Os Mistérios de Ethan Quinn
10 O Resgate
Notas iniciais
A floresta repousava, silenciosa, como se pudesse pressentir o combate que estava prestes a suceder. A escuridão da noite reinava, imponente. Quando eles chegaram a seu destino, já estavam ofegantes, a respiração acelerada. Olharam ao redor mas não encontraram nada fora do normal. A rua Bowman estava quieta e silenciosa, como tudo à sua volta. Eles se perguntaram se estariam certos em sua suposição. De repente, um grito rouco e abafado ecoou no ar. Todos correram na direção da voz. Em um caminho estreito, um pouco afastado das casas e rodeado pela mata, eles avistaram duas sombras. Quando chegaram mais perto, seus corações gelaram. Uma luta cruel e violenta estava sendo travada entre o lobo e a vítima. O garoto se defendia energeticamente, a respiração arfante. A sensação de pânico dominava o seu corpo. A fera atacava impiedosamente, revelando suas garras e presas. Seus olhos vermelhos brilhavam como nunca. O animal se lançava para cima da vítima, rugindo com toda a fúria do mundo. A camisa de Henry estava rasgada e manchada de sangue. Era possível enxergar as gotas de suor caindo de seu rosto.
De forma súbita e inesperada, o lobo negro cravou as presas no braço do garoto, que contorceu-se, gemendo de dor. Nesse mesmo instante, Ethan experimentou uma sensação indescritível. Seu sangue corria mais rápido pelas suas veias, seus olhos brilharam como fogo e suas presas eclodiram. Ele soltou um ronco pesado. Bridgit notou que havia algo de errado, assim também como Bruce. Eles o encaravam, incrédulos e perplexos. Isobel não percebeu nada, estava completamente distraída com a batalha fatal à sua frente. Subitamente, e sem poder se conter, Ethan assumiu a forma de lobo e disparou em direção à fera. Tomado pelo furor, ele deu um salto e lançou-se sobre o adversário, empurrando-o para longe da vítima. Henry caiu no chão, trêmulo e sem forças. Sobressaltadas, Isobel e Bridgit correram até ele.
"Henry! Aguenta firme tá? Eu vou chamar uma ambulância", declarou Isobel.
Ethan reuniu todas as suas forças para enfrentar o inimigo. Ele recebeu alguns pequenos arranhões, os quais ele devolvia com a mesma ferocidade. Os dois lobos rugiam alto. Ethan encarou firmemente aqueles olhos brilhantes cor de sangue, o que o fez recordar da noite em que se enfrentaram pela primeira vez, na floresta. Era como se ele tivesse sido transportado de volta àquele dia. Só que agora ele estava mais forte e muito mais astuto. Quando estava no meio da luta, tentando se defender, uma flecha passou voando diante dos seus olhos. Confuso, o jovem lobo olhou para o lado. Drake estava lá, vestido com uma roupa de couro preta. Ele carregava um arco e flecha composto profissional. A lança passou raspando pelo dorso do lobo negro, soltando faíscas e provocando um arranhão profundo. O animal soltou um grunhido de agonia, desequilibrou-se e caiu no chão. Segundos depois, ergueu-se com muito esforço e rosnou ferozmente na direção do caçador, antes de virar-se e desaparecer por entre as árvores.
Ethan observou que Drake e Bruce o encaravam com uma expressão de incredulidade. Ambos estavam completamente abismados. Agora seu segredo estava ainda mais exposto. Ele podia sentir a raiva e a decepção do caçador de lobos através do seu olhar pesado e severo. Sentindo-se repreendido e sem outra alternativa, o jovem lobo lançou um último olhar para os seus amigos e correu floresta adentro. A lua cintilava bem no alto do céu, grande e majestosa, observando tudo em silêncio.
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No dia seguinte, Ethan decidiu visitar Henry no Hospital Memorial de Fort Woods. Na noite anterior, Bridgit e Isobel haviam tentado acompanhá-lo ao quarto, mas não tiveram permissão. O jovem lobo estava satisfeito por terem conseguido salvar uma vítima. Desse jeito eles poderiam impedir outras mortes. Bastaria que ficassem atentos aos padrões. Drake havia ajudado muito com a flecha que lançara. O garoto se perguntou se conseguiria recuperar a confiança do caçador depois do que aconteceu. Precisava esclarecer tudo com ele. Lembrou-se também de Bruce. Agora que o valentão sabia do seu segredo, Ethan deveria ser bem cauteloso. Qualquer vacilo e ele contaria a verdade para a escola toda. O mais estranho da noite passada foi o fato de ele ter se transformado voluntariamente, antes da meia-noite. Aquilo nunca havia ocorrido antes. Seu corpo estava passando por mudanças que ele não conseguia explicar. E o pior de tudo era que o lobo negro havia escapado de novo. Aquela era a chance perfeita de capturá-lo. Eles teriam que ser mais espertos da próxima vez.
Suas amigas o esperavam na entrada do hospital. Quando encontraram o quarto onde Henry repousava, avistaram a mãe do garoto, parada ao lado da cama, uma expressão desconsolada no rosto. Um médico circulava pelo quarto. Ethan abriu lentamente a porta.
"Podemos entrar?", perguntou. "Somos amigos do Henry."
A mãe levantou os olhos, atentos mas contristados. Ela assentiu.
"Só dois de vocês entra", estipulou o doutor.
Os amigos se entreolharam. "Tudo bem, podem ir. Eu espero aqui fora", decidiu Isobel.
Ethan e Bridgit se aproximaram. O médico se retirou. O garoto estava acordado, mas tinha uma aparência cansada. Seu corpo estava mais branco, o rosto bem pálido. Parecia que haviam sugado todas as suas forças. Suas pálpebras estavam caídas.
"Foram vocês que estavam com o meu Henry ontem à noite, não foi?", indagou a mãe.
Os dois assentiram.
"Eu não entendo... o que foi que atacou ele?", perguntou, inquieta.
Ethan refletiu por alguns segundos. "É um pouco difícil de explicar", hesitou.
Após um ou dois minutos de silêncio, a mãe começou a falar. "Ele tem um corte no abdômen e uma marca de mordida no braço, além de alguns pequenos arranhões pelo corpo. Os médicos dizem que ele vai ficar bem, que não é nada grave, que precisa repousar... mas eu sinto que não é só isso... tem alguma coisa errada. E eu mal posso falar sobre isso sem chorar...", seus olhos lacrimejaram.
Nesse instante, dois policiais entraram no quarto. Um deles era o pai de Ethan.
"Com licença", pediu Bryan Connor.
"O que vocês dois estão fazendo aqui?", atônito, Joe Quinn encarou Ethan e sua amiga. "Preciso que saiam agora", declarou, intransigente.
"Não... prefiro que eles fiquem. Vai fazer bem ao Henry", insistiu a senhora Benson.
O policial aceitou de má vontade.
"Estamos aqui para fazer algumas perguntas ao garoto, se a senhora permitir, é claro", solicitou Bryan.
"Tudo bem, sem problemas", a mãe concordou.
"O que estava fazendo ontem à noite antes do ataque?", indagou Joseph, aproximando-se. Seu parceiro posicionou a caderneta nas mãos.
"Eu estava no treino de futebol. Quando estava voltando para casa, fui atacado", revelou o garoto, fazendo um grande esforço para falar.
"E você lembra quem te atacou?", perguntou Bryan.
"Não quem. O quê. Foi um lobo", anunciou Henry, quase sem fôlego.
Joe Quinn olhou para o filho, o olhar firme e austero. Depois se dirigiu ao paciente e perguntou, intrigado: "Você tem certeza?"
O garoto respirou com dificuldade. "É claro que eu tenho."
"E como conseguiu escapar? Lembra de alguma coisa que aconteceu durante o ataque?", disparou Joe.
Ethan ficou alarmado. E se Henry contasse tudo que presenciara ontem à noite? E se ele revelasse sobre a metamorfose, os dois lobos brigando, o caçador e a flecha?
Henry se moveu na cama. "Eu estava em pânico, e muito zonzo... não consigo me lembrar muito bem. A única coisa que lembro é de ter ouvido muitos rosnados de lobo. E de repente eu estava no chão, sangrando, sem forças... até que a ambulância chegou."
O jovem lobo suspirou de alívio.
O detetive Connor lançou um olhar para Bridgit e Ethan. "E vocês dois? Estavam com ele no local. Sabem o que aconteceu? Viram alguma coisa?", indagou.
Seus corações começaram a palpitar. "Nós... ahn... chegamos tarde. Henry já estava ferido no chão. Não vimos nada", gaguejou Ethan. Por pouco conseguiram escapar das indagações.
"Por enquanto é só", declarou Joseph. "Voltaremos a entrar em contato quando for preciso." Eles se retiraram da sala.
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Na segunda-feira de manhã, Ethan estava andando pelos corredores da escola quando esbarrou com Grayson.
"E aí Quinn?", cumprimentou Parker, um pouco agitado. "Eu soube do que aconteceu com o Henry... foi muita sorte ele ter escapado. Esses crimes estão deixando todo mundo louco", afirmou, passando a mão pelos cabelos despenteados. Ele tinha uma expressão um tanto aflita no rosto. Após uma pequena pausa ele continuou: "E como ele está?"
"Bem... os ferimentos não foram muito graves. Ele recebe alta hoje de manhã."
"Espero que ele se recupere rápido. Não queremos mais pessoas feridas na cidade."
"Obrigado por se preocupar", agradeceu Ethan, dando dois tapinhas nas costas do amigo.
Grayson se contorceu levemente.
"Você está bem?", perguntou o jovem lobo, intrigado.
"Sim... não foi nada", respondeu Parker, dando um leve sorriso.
Ethan se despediu do colega e, logo em seguida, avistou Bruce do outro lado do corredor. Ele estava tirando alguns livros do armário.
"Eu sei o que você viu naquela noite... mas não pode contar pra ninguém", disparou Quinn.
"Sério?", respondeu o valentão, sarcasticamente. Ele fechou o armário e começou a andar, quase ignorando o que o colega tinha para dizer. "Você deveria ter pensado nisso antes de esconder de mim seu pequeno segredinho. E se eu contar para a escola toda? O que você vai fazer... ahn?", indagou de modo desafiador.
"Olha só Bruce... me escuta...", eles pararam de caminhar. "Eu não queria contar nada até saber se podia confiar em você. Isso é algo muito sério e... se quer saber... eu levei algum tempo pra falar a verdade até mesmo para Isobel e Bridgit", revelou Ethan.
Bruce deu um leve suspiro e revirou os olhos, como que colocando os pensamentos em ordem. "Aquela coisa... foi ela que matou a Stacy, não foi? Eu sei que não é um lobo qualquer...", ele falou sussurrando. Depois de alguns segundos, continuou: "É igual a você, não é? Um lobo-homem, ou seja lá o que for..."
Ethan parecia desconfortável. "Não posso falar sobre isso aqui. É muito arriscado..."
O valentão soltou outro suspiro, dessa vez de impaciência. "Se você quer que eu fique calado, vai ter que confiar em mim e me contar toda a verdade", ele apertou a mandíbula.
O garoto-lobo respirou fundo. "Tá legal... eu prometo que vou te contar tudo."
A alguns passos de distância, Jeffrey escutava a conversa.
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Ali perto, em outro corredor, Bridgit e Isobel organizavam seus armários. De repente um celular começou a tocar.
"Alguém tá me ligando", falou Bridgit, tirando o telefone do bolso. Ela atendeu. "Alô... o que houve...? Tudo bem, não se preocupe, nós vamos aí hoje à tarde."
"Quem era?", perguntou sua amiga.
"A senhora Benson. O Henry recebeu alta e está em casa mas... ela disse que ele tá muito doente e que está agindo estranho. Pediu para a gente ir lá ainda hoje. Temos que avisar ao Ethan."
Isobel franziu a testa.
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Na entrada da casa de Henry, os três amigos se reuniram enquanto a senhora Benson falava.
"Eu chamei vocês aqui porque estou muito preocupada com o meu filho. Ele não é mais o mesmo", lamentou.
"O que há de errado com ele?", perguntou Ethan.
"Prefiro que vejam pessoalmente."
Eles subiram as escadas e a mãe do garoto abriu a porta do quarto. Os três se assustaram com o que viram. Henry estava tão mal que eles podiam sentir aquela dor de longe.
"Essas manchas vermelhas apareceram hoje de manhã e só têm piorado", anunciou ela, apontando para as erupções avermelhadas na pele do filho. Elas se espalhavam pelo tronco e pelos braços. Sua pele estava descascando e, em alguns pontos, havia um pus amarelo e viscoso saindo dela. O garoto estava sem camisa, com uma faixa ao redor do corte na barriga. Sua fraqueza era bem evidente. Grandes manchas pretas ocupavam a região abaixo dos seus olhos, dando-lhe uma aparência sombria. "Ele tem tido tosses muito fortes, convulsões e febre alta, sem contar que tem agido muito estranho comigo... não conversa mais... não responde quando falo... estou desesperada. Não sei mais o que fazer...", confessou, amargurada.
"A senhora já chamou algum médico?", Isobel parecia preocupada.
"Eles sempre dizem a mesma coisa... que ele está assim devido ao choque, que passou por uma experiência traumática, que está sofrendo o efeito dos medicamentos, que tudo ainda é muito recente mas que logo vai passar... Para mim, parece bem pior do que isso...", declarou, desconsolada.
Nesse instante, Henry começou a convulsionar, debatendo-se fortemente contra os lençóis e contorcendo-se na cama. Seu corpo tremia compulsivamente. Ele lançava os braços para todos os lados. De repente começou a gritar, enquanto se revirava freneticamente: "Não! Não! Por favor, não! Não faça isso! Não! Não! Nããão!" Estava tendo um ataque de pânico. O suor escorria por todo o seu corpo.
Ethan, Bridgit e Isobel ficaram alarmados. A mãe do garoto correu para perto da cama e tentou acalmá-lo. "Calma querido, fique calmo... eu estou aqui", disse, enquanto acariciava seus cabelos.
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À noite, Ethan foi ao Jack's encontrar o Drake. Quando estava perto, ele avistou o caçador saindo para jogar o lixo. O garoto correu para alcançá-lo.
"Drake, precisamos conversar."
Com um saco preto na mão, o caçador de lobos abriu a cesta de lixo. Ele fingiu não escutar. Só depois de alguns segundos ele falou: "Para quê? Pra você contar mais mentiras?", indagou, furioso.
"Eu nunca menti pra você", retorquiu o garoto-lobo. "Eu só não contei a verdade."
"Por quanto tempo você acha que conseguiria esconder isso de mim?", ele estava indignado.
"Eu não conhecia você direito. Não tinha certeza se deveria revelar algo tão grande. E o que você acha que eu pensei quando soube que você era um caçador?"
Drake respirou fundo e encarou fixamente o garoto. "Como aconteceu?", indagou, referindo-se a sua metamorfose.
"Foi em uma noite, na floresta... é uma longa história. Depois eu te conto", garantiu. "Preciso te perguntar uma coisa sobre aquela noite...", ele suspirou antes de continuar: "O que tinha na flecha? Quer dizer... o lobo negro... eu vi a pele dele pegar fogo", seus olhos estavam atentos.
Drake refletiu por um tempo antes de falar. "O equipamento que eu estava usando... é um RK 1912. Pertencia aos meus ancestrais. Eles decidiram que seria mais conveniente se fabricassem uma flecha com poder inflamador. Ela é construída à base de urtiga selvagem, que em contato com a pele do lobo, provoca graves queimaduras e vermelhidão, causando muita dor. Pode levar até dias para sarar o ferimento", explicou.
"E se ela acertar um humano?", perguntou o garoto, curioso.
"Se passar de raspão, os efeitos são menos acentuados."
Ethan se pôs pensativo e franziu a testa. "Tem mais uma coisa que eu preciso falar. O garoto que você ajudou a salvar... o Henry... ele está muito mal. Nós fomos vê-lo hoje à tarde. Tem manchas vermelhas espalhadas pelo seu corpo todo, feridas brotando de todos os lados, manchas pretas ao redor dos seus olhos... e ele teve uma convulsão, um ataque de pânico e..."
Ele foi interrompido por Drake. "Espera um pouco. Não sei se vi direito naquela noite mas... ele foi mordido, não foi?"
"Sim... ele tem uma marca enorme no braço."
"Ah não, isso é muito ruim...", afirmou, abaixando a cabeça.
Ethan estava tenso e apreensivo. "O que quer dizer?", indagou prontamente. Depois ele se deu conta do que se passava na mente do caçador. "Você acha que ele... tá se transformando?", seus olhos estavam eletrizados.
Nesse momento, Isobel e Bridgit apareceram.
"Ah, eu sabia que ia encontrar você aqui", sua melhor amiga parecia ansiosa e aflita.
"O que houve?", Ethan não conseguiu conter a inquietude.
"É o Henry", anunciou Isobel. "Ele sumiu."
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