passando pelo olho do mesmo lado, mas este não parecia ter sido afetado pelo corte. Levou a mão até a parte de trás da cintura e arrancou uma pequena e reluzente faca do cinto.

— E quem é você para nos ameaçar, guri? — o sotaque arrastado e rouco era claramente russo. — Saia daqui, e nunca mais interrompa o nosso pessoal. Não gostamos de gastar o tempo com crianças, entendeu? — os outros dois riram e a mulher olhou fixamente nos olhos do garoto, as orbes arregaladas e o rosto expressando o mais puro terror. Em seus lábios, as palavras saíram, sem som: "por favor!".

O garoto saltou de um pé para o outro e apontou para o grandalhão à sua frente com o indicador. O homem franziu o cenho e apertou os dedos ao redor da faca, em uma tentativa falha de intimidá-lo.

— É o seguinte, cara! — Levou o indicador de volta para perto dos outros dedos, cerrando o punho. — Eu também não curto bater em caras mais velhos, é meio vergonhoso para eles, mas vocês não me deixam escolha. Entre idiotas e mulheres bonitinhas em perigo, eu prefiro as mulheres, obviamente. — Piscou para a moça em perigo e colocou ambas as mãos na cintura. Fechou os olhos por um momento e suspirou. — Vocês tem seis segundos.

Os três marginais caíram na gargalhada, e o rapaz revirou os olhos. O maior e mais próximo deles avançou com a faca em mãos, e para defender-se, levou a mão até o bolso e puxou um isqueiro de lá. O homem lançou o braço em sua direção, em uma estocada lenta e desajeitada e o garoto sequer precisou esforçar-se para escapar do golpe. Fez pressão sobre a roda acionadora com o polegar e ela girou, emitindo as primeiras e escassas faíscas que produziram uma chama fraca e constante.

O homem lançou-se outra vez para cima do garoto, que agarrou a chama do isqueiro com a mão e ela se alastrou por todo o seu braço. Assustado, o brutamontes deu um passo atrás, mas já era tarde para ele. O rapaz avançou rapidamente em sua direção e como se estivesse empalando uma gelatina, atravessou o braço flamejante no peito do russo. O fogo se espalhou pelo seu corpo como se estivesse untado em gasolina e a reação foi praticamente inexistente. Caiu, primeiro de joelhos, mas em poucos segundos já estava com o rosto fixo no chão.

— E depois ainda dizem que heróis não são piedosos... — entrelaçou os dedos e as chamas em seu braço se dividiram igualmente entre as duas mãos, como luvas de boxe, embora sem o mesmo formato e obviamente a mesma consistência. — Mas eu dei a vocês seis segundos, e vocês insistiram em ficar. Não aprendem nada com jornais? Meta-humanos por toda a parte, dã! Você não pode mais chegar em um moleque de dezesseis anos e dizer o que ele deve ou não fazer, porque em uma dessas, BOOM! Ele te queima até virar uma pilha de cinzas.

Os dois bandidos começaram a recuar na direção do fim do beco, que por sinal, era sem saída. Só perceberam quando suas costas tocaram a sólida parede de tijolos atrás de si, e com um olhar de desespero mútuo trocado, eles sacaram suas armas. Um possuía uma faca-borboleta, e fez uma dezena de manobras com ela em suas mãos antes de apontá-la para o garoto, que apenas arqueou uma sobrancelha e olhou para o outro, esperando para ver o que ele iria fazer.

— Sabe, houve um tempo em que os caras maus dessa cidade não tinham toda essa audácia. Fala sério, eu acabei de torrar o maior de vocês e não estão nem um pouquinho tentados a sair correndo? O fogo não dura pra sempre, idiotas! Vamos logo com isso, antes que eu tenha que fazer mais uma sessão-churrasco nesse beco!

O outro parecia estar realmente desarmado, e era o que obviamente estava mais assustado além da mulher no chão, que se arrastava sorrateiramente para perto do rapaz com as luvas flamejantes. Ele caminhou na direção deles e bateu os punhos, ficando em posição de combate. O que portava a faca avançou primeiro e foi recebido com uma sequência de uma dúzia de socos praticamente invisíveis antes que pudesse erguer a lâmina. As chamas dançaram por sua jaqueta de couro e um cheiro desagradável tomou o ar.

O outro passou correndo por ele antes que pudesse impedí-lo. Abriu os dedos e as chamas das duas mãos se canalizaram apenas na esquerda, espiralando em uma velocidade absurda e formando uma pequena esfera. Fez a pose de um arremessador de baseball e lançou-a, mas a pequenina bola de fogo se extinguiu antes que alcançasse dois metros no ar.

— Droga! Eu nunca consigo fazer isso... — abanou o braço e o que restava do fogo desapareceu. Ele sorriu e deu a mão para a mulher no chão, ajudando-a a levantar. O capuz escondia suas feições, mas os lábios finos e sorridentes eram perfeitamente visíveis. — Desculpe-me por não ter me apresentado, moça, mas sabe como são essas coisas, identidades secretas e tudo mais.

Ela apenas acenou com a cabeça, ainda um pouco temerosa, e finalmente falou, desde que ele havia chegado ali para salvá-la.

— O-Obrigada, eu acho... — olhou ao seu redor e viu os dois bandidos caídos, um completamente incinerado e o outro desacordado com queimaduras de segundo a terceiro grau. — O que vai fazer com eles? — Seu rosto era dócil, e até mesmo inocente, o que talvez tivesse sido o principal artifício a chamar a atenção dos três marginais. — Digo... Não pode deixar eles aqui, pode?

— Hã... eu nunca tinha pensado nisso. Por que não? São só uns idiotas. E outra, os cães precisam comer, e nada melhor do que um churrascão de sexta-feira. — A ironia em sua voz era explícita e desmedida. — Brincadeirinha, mas eu realmente pretendo deixá-los à própria sorte. E precisamos tratar de outra coisinha, entre nós dois.

A mulher deu um passo atrás, com a mão cobrindo a boca. Seus cabelos castanhos balançaram bruscamente com o movimento, e seus olhos que antes expressavam serenidade, deram lugar novamente ao medo.

— Bem, eu não quis dizer exatamente isso. Não vou fazer nada com você, só quero pedir um favor. — Ele ergueu as mãos, em um sinal de desculpas.

— O que quer, então? — ela o encarou desconfiada, cruzando os braços. — Vocês homens não me parecem mais tão inocentes, então eu realmente prefiro não acreditar em qualquer um e saiba que também não farei qualquer coisa!

— Quero que diga para os policiais quem te salvou. Você não sabe meu nome, mas eu confio na sua criatividade. Se eu aparecer nos jornais com algum nome legal, eu deixo que ele fique, caso contrário, eu arranjo outra vítima indefesa para criar um. Fechado? Fechado. Tenho que ir, te vejo nos noticiários e cuidado com os russos! Não são boa coisa, geralmente!

O rapaz virou as costas e saiu correndo, deixando uma mulher perplexa e desconcertada para trás observando suas pegadas esfumaçadas desaparecerem.

— Mas que diabos está acontecendo com esse lugar...? — olhou ao redor, procurando sua bolsa, e quando finalmente a achou, engatinhou rapidamente até lá. Vasculhou-a com a mão e retirou seu telefone móvel, discando o número da polícia. Após chamar algumas vezes, a voz da secretária soou do outro lado.

— Polícia de Central City, em que podemos ajudar? — um chiado mínimo soava junto com sua voz.

— Eu sofri uma tentativa de assalto... fui salva por um garoto meta-humano e...

— Ele lhe disse seu nome, senhora?

— Sim... — Um sorriso se espalhou em seus lábios, e a palavra brotou dentre eles. — Ignição.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.