Os Mortos também Sabem Brincar.
1 Capítulo 1
Notas iniciais
O garoto observava cautelosamente a figura feminina sentada em sua frente. Os longos cabelos castanho-dourados da menina pareciam reluzir com apenas um risco de luz solar, que dificilmente penetrara pela janela, desviando da grossa cortina escura. Sua pele branquinha e rosada parecia atrair o toque masculino daquele que observava. O garoto imaginava aqueles olhos inocentes, embora estivesse mantendo apenas uma visão de trás, ele conseguira memorizar os orbes azuis penetrantes da menina, desde a chegada dela na sala até o momento em que sentou-se na carteira, deixando que o garoto usufruísse apenas parte da sua beleza.
Atento aos mais simples movimentos da garota, ele podia sentir sua respiração descompassada. O jovem estava estático com tanta beleza. Sua absurda atenção não demorara a ser notada pela possuidora de tais elogios. Relutante, ela olhou de soslaio para a figura sentada atrás. O garoto, percebendo que sua presença fora notada, voltou o olhar para o lado, onde deparou-se com a paisagem que formava-se além das janelas da sala de aula. O tempo fechou-se rapidamente; nuvens negras começavam a dominar o céu, e um forte estrondo soou pelos terrenos da escola, começara, então, uma tempestade.
“Esse tempo...” – O garoto pronunciou mentalmente, enquanto focava sua atenção no clima, que acabara de se formar. Parecia estar atento a certas lembranças. Expressões perplexas começavam a tomar conta de seu rosto, e então, voltou o olhar novamente para a figura em sua frente, encarando-a, enquanto encontrava-se espantado e confuso.
O sinal tocara, despertando o garoto de seu transe. Ele sacudiu a cabeça e lançou um olhar para frente, avistando a garota ir ao longe. Ele levantou-se automaticamente, pondo-se na direção da menina. Porém, ao sair da sala, acabara em perdê-la de vista. Ofegante, começou a procurá-la em todos os cantos, desesperadamente. Ele percorria desastrado um caminho entre o amontoado de alunos, esbarrando em alguns, sem preocupar-se em se desculpar.
Acabara de entrar no corredor oeste, quando finalmente avistou a figura feminina no final do mesmo. Um gemido saiu abafado da boca do garoto, seus olhos arregalaram-se, e suas expressões eram de um terror avassalador ao ver que ao lado da menina, jazia um cadáver pendurado na parede.
O corpo sem vida, que encontrava-se com a farda da escola, parecia ter sido banhado em sangue, e era possuidor de curtos cabelos pretos e lisos, expressões femininas e pele pálida. A garota soltou uma gargalhada alta e maldosa, que propagou-se por todo o corredor, este que antes estava lotado encontrava-se agora com apenas três presenças. O garoto lançou um olhar assustado para a menina, percebendo a substituição de seus olhos inocente e azuis por orbes flamejantes e vermelhos, uma mistura de sangue e chamas.
-Vamos, Joe. – A menina pronunciou asperamente. –Venha buscar sua namoradinha. -Ela lançou um olhar enojado para o cadáver ao seu lado. – Não foi por “Isso”... – A menina levantou o braço sem vida do corpo, depois o deixando cair. – Que me deixou?
-Maureen... C-como? – O garoto gaguejou abismado, caindo de joelhos no chão.
-Lembra-te, Joe? – Ela voltou seu olhar para a aterrorizante paisagem do lado de fora. – Foi exatamente em um clima como esse que você me deixou morrer! – Ela pronunciou entre dentes, fechando os punhos. – O que foi? Nunca viu um fantasma antes? Pois é, eles existem.- Ela voltou-se para o garoto ajoelhado no chão.
-Eu n-não te matei. – Ele murmurou com dificuldade. – Foi um acidente de carro, Maureen!
-Cujo causador fora você! – Ela completou gritando alto e firme, enquanto apontava para o garoto em sua frente. Tal irritação fez com que as portas dos armários abrissem e, depois fechassem com um estrondo. – E depois da minha morte, você logo achou algo para me substituir. – Ela lançou um olhar fulminante em direção ao cadáver. – E olha! Você nem me reconheceu de primeira quando entrei naquela maldita sala! – A menina novamente gritou, fazendo com que as luzes do corredor piscassem, e depois, repentinamente, apagarem; mergulhando o corredor em uma imensa escuridão.
O garoto estremeceu-se, encolhendo-se no seu casaco. Um ruído leve e inocente começara a propagar-se pelo corredor. Parecia uma canção, cantada lentamente: “La, La, La, La.” O garoto olhava para todos os lados, forçando sua visão, mas era inútil.
Talvez estivesse temendo seu castigo, aliás, sempre temera. Na época, o jovem garoto, bobinho e inconseqüente, não media seus atos. Ele reconhecera seu erro, mas por medo continuava negar. A fúria da ex aumentava cada vez mais quando o traidor insistia em seu erro, ignorante como sempre.
Ela acreditava que ele sempre esteve jogando e brincando com ela.
-Joe? Eu te perdôo. – A voz soou doce e calma próxima ao garoto, mas este não conseguia conhecer sua origem. – Agora podemos passar a eternidade juntos! Você só precisa... Bom, morrer. – A voz finalizou grossa e assustadora, seguida de um forte estrondo, causado pela forte tempestade.
Um arrepio percorreu todo o corpo do garoto. Ele entrara em estado de choque. Enquanto olhava fixamente para frente, avistou apenas os olhos de Maureen na escuridão, que reluziam como duas tochas. Ele soltou um grito abafado, deixando-se cair para trás, arrastando-se para longe à medida que aquela doce, porém aterrorizante figura aproximava-se. Quando fora impedido de prosseguir ao esbarrar em algo.
-Oh, Joe! Eu pedi uma ajudinha de sua namorada cadáver; espero que não se importe. – A garota fantasma comentou com desdém.
O garoto sussurrou: “Jammie”, enquanto relutante olhava para cima, onde, apesar da escuridão, conseguiu ter a visão do rosto deformado e coberto de sangue da sua nem tão viva namorada.
Aquela dolorosa visão fez com que Joe recuperasse o fôlego, e começasse a gritar freneticamente. A sua até então namorada zumbi o agarrou, e os dois, junto a Maureen, começaram a afundar em um buraco negro que surgira no chão. E assim, os três mergulharam na escuridão, desaparecendo; Deixando apenas, por alguns segundos, os gritos de desespero de Joe, ecoando pelo corredor.
As luzes voltaram ao corredor, assim como os alunos. O lugar estava intacto, sem nenhum objeto quebrado, e sem nenhuma gota de sangue. Da mesma forma, inesperada e repentina, como surgiu, a tempestade cerrou.
“La, La, La, La... Não devemos brincar com os mortos, eles podem aceitar o convite e participar da brincadeira também”
Notas finais
Reviews seriam uma boa forma de saber...
Fale com o autor