Os Olhos Dela

1 Os Olhos Dela


“Fora da cama depois do toque de recolher! Ah, tinha que ser o Potter...”

Albus queria honestamente socar o zelador.

Desde aproximadamente sempre, Albus Severus Potter fora comparado ao pai. Tão semelhante a Harry quanto Harry a James, segundo falavam, a primeira frase que ouvia quando apresentado a alguém era “ora, mas ele realmente é igual a Harry!”.

Com o passar do tempo, o garoto aprendera a odiar essa frase.

Felizmente, é claro, algumas coisas o salvavam da comparação total. O fato de que era terrível em Quadribol, por exemplo, ou de ser da Sonserina. E bom em poções. Pequenos fatos como esse o impediam de ser exatamente a imagem do pai. É claro que a comparação sempre acontecia, mas era bom quando ocorria em oposição, ao invés de igualdade.

Naquela noite, mais do que nunca, a última coisa de que o garoto precisava era mais uma comparação idiota. Sua cabeça já rodava o suficiente tentando processar o fato de que Lorcan Scamander realmente o beijara, ao ponto de que ele não conseguia nem dormir. Então, Potter se levantara, apanhara a varinha apenas por prevenção (a Capa da Invisibilidade estava com Lily naquela semana) e saíra para perambular pelos corredores sem rumo e sem compromisso.

Até que Filch o apanhara e o guiara para o gabinete da diretora à base de resmungos sobre como seu pai lhe dava o mesmo trabalho e como aquilo era ridículo, como ele odiava os Potter e daí para baixo.

O garoto jurou a si mesmo que se o ouvisse dizer mais uma vez “vocês Potter são todos iguais em tudo”, ele daria um jeito de jogá-lo pela janela. Só pelo susto.

Argus parou diante da gárgula e disse a senha, que o garoto não ouviu por estar ocupado demais pensando no que Lorcan diria daquela situação, então praticamente o empurrou escada acima e gabinete adentro.

— Boa noite, professora McGonagall. – o zelador resmungou – Peguei o Potter perambulando pelos corredores.

“Você tem que tomar mais cuidado, A.S.”, o loiro provavelmente diria, talvez rindo “Quer dizer, se você pegar muitas detenções esse ano, nem fodendo que seus pais vão te deixar ir lá para casa.”

Por que ele não conseguia parar de pensar em Lorcan, mesmo bravo como estava, era um mistério.

— Ah, Albus. – a diretora largou a pena e ergueu a cabeça, os olhos azuis brilhando com um quê de cansaço em meio à severidade – Pode ir, Filch. Eu cuidarei disso.

Pronto. Detenção. E depois, de volta para cama. Se ela despedira Filch, não o faria acompanhar o garoto até o Salão Comunal, o que queria dizer que ele poderia perambular um pouco mais, pegando o caminho mais longo. E tudo estaria acabado em no máximo dez minutos.

Mas é claro que não.

— Sente-se, Albus.

Ele reprimiu um gemido ao se acomodar na cadeira forrada de veludo roxo. Sermão. Tudo o que ele precisava.

— Você tem perambulado bastante à noite nesses últimos tempos. Está tudo bem?

O sonserino assentiu. Quanto menos falasse, mais rápido aquilo seria. Ela ergueu uma sobrancelha, e ele soube que teria de falar.

— Eu só... Eu tenho tido muito na minha cabeça ultimamente. Tenho que andar para relaxar um pouco. Só isso.

A diretora o examinou por um momento. Então, suspirou e deixou os óculos sobre o pergaminho que antes examinava.

— Ah, sim. Harry também sempre precisou andar quando estava com a cabeça cheia...

Ela continuou a dizer alguma coisa, talvez se perdendo em alguma memória saudosa dos tempos de ouro d’O-Menino-Que-Sobreviveu. Albus abaixou a cabeça e começou a brincar com a varinha entre os dedos, tentando não parecer irritado.

Estava cansado de ser comparado a Harry em tudo. Seria um pouco demais pedir não ser comparado a ele? Nem que fosse para ser comparado com Ginny, ou mesmo James. Mas não. Harry. Era sempre a Harry que eles o comparavam, ele era apenas igual a Harry.

— Professora McGonagall, desculpe o incômodo... Mas temos um problema na Ala Hospitalar.

— Já vou, professor Longbottom. – a animaga olhou para Albus mais uma vez, e o garoto se sentiu obrigado a erguer o olhar – Dessa vez, deixarei passar, Albus, mas da próxima vou ter que lhe dar uma detenção. Por favor, coloque seus sapatos e volte à sua cama.

Ela se levantou e saiu com passos rápidos. Ao ouvi-la fechar a porta, o sonserino começou a calçar os sapatos que tinha tirado, aos resmungos; exceto por eles, a sala mergulhou no silêncio. Todos os quadros dos antigos diretores dormiam.

— Você é arrogante, Potter. – a voz severa o sobressaltou – Como seu pai.

Ele se ergueu de um pulo, definitivamente irritado. Quem falara fora o último diretor, com os cabelos oleosos, os olhos escuros e o nariz de gancho. Ele se recostava a uma mesa e poções e examinava o lugar com um quê de arrogância. Seu olhar grave estudava seu rosto como se listasse todas as semelhanças com seu pai. Mentalmente, Albus listava-as ele mesmo:

Os óculos fundo de garrafa. O cabelo preto despenteado. O modo como comprimiam a boca quando irritados. E, claro...

— Os olhos dela. – ele disse, com um misto de desagrado e surpresa. Albus ergueu uma sobrancelha, confuso. – Você tem os olhos dela.

Notas finais
Sinta-se livre para elogiar/xingar/criticar por comentários.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!