Avalon, 924 D.C

As portas do grande salão sagrado se abriram com imensa violência e Morrighan que estava em prece rapidamente se armou em posição de batalha sacando seus dois machados. Um imenso caixão de pedras vinha sendo levitado por Arian – ela carregava uma expressão dura no rosto de traços finos, os cabelos vermelhos vivos estavam sempre soltos ao vento, ela era pálida como mármore e tão fria quanto – enquanto Morrighan a olhava curiosa. Arian com um simples gesto posicionou o caixão no centro da sala. Morrighan pareceu curiosa.

– O que traz dentro desse caixão? Se for os restos de Dana ou Rhiannon eu agradeceria! – Morrighan deu um sorriso amarelo e olhou para Arian que parecia estar furiosa e apenas fez um aceno com a cabeça.

—É meu filho, meu único filho... – Morrighan observou o caixão em diferentes ângulos.

– Ele está morto? O que aconteceu? Quem o matou?

Arian com todo o cuidado começou a remover as pedras, uma por uma, apenas com a força da mente. Fez o corpo de seu filho levitar. Ela respondeu sem animo.

– Ele não está morto, apenas desacordado, não quero um filho que traga mais desgraça para essa família!

Morrighan olhou o corpo do jovem – que era parecido com a mãe em quase tudo, mas tinha um corpo mais forte e robusto – e sorriu deixando uma única lágrima escapar.

– E o que pretende fazer com ele?

Arian não respondeu, apenas deixou o corpo do filho cair contra o frio chão do salão, o que fez com que o jovem acordasse. Ele olhou para a mãe um tanto assustado.

– Monstro! A senhora é um monstro! – Morrighan olhou um tanto confusa para Arian, que se moveu em direção ao filho.

– Eu não permitirei isso! É inaceitável! Não deixarei que meu filho, sangue do meu sangue, se relacione com um dos nossos. O mesmo sangue que corre nas suas veias, corre nas veias dela. – Ela estava furiosa, andou em direção ao filho e ele tentava se distanciar dela.

– Mas eu a amo! E nada nos impedirá de ficarmos juntos! Nem você mãe, você não tem o direito. A Rainha, minha tia, aprovou nosso romance, ela é a minha Gwir Cariad¹!

Assim que ele terminou de falar, um breu caiu sobre o salão. Arian começou a levitar, todo o local começou a tremer, a luz principal irradiava dela. Seus cabelos outrora ruivos, agora assumiam um prateado vivo. Luzes menores rodeavam lentamente a sala em sincronia. Morrighan deu um passo para trás e se manteve imóvel, o jovem cambaleou para trás e caiu sentado, assustado.

– Dana não deve se meter em meus deveres com meus filhos! Ela pode ser a rainha, mas, eu sou sua mãe! O que você fez é uma injuria para comigo! E já que você se mostra tão relutante de suas decisões, você deve sofrer as consequências de seus atos! – A voz de Arian parecia sair de todos os cantos do grande salão como se estivesse sendo amplificada.

– Você não vai arruinar minha vida como fez com o Dylan! – Ele se levantou e andou em direção as portas do grande salão. Arian as fechou. Ele forçou a porta. Ela fez com que ele levitasse e o jogou contra uma das paredes deixando-o cair no chão.

– Minha mãe, não me obrigue. Por favor! – Ele suplicou.

Ela desceu ao nível do chão, empunhou seu cajado de prata, ficou em posição de ataque e sibilou.

– Dod i mi²!

Phwerseren olhou no fundo dos olhos da mãe e largou sua espada.

– Por favor! – Ele novamente suplicou.

– Não me dê esse último desgosto, mostre que eu te ensinei algo, lute! – Ele levantou os braços em sinal de rendimento. Ela endireitou o corpo e ficou ereta.

– Fraco! – Phwerseren sabia o que estava por vim, ele falou quase inaudivelmente.

– Fiat voluntas tua³! – Arian segurou o cajado em uma mão, colocou a outra diante da boca e assoprou em direção a ele. Uma leve brisa percorreu todo o caminho entra ela e seu filho. A brisa tocou o rosto de Phwerseren e, ele começou a se desintegrar em feixes de luz.

Morrighan tentou correr em auxilio do jovem, mas Arian a impediu fazendo ela continuar imóvel. Uma lágrima escorreu do rosto do jovem e ele sibilou.

– Blode! – Seu corpo desapareceu, fragmentos de poeira prateados ficaram pairando sob o local. Uma lágrima vermelha fez todo o percurso pelo rosto de Arian. Do olho, até a ponta do queixo. A lágrima caiu lentamente e quando ela tocou no chão, em seu lugar nasceu um girassol.

– Era meu último filho... – Arian lamentou com uma voz pesada. – Mas a ordem das coisas precisa ser restaurada. – Morrighan se limitou a olhá-la nos olhos.

– As vezes temos que abrir mão de algumas coisas em troca de outras. – Morrighan assumiu um tom sábio e conselheiro. – Dana e Blode arruinaram sua família e eu sei o que a fará se sentir melhor! – Morrighan tinha um olhar malicioso enquanto falava. Arian levantou-se.

– Não existe outra culpada pela morte do meu filho, se não a Blode. Ela pagará por essa injúria. Ela ficará marcada por toda a eternidade, quero que ela carregue consigo um fardo por toda sua imortalidade. Até que ela não seja nada além de cinzas! – Morrighan abriu um largo sorriso de satisfação mostrando todos os seus dentes brancos e afiados.

– E quanto a Dana? Ela não tinha o direito! – Ela falava em completo tom de manipulação.

– Enquanto ela for a rainha, nada podemos fazer. Mas ela terá seu fim em breve. No momento preciso apenas me concentrar em acabar com Blode. Mas tem que ser de uma forma limpa e silenciosa, não podemos atrair o ódio das outras e começar uma batalha que, no momento, não podemos vencer.

Morrighan olhou por entre as portas do salão.

– Nossa reino é o lar de magias que deixariam até mesmo a velha Cerridwen amedrontada, você só precisa seguir o caminho certo com a pessoa certa. E se você realmente quer isso, eu sou a pessoa a quem você deve seguir!

Elas se entreolharam e deram as mãos.

Notas finais
Nota: Nós decidimos colocar algumas palavras em outras línguas para um melhor desenvolvimento da história. Sempre que houver alguma palavra, que não seja nome próprio, em uma língua diferente, nós colocaremos o significado dela no final. ¹ 'Gwir Gariad' significa: 'Amor verdadeiro' em Galês. ² 'Dod i mi' Significa: 'Venha até mim' em Galês. ³ 'Fiat voluntas tua' significa: 'Seja feita tua vontade' em Latim.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.